A arte de se expressar
20 20 - Aquele depois do jantar
Notas iniciais
Não que Yoarashi deixasse transparecer, mas ele estava nervoso, arrependido e irritado consigo mesmo por não perceber a estupidez que estava fazendo a tempo. Yoarashi piscou duas vezes ao olhar Yayourozu caminhando para o elevador, depois decidiu entrar no quarto de Kyouka.
— Jirou-san... – era a primeira vez em tempos que Inasa não sabia o que dizer.
— É assim mesmo que você me vê? – sussurrou Kyouka sem tirar os olhos das ilustrações.
Yoarashi se aproximou dela, não se atreveu a sentar na cama, nem mesmo tocá-la. Ele respirou fundo antes de responder.
— Não – aquilo trouxe a atenção de Kyouka para Inasa – Eu não consigo mostrar o quão incrível você é só com lápis e papel. – Kyouka lambeu os lábios nervosamente e ruborizou, nunca tirando os olhos assustados de Inasa – E-e-eu fiz algo errado? Fiz você corar de novo, m-me desculpe – gaguejou ele aproximando-se de Kyouka e recuando para não tocá-la.
— Tudo bem – ela sorriu e desviou os olhos – Me desculpe, por tudo lá embaixo...
— Sou eu que peço desculpas! – interrompeu ele sentando-se ao lado dela – Eu não devia ter mostrado aos outros, devia ter dito a você, ter pedido sua permissão.
— E-eu provavelmente teria deixado – confessou Kyouka unindo a ponta dos fones de ouvido – Claro, ia ser embaraçoso, mas pelo menos não ia fazer uma cena, eu acho...
Os dois ficaram em silêncio novamente, um pouco desconfortáveis, Inasa passou os dedos pelos pratos da bateria ao seu lado, ele queria pedir desculpas à Jirou. O problema é ele estava ciente que Jirou ficaria envergonhada, e ele estava pedindo desculpas por isso em primeiro lugar. Desde que Yoarashi ouviu seu amigo dizendo que ele estava apaixonado por Jirou, ele percebeu que era verdade. Esses poucos minutos que passou esperando do lado de fora da porta foram os minutos mais nervosos de sua vida.
— Você... gostou? – murmurou ele incerto.
Kyouka acenou com a cabeça e continuou vendo os desenhos.
— Esse é daquele dia no campus? – perguntou ela mostrando o primeiro desenho que vira na noite, antes de toda a confusão.
— Uhum. Você estava rindo de mim, eu não consegui me irritar por isso.
— E esse? Eu não lembro desse – apontou Jirou para uma imagem sua de perfil, com a mão apoiada no queixo e olhando para frente com um olhar curioso.
— Foi na aula de ontem, a UA estava no auditório com o Uchitaki-sensei e nós da Shiketsu ficamos na sala de vocês. – contou Inasa acariciando o rosto do desenho de Jirou – Nós terminamos um pouco antes e eu passei por lá, você estava um pouco longe da janela, mas eu fiquei olhando mesmo assim.
A dúvida a estava deixando louca. Tudo nela dizia que não, que era estupidez, imaginação da sua cabeça, que Inasa nunca iria olha-la dessa forma, ele só era inocente demais para perceber outro significado no que estava fazendo. Então vinha Yoarashi e simplesmente acariciava sua imagem em um papel. Com toda sua coragem reunida ela atirou todas as cartas e esperou pelo pior.
— Você gosta de mim? – disparou Jirou sem olhar para ele.
— Claro que sim – Inasa piscou. Ela duvidava disso?
— Oh, deus, você não vai fazer isso fácil – gemeu ela sentindo o medo se espalhando.
Kyouka estava tentada a deixar para lá e seguir o curso da conversa para uma zona confortável. Porra, não, eu tenho que resolver isso. Quando ela reagrupou a coragem para explicar o sentido de sua pergunta, Inasa falou primeiro.
— Eu realmente gosto de você, Jirou-san — reafirmou Inasa decidido – E não como um amigo – explicou ele aproximando-se do rosto de Jirou com um olhar determinado.
