A arte de se expressar

22 22 - Aquele em que todo mundo suspeita


Kyouka acordou cansada. Ela teve uma noite agitada, com sono leve. Assim como o restante da turma 1-A, Jirou voltou para o dormitório depois dos treinos, com exceção de Bakugou, o qual teve treino extra.

Jirou foi direto para a cama com a desculpa de estar cansada demais, os amigos não questionaram, era de conhecimento geral que Kyouka odiava segundas. A verdade é que ela não queria ter a famigerada conversa prometida por Bakugou, querendo ou não, ela ainda era muito tímida para falar sobre sua vida amorosa, ou qualquer vida amorosa.

Isso provou-se uma má ideia. Por ter ido para seu quarto cedo, ela não soube de nada do que aconteceu durante o treino, seu subconsciente preencheu essa lacuna com pensamentos nada amigáveis. Foi como se ela tivesse visto um filme de terror e tivesse ido dormir. E agora estava ela, tomando um chá-preto de Momo enquanto esperava o café (Ela aprendeu uma coisa ou outra sobre chás durante seu tempo com Yaoyorozu e descobriu que chá preto tem a mesma cafeína de um café).

— Você parece uma merda. — Kyouka ouviu a voz de Bakugou e enrijeceu – Mas é bom que está aqui agora, esses preguiçosos não vão aparecer tão cedo.

— Hey – cumprimentou ela rindo de nervoso – Como foi o treino ontem?

— Ele saiu vivo, se é o que quer saber – rosnou Bakugou sentando-se ao lado dela , os braços apoiados no balcão e a coluna encurvada – Vamos direto ao ponto, que porra está acontecendo?

Kyouka tomou um gole demorado do seu chá, baixou a xícara e sugou os lábios para ganhar mais tempo. Bakugou era um bom amigo, um idiota, mas um bom amigo, e ela sabia que ele só queria o melhor para ela, assim como para Kirishima e o restante do Bakusquad. Ela respirou fundo e decidiu explicar toda a situação para Bakugou, claro, poupando alguns detalhes, ela nunca teve um irmão mais velho, porém tinha uma boa ideia que nenhum deles iria querer ouvir sobre como sua irmã estava dando uns amassos, irmã postiça ou não.

— Bem, eu gosto dele – confessou Jirou, a voz firme, assim como a postura, porém, sem olhar nos olhos de Bakugou.

— Não brinca, Sherlock – zombou Bakugou virando-se para ela – Eu quero saber o que está acontecendo entre vocês dois.

— Nada demais – corou ela baixando o rosto e apertando a xícara nas mãos.

— Então por que caralhos você parece uma pimenta?

— Ei! Você sabe como isso é desconfortável para mim. – resmungou ela olhando para ele – Você parece Ashido, se metendo nisso.

— Eu sei dessa merda toda! É por isso que eu quero saber o que esse filho da puta está fazendo, e você está fugindo da porra da minha pergunta! – explicou Bakugou remexendo-se irritado

— Nós só conversamos – mentiu Kyouka enrolando um dedo nos fones – Muito. É tudo.

Bakugou estreitou os olhos, observando Kyouka de cima por alguns segundos, desconfiado.

– Se ele tentar alguma coisa, é melhor me dizer, eu nunca gostei daquela cara de idiota que ele tem.

— Katsuki Bakugou, você está me protegendo? – ironizou Kyouka cruzando os braços e rindo do amigo.

— Foda-se! – exclamou Bakugou levantando-se – Já que você está acordada, eu estou indo usar a bateria – Ele caminhou enquanto Jirou tomou o último gole de chá – Você vai levantar essa sua bunda da cadeira ou não?! – chamou ele próximo do elevador.

Kyouka gemeu algo às pressas, pois ainda tinha chá na boca. Então ela levantou lavou sua xícara e acompanhou seu recém-adquirido irmão mais velho.

