A batida do coração
1 Linhas Cruzadas
O quarto de Jace sempre teve o reflexo exato da personalidade dele: uma bagunça organizada, pôsteres de bandas de rock nas paredes e o perfume cítrico que Anya conseguia reconhecer de olhos fechados. Naquela noite de sexta-feira, os olhos dela estavam de fato fechados, mas não pelo perfume.
Anya sorriu entre um beijo e outro, as mãos enredadas nos cabelos loiros de Jace enquanto ele a puxava para mais perto, o corpo dele pesando suavemente sobre o dela na cama de solteiro. Eles namoravam há dois anos, mas a intensidade ainda era a mesma do primeiro dia. Jace distribuiu uma trilha de beijos pelo pescoço dela, fazendo-a rir baixinho, uma risada abafada contra o ombro dele.
— Jace, a sua mãe... — Anya sussurrou, tentando manter um pingo de juízo, embora suas mãos estivessem firmes na cintura dele.
— Minha mãe está lá embaixo terminando o jantar com o meu pai, e eles sabem que você está aqui. Relaxa — Jace murmurou contra a boca dela, com aquele sorriso confiante de dezenove anos que sempre a desarmava.
Ele voltou a beijá-la com mais urgência. Anya se entregou ao momento, esquecendo o mundo do lado de fora daquela porta. A blusa dela já estava meio aberta, e o calor no quarto começava a subir quando, de repente, a maçaneta girou.
Não houve um aviso. Não houve três batidas corteses. Apenas o clique seco da fechadura e a porta se abrindo.
Anya congelou instantaneamente. Jace soltou um resmungo de frustração, jogando o corpo para o lado para cobrir Anya de relance, enquanto ela, num reflexo rápido, puxava a coberta até o pescoço, o rosto queimando em um tom vivo de vermelho.
Parado no portal, com uma expressão que misturava tédio e uma sutil reprovação, estava Derick.
Aos 21 anos, o irmão mais velho de Jace parecia carregar uma aura de seriedade que não combinava com o ambiente universitário. Ele usava uma camisa escura bem alinhada, os braços cruzados, e os olhos escuros passaram por Anya e Jace sem demonstrar um pingo de constrangimento.
— Existe uma coisa chamada 'bater', Derick — Jace disparou, a voz alterada pelo susto e pela irritação, sentando-se na cama com os cabelos bagunçados.
— Existe uma coisa chamada 'trancar a porta' se vocês pretendem agir como adolescentes no cio — Derick respondeu, a voz perfeitamente calma, profunda e arrastada. Ele sequer piscou. — Minha mãe mandou avisar que o jantar está pronto. O pai já se sentou à mesa. Ela quer os dois lá embaixo em dois minutos.
Os olhos de Derick finalmente focaram em Anya por um segundo inteiro. Não havia desejo ali, apenas aquela barreira fria que ele sempre erguia perto dela. A antipatia mútua entre os dois era quase palpável no ar.
— Já estamos descendo — Anya disse, tentando manter a voz firme, apesar do coração disparado no peito e da humilhação de ter sido pega naquele estado pelo cunhado.
Derick apenas assentiu uma vez, deu meia-volta e fechou a porta atrás de si com a mesma precisão militar de sempre.
— Que cara insuportável — Jace resmungou, jogando a cabeça para trás no travesseiro antes de olhar para Anya. — Você está bem? Desculpa por isso. O Derick se comporta como se fosse o dono da casa só porque é o mais velho.
— Tudo bem... — Anya mentiu, arrumando a blusa com os dedos trêmulos e descendo da cama. — Mas ele tem razão em uma coisa. Precisamos descer. Seus pais estão esperando.
Minutos depois, após uma checagem rápida no espelho para garantir que o batom não estava borrado, Anya e Jace desceram as escadas de braços dados.
Na sala de jantar, a atmosfera era acolhedora. Paola Laurentis sorriu calorosamente ao ver a nora, arrumando os pratos na mesa, enquanto Carlos Laurentis erguia os olhos do tablet, oferecendo um aceno generoso. Como filha única de Rose e Arthur Drake, Anya às vezes achava a casa dos Laurentis barulhenta e cheia de vida, o que ela adorava.
O único ponto de tensão era a cabeceira oposta. Derick já estava sentado, servindo-se de água em silêncio. Ele era o oposto do temperamento solar de Jace; era o rapaz na dele, focado, que preferia observar a interagir.
— Querida, que bom que veio hoje! — Paola disse, aproximando-se para dar um beijo na bochecha de Anya. — Fiz aquela lasanha que você gosta.
— Obrigada, dona Paola. O cheiro está maravilhoso — Anya respondeu, sentando-se na cadeira que Jace puxou para ela.
Jace sentou-se ao seu lado, logo em frente a Derick. Durante o início do jantar, a conversa fluiu fácil entre Carlos, Jace e Paola, falando sobre a faculdade e os planos para o final de semana. Anya participava, rindo das piadas do namorado, mas, de vez em quando, seu olhar cruzava a mesa.
Derick comia em silêncio, cortando a comida com precisão, alheio à conversa. Mas em um momento específico, quando Jace segurou a mão de Anya por cima da mesa e a beijou, Anya olhou para frente. Derick ergueu os olhos do prato no mesmo instante. O olhar dele era firme, ilegível, mas carregado de uma intensidade que fez o estômago de Anya dar um nó estranho.
Ela desviou o olhar rapidamente, apertando a mão de Jace, sem ter a menor ideia de que aquela estranheza entre ela e o cunhado estava prestes a se tornar a única coisa que restaria no seu mundo.
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