A ascensão da noiva amaldiçoada
5 Um chamado do destino
Notas iniciais
Poseidon
Deitado na cama, mergulhei em pensamentos sobre aquela jovem mortal. Sua beleza era inegável, despertou até mesmo desejos perversos em mim. Mantinha uma postura fria, não expressava nenhum sentimento positivo, me deixando intrigado.
Por que ela me tratava com tanta indiferença? Não quero acreditar que seria o fato de ser um deus.
— Deveria se sentir sortuda por despertar a atenção de um deus tão poderoso como eu. — Não deixaria aquela desonra passar despercebida, isso era certo. Afinal, nenhuma criatura, mortal ou não, deveria subestimar a grandeza de meu poder.
Estava com fome, mas não queria comer, apenas descansar. Os últimos dias haviam sido intensos e desgastantes, e uma pausa era mais do que necessária.
O verdadeiro desafio não estava na busca pela joia, mas sim nas criaturas que assolavam os mortais. O terror se espalhou por toda a Grécia, sem que os deuses pudessem explicar suas origens.
A única sorte é o véu que esconde o mundo divino, mas, com certa frequência, mais mortais conseguiam enxergar além dele. O que dificultava segurar os murmúrios de guerras e monstros.
Hoje, Zeus e Hades viriam me visitar, provavelmente com os mesmos discursos.
Insistiam que eu deveria deixar de ser afobado e amar. Apesar de possuir meios para satisfazer minha vontade, o amor verdadeiro permanecia como um conceito estranho e distante da minha realidade.
As mulheres são surpreendentemente fascinantes, capazes de envolver e seduzir com um simples olhar, além de seduzirem com o movimento gracioso de seus corpos. Entendem como utilizar sua habilidade em manipular as emoções. Mas, seria possível alguém me amar?
Aquela jovem afirmou que a culpa pelas tragédias de sua família recai sobre mim. Por que senti o impulso de consolar seu choro, de suavizar sua dor? Por que ela conseguia me deixar irritado e calmo ao mesmo tempo?
Resolvi deixar e permanecer só, ficar isolado no silêncio de meu quarto era a melhor opção.
*****************
Acabei dormindo, desejando descobrir mais sobre ela. Seu nome, sua história, seus segredos...
Percebi que, após me encontrar com ela, não tinha desejo por Enna, como se meus pensamentos estivessem inteiramente consumidos pela presença daquela mortal.
Acordei e andei pelo corredor até a sala central do palácio, os guardas, embora sem olhos, pareciam acompanhar meus passos. A porta da câmara da joia estava aberta.
A joia ainda jazia em seu local, mas com um brilho diferente do azul, era negro e sua cor parecia sugar a vida. No chão, nos pés do pedestal, estava ela, a mesma garota da praia, a garota que ousou me enfrentar.
Me aproximei devagar e abaixei para olhar, notei plumas e escamas no chão, estava em um sono profundo, passei a mão em seus cabelos sedosos e ela acordou.
Não consigo lembrar de muita coisa, fora apenas um sonho. Batidas pesadas na porta me acordaram. Se foi sonho, ou premonição, ainda terei de descobrir.
A brisa que entrava pela janela tinha aquele cheiro de água salgada, e uma forte dor de cabeça começou a me incomodar.
— O que foi? — gritei da cama, as batidas me deixaram assustado.
A porta se abriu lentamente e Luara estava parada, um pouco surpresa. Quando percebi ser ela, me acalmei e me levantei.
— Desculpe, pensei que fosse Enna. — Abracei ela e um sorriso se formou em seus lábios já marcados pelo tempo.
— Senhor Poseidon, Zeus e Hades chegaram — afirmou e me deixou sozinho.
Olhei ao redor do quarto vazio, sentindo a solidão. Peguei o tridente e segui até o jardim. Ele tinha uma beleza única, flores brancas e rosas azuis enchiam o ar com uma fragrância doce e suave. Existia uma fonte esculpida em mármore branco que jorrava água cristalina. Ao redor, havia bancos de pedra. Uma mesa grande estava posta no centro, com uma variedade de pratos, desde iguarias marítimas até doces.
Zeus brincava com os peixes na fonte, enquanto Hades, sentado em uma cadeira próxima, observava que deveria estar em seus devaneios. Notei ele mais feliz desde seu casamento com Perséfone. Ou melhor, Nikaia, afinal ela preferia ser chamada por seu nome mortal.
O senhor do Olimpo usava um manto branco e os cabelos longos e claros imitavam a neve. Ele era jovem. Os mortais diriam que teria entre vinte e cinco ou no máximo trinta anos, a imortalidade fazia bem a qualquer deus. Seus olhos azuis sempre estiveram observando a humanidade.
