A batida do coração
16 O Palco dos Fantasmas e a Promessa do Tempo
A noite de sábado trouxe uma brisa úmida e o som abafado de guitarras que Anya reconheceria em qualquer lugar do mundo. A Blue Moon, uma boate subterrânea no centro da cidade, continuava com a mesma fachada de tijolos aparentes e as luzes de neon azul piscando na entrada. Fora ali que a antiga banda de Jace começara e, para a surpresa de Anya, eles ainda tocavam juntos, mantendo vivo o legado que o caçula dos Laurentis deixara.
Anya entrou, vestindo uma jaqueta escura, misturando-se à multidão jovem que se espremia perto do palco. O ar cheirava a cerveja e fumaça de gelo seco. Quando os primeiros acordes da música "Entre o Eco e o Afeto" começaram a ecoar pelos alto-falantes, o peito de Anya deu um salto. Guga estava na bateria, e um novo rapaz assumira a guitarra base, mas a energia ainda era a mesma.
Anya olhou para o centro do palco, sob os refletores azuis. Por um breve segundo, a mente pregou-lhe uma peça doce: ela viu a silhueta de Jace, com seus dezenove anos, o sorriso de canto de boca e os cabelos loiros bagunçados, puxando o microfone e piscando na direção dela antes de soltar a voz.
Ela sorriu, deixando as pálpebras caírem por um minuto, permitindo-se mergulhar no passado.
Flashback: O Dia em que o Sol Entrou na Sala
Cinco anos e meio atrás, no campus da faculdade de artes.
Anya estava sentada nos degraus da biblioteca, frustrada com uma tela de aquarela que havia borrado devido à garoa repentina. Ela limpava os dedos sujos de tinta na calça jeans quando uma sombra cobriu seu bloco de desenho. Ao erguer os olhos, deparou-se com um rapaz segurando uma capa de guitarra nas costas e um copo de plástico com dois cafés.
— Se você continuar encarando esse papel com tanta raiva, vai acabar rasgando a folha — ele disse, estendendo um dos copos na direção dela. O sorriso dele era tão aberto, tão absurdamente confiante, que Anya não conseguiu continuar séria.
— A chuva estragou meu trabalho de duas semanas — ela reclamou, mas aceitou o café quente.
— A chuva não estragou, só mudou o arranjo — ele piscou, sentando-se no degrau logo abaixo do dela, sem pedir licença. — Sou o Jace. Minha banda ensaia no galpão de música ali atrás. E você tem cara de quem desenha sentimentos.
— Eu sou a Anya. E você tem cara de quem faz muito barulho.
Jace soltou uma risada limpa, aquela risada que preenchia qualquer espaço vazio. Naquele dia, sob o céu cinzento do campus, Anya Drake conheceu o garoto que parecia ter o sol preso no peito. O amor deles nascera ali, de forma leve, sem amarras e sem avisar.
O Reencontro na Pilastra
Anya abriu os olhos lentamente, a lembrança trazendo um calor confortável para o seu coração. O Jace do palco sumira, dando lugar ao músico atual da banda, mas a sensação de paz permanecia. Ela olhou ao redor, deixando o olhar vagar pela lateral da boate vazia.
Foi quando ela o viu.
Afastado da pista de dança, encostado em uma pilastra de concreto grosso, estava Derick. Ele havia tirado o paletó do terno, vestindo apenas a camisa social cinza com as mangas dobradas até os antebraços. Segurava um copo de uísque com gelo na mão direita, os olhos escuros fixos no palco, acompanhando o ritmo da bateria com um leve movimento de cabeça. Ele parecia um observador silencioso, um homem que não pertencia àquele ambiente barulhento, mas que insistia em ficar ali para guardar o que restara do irmão.
Anya respirou fundo e caminhou na direção dele, os passos decididos desviando das pessoas na pista. Quando ela parou a um metro de distância, a luz azul do neon bateu em seu rosto. Derick virou a cabeça e o choque nos olhos dele foi imediato, seguido por uma suavidade que ele não conseguiu esconder.
— Você frequenta esse lugar? — Anya perguntou, a voz alta para superar o som da música, com um sorriso leve.
Derick olhou para o copo e depois para ela, dando um passo para fora da sombra da pilastra.
— Só quando preciso lembrar de como o Jace era barulhento — ele respondeu, a voz grave ecoando perto do ouvido dela. — Fiquei surpreso de te ver aqui. Achei que os museus de Londres fossem mais calmos do que a Blue Moon.
— Eles são. Mas eu precisava ouvir a música deles uma última vez antes de ir — Anya disse, encostando as costas na mesma pilastra, ficando lado a lado com ele. — Eles estão tocando bem. O arranjo novo ficou bonito.
— Ficou — Derick assentiu, dando um gole no uísque. — Guga insistiu em manter a música no repertório fixo. É uma espécie de homenagem eterna.
Eles conversaram por alguns minutos sobre coisas banais: a mudança no centro da cidade, o clima da Inglaterra, a saúde de Paola. A conversa fluiu de forma surpreendentemente normal, como se fossem apenas dois velhos conhecidos que se respeitavam. Mas a proximidade física, o cheiro do perfume amadeirado de Derick e o som da melodia melancólica que a banda começava a tocar no palco começaram a tensionar o ambiente.
O Confronto do Tempo Reduzido
A música no palco diminuiu de ritmo, transformando-se em uma balada lenta. Derick colocou o copo vazio sobre uma mesa alta de ferro ao lado e virou-se de frente para Anya. O olhar casual desapareceu, substituído pela intensidade escura que ela conhecia tão bem.
