A batida do coração
18 O Chão de Cimento e o Cheiro de Linsêde
A decisão de não embarcar de volta para Londres pegou Rose e Arthur Drake de surpresa, mas trouxe um alívio que eles mal conseguiam disfarçar. Na manhã de domingo, após o temporal ter lavado a cidade, Anya sentou-se com os pais na mesa da varanda, onde o sol começava a rasgar as nuvens.
— Eu preciso fincar raízes de verdade, mãe — Anya explicou, segurando a xícara de chá com as duas mãos, sentindo-se mais convicta do que nunca. — Londres foi um casulo, mas eu estava vivendo a vida de outra pessoa. Quero trabalhar com o que amo, mas quero fazer isso aqui. No meu lugar.
Arthur Drake olhou para a antiga casa da piscina nos fundos do quintal, um espaço de alvenaria que estava sendo usado apenas para guardar ferramentas velhas e espreguiçadeiras desbotadas.
— Se você vai ficar, vai precisar de um espaço seu para criar, minha filha — Arthur disse, apontando com o queixo para a estrutura. — Aquela casa da piscina tem uma luz norte fantástica na parte da tarde. Se tirarmos o entulho, trocarmos as lâmpadas por tubos de LED de luz fria e passarmos uma resina naquele chão de cimento, você tem o seu ateliê.
Anya sorriu, os olhos brilhando.
Em menos de uma semana, a organização ganhou forma com uma rotina milimétrica. De dia, Anya assumiu o posto de restauradora e curadora assistente na Galeria Moldura & Arte, o espaço cultural mais charmoso do centro da cidade. O local pertencia a um casal jovem e dinâmico: Helena e Marcos Vance.
Helena era uma mulher de trinta anos, de cabelos cacheados e sorriso caloroso, que gerenciava os contratos e as exposições, enquanto Marcos, um arquiteto de formação, cuidava do acervo e da catalogação. O coração da galeria, no entanto, batia no ritmo de Theo, o bebê de apenas oito meses do casal. Como a galeria tinha um mezanino amplo, Helena montara um espaço com tapete emborrachado, brinquedos de madeira e um berço portátil, permitindo que eles trabalhassem sem se afastar do filho.
A Rotina Diurna: Entre Telas e Balbucios
Às nove da manhã de uma quarta-feira, o sininho de latão da porta da galeria badalou quando Anya entrou. O cheiro de verniz e café fresco sempre a recebia. Marcos estava atrás do balcão principal, analisando uma tela do século XIX que precisava de reentelamento devido à umidade.
— Bom dia, Anya! — Helena surgiu do mezanino, trazendo Theo apoiado no quadril. O bebê gordinho, usando um macacãozinho azul, bateu as mãozinhas no peito da mãe ao ver Anya, soltando um balbucio agudo. — Ainda bem que você chegou. Chegaram três paisagens a óleo de um colecionador local. O verniz antigo está totalmente amarelado e craquelado. Estão lá na mesa de restauro do fundo.
— Bom dia, pessoal — Anya sorriu, deixando sua bolsa no armário e caminhando direto na direção de Helena. Ela estendeu os braços e Theo inclinou o corpo gordinho para ela sem hesitar. Anya o segurou no colo, sentindo o cheirinho gostoso de colônia infantil, e roçou o nariz na bochecha macia do bebê, fazendo-o soltar uma gargalhada banguela. — Oi, meu amor! Como está o homenzinho da galeria hoje? Ajudando muito a mamãe?
— Ele ajudou bastante a espalhar os catálogos novos pelo chão — Marcos brincou, levantando os olhos da tela. — Anya, dá uma olhada nessa paisagem depois. Acho que a remoção do verniz oxidado vai exigir uma mistura bem suave de álcool isopropílico e terebintina. Não quero que a camada pictórica original sofra.
Anya aninhou Theo com um braço e aproximou-se da mesa de análise, examinando as fissuras na tinta.
— O craquelado está profundo na área do céu, Marcos. Vou precisar usar cotonetes de algodão e trabalhar sob a lupa de bancada para garantir que nenhum pigmento se solte. Pode deixar comigo.
— Perfeito. Deixa o Theo comigo aqui no cercado que a Helena precisa fechar o contrato da exposição de primavera — Marcos disse, pegando o bebê do colo de Anya. Theo protestou de leve, puxando um fio do cabelo escuro de Anya antes de soltar.
Durante todo o dia, a vida de Anya era técnica, precisa e preenchida. Ela limpava molduras, removia fungos de telas antigas com pincéis de cerdas macias e organizava as obras nas paredes da galeria. Mas a sua mente, embora focada, guardava a energia para o que acontecia após o pôr do sol.
A Rotina Noturna: O Nascimento do Traço
Às oito da noite, a dinâmica mudava drasticamente. A casa da piscina dos Drake agora exibia uma identidade completamente nova. O chão de cimento queimado brilhava sob a resina fresca. Três grandes cavaletes de madeira maciça ocupavam o centro do espaço. Prateleiras de metal nas paredes organizavam tubos de tinta a óleo das marcas mais finas, potes de gesso acrílico para preparação, espátulas de metal, rolos e solventes. O cheiro de óleo de linsêde e aguarrás era o perfume oficial do lugar.
Anya trancou a porta de vidro do ateliê, isolando-se do mundo exterior. O som da noite e o coaxar distante dos sapos perto do jardim eram a sua única trilha sonora. Ela acendeu as luzes frias de LED, que banharam o espaço em uma claridade perfeita, sem sombras distorcidas.
Pela primeira vez em cinco anos, ela não ia consertar a arte de outra pessoa. Ia criar a sua própria.
Ela parou diante de uma tela em branco imensa, de 1,50m por 1,20m, esticada no cavalete principal. Anya segurava uma palheta de madeira oval e um pedaço de carvão vegetal crú entre os dedos manchados. Ela fechou os olhos por um longo minuto, deixando que as imagens que guardara no peito finalmente fizessem o caminho até o braço.
Quando abriu os olhos, o traço começou.
Os movimentos de Anya eram fluidos, viscerais e decididos. O carvão riscou o tecido de algodão crú com um som seco. Ela não estava desenhando o rosto de Jace, e nem o rosto de Derick. Ela estava pintando a abstração dos seus próprios sentimentos. O esboço que surgia na tela mostrava linhas dinâmicas que pareciam uma estrada sinuosa, formas pesadas que lembravam a opressão de uma estrutura de concreto, mas que, na parte superior, abriam-se em pinceladas largas que sugeriam uma revoada de pássaros ou feixes de luz cortando a névoa.
Ela misturou os primeiros pigmentos na paleta: azul-cobalto, branco de titânio e um toque sutil de preto de marfim, criando um tom de penumbra azulada que lembrava o silêncio daquela cozinha na madrugada anterior. Com um pincel largo de trincha, ela começou a aplicar a tinta a óleo na tela, os traços fortes cobrindo o branco do tecido.
Anya trabalhava sozinha, no mais absoluto silêncio. Cada pincelada era uma resposta ao gelo que Derick demonstrara na cozinha. Ela sentia a atração que ele acendera nela se transformar em cor, em textura, em relevo na tela. O ateliê era o seu confessionário. Ali, entre o cimento e a tinta fresca, Anya Drake começava a pintar a sua própria reconstrução, ciente de que cada linha daquela nova fase estava irremedivelmente ligada ao homem que morava nos fundos da casa dos Laurentis.
Fale com o autor