Kyouka engoliu em seco, o rosto? Uma pimenta. Ela não se mexeu e não recusou quando Inasa encostou os lábios no dela, eles mantiveram-se assim por alguns poucos segundos, até que Inasa afastou-se, os olhos expectantes, o rosto também ruborizado, a respiração presa de ansiedade.
Quando não houve reação alguma por parte da garota, Yoarashi pensou ter feito a coisa mais idiota de toda a sua vida. Sua cabeça começou a rodopiar imaginando mil maneiras de se desculpar pelo ato impulsivo de sua parte.
— E-eu... E-eu, me desculpe, v-você...
Kyouka o interrompeu com um beijo. Sem saber exatamente o que estava fazendo, ela apenas encostou seus lábios no dele bruscamente, diferente da forma suave que ele havia feito com ela. O coração batendo rapidamente e as mãos tremendo de nervoso, Jirou relaxou quando o garoto suspirou aliviado e a abraçou, puxando-a mais para perto.
Diferente do que Jirou imaginava, Inasa não era nada inocente. Depois do choque inicial do beijo, o garoto começou a beijá-la com mais fome e intensidade, quase suplicando por uma brecha para explorar sua boca. Ainda assim, Yoarashi foi muito respeitoso, mantendo suas mãos sempre nos ombros, pescoço ou rosto de Kyouka.
— Ela vai mata-lo – comentou Bakugou sorrindo satisfeito.
— Não diga bobagens – repreendeu Momo calmamente.
Todos os alunos da Shiketsu e da UA ainda estavam no prédio, alguns estavam na cozinha, comendo mais um pedaço de torta, bolo ou biscoitos. Outros, que não eram tão próximos dos atores do drama da noite, estavam conversando em um canto a parte, fazendo pouco barulho. As meninas da UA, o Bakusquad, Azura e Fumikawa estavam sentados em sofás próximos.
— Ela não vai mesmo mata-lo, não é? – Quis confirmar Azura – Quer dizer, ela parecia bem furiosa quando saiu daqui.
— Claro que não! – protestou Ashido – Kyouka-chan nunca faria isso.
— Ela pode, se quiser – continuou Bakugou se deleitando com a imagem mental de Yoarashi morrendo nas mãos de Kyouka.
— Mas ela não vai querer – resmungou Yaomomo irritada.
— Eu não sei, eles estão lá há 20 minutos – ponderou Fumikawa desconfiado.
— Eles estão se acertando, cara, deixa os dois – disse Kirishima relaxado.
Alguns segundos de silêncio.
— Ela pode estar quebrando os ossos dele – insinuou Bakugou novamente. O olhar distante e um sorriso sádico.
— Pare com isso! – repreendeu Kirishima.
— E quem vai me obrigar?!
— Bem, nós ouviríamos os gritos se Kyou-chan quebrasse os ossos dele – argumentou Tsui – Acho que ela ainda não fez isso.
— Ainda? – guinchou Azura.
— Vocês idiotas esquecem que a orelha pode cancelar qualquer som quando ela quiser – riu Bakugou.
— Eles. Estão. Conversando. – soletrou Yaoyorozu em um rosnado.
— Eu não sei – começou Kaminari coçando a cabeça – Eu não digo que Jirou vá mata-lo, mas eu concordo com o Bakugou na parte de quebrar alguns ossos.
— Não piore as coisas, Denki-chi! – ordenou Ashido batendo no ombro do amigo.
— Eu só tô dizendo! Sero, você lembra quando nós fizemos aquela aposta com ela no vídeo game e ela perdeu?
— Oh, é. – Lembrou Sero com um calafrio. — Ela te jogou pela janela
— Cara, foi você que pediu – interpôs Kirishima – Que história foi aquele de pedir...
— Você tem razão, bro. Toda razão! – interrompeu Kaminari pulando para o lado de Kirishima – Vamos esquecer o que eu disse. Talvez Bakugou queira checar o que está acontecendo, talvez ajudar Jirou, já que ele adora uma briga.
