Notas iniciais
"... enquanto existir esse um por cento de chance eu irei lutar."

Todos já estavam nos carros novamente e nos preparamos para o resto da viajem, ainda faltavam 17 horas até a casa da maga e prometemos que não teria mais paradas, apenas para encher o tanque de gasolina e comer alguma coisa. Alex e Thereza decidiram mudar de carro para ficar conversando com os outros garotos e Sehun foi com eles, então em meu carro ficaram Kai, Chanyeol, Xiumin, Lay e eu.

Na continuação do trajeto eu e Kai continuamos na parte da frente do carro e os outros meninos na parte de trás, isso deixava possível às vezes eu e ele trocar olhares discretos seguido de pequenos sorrisos disfarçados. Eu tentava pensar em quanto dirigia, mas a musica do rádio estava alta, porém não tão alta quanto a voz dos meninos cantando a letra, e eles realmente cantavam muito bem. Estava tocando uma musica em outra língua que eu não conhecia, porém parecia que todos naquele carro, menos eu, dominavam aquela língua, pois a pronunciavam tão perfeitamente sem erros ou gaguejos, era simplesmente incrível.

Durante todo o caminho eu me pegava olhando ou pensando no Kai várias vezes, tentava não reagir aos seus olhares e toques discretos em minha mão quando trocava de marcha. Os meninos lá atrás já estavam percebendo o clima estranho entre nós dois então começaram a fazer palhaçada para distrair todo mundo.

– Jess... – chamou Chanyeol que estava sentado bem atrás de mim, ele segurou meus ombros.

– Fala Chany – assim que nos conhecemos ele me disse para chamá-lo de Chany, mas essa foi a primeira vez que o chamei daquela maneira.

– Espero que não tenha problema conosco, mas se tiver... Para lidar com os lobos é só jogar uma bolinha pra eles irem buscar – disse Chany rindo e eu tive que rir também, o único que não riu foi Lay que era um lobo.

– E pra lidar com o marcado sabichão ali é só jogar água nele que ele logo apaga – disse Lay que estava sentado atrás do Kai, rimos de sua comparação de apagar Chany já que ele tinha o poder de fogo.

– Os vampiros é o mais fácil, um pingo de sangue e eles já ficam hipnotizados – disse Kai se virando para trás e olhando para o único vampiro espremido entre os outros dois rapazes, Xiumin que ficou sério desta vez, mas não deixou barato.

– Magos não ficam para trás, o ponto fraco é à distância, se estiver a mais de 5 metros deles a magia não faz nem cócegas... Bom... Pelo menos nossos magos fracotes são assim – respondeu Xiumin e todos riram, nem mesmo Kai deixou de esboçar um sorriso.

– Isso é porque não praticam regularmente o uso de suas habilidades, Chany só precisa mostrar que não é a bruxa má do oeste — disse sem tirar os olhos nenhum minuto da estrada.

– Vou mostrar pra eles que sou o melhor – Chany disse num tom confiante e apertando meus ombros e logo os soltando.

– Os lobos só precisam controlar a transformação a misturando com a humanidade e isso sem contar que tem que parar de caçar esquilos – ri e ouvi um riso abafado de Lay.

– Vou treinar isso, mas a parte dos esquilos você tem que concordar... Eles são irritantes – respondeu o lobinho lá atrás e isso fez todos rirem mais uma vez.

– Quanto aos vampiros, tudo é questão de autocontrole, talvez Thereza possa ajudá-los quanto a isso – disse.

– Se essa sede eterna sumir, tudo vai ser tão mais fácil... – disse Xiumin enfiando a cabeça entre os bancos da frente como uma criança.

– E os magos só precisam aprender a liberar seu poder mágico ao máximo, quando aprenderem a fazer isso... – olhei para Kai – Serão invencíveis – ele apenas sorriu e voltou sou atenção na estrada, fiz o mesmo.

O resto do caminho eu não prestei atenção nas conversas dos meninos, apenas me concentrei na estrada e nada mais que isso. Pisei fundo no acelerador o máximo que pude para que a distância diminuísse cada vez mais, porém mesmo assim ficamos cerca de 17 horas na estrada com apenas uma parada para comermos. O sol já se punha quando chegamos à casa da maga e isso me fez ficar aliviada já que a luz solar insistia em tentar entrar pelo retrovisor, mas graças a tecnologia de Alex os vidros de meu carro filtravam aquela luz e deixavam apenas raios luminosos inofensivos entrarem.

Finalmente chegamos à casa da maga, um lugarzinho bem longe da estrada principal e que não parecia diferente de uma casa comum de humanos. Todos desceram do carro e ficaram olhando para a pequena casinha sem a esperança de que realmente morasse um ser das trevas lá dentro, mas essa duvida não durou muito quando a maga saiu da casa e nos olhou com um grande sorriso no rosto. A olhei feliz por vê-la novamente, corri em sua direção e a abracei forte por causa da saudade que tanto crescia em mim quando ficava longe dela.