A manhã foi mais exaustiva do que o esperado. Parecia que Midnight-sensei e Extoplasma-sensei estavam descontando algumas frustrações em seus treinos de tão exigentes que estavam. As garotas da UA estavam saindo do vestiário discutindo o que poderia ter deixado eles tão rígidos hoje quando avistaram, pelo lado esquerdo, Azura empurrando Inasa para elas enquanto sussurrava a ordem “Vai, falar com ela, cara!”. Nem mesmo a pequena distância e o fato de Azura estar sussurrando sua motivação impediram Kyouka, com sua peculiaridade, de a ouvir, fazendo a garota punk corar.

— Olá, Yoarashi-san – cumprimentou Momo, incentivado o garoto estático à sua frente. Yoarashi tentou manter a calma, mas a rigidez de sua mandíbula delatava seu nervosismo.

— Oi, Yaoyorozu-san eu... – ele arranhou a garganta para afastar a insegurança – queria saber se posso me juntar a vocês no almoço.

— Só pode ser brincadeira! – Kyouka ouviu Azura dizer ao bater a palma da mão na testa

— Claro que sim! – concordou Mina abraçando Momo e Jirou por trás – Kyou-chan, o que acha da companhia?

— Ei, meninas – começou Azura se metendo na conversa – Vamos almoçar? – perguntou ela esfregando as mãos.

— Quanto mais melhor – concordou Yaoyorozu caminhando.

— Então, como foi o treino de vocês hoje? Nosso sensei pegou pesado com a gente – conversou Azura puxando Momo e Ashido para longe deixando Yoarashi e Kyouka sozinhos – Francamente, eu tenho que fazer tudo por aqui? – sussurrou ela para as garotas, fazendo as duas rirem.

— Eu ouvi isso! – protestou Jirou mais vermelha do que já estava.

— Droga – Azura se encolheu e fez uma careta, ela esqueceu a peculiaridade de Kyouka – Nesse caso, eu não preciso mais fingir – ela encolheu os ombros e respirou fundo antes de tomar as garotas pelos braços – Desculpa, queridas, mas eu preciso ajudar um amigo, então vocês vem comigo.

Azura arrastou Yoayorozu e Ashido deixando Kyouka e Inasa parados olhando por alguns segundos com a surpresa.

— Desculpe por isso, eu não sei como agir quando preciso guardar segredo, então pedi ajuda à Azura – Suspirou Yoarashi exageradamente culpado.

— Tudo bem, eu acho – perdoou Jirou enrolando o dedo indicador no fone com o olhar inexpressivo – Então... almoço?

— Sim! – concordou ele segurando a mão dela empolgado – Eu quero saber como foi sua manhã. A minha foi incrível! Eu lutei hoje contra um dos alunos da UA que simplesmente desaparecia!

Kyouka riu. Sua empolgação repentina a deixava mais leve. Às vezes ele é tão... lindo. Jirou piscou ao finalmente completar a constante frase em seu pensamento.

— Vamos – sorriu ela docemente — Só temos 40 minutos para almoçar e conversar.

Os dois chegaram ao refeitório conversando animadamente sobre o treino da manhã, de alguma forma, Inasa encaminhou o assunto para a infância dele e, consequentemente, o de Kyouka. Falaram sobre quando descobriram suas peculiaridades e sobre seus pais.

Yoarashi deixou-a envergonhada em alguns momentos com sua sinceridade e elogios considerados exagerados por Jirou. Contudo, ela não o deteve, começou a gostar deles, e desde que estavam em uma mesa a dois, não sentiu-se tão desconfortável assim com as declarações do garoto dos ventos.

Ao longe, Azura, Yaomomo e Ashido garantiam que mais ninguém sentasse ao lado deles. Bakugou também fazia isso, não que ele admitisse, mas garantiu que Kaminari sentasse bem à sua frente para que não atrapalhar Jirou.

Outro fato que Katsuki negaria até a morte seria que ele escolheu uma mesa estratégica, com uma visão privilegiada dos dois, para garantir que o cabeça de vento não fizesse nada de errado com a orelha. O problema era que, mesmo que Kyouka ficasse uma bagunça corada, ela ainda estava sorrindo, deixando Bakugou na dúvida se explodia o garoto ou não.