— Ninguém vai lutar hoje – declarou Momo levantando – Não vamos ter treinos extras essa semana, entenderam? – todos acenaram – Bom, eu vou ver como eles estão.
Momo subiu calmamente até o quarto de Jirou, ela esperava que eles tivessem se acertado pelo bem de sua amiga. Ao chegar à porta não ouviu suas vozes e começou a pensar que a teoria de Bakugou era verdadeira.
— Kyouka-chan? Você está aí? – Chamou Yaoyorozu batendo na porta. Ela ouviu o barulho dos pratos da bateria caindo e uma “Merda!” de Jirou – Kyouka, está tudo bem?
— Sim, sim. Tudo bem! – Respondeu Kyouka.
Momo colou o ouvido na porta e pode ouvir ao longe Jirou pedindo desculpas e Inasa respondendo com um “Tudo bem”.
— Posso entrar? – pediu Momo com a mão na maçaneta.
— Espera! – Kyouka gritou, isso era novo, o que estava contendo. – Ei! O que foi? – cumprimentou Kyouka abrindo a porta pela metade.
A garota punk estava arfando, o cabelo uma bagunça e o rosto vermelho, especialmente os lábios.
— O que foi? Eu que pergunto. – Respondeu ela tentando olhar atrás de Jirou – Yoarashi está ai? Ele está vivo não está? – ofegou Momo contaminada pelo imaginário de Bakugou mais cedo.
— O quê? Claro que está – declarou Kyouka confusa abrindo um pouco mais a porta.
— Eu estou bem, Yaoyorozu-san – Respondeu Inasa aparecendo atrás de Jirou em um estado semelhante à garota, suas roupas um pouco mais amarrotadas que as dela.
— Que bom – suspirou Momo aliviada – Ficamos preocupados que as coisas tivessem esquentado por aqui.
Kyouka sabia, pelo tom aliviado de Momo, que sua amiga não quis fazer insinuações. Isso não impediu Kyouka de gaguejar e ficar envergonhada.
— C-claro que não! Nada aconteceu. Nada!
— Oook – aceitou Yaomom desconfiada – Então, vocês vão descer?
— Melhor não – Kyouka se encolheu agarrada à porta ao pensar em encarar todo mundo – Awn, todo mundo deve pensar que eu sou louca – gemeu ela ao se lembrar do seu ataque de pânico.
— Eu não penso que você é louca – Interrompeu Inasa abraçando-a por trás e cheirando seu cabelo.
Kyouka corou e prendeu um sorriso envergonhado enquanto desviava o olhar. Momo piscou duas vezes antes de juntar todas as peças e dar um sorriso conspiratório.
— Oh, vocês... – Momo cobriu a boca com os punhos para esconder o sorriso.
— Você pode... fazer todo mundo ir embora? – pediu Kyouka enrolando um dos fones nos dedos. – Assim nós... podemos.... nos despedir, você sabe, na frente do prédio?
— Oh, claro, claro! – concordou Momo sem retirar o sorriso – Eu volto já para avisar vocês.
Momo voltou quase correndo para o elevador, deixando Kyouka e Inasa ainda na porta do quarto. Yoarshi puxou Jirou para dentro gentilmente ao passo que a beijava no rosto. Ele a virou quando fechou a porta e encontrou seus lábios novamente. Ela era muito mais baixa que ele, então Inasa precisou segurá-la pelas costas ao mesmo tempo em que Kyoua arqueava para receber os beijos do garoto.
— Posso te pedir uma coisa? – Disparou Jirou, quebrando o beijo bruscamente ao lembrar de algo – Por favor, não fique chateado.
— Só me diga – concordou ele calmamente.
— Não conte a ninguém sobre... bem, isso – ela apontou entre eles – Não é nada de mais, eu só... bem, pra inicio de conversa nem deveríamos fazer isso aqui – argumentou ela olhando para os botões na camisa dele
— Estamos quebrando as regras da escola? – perguntou ele exageradamente preocupado.
— Mais ou menos – confessou Jirou com uma careta apreensiva — Momo é