– Omma... Senti tanto a sua falta... – disse enquanto a abraçava.

– Minha pequena – ela disse e só o som de sua voz já confortou meu coração -, não sabe o quando esperei sua volta.

– Omma, preciso que me ajude – disse a soltando e a olhando nos olhos -, posso ter encontrado quem tanto procurei durante esses anos todos – seu sorriso continuou, mas seu olhar desviou de mim e olhou para os rapazes que não se atreveram a sair do lado dos carros.

– Peça que eles entrem e sentem na sala, irei preparar tudo – ela disse e entrou na casa.

Fiz um sinal para que eles se aproximassem e me seguissem rumo a sala da pequena casa, os rapazes não falavam nada, só ouvia a voz de Thereza e Alex enquanto andavam pelos quartos relembrando a época em que nós três vivemos aqui, foi uma boa época para nós. Omma havia nos acolhido quando já não víamos mais esperança no mundo humano, ela foi como uma mãe para mim e por isso eu a chamava assim, mas Alex e Thereza se sentiam mais como se esse tempo que passamos aqui fosse um tipo de bloqueio onde eles começaram a parar de usar seus poderes. Eu os treinei nessa época para se virarem sem poderes e controlarem todos os contras de ser um ser das trevas, acho que eles assimilaram esse tempo como treino para a vida.

– Por que a chama de “Omma”? – perguntou Suho me tirando do transe em meus pensamentos.

– Ela me acolheu como uma filha quando precisava e me criou como uma mãe faria, então a chamo como tal – disse lembrando de momentos bons que passei nessa casa, como quando havia entrado em uma briga com alguns seres das trevas que me caçavam no mundo humano, assim que me livrei deles voltei para casa toda destruída e Omma apenas cuidou dos meus ferimentos e disse: “Minha pequena... Você é extraordinária e a sua Omma se orgulha tanto de ti... Quando voltar para as trevas lembre-se de continuar guerreira e bondosa assim como é aqui”. Aquela lembrança me fez sorrir.

Ficamos em silencio por um bom tempo até perceber que havia um pequeno ser nos bisbilhotando em um dos quartos, tentei olhar por um tempo para ver quem era, mas nem assim reconheci os grandes olhos que fitavam os rapazes na sala. Me levantei e fui até o quarto em que eu vi alguém e abri a porta bem devagar, porém assim que abri a porta me assustei com um lobo não muito grande pulando em cima de mim e me fazendo cair no chão fazendo um barulho. Era um lobo de tamanho médio, o que dizia que o ser das trevas que habitava aquela forma não tinha mais de 30 anos de idade, tinha a pelagem um pouco acinzentada e seus olhos azuis fitavam meu rosto como se me estudasse. Apenas quando fitei dentro dos olhos do lobo que reconheci a pequena fera e cima de mim.

– Ana? – perguntei e a expressão quase raivosa do lobo se transformou em surpresa, logo o lobo se afastou e sua forma mudou para uma moça humana com um corpo adulto.

– Unni? – disse a moça me abraçando forte – Que saudade Jess! Pensei que nunca mais voltaria.

– Nunca iria abandonar você e a Omma, Ana – disse a abraçando rápido. A soltei e olhei para ela de cima a baixo vendo o quanto havia crescido – Alex e The também estão aqui, vá lá matar a saudade – disse e ela saiu correndo em direção aos dois que quase choravam ao vê-la.

Os abraços e choros duraram pouco tempo já que foram substituídos logo por deslumbre, Ana ficou maravilhada com os rapazes já que as únicas pessoas com quem tinha contato durante toda sua vida eram eu, Omma, Alex e Thereza. Nós duas nos tratávamos como irmãs, eu era a irmã mais velha – e põe mais velha nisso, talvez séculos ou milênios mais velha –, e ela era a irmã mais nova, mas a relação dela com Thereza e Alex sempre foi de amizade já que eles não se sentiam parte dessa família, eu não os culpava por isso.

– Ana, cadê a Rafaela? Ela entrou e não voltou ainda – perguntou Alex para Ana que estava ao lado de Suho, ela provavelmente o achou bonito. Alex e Thereza só se referiam a Omma por Rafaela, que era seu verdadeiro nome, e isso me deixava inquieta.

– Ela desceu para pegar algumas poções ou algo do tipo – ela respondeu sem ao menos tirar os olhos de Suho.

– Acho que ganhou uma admiradora Suho – disse rindo e ele sorriu para Ana.

– Tudo bem, ela também ganhou um – ele respondeu e Ana corou, ela correu pra trás de mim e se escondeu –, está tudo bem Ana, não fique com vergonha da beleza que você tem.

– Suho galanteador – zombou Chany o que nos fez rir -, mas temos que admitir que a moça é muito linda, só tente não perder tempo com um rapaz feio como o Suho – senti as mão de Ana, que segurava meus ombros em quanto se escondia, se contraírem.

– Mas ele é lindo também – Ana disse ainda escondida e provavelmente queimando de vergonha.

