Durante um breve período, quase no fim do século, um grande episódio aconteceu na Terra, uma sequência de eventos normalmente separada por mil anos que poderia definir tanto o avanço quanto o fim da raça humana. Em questão de poucos meses diversas batalhas épicas ocorreram, sem que o mundo soubesse o perigo que elas traziam e muito menos cientes daqueles que lutavam para proteger a humanidade. Talvez você tenha vivenciado um ou outro reflexo dessa eterna luta celestial sem realmente entender seu significado, nada seria explicado ao “mundo externo”, mas em algum lugar da Grécia essas histórias são contadas e recontadas, talvez até ganhem status de lendas ou mitos, mas nunca serão esquecidas; esse breve e despercebido capítulo, que ocorreu entre duas grandes batalhas, será relembrado agora...

Em toda a Terra a calamidade em forma de chuva torrencial parecia chegar ao fim. Nem meteorologistas, nem videntes, do cético ao crente, a única explicação para o fenômeno seria aceitar que a chuva vinha não só dos céus, mas sim dos deuses. Porém, da mesma forma que seu início não tinha lógica, seu fim veio sem explicação dez dias depois; a humanidade logo esqueceria aquilo e voltaria para sua rotina, cometeria pecados, até mesmo desafiaria deus; e a água que tocou fundo em suas almas escorreria pela mãe-gaia que serve à todos os seres terrestres.
No Santuário, local sagrado onde repousa a deusa Atena protegida por seus cavaleiros o momento é de reagrupar, curar as feridas e aceitar as perdas por um bem maior. Desfalcado, o grupo de elite dos cavaleiros se concentrava no Santuário presos às ordens do Mestre temporário, sem exatamente saber o que os aguardava nos próximos momentos. Os Cavaleiros de Prata, logo abaixo na hierarquia, faziam o patrulhamento de diversos pontos em toda a Grécia enquanto os guerreiros de Bronze, feridos após feroz luta contra Poseidon, descansavam longe dali.
Nos Cinco Picos de Rozan o velho mestre lia as estrelas tentando antecipar os próximos movimentos; o cosmo de Hades já pertencia novamente a este mundo e, ainda que não tivesse adquirido forma física, sua mera presença era suficiente para despertar seus guerreiros e até mesmo outras ameaças esquecidas. Uma estrela se apaga no meio do céu consumida pela vontade de algo muito maior, um cosmo desce à Terra, ainda que apenas uma porção do original seu poder, mas uma força que pode causar um estrago enorme. Dohko não pode se mover até a hora certa, ainda que temendo pela segurança de Atena e contando apenas com a sorte, tem fé de que o Santuário não será invadido tão facilmente, pois sabe que a deusa pode contar com outros aliados, ainda que inesperados.
A noite decorria mais fria do que o normal, mas não tirava o ânimo dos cavaleiros que guardavam a entrada do Santuário, ainda que, agora se valendo da proteção de Atena, eles duvidassem que algo pudesse acontecer naquela noite. Alguns quilômetros dali uma figura de cosmo familiar buscava no local inóspito entre o céu e o mar as respostas para tantas dúvidas em sua cabeça. Imóvel encarando as estrelas sentiu uma movimentação às suas costas, rapidamente virou-se sem enxergar nada de anormal. Das sombras que brotavam de seus pés, formadas pela luz da lua, sentia um formigamento subir pelas suas pernas, tinha vontade de correr dali até que seus membros se desfizessem. Sentiu um sopro de vento na nuca, os pelos se arrepiaram, seu cosmo estava sendo reprimido, puxado para fora do corpo, uma gota de suor brotou de sua testa, escorreu pela face e pingou, o silêncio tão grande permitiu que ele ouvisse ela se chocar contra a terra. Um grunhido rouco lhe trouxe de volta num susto, seu coração disparou e sentiu o corpo ficar tenso, como se o tempo voltasse a fluir. O guerreiro caminhou para longe da borda do desfiladeiro chegando próximo às ruínas dos templos antigos, avistando uma figura sombria envolta num manto negro ao centro do pátio interno, o rosto encoberto pelas sombras como um buraco negro que suga tudo ao seu redor.

— Você é aquele que tentou manipular um deus; aquele que segue a ira e o desejo de vingança em seu coração, você também faz parte de mim!
— Eu não sou mais aquele; a deusa Atena purificou minha alma, não sou mais um servo das sombras!
— Eu sei quem você é, quem pode se tornar. Seu destino está definido desde o seu nascimento, indesejado. Você é a personificação do mal, você é a metade asquerosa de seu irmão virtuoso, você também está destinado a matar um deus!
— Fui abençoado pela grande bondade de Atena e ainda que ela não me aceita ao seu lado minha missão será protegê-la a qualquer custo!

O jovem agora envolvido por um cosmo brilhante estava determinado a enfrentar o que fosse para cumprir seu objetivo, mesmo que significasse sua vida. A pressão vinda da figura negra aumentou, os cosmos se chocavam em ondas seguidas. O manto sumiu aos poucos, engolido por uma força que expandia e sugava o ar ao seu redor. No centro nada havia além das trevas. O cosmo começou a tomar forma, materializou-se na imagem de uma mulher jovem e muito pálida coberta por uma toga que deixava transparecer sua silhueta.

