A batida do coração
32 O Labirinto do Tempo e a Linha do Sono
A luz que cortava as persianas de alumínio do quarto 305 do Hospital Municipal de Santa Bárbara tinha o mesmo tom pálido e estéril que Anya Drake tentara, em vão, esquecer. O cheiro de antisséptico, o som rítmico dos monitores e o sussurro abafado dos passos no corredor faziam o presente parecer uma cópia cruel e perversa do passado.
Naquela manhã de domingo, as portas duplas da UTI se abriram. O som dos passos que se aproximavam fez o corpo de Anya tensionar imediatamente. Ela não precisou erguer os olhos para reconhecer a silhueta. Era o Dr. Álvaro Mendonça. O mesmo médico de cabelos grisalhos e olhar cansado que, cinco anos atrás, havia entrado naquele mesmo corredor para decretar que o cérebro de Jace Laurentis havia cedido à gravidade do impacto.
O médico parou aos pés da cama onde Guga repousava. O baterista estava pálido, com uma faixa branca cobrindo a têmpora esquerda e vários acessos fixados aos braços fortes. O ventilador mecânico ditava um ritmo artificial e constante para o seu peito, soprando um ar que ele não conseguia buscar sozinho.
— Anya... — o Dr. Álvaro começou, a voz grave e mansa, carregando o peso de quem odiava a simetria daquele momento. Ele olhou para o prontuário eletrônico e depois fixou os olhos nos dela. — Eu gostaria de ter notícias diferentes. A cirurgia para conter a hemorragia intracraniana foi um sucesso, mas o trauma foi severo. O Gustavo entrou em um estado de coma induzido pelo próprio organismo para se proteger.
Anya engoliu em seco, sentindo a garganta arranhar. Suas mãos apertaram a colcha de algodão do hospital.
— O mesmo coma do Jace, doutor? — a pergunta saiu num fio de voz, fria, despida de ilusões.
O Dr. Álvaro deu um passo à frente, colocando uma mão compassiva sobre o ombro de Anya.
— Não, Anya. Há uma diferença fundamental aqui. No caso do Jace, o monitoramento mostrava uma ausência quase imediata de reflexos e atividade do tronco encefálico devido à pressão do edema. O Gustavo está respondendo aos estímulos mais profundos. O cérebro dele está lutando, a atividade elétrica está ali. Mas agora... nós entramos no território da espera. Ele precisa acordar por conta própria. Pode levar dias, semanas. Só o tempo vai nos dar essa resposta.
Anya assentiu lentamente, os olhos fixos na linha intermitente do monitor cardíaco.
— Obrigada, doutor. Eu não vou sair do lado dele.
As Horas de Vidro
Os dias que se seguiram transformaram-se em uma rotina de vigília e silêncio. Anya reduziu seu mundo aos quatro cantos daquele quarto de hospital. Ela recusava os conselhos de Rose para ir para casa tomar um banho ou descansar; aceitava apenas as xícaras de café que Murilo e Sônia, seus sogros, lhe traziam nos intervalos das visitas. Paulinho e Léo passavam todas as noites, deixando baquetas e bilhetes de fãs de todo o mundo sobre a mesa de cabeceira. Até mesmo Derick ligava duas vezes por dia para a recepção do hospital, garantindo que nenhum recurso médico faltasse.
Mas, quando as luzes do hospital se apagavam e a madrugada se instalava em Santa Bárbara, Anya ficava completamente sozinha com os seus fantasmas.
Ela passava as horas sentada na cadeira de metal estofada, colada à beira da cama de Guga. Suas duas mãos envolviam a mão direita dele, que estava livre dos acessos. O anel de noivado no dedo de Anya roçava contra a pele de Guga, um lembrete brilhante de uma promessa que o asfalto tentara roubar.
— Você precisa voltar, Guga... — Anya sussurrou na quietude da terceira noite, aproximando os lábios dos dedos dele, sentindo o calor sutil que ainda habitava o corpo do noivo. — Você me prometeu que nós não carregaríamos esse peso sozinhos. Você me disse na cozinha do seu apartamento que o ritmo da música só funciona se a gente respeitar o tempo... eu estou respeitando. Mas a sua banda está esperando a batida. Eu estou esperando a batida.
A respiração artificial do ventilador mecânico respondeu com um sopro mecânico e indiferente.
Anya encostou a testa no colchão, ao lado do braço dele. A mente dela, por vezes, pregava peças cruéis. Sempre que o bipe do monitor cardíaco sofria uma leve alteração de ritmo, seu corpo dava um solavanco, e ela erguia os olhos num sobressalto, apavorada com a possibilidade de ver a ondulação verde se transformar na linha reta e contínua que levara Jace embora. O medo não era apenas de perder o homem que amava; era o pavor absoluto de reviver, cena por cena, o colapso de sua juventude.
— Eu passei anos achando que o luto era a minha única pátina, Guga — ela continuou, as lágrimas quentes molhando o lençol branco do hospital, a voz saindo em um desabafo visceral e Detailed. — Eu achei que tinha aprendido a andar na chuva. Mas a verdade é que eu só aprendi a andar porque você segurou a minha mão no compasso certo. Eu não quero um museu na Inglaterra cheio de telas que falam de dor. Eu quero este quarto bagunçado, os seus vinis espalhados no chão e a sua risada alta na cozinha. Não me deixa na fenda do meio de novo, por favor...
Ela mudou de posição, subindo sutilmente na cama para conseguir acariciar o rosto empalidecido de Guga. Seus dedos contornaram a linha do maxilar dele, sentindo a textura leve da barba que começava a crescer.
— Jace... se você estiver em algum lugar ouvindo isso — Anya ergueu os olhos para o teto escuro do quarto, o peito rasgando em uma prece desesperada —, você já teve o seu show. O mundo inteiro cantou as suas músicas. Você foi homenageado por quem você mais amou. Deixa o Guga ficar aqui embaixo comigo. A música dele ainda não acabou.
Ela voltou a deitar a cabeça sobre o peito de Guga, bem em cima do coração dele. O som do batimento — tum-tum, tum-tum — era abafado, mas real. Anya fechou os olhos, concentrando-se única e exclusivamente naquela batida. Ela passaria os dias, as semanas ou o tempo que o destino cobrasse ali, estática como suas esculturas de bronze, servindo de âncora para que o espírito de Guga encontrasse o caminho de volta para a superfície da vida.
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