Na mesa das garotas, Ashido reclamava sobre a vigilância constante de Yaoyorozu. A vice-representante proibira a garota rosa de fazer qualquer comentário ou pergunta sobre Yoarashi para Kyouka, e como as duas garotas não se afastavam nem mesmo à noite, Ashido não teve opção a não ser morder a própria língua. Graças à Azura, esse era o primeiro momento em que podia verbalizar suas opiniões desde o jantar.

— Yoarashi-kun te contou alguma coisa? – perguntou a Alien Queen antes de dar uma mordida.

— Não – bufou Azura – Mas aconteceu alguma coisa – ela estreitou os olhos — Yoarashi é um péssimo mentiroso, então ele só diz que não vai contar e acabou.

— Por que você não insiste?! – gemeu Mina – Eu teria feito isso com Kyouka-chan se ALGUÉM não estivesse me atrapalhando – resmungou ela cruzando os braços e olhando irritada para Momo.

— Não é da nossa conta – argumentou Yaoyorozu simplesmente

— Mina-chan você sabe que Kyouka fica desconfortável – Concordou Tsui.

— Aposto que só não é da nossa conta – retrucou Ashido apontando entre si e Tsui – Yaomomo deve ter todos os detalhes. – acusou Mina.

Yaoyorozu apenas continuou mastigando. Ela sabia que, se quisesse manter um segredo de Ashido, o melhor era ficar calada. Acreditem ou não, a mesa dos meninos também estava interessada na fofoca. O silêncio por parte de Bakugou não impediu os outros garotos de comentarem o assunto.

— Cara, Yoarashi está aqui há uma semana e tirou Jirou da pista – brincou Sero.

— Eu sempre o achei maluco, desde a licença provisória – resmungou Kaminari – Quer dizer, por que a Jirou?

— Como assim cara? Jirou é muito legal! – contradisse Kirishima

— É Jirou! – protestou Kaminari – Ela é totalmente não-feminina. Ela costuma assustar os caras e não... fazer isso! – continuou ele ao apontar para Kyouka sorrindo e claramente flertando – Ela devia estar torturando ele com aqueles fones assassinos!

— Você teve sua chance, Pikachu. Agora cala a boca e me deixa ouvir o que eles estão falando! – ordenou Bakugou finalmente se manifestando. Kaminari estava fazendo muito barulho e isso estava o desconcentrando.

Quando os dois terminaram de comer, decidiram caminhar até o próximo local de treino com calma. O caminho levaria cerca de 5 minutos se andassem normalmente, eles o fizeram em 10. Chegaram poucos minutos antes do horário, alguns alunos já estavam por lá, então decidiram se separar.

— Vejo você a noite, então. – prometeu Inasa sorrindo empolgado – Eu mal posso esperar – concluiu ele afastando-se.

Kyouka evitou se aproximar das amigas, ela não queria que comentários estragassem esse momento, ela estava radiante de mais e não conseguia esconder o sorriso.

O treino pareceu mais leve que o de costume, embora a ansiedade o fizesse parecer longo demais. Quando finalmente terminou, Kyouka voltou para o dormitório com os demais. Desta vez, Yaomomo pediu para falar com a amiga antes do jantar. Jirou concordou um pouco relutante, entretanto, considerando o que ela sabia que Yaoyorozu estava fazendo por ela, Kyouka sentiu que devia à amiga.

Momo não esperava que Jirou batesse à sua porta tão cedo, muito menos tão impaciente. Yaomomo vestiu-se às pressas para atender a garota punk.

— Kyouka-chan, não precisava vir tão cedo – sorriu Momo imaginando que a amiga vinha a seu pedido. Então Yaoyorozu percebeu a careta nervosa da amiga – Está tudo bem?

— Não – respondeu Kyouka entrando no quarto e andando de um lado para o outro – Eu tenho nenhuma ideia do que vestir. Droga, eu nunca pensei por esse lado, e Inasa deve estar chegando e eu não sei o que fazer...