— Poseidon. — Hades se levantando, pareceu animado ao me ver. Estava apenas apreensivo pela visita, que não me venham perguntar de mulheres.
— Ei, irmão, como vai você? E como está Nikaia? Pensei que já estivesse com uma criança correndo por aí a essa altura. — brinquei. Hades ficou corado.
— Nikaia está muito bem, animada com a festa que irá dar nos Elísios. — explicou. — Está me deixando maluco, e não, Poseidon, ainda não estamos esperando filhos. Então, pare com suas gracinhas.
— Ela é encantadora, tem sorte. — acrescentou Zeus, entrando na conversa.
Outro que não tinha moral, preferindo esconder coisas ou nos deixar resolver tudo enquanto ele relaxava no trono.
— E você? — O senhor do submundo me encarou. — Está se divertindo ou encontrou alguém para ocupar o coração?
Sabia que não conseguiria escapar dessa conversa boba, então tentei mudar de assunto. Desde o incidente com Hades, essas brincadeiras comigo se tornaram frequentes.
— Enna tem cuidado de satisfazer minhas necessidades, Hades. Ainda não encontrei ninguém, e acho que é improvável. Por que sempre voltamos a esse assunto? — omiti o encontro com a jovem na praia.
Eles pareciam duas crianças, e eu tinha tantas outras preocupações em mente. Agora, era o alvo das piadas.
— Enna, aquela garota. — disse Zeus, fazendo um gesto com as mãos se referindo aos seios volumosos dela.
Acabei rindo, pegando uma das taças douradas da mesa e enchendo com vinho. Beber parecia a melhor solução.
— Bem, posso dizer apenas uma coisa, satisfação não é tudo. — argumentou Hades.
Olhei sério para ele. Tudo bem que satisfação não era tudo, mas, por enquanto, era o suficiente para mim. Raramente eles vinham me visitar e quando vinham…
— Falou o deus que não se envolvia com mortais para se satisfazer e odiava a humanidade. — retruquei e Zeus abaixou a cabeça, não resisti e precisava comentar.
— Poseidon, fique quieto. — pediu Hades, enquanto soltava uma risada. Ele claramente não gostava de remexer no passado, mas eu não conseguia deixar de provocá-lo.
— O que os traz ao grande palácio marinho? — indaguei, servindo mais vinho.
Estava na hora de descobrir o motivo de sua visita. Que não seja apenas sobre mulheres, pois se fosse, seria obrigado a tomar atitudes bruscas.
— Ouvi falar dos ataques de monstros nos portos. Muitos homens do exército de Ares, inclusive os meus próprios, estão sendo mortos. — explicou o senhor do submundo com uma expressão séria.
Os ataques. Todos desejavam uma solução, uma forma disso parar. A vida dos mortais era preciosa demais para ser perdida.
— Acredito que tenha a ver com Gaia. Ela não anda nada satisfeita em seu confinamento no Tártaro. — acrescentou Zeus. — Suspeito que o pior esteja por vir. Desde que Cronos foi selado, mantenho um olhar atento.
Balancei a taça, observei o vinho dentro se movimentando devagar. Atento ou alheio? Vou ponderar dizer algo, pois estou em desvantagem.
— Gaia não deveria ter poder algum, isso é um fato. A energia dela foi drenada. — argumentei, balançando o tridente no colo.
— Vamos ter de reforçar as orlas. — Hades parecia preocupado, sei que esse assunto envolvia a joia e também a vida de seus soldados e os olimpianos.
— A joia carregava parte da energia de Gaia e foi roubada, se caiu em mãos erradas, Poseidon, não podemos mais confiar. — informou o rei do Olimpo de forma séria, realmente agora ele pensava nisso?
Passei a mão pela cabeça. Será que novamente iriam me culpar pelo ocorrido?
— Certo, mas como podemos encontrar a joia se nem sabemos onde está? Um de meus homens está investigando uma ilha, ouvi rumores de que ela foi roubada de quem me roubou. — comentei, um pouco desanimado. Esperava que as notícias fossem favoráveis, mas…
— Roubo? Espero que encontrem a joia e que isso não passe de especulação. Não podemos nos dar ao luxo de cometer erros. — disse Zeus, notei sua frieza.
Desejavam jogar toda a culpa em mim, mas não tinham ideia do que fazer. Se eu soubesse como agir, já teria tomado as providências. Eles falavam como se nunca tivessem errado em suas existências.