Antes que qualquer um de nós pudesse comentar o quanto aquela cena foi fofa, Omma entrou na sala e sorriu ao ver Ana se escondendo atrás de mim. Ela sempre gostou da relação forte que nós duas tínhamos, sempre confiou a mim a segurança de Ana e eu sempre retribui deixando minha pequena maninha sã e salva a todo tempo. Omma também olhou para Thereza e Alex que esboçaram um sorriso discreto e vergonhoso, ela retribuiu com um sorriso acolhedor e que por si dizia que tudo estava bem.

– Olá rapazes, eu sou a Rafaela, mas podem me chamar de Omma, e vou lhes dizer se realmente é o destino de vocês caminharem junto com minha pequena para a batalha que se aproxima – ela disse e se sentou em uma cadeira ao meu lado.

Junto dela havia um pequeno saco de pano cheio de vidros de poções, ela apenas pegou um dos vidros e jogou seu líquido no chão à sua frente. Assim que o líquido escuro tocou ao chão, o piso em baixo de nossos pés se tornou um breu e aos poucos tudo ao nosso redor sumiu dentre a escuridão também, isso fez Ana sair de trás de mim e se por ao lado de Omma que permanecia de olhos fechados diante de toda aquela magia fluindo por todos os cantos. Mais um vidro foi tirado do saco e este continha um pó de coloração avermelhada, ela abriu o vidro e o espalhou no chão à sua frente, assim que tocou o solo, as pequenas partículas do pó começaram a voar por entre todos nós como se nos orbitassem.

– Eu consigo ver a profecia mais uma vez, os vejo nela, vejo bem e mal, vejo luz e trevas mais uma vez unidas – disse Omma com as mãos no colo e com as palmas viradas para cima, de suas mãos saiam luzes que colidiam com o pó que voava e isso o fazia se transformar em imagens.

Na frente de cada um de nós começaram a aparecer imagens diferentes, a primeira imagem a se formar foi para Thereza que, como sempre, era uma imagem negra que dava uma sensação de morte e confusão, ela simbolizava as trevas que ainda não saíram de dentro dela. Logo se formou a imagem do Alex, possuía uma cor esverdeada e dava a sensação de proteção, mas também de perigo, isso simbolizava que ele logo faria escolhas importantes que decidiriam o bem ou o mal de alguém. Logo à frente de Chany, Suho, Sehun, Lay, Xiumin, Chen, D.O, Baekhyun e Ana apareceram imagens idênticas, possuíam uma cor azulada e passavam sensações de importância, ajuda e segurança, isso queria dizer que eles eram importantes e trariam segurança a qualquer um que precisasse deles. Na minha frente e de Kai apareceram a mesma imagem também, porém nossa imagem possuía uma coloração avermelhada e que passava a sensação de perigo, morte e medo, isso nos dizia que nós dois estaríamos juntos em uma situação de morte e até mesmo que um de nós morreria, porém esta imagem mudou de repente e ficou em cores rosa e amarelo que agora passavam a sensação de vitória e paixão, isso nos mostrava que venceríamos juntos mesmo depois da situação de morte e que estávamos destinados a estar juntos. Olhei em volta e as imagens de Suho e Ana também mudaram apenas para o rosa, isso era bom e queria dizer que os dois ficariam juntos, quando minha irmãzinha mais nova percebeu isso ela sorriu e corou.

– Omma? Estou com medo... – disse olhando para Omma, que logo fechou as mãos o que trouxe o cômodo à vista mais uma vez.

– O que viu minha pequena? – ela perguntou séria.

– Mortes, trevas, decisões que determinariam o bem e o mal, vi coisas boas como o amor e amizade, mas não posso deixar de temer as coisas ruins – disse olhando ao redor e vendo os meninos se recuperando da pequena tontura que tudo aquilo dava, vi Alex olhando para suas mãos e parecendo confuso e também vi Thereza de cabeça baixa deixando lágrimas escaparem de seus olhos.

– Minha pequena – ela disse olhando para mim e exibindo seu sorriso mais uma vez –, as coisas boas sempre vão se sobressair às coisas ruins, foque nelas e terá sucesso – aquelas palavras me confortaram.

– Como pode ler estas imagens e sensações tão confusas? – perguntou Chen.

– Omma nos treinou para conseguir decifrar esses códigos – disse sorrindo gentilmente.

*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*

Lá estava eu mais uma vez a sós parada e olhando para o nada, meus pensamentos borbulhavam por dentro da minha cabeça, mil maneiras diferentes de tudo aquilo dar errado e sermos todos mortos, mas em contra podia imaginar algumas dezenas de maneiras de vivermos para ver a luz se juntar às trevas, isso nos dava um por cento de chances de sairmos vivos e vitoriosos daquela missão suicida, porém enquanto existir esse um por cento de chance eu irei lutar.

– EU IREI LUTAR! – gritei para o nada. Gritei para mim mesma lembrar que não desistirei.

Notas finais
Já são dois casais... E em compensação mil e uma tretas... kkkk