A batida do coração

17 A Inércia da Chuva e o Gelo Sob a Superfície



​A promessa de visitar Paola Laurentis antes de retornar à Inglaterra pesava nos ombros de Anya como uma dívida antiga. Na tarde de quinta-feira, ela caminhou até a familiar casa de portão de ferro fundido. O dia correu em um ritmo agridoce; Anya passou horas sentada à mesa da cozinha com Paola e Carlos, dividindo um bolo de fubá e xícaras de café que pareciam aquecer a alma. Eles riram lembrando das travessuras de Jace na infância e choraram baixinho ao folhear os álbuns de fotografias que agora repousavam na sala de estar. Havia uma paz madura ali. Anya sentia que, para os pais de Jace, ela ainda era o último elo vivo com a juventude do caçula.

​Porém, o clima da cidade parecia insistir em ditar o destino das histórias que se escreviam ali. Por volta das seis da tarde, o céu escureceu abruptamente e uma tempestade torrencial desabou, alagando as avenidas próximas e tornando o trânsito da cidade um caos intransitável.

​— Nem pense em sair com essa chuva, Anya — Carlos decretou, olhando pela vidraça embaçada da sala. — As ruas lá embaixo estão intransitáveis. O quarto de hóspedes está limpo e arrumado. Você fica aqui esta noite.

​Anya hesitou, o estômago contraindo-se em um nó sutil de ansiedade. Ela sabia que Derick ainda morava no chalé dos fundos do terreno, embora fizesse as refeições principais na casa grande. A ideia de passar a noite sob o mesmo teto que ele, após o confronto doloroso na boate, parecia um jogo perigoso com o destino. Mas, diante da insistência carinhosa de Paola, ela assentiu e aceitou o abrigo.

​O Encontro na Penumbra

​Por volta das duas da madrugada, o som da chuva batendo contra as telhas tornou-se uma constante hipnótica, impedindo Anya de pegar no sono. Vestindo uma calça de moletom escura e uma camiseta simples de algodão que trouxera na bolsa, ela saiu do quarto de hóspedes descalça. Seus passos não faziam barulho no assoalho de madeira enquanto ela descia as escadas em direção à cozinha, impulsionada por uma sede persistente.

​A cozinha estava mergulhada em uma penumbra azulada, cortada apenas pela luz fraca e amarelada que vinha de dentro da geladeira aberta.

​Derick estava ali.

​Ele vestia apenas uma calça de moletom cinza, com o peito largo e despido exposto à luz fria do eletrodoméstico. Ele segurava uma jarra de vidro com água na mão direita e um copo na outra. Ao ouvir o sutil ranger da última etapa da escada, ele não se assustou. Apenas fechou a porta da geladeira com o cotovelo, mergulhando o ambiente de volta na escuridão suave da noite, e serviu o copo em silêncio.

​Anya parou na entrada da cozinha, os braços cruzados sobre o peito para se proteger do ar condicionado frio do ambiente. O impacto visual de ver a solidez do corpo dele, os ombros largos que um dia a ampararam no pior luto, fez seu pulso acelerar de forma involuntária.

​— Desculpe — Anya quebrou o silêncio, a voz saindo em um sussurro rouco. — Não queria te assustar. Só vim pegar um copo d'água.

​Derick deu um gole lento na água, os olhos escuros fixando-se nela através da penumbra. A suavidade e o desespero que ele exibira na boate haviam sumido por completo. Em seu lugar, a máscara de frieza profissional e distância milimétrica estava perfeitamente ajustada. Ele agiu como se estivesse lidando com uma desconhecida em seu escritório.

​— Não assustou — ele respondeu, a voz plana, gélida e desprovida de qualquer emoção. Ele caminhou até o armário, pegou um copo de vidro limpo e o colocou sobre a bancada de granito, empurrando-o sutilmente na direção dela. — Pode se servir.

​Anya deu alguns passos para a frente, sentindo a frieza do piso de cerâmica sob os pés descalços. Ela pegou a jarra de vidro e encheu o copo, tentando manter os dedos firmes para que o vidro não tilintasse contra o granito.