— Você sabe que procuro incansavelmente, Zeus. Acha que fico aqui de braços cruzados, me deleitando com os mortais? Por favor, me respeite. — Pedi, e vi Hades se encolher na cadeira, bebendo vinho sem tomar partido.
Dessa vez, era eu quem estava confrontando o senhor dos raios. Se ele não tomará partido por mim, então eu também não tomarei por ele.
— Acharei a joia e então terá as respostas que tanto procura. — Bati o tridente no chão com firmeza.
As águas se agitaram, senti os ventos começarem a ficar mais fortes. Zeus me irritou, aqui era meu domínio e ninguém ia tirar isso de mim.
— Parem os dois. — gritou Hades, interrompendo a discussão. — Que palhaçada é essa? Vocês não conseguem ter uma conversa civilizada?
Zeus parecia estar estressado ultimamente. Hades nunca fora de gritar ou de tentar apaziguar os ânimos, mas dessa vez ele parecia ter perdido a paciência.
— É sério? Não vou nem responder — revidei, percebendo que o humor daquela reunião estava longe de acalmar.
Zeus se levantou e abriu um portal até o Olimpo. Estava visivelmente nervoso, não disse qualquer palavra. Hades, por sua vez, acenou com a mão antes de abrir outro portal que o levou diretamente ao submundo. Cada um tinha seus próprios problemas, e eu os meus. Parentes às vezes são insuportáveis.
Pensavam em Gaia. Duvidava que fosse ela. Certamente havia algo mais, alguma outra entidade tentando usurpar meu poder.
***************
Permaneci observando as crianças brincarem na fonte. Eram filhos dos soldados que guardavam o palácio. Permiti que vivessem aqui, ao menos estavam próximos de seus pais, e eu não me sentia tão solitário.
O tridente começou a cintilar em minhas mãos. Apertei com firmeza, enquanto uma voz doce ecoava em minha mente. Era a mesma voz da garota na praia. Estaria orando para mim? Surpreendente atitude da parte dela, devo admitir.
Grande Poseidon, senhor dos oceanos e protetor dos marinheiros,
Hoje, humildemente, me coloco diante de ti para buscar perdão e orientação.
Reconheço minhas falhas e erros, e peço sinceramente desculpas por qualquer ofensa que possa ter cometido.
Imploro pela tua misericórdia e compreensão enquanto busco ajuda em uma questão tão importante.
Peço tua ajuda para encontrar o artefato perdido, sua joia preciosa, pois sei que os piratas lhe roubaram e acho que posso ajudar.
Que tuas ondas sejam gentis e guiem meu caminho.
Aceito humildemente teu julgamento e prometo agir com gratidão e reverência diante de tua grandeza. Mas, por favor, me ajude.
Que assim seja.
Ela repetiu suas orações pela terceira vez e, finalmente, decidi atender. Um estalo de dedos foi suficiente para surgir ao seu lado. Estava nas piscinas de rochas, os pés mergulhados na água cristalina. Seus cabelos loiros e longos caíam delicadamente pelas costas, formando leves ondulações, sentia o peso de seu olhar.
O ódio era claro, mesmo que me pedisse algo, sei que não de seu agrado.
— Pensei que não quisesse me ver. Você mencionou a joia, como sabe? — Balancei o tridente, notei que ela abaixou a cabeça, talvez pensando que era uma honra ter um deus como eu em sua presença. Gosto disso.
— Se eu lhe disser que sei onde está sua pedra... — começou, confesso que uma ponta de esperança surgiu. Era o que precisava.
— Continue. — pedi me aproximando de seu ouvido, senti seu perfume, adocicado, me lembrava baunilha e ao fundo uma leve fragrância de rosas. — Como você saberia onde esta, garota solitária? Ou melhor, leoazinha?
Sua expressão ficou confusa, acho que consegui sua atenção. O apelido que lhe dei deu certo.
— Os piratas me contaram que roubaram a pedra de você, e meu pai a roubou deles para lhe devolver. Mas depois dos problemas, ele a escondeu e, infelizmente, morreu. Isso eu já te contei. — Admirava seus lábios, gostaria de tomar sua boca, ouso dizer que ela tinha me excitado.
Senti seu corpo se afastar, precisava ir com calma. Uma mulher como assim é difícil de se achar. Bela, ousada e acima de tudo rebelde como gosto.
— Ou eles estão mentindo, ou você.
— Não estou mentindo. — retrucou.
Não queria mostrar a ela nenhuma reação. Estava feliz pelas informações, mas se talvez me fizesse difícil como ela desse mais resultado. Devagar tentei me aproximar e a tocar, percebi que tremia um pouco. Estava nervosa, nem com mortais pareço lidar. A sensação que ela me dava, estava sendo um problema.