— Quem é você, afinal?
— Esperava que se ajoelhasse aos meus pés, humano! Sua arrogância parece não conhecer limites! Sou a filha da noite, a vingança que você não teve capacidade de concluir, sou Nêmesis.

A voz era suave, porém firme. O rapaz tentava controlar seus braços que teimavam em tremer. O cosmo na sua frente o lembrava de certa forma o de Poseidon, divino acima de tudo. Nêmesis personificava uma das facetas do próprio Érebo — a escuridão. Por mais que seus poderes estivessem muito enfraquecidos seus servos ainda podiam ser muito poderosos.

— Entendo. Não pense que vim aqui por você. Hades despertará a qualquer momento e meu senhor está muito interessado no resultado de sua batalha contra as forças de Atena.
Hades? Hades despertará?! Então os Cavaleiros de Ouro...
— Seus preciosos cavaleiros de alguma forma devem estar esperando por isso. Claro, os dois lados saindo destruídos nessa luta seria o cenário ideal, mas talvez eu precise dar uma mãozinha para que as coisas aconteçam conforme planejamos...
— Eu não permitirei! Não importa, que seja Hades ou o próprio Zeus, eu defenderei Atena até o fim!

O cosmo do rapaz se intensificou, aumentando a cólera da deusa. Com um movimento da sua mão direita ela convocou as sombras, que agora fluíam pela sua pele e formavam uma proteção que lhe circundava os membros em formas espirais. Uma placa protegia o torso e realçava o formato dos seios, das costas pendiam asas como as de um anjo e na cabeça uma tiara segurava os cabelos, completando a elegante armadura negra como ônix, acentuando sua beleza mortal.

— Você não mudará o rumo dessa guerra, humano, mas há algum tempo venho querendo puni-lo por seu atentado contra os deuses. Sinta a vingança divina, Kanon de Gêmeos! Roda da Fortuna!

Ao proferir tais palavras e com um movimento da mão esquerda a deusa lançou seu cosmo para cima do guerreiro, que sentiu seu corpo ser lançado ao espaço, puxado e empurrado, esticado e comprimido pela escuridão, até que sentiu o baque das costas contra o chão. Estava de volta ao mesmo lugar, porém sentia seu cosmo se esvair junto com o sangue que escorria da ferida no meio de seu peito, feita pelo tridente de Poseidon e reaberta pelo golpe. Ele levantou com dificuldade e ficou atônito ao ver seu sangue correndo para as sombras e formando novas figuras.

— Agora você sentirá a sua própria fúria, seu medo tomando forma somente para lhe destruir.

As figuras tinham formas humanas em armaduras negras, Kanon as reconhecia, pois não só se tratavam das personificações do terror, mas sim das suas próprias falhas como humano. As figuras convocadas eram Apate, Éris e Queres, as piores faces do seu “eu” interior; na mitologia eram, respectivamente: “o engano”, “a discórdia” e “a morte violenta”, abstrações de Érebo, mas ali eles eram guerreiros prontos para destruí-lo. Kanon elevou seu cosmo preparado para os golpes que viriam. Num piscar de olhos as três figuras avançaram mas foram barradas por uma luz dourada que pairava por sobre as ruínas: a armadura dourada de Gêmeos surgiu para defender a outra parte de seu ser e o novo protetor da constelação. A estátua cobriu o corpo de Kanon, ressonando com seu cosmo dourado que se estendia por toda o Cabo Sunion. Com um golpe certeiro ele rasgou em dois a figura de Éris.

— Finalmente minhas dúvidas desapareceram. Ainda que no futuro eu tenha que pagar pelos meus erros, agora minha única preocupação é ir em frente para onde o coso de Atena me guiar!

Com mais um golpe ele despachou Apate novamente para as sombras. Queres correu em sua direção transformando-se numa besta capaz de devorar qualquer vida de forma cruel. O cavaleiro desenhou com a mão um triângulo no ar e seu cosmo abriu uma fenda que engoliu a fera, transportando-a para outra dimensão qualquer longe dali. Nêmesis desferiu novamente o golpe em Kanon, que prontamente plantou firmemente os pés no chão e contra-atacou com seu golpe mais poderoso – Explosão Galáctica!

— Não se deixe enganar, humano! Sua vida na Terra é temporária e sua força ínfima comparada aos deuses. Aproveite seu momento enquanto pode, logo a escuridão tomará conta de toda a humanidade!

A deusa atingida dispersava-se nas sombras enquanto seu cosmo retornava ao Tártaro. Kanon, trajando o símbolo máximo das forças de Atena, com vontade resoluta e coração determinado, jurou que daria a vida para proteger a Terra, pois era um dos Cavaleiros de Atena.

Notas finais
Tentei criar um prólogo para uma história maior que ainda posso escrever (ou não), mas sempre me baseando somente no mangá. Inimigo potencialmente mais poderoso que Hades e muita mitologia!
Aceito comentários e parcerias para levar a ideia adiante.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!