— Kyouka, se acalma – Apazigou Momo segurando a amiga pelos ombros – Está tudo bem, você vai ficar linda de qualquer forma.

— Porra nenhuma – bufou Kyouka revirando os olhos.

— Olha a língua! – repreendeu Yaoyorozu com um beliscão.

— Ai! Desculpa – resmungou Kyouka esfregando o braço – Eu estou nervosa, meu cérebro só lembra os palavrões.

— Eu sei. Agora, quer me explicar por que o nervoso? – sentou-se Momo olhando para a garota punk

— Você ainda pergunta?

— Yoarashi-san veio visitar você todos os dias na última semana, por que essa crise agora?

— Bem, agora é diferente! – balbuciou Kyouka desabando na cama ao lado da amiga.

— Só porque você quer que ele te beije? – provocou Momo pulando de joelhos na cama.

— Momo!

— Não minta para mim, mocinha. Eu disse que preciso dos detalhes se for encobrir vocês – Declarou ela fingindo uma reprimenda – E eu sei que seu sumiço ontem no almoço tem algo a ver com ele.

— Ah, sim, eu me esqueci de te contar – Jirou ofegou ao lembrar – Aizawa-sensei quase nos pega na sala de música.

— Na sala de música? Kyouka!

— O quê?! – retrucou Kyouka ofendida com o tom reprovativo da amiga – Não é como se você não soubesse que quebraríamos a porcaria das regras. — Momo deu outro beliscão em Jirou – Ei! Porcaria não é maldito palavrão! – Outro beliscão.

Kyouka revidou o beliscão, Momo também, em poucos segundos as duas estavam em uma batalha de beliscões que virou uma batalha de cócegas. Yaoyorozu levou vantagem pelo tamanho e subjugou Jirou em instantes.

— Ok, ok! Eu desisto! Eu desisto! – suplicou Kyouka debatendo-se em meio à risadas, dela e de Yaoyorozu.

— Só vista algo confortável – aconselhou Yaomomo deitando-se ao lado da garota punk com a cabeça apoiada em uma das mãos – Você sabe que ele vai adorar você mesmo que estivesse com seus pijamas – brincou ela.

— Então eu devia usar meu pijama? – debochou Jirou.

— Não mesmo, eles são muito reveladores.

— Sério? Você tá me falando isso? – ironizou Jirou apoiando-se nos cotovelos – Você já viu seu traje de herói?

— É funcional! – protestou Yaomomo fazendo beicinho – E eu não o uso sozinha com um garoto, no meu quarto, à noite.

— Ok, ok, entendi – suspirou Kyouka – Eu devia ir. Ele provavelmente já deve estar no salão comum. – Kyouka percebeu o que isso implicava e sentiu um frio na barriga – Oh, céus, ele deve estar no salão comum – repetiu respirando mais rápido.

— Você não precisa ir, se não quiser – sugere momo levantando-se.

— Não, ok, eu posso fazer isso – determinou kyouka pondo-se de pé e respirando bem fundo – Por favor, vem comigo – gemeu ela virando-se para Momo.

As duas descem pelo elevador, Jirou com as mãos inquietas, até que Yaomomo a segura, de mãos dadas, balançando de um lado para o outro. Quando chegam ao salão principal, Kyouka fica desapontada e igualmente aliviada ao perceber que Yoarashi ainda não está lá.

As duas dirigiram-se até a cozinha calmamente e jantaram com os demais, seguindo a rotina, voltaram para a sala comum. Yaomomo sempre ao lado da amiga.

— Então... Yoarashi-kun não tem aparecido por aqui... – Começou Kaminari fingindo indiferença – Você por que, Jirou? – instigou ele maliciosamente.

Yaoyorozu o encarou fuzilante, fazendo o loiro repensar suas palavras e engolir em seco. Nisso, a campainha tocou, anunciando visitas.

— Merda, é ele – murmurou Kyouka baixinho, encolhendo com o nervoso.

Ela esperava ter mais tempo. Yaomomo ofereceu-se para atender a porta e deixou passar o xingamento de Jirou, pelo nervosismo da garota dos fones.