— Falaram aos meus homens que estava em uma ilha, e que tinham vendido ou perdido. — contei, omiti a informação do roubo, o que ela me disse deu a certeza de que seu pai a pegou, passei a mão em seus cabelos, eram tão macios e sedosos.
Sua mão apertou a minha e a afastou, não queria ser tocada, seria um desafio. Mulheres não me rejeitam como ela, não entendo a forma que me trata. Não lhe fiz nada.
— Continue pensando assim. Você é realmente um tolo. — Não resisti a tal insulto e puxei seu braço.
— Não sou tolo. Quando eu agir, você saberá. Entendeu? — Olhei em seus olhos e permaneci sério, não era essa leoa que me tiraria da paz, já me bastava lidar com Zeus.
Elevei um pouco de meu poder, queria mostrar a ela com quem lidava. As águas assumiram um tom mais escuro, se tornando mais agitadas e o vento começou a soprar mais forte.
— Se você sabe onde está, vá buscar. Quem me trouxer a joia pode ter um desejo realizado, como nas cantigas e lendas. Posso até mesmo trazer seus pais de volta. — expliquei, sei que Hades me ajudaria nessa parte.
Ela possui informações cruciais, e a promessa de trazer seus pais deve me ajudar em sua aceitação. Sei que mentir não é correto, mas neste momento parece ser a única forma de conseguir o que necessito.
— E você ainda não me disse seu nome. Vou continuar te chamando de garota solitária ou leoazinha. Te contei quem sou, agora quero saber quem é você. — Ri, necessitava de uma reação de sua parte.
— Sophia. Por favor, não me chame mais de garota solitária ou leoazinha, está bem? — era um belo nome.
Seu nome, Sophia, combinava perfeitamente com sua beleza. Havia uma delicadeza em seus traços, mas também me trazia uma certa intriga, por sua rebeldia. Ao trocar olhares com ela, pude sentir uma conexão especial, quando me rejeitou atiçou algo ainda maior.
— Olha, Sophia, se você encontrar a joia e me devolver, pode pedir o que quiser. — insisti, era a única com informação que tinha, não posso deixar que se perca.
Existia um único problema. Não sei se Sophia seria capaz de tocar a joia dos oceanos; seu poder excedia os limites de um mortal. Espero sinceramente que isso não lhe cause nenhum mal, itens divinos exigem um preço para serem usados, por isso mantinha a joia numa redoma. Apenas deuses podem usá-las.
— Poderia libertar Soraia e seus filhos dos piratas? — questionou, observei seus olhos. Clamavam por ajuda.
Acredito que as crianças eram as mesmas de cedo. Estranhei o fato dela não pedir seus pais, mas não iria forçar isso, cabe a ela escolher seu destino.
— Posso! E posso te oferecer algo mais, algo que você talvez queira considerar. — Não deixaria o momento passar, parece não ser comprometida e ainda com sua rebeldia a ser domada.
Venceria essa batalha e a teria. Tinha vontade de tomar seus lábios a cada momento que me retrucava, imagino como seria fazer sexo com ela.
— Só Soraia e seus filhos. — Gritou. — Jamais ficarei com você se está insinuando isso.
Tentei tocar e ela bateu em minha mão, achei ardiloso, sabia como testar minha paciência.
— Espero que mude de ideia, seria muito interessante. — Pisquei, que mulher complicada. Mas admito amar desafios, não vou ceder e vou importunar até ela me dizer sim.
— Não seria, você não é o meu tipo!
Acho que me estressa essa forma de agir, tento descontrair, mas ela não me dá nenhuma brecha. Será que gostava de mulheres?
— Tem certeza? — não era possível. Mortais amam deuses, ela deveria estar aos meus pés.
— Absoluta. Por que eu ficaria com você? Nem ao menos sabe tratar uma mulher. — Fiquei à sua frente. O céu assumia tons escuros, o dia foi complicado e só desejava paz. Discutir com ela não me levaria a canto nenhum.
— Como ousa me dizer isso? Você me chamou aqui para falar sobre a joia e age dessa forma? — Rebati.
Gostava de ser desejado, mas com ela? Mesmo estando em minha presença, rejeitava meus olhares e minha aproximação. Se fosse outra mulher, talvez já tivesse aceitado tais provocações, mas decidi deixá-la. Voltei ao palácio, perdido em meus pensamentos, os piratas e ao roubo.
Tenho certeza de algo estar oculto. Tinha muitas perguntas, não só sobre a joia, mas ela, que motivo levaria Sophia a cruzar o meu caminho?
Fale com o autor