— Você foi embora sem se despedir, Anya — ele soltou, a voz caindo um tom, tornando-se mais pesada e direta. — Há cinco anos. Você simplesmente pegou um avião e sumiu.
Anya desviou o olhar para a pista de dança, sentindo o peito apertar. O drama que eles vinham evitando desde o supermercado finalmente exigia espaço.
— Eu precisava, Derick. Eu te disse naquele dia na praça... meu peito estava em carne viva. Se eu ficasse aqui, se eu continuasse te vendo todas as semanas na casa da sua mãe, nós teríamos tentado algo para o qual nenhum de nós dois estava pronto. Nós teríamos nos destruído usando a dor do Jace como desculpa.
— Você me pediu um tempo, Anya! — Derick deu um passo à frente, encurtando a distância, a voz saindo rouca e carregada de uma mágoa reprimida por meia década. — Você olhou nos meus olhos e disse que precisava de um tempo para se curar. E eu te dei esse espaço. Eu não te liguei, eu não fui atrás de você em Londres, eu engoli o meu orgulho todos os dias para respeitar a sua cura. Mas o seu tempo nunca acabou. Você se curou... e me deixou preso naquele corredor de hospital.
As lágrimas subiram aos olhos de Anya, cortando a segurança de mulher feita que ela tentava sustentar.
— Eu mudei, Derick! O tempo passou e eu virei outra pessoa. Eu não podia voltar para a mesma vida de antes.
— Mas eu não mudei! — Derick disparou, a intensidade de suas palavras fazendo Anya recuar milímetros contra o concreto da pilastra. Ele estendeu a mão, os dedos trêmulos parando a centímetros do rosto dela, sem tocá-la, como se ainda estivesse respeitando a barreira invisível. — Eu continuo no mesmo lugar, Anya. Eu assumi a empresa, eu cuido da minha mãe, eu venho a essa boate toda semana... E eu espero por você. Todos os dias. Eu acordo esperando que o seu tempo tenha terminado, esperando que você volte por aquela porta e me diga que a culpa acabou.
— Derick, por favor... não faz assim — Anya sussurrou, as lágrimas escorrendo livres pelo rosto, misturando-se à luz azul do ambiente. — Isso é doloroso demais. Você não pode pausar a sua vida por causa de uma promessa de cinco anos atrás.
— Eu não pausei por obrigação, Anya. Eu pausei porque o que eu senti por você naquela estrada, no hospital, no quarto do meu irmão... foi a única coisa real que me sobrou — ele disse, a voz quebrando sutilmente, revelando a devastação que ele escondera sob o terno cinza. — Eu tentei sair com outras pessoas, tentei focar no trabalho, mas toda vez que eu fecho os olhos, é o seu rosto que eu vejo. Eu estou condenado a te amar no escuro, enquanto você refaz a sua vida em outro país.
Anya cobriu o rosto com as mãos por um segundo, os ombros sacudindo. O confronto era dramático, limpo e doloroso. Jace havia partido e deixado os dois vivos, mas a sobrevivência deles cobrara um preço alto demais.
Lentamente, Anya abaixou as mãos e olhou nos olhos de Derick. Havia um amor imenso ali, mas também a clareza de que as estradas deles haviam se bifurcado de forma definitiva.
— Eu não posso te dar o que você quer, Derick — ela disse, a voz firme apesar do choro, as palavras saindo como uma cirurgia necessária para libertá-lo. — O amor que nasceu entre nós era filho da tempestade. Se a gente tentar forçar isso agora, nós vamos acordar os fantasmas que eu demorei cinco anos para enterrar. Eu amo a lembrança do que nós fomos no meio daquela dor... mas a minha vida está em Londres agora. E a sua está aqui. Por favor... deixa o tempo acabar. Se liberta disso. Por mim. Pelo Jace.
Derick engoliu em seco, os nós dos dedos apertando a lateral da calça social. Ele olhou para Anya por um longo e torturoso minuto, assimilando a rejeição final. A máscara de frieza ameaçou voltar, mas o que se moldou em seu rosto foi uma aceitação exausta e profundamente triste.
— Se liberta... — ele repetiu, a voz saindo fria e sem vida. — É fácil falar para quem está voando, Anya. Para quem está no chão, o peso da gravidade é diferente.
A banda no palco terminou a música e o público começou a aplaudir. O barulho cortou a eletricidade pesada que existia entre os dois.
Derick deu um passo atrás, voltando para a penumbra da pilastra. Ele limpou o rosto com o dorso da mão, recuperando a postura ereta do homem de negócios que precisava gerenciar o mundo.
— Obrigado pela honestidade, Anya — ele disse, com a voz contida e formal, a distância física se transformando novamente em um abismo intransponível. — Acho que meu jantar de negócios me espera. Boa viagem de volta para Londres.
— Derick... — ela tentou estender a mão, mas ele já havia se virado.
Sem olhar para trás, Derick Laurentis caminhou em direção à saída de emergência da boate, a silhueta alta sumindo no meio da multidão de desconhecidos. Anya continuou encostada na pilastra de concreto, as lágrimas frias lavando seu rosto sob a luz azul do neon. Ela olhou para o palco uma última vez, mas não viu mais Jace. Viu apenas o vazio que a ausência dos dois irmãos deixava em sua vida.
Minutos depois, Anya Drake saiu da boate e pegou um táxi sob a garoa fina da cidade. Derick entrou em seu próprio carro no estacionamento do centro. A conversa havia terminado, as feridas haviam sido abertas e fechadas sem anestesia e, mais uma vez, foi cada um para a sua casa, cientes de que o tempo, afinal, não curava tudo; apenas ensinava a carregar o peso do silêncio de forma mais elegante.
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