A batida do coração
15 O Retorno e os Reencontros do Tempo
Cinco anos. Sessenta meses de um exílio voluntário do outro lado do oceano que Anya Drake impôs a si mesma. Após aquela tarde fria na praça central, ela compreendeu que para se curar de verdade, precisava recomeçar onde ninguém conhecesse a sua tragédia. Ela se afundou nos livros, terminou a faculdade de artes com honras e, no dia seguinte à colação de grau, arrumou as malas. Conseguiu uma vaga de restauração e curadoria no prestigiado British Museum, em Londres. Não houve festas, não houve acenos no aeroporto. Ela não se despediu de Derick. Apenas pegou o avião e foi, deixando que a distância física fizesse o trabalho que o tempo parecia não dar conta.
Agora, aos vinte e três anos, Anya era uma mulher feita. O olhar antes assustado de menina havia dado lugar a uma expressão madura e segura. Seus cabelos escuros estavam cortados em um corte elegante na altura dos ombros, e ela vestia um sobretudo longo cor de areia que combinava com o clima ameno daquela tarde de outono na sua velha cidade natal. Ela havia voltado para passar duas semanas com os pais, mas sua primeira parada, antes mesmo de desfazer as malas por completo, tinha um endereço certo.
O Cemitério Parque das Acácias continuava silencioso, com as mesmas árvores que outrora testemunharam tanta dor. Anya caminhou com passos firmes e calmos pela brita úmida até a sepultura do Box 04. O mármore claro agora ostentava o nome de Jace Laurentis gravado em letras douradas, já um pouco gastas pelo tempo.
Ela se ajoelhou no gramado, sem se importar em sujar o tecido do sobretudo. Colocou um maço fresco de astromélias brancas — as flores favoritas dele — sobre a lápide limpa.
— Oi, Jace — Anya sussurrou, e para sua própria surpresa, sua voz não quebrou. Havia uma serenidade melancólica ali. — Faz muito tempo, não é? Desculpa a demora. Eu precisei ir embora para conseguir voltar inteira.
Ela estendeu a mão, tocando a pedra fria com as pontas dos dedos, e sorriu de canto, deixando que as memórias passassem por sua mente sem o peso da agonia antiga.
— Eu me formei. Estou trabalhando na Inglaterra, em um museu lindo. Você ia adorar a energia de lá, cheia de história e de arte. Eu restauro telas antigas, Jace... Devolvo a vida para coisas que o tempo tentou apagar. Acho que fiz isso comigo também. Eu finalmente estou bem. Sua mãe me mandou algumas fotos suas da banda mês passado, e eu consegui sorrir lembrando do som da sua guitarra, em vez de chorar pelo silêncio do hospital. Eu vim te dizer que o seu eco finalmente encontrou paz em mim. Obrigada por ter existido.
Anya se levantou, limpou a terra dos joelhos e respirou fundo, sentindo o ar entrar leve em seus pulmões. Ela olhou para as flores brancas uma última vez antes de dar as costas e caminhar em direção à saída. O ciclo com o passado estava encerrado. O que ela não sabia era que o presente a aguardava com a força de um solavanco na rotina daquela mesma tarde.
O Encontro no Corredor
Por volta das seis da tarde, Anya entrou no pequeno mercado de bairro perto da casa de seus pais para comprar alguns itens básicos: um litro de leite, café e um maço de torradas. O estabelecimento estava calmo, com o som baixo do rádio local tocando ao fundo e o cheiro familiar de pão fresco.
Ela caminhava distraidamente pelo corredor de matinais, lendo os rótulos das marcas que não via há cinco anos. Ao dar um passo para trás para alcançar uma caixa de chá na prateleira superior, suas costas colidiram firmemente contra o peito de alguém que vinha no sentido oposto. O impacto fez a caixinha de chá escorregar de seus dedos e cair no chão.
— Oh, me desculpe! Eu estava distraída... — Anya começou a dizer em português, agachando-se instintivamente para pegar o objeto.
— Sem problemas, eu também não estava olhando por onde...
A voz do homem travou no meio da frase. Era uma voz profunda, grave, mas que carregava uma rouquidão que Anya reconheceria em qualquer lugar do mundo, mesmo após cinco décadas, que dirá cinco anos.
Anya congelou com a mão ainda estendida no chão. Ela ergueu os olhos lentamente.
Derick estava parado bem na sua frente.
O tempo também havia mudado o irmão mais velho de Jace. Aos vinte e oito anos, Derick parecia ainda mais imponente. Ele vestia um terno cinza-escuro sem gravata, com o colarinho da camisa branca levemente aberto, denunciando que tinha acabado de sair do escritório da empresa. Seus cabelos loiros estavam cortados mais curtos, e as linhas de seu rosto pareciam mais marcadas, mais maduras. Mas os olhos... Os olhos escuros continuavam os mesmos, e naquele momento, estavam arregalados em puro estado de choque.
Derick deu um passo involuntário para trás, as mãos congelando ao lado do corpo.
— Anya? — o nome dela saiu de sua boca como um sopro desacreditado.
Anya se levantou devagar, segurando a caixinha de chá contra o peito, sentindo o seu próprio coração dar uma batida violenta e desordenada. A eletricidade que eles haviam tentado enterrar cinco anos atrás subiu pela espinha de ambos no mesmo segundo.
— Oi, Derick — ela conseguiu falar, forçando um sorriso sutil para mascarar o turbilhão que se instalou em seu estômago.
Derick olhou para ela de cima a baixo, assimilando a mudança. A menina de dezoito anos de moletom cinza e olhos inchados tinha sumido; diante dele estava uma mulher elegante, de postura firme e olhar maduro.
— Você... Você voltou — ele disse, limpando a garganta, tentando recuperar a postura rígida e profissional que sempre usava como escudo. — Minha mãe não me disse que você vinha.
— Eu pedi para ela não comentar com ninguém — Anya explicou, ajeitando a alça da bolsa no ombro. — Cheguei ontem à noite. Fui ver o Jace hoje mais cedo e... vim pegar algumas coisas para a minha mãe.
O nome de Jace pairou entre eles, mas não trouxe a dor sufocante de antes. Trouxe apenas uma solene reverência. Derick assentiu lentamente, os nós de suas mãos relaxando dentro dos bolsos da calça social.
— Entendi. Como... Como estão as coisas na Inglaterra? — ele perguntou, forçando um tom de conversa casual, embora seus olhos continuassem fixos no rosto dela, como se estivesse decorando cada traço novo.
— Estão ótimas, Derick. O trabalho no museu é fascinante, a cidade é linda. Eu realmente me encontrei lá. E por aqui? Como estão as coisas na empresa? Seus pais?
— Tudo caminhando — Derick respondeu, a voz recuperando a firmeza habitual. — Meu pai está pensando em se aposentar no final do ano, então estou assumindo a maior parte dos contratos. Minha mãe... bom, ela sente muito a sua falta, mas está bem. Ela faz trabalhos voluntários agora. Nos ajuda a manter a cabeça ocupada.
— Fico feliz em saber disso. De verdade.
Um silêncio sutil e carregado de história se instalou entre os dois no meio daquele corredor de supermercado. Não era o silêncio hostil do passado, nem o silêncio exaustivo do hospital. Era o silêncio de duas pessoas que sabiam exatamente tudo o que tinham sido uma para a outra, mas que agora respeitavam as estradas diferentes que haviam escolhido.
Derick olhou para o relógio de pulso e depois voltou a encarar Anya. Havia uma nota de melancolia em seus olhos escuros, uma aceitação silenciosa de que o tempo deles havia passado por entre os dedos.
— Eu preciso ir, Anya — ele disse suavemente, dando um meio sorriso de canto de boca que ela não via há anos. — Tenho um jantar de negócios com uns investidores daqui a pouco. Minha mãe vai ficar radiante se você passar para jantar com ela um dia desses.
— Eu vou sim, Derick. Prometo que passo lá antes de voltar para Londres.
— Ótimo — ele deu um passo para o lado, liberando o corredor, mas parou por um segundo, olhando-a nos olhos com uma intensidade contida. — É bom ver que você está bem, Anya. Que você se tornou essa mulher. O Jace... ele estava certo sobre você. Você é feita de luz.
Anya sentiu a garganta apertar, mas sorriu de forma terna.
— Obrigada, Derick. É bom te ver bem também. Bom trabalho no jantar.
— Obrigado. Boa noite, Anya.
— Boa noite, Derick.
Ele caminhou em direção aos caixas com passos medidos, a silhueta alta sumindo atrás das prateleiras. Anya continuou parada no mesmo lugar por alguns segundos, respirando fundo. Ela colocou a caixa de chá na cestinha de compras e caminhou até o caixa oposto.
Minutos depois, cada um entrou em seu respectivo carro no estacionamento. O carro de Derick seguiu em direção ao centro financeiro da cidade, enquanto o táxi de Anya pegou a rota de volta para a calmaria da casa de seus pais. Eles haviam conversado, haviam se olhado de verdade após cinco anos e, finalmente, cada um havia ido para a sua própria casa. Sem dramas, sem lágrimas, apenas com a paz de quem compreendia que o amor e a dor que compartilharam no passado agora eram apenas páginas bonitas de um livro que o tempo havia aprendido a fechar.
Fale com o autor