​— Sua mãe me disse que você tem trabalhado até tarde — Anya tentou puxar assunto, incomodada com a barreira de gelo que ele erguera entre os dois.

​— O volume de contratos da empresa exige isso — Derick retrucou imediatamente, sem olhá-la nos olhos, mantendo o foco no próprio copo. — Alguém precisa manter as coisas funcionando por aqui.

​A crueza da resposta foi como um tapa sutil. Ele não estava apenas sendo profissional; ele a estava tratando com a mais pura indiferença, aplicando o afastamento que ela própria havia exigido na boate. Ele havia aceitado o fim, e aquela aceitação vinha com o preço do gelo.

​A Atração do Proibido

​Anya deu um gole na água, sentindo o líquido descer frio por sua garganta, mas seu corpo parecia queimar por dentro. Havia algo intensamente magnético na forma como Derick a ignorava. O desdém dele, a postura ereta e a musculatura tensa das costas enquanto ele se apoiava na bancada de costas para ela começaram a exercer uma força gravitacional bizarra em seu peito.

​Pela primeira vez em cinco anos, Anya não sentiu culpa por Jace. Ela sentiu desejo por Derick. Um desejo puro, animal e sufocante pelo homem que estava a poucos centímetros dela, mas que parecia estar a quilômetros de distância. Ela olhou para as linhas fortes do pescoço dele, para a cicatriz sutil que ele tinha perto da clavícula, e sentiu uma vontade avassaladora de dar o passo que faltava, de quebrar aquele gelo com o calor de suas mãos.

​— Derick... você não precisa falar comigo como se eu fosse um cliente da sua firma — ela disse, a voz saindo um pouco mais baixa, carregada de uma intensidade nova que fez os ombros dele tensionarem visivelmente.

​Derick colocou o copo lentamente sobre a bancada. Ele se virou de frente para ela, os olhos escuros brilhando na penumbra da cozinha. Ele não se aproximou, mas a presença dele preenchia todo o espaço entre as paredes.

​— Você me pediu espaço, Anya. Me pediu para deixar o tempo acabar e me libertar — ele disse, a voz saindo num tom baixo e arrastado, que fez o estômago dela revirar. — É exatamente isso o que estou fazendo. Estou te dando a distância que você cruzou o oceano para conseguir. Algum problema com isso?

​Anya engoliu em seco, o olhar descendo involuntariamente para os lábios dele antes de voltar para os seus olhos. A tensão no ar era tão espessa que o barulho da chuva lá fora parecia ter silenciado. Ela queria que ele avançasse, queria que ele quebrasse a própria promessa de frieza e a puxasse para si, mas Derick permaneceu imóvel, como uma estátua de mármore escuro, testando os limites do controle dela.

​— Não... nenhum problema — ela mentiu, a voz falhando sutilmente, os dedos apertando o copo de vidro com força para não demonstrar o tremor.

​— Ótimo — Derick disse, a palavra saindo cortante. Ele pegou a jarra de água, guardou-a de volta na geladeira e caminhou em direção à porta da cozinha que dava para o quintal dos fundos. Antes de sair para a área coberta que levava ao seu chalé, ele parou por um segundo, olhando-a de soslaio sobre o ombro. — Apague a luz quando terminar. Boa noite, Anya.

​A porta de vidro correu e se fechou com um clique seco, deixando apenas o som da chuva e a penumbra azulada na cozinha.

​Anya soltou o ar que nem percebera que estava segurando, apoiando as duas mãos na bancada de granito para não cair. Suas pernas pareciam de algodão, e o coração batia em um ritmo frenético e desordenado no peito. Ela olhou para a porta por onde ele saíra, sentindo o gosto amargo da frieza dele, mas, acima de tudo, a certeza avassaladora de que o gelo de Derick havia acendido um fogo dentro dela que nenhuma chuva seria capaz de apagar. Ela voltou para o quarto de hóspedes em silêncio, ciente de que as cartas do jogo haviam virado, e que agora... era ela quem corria o risco de se perder no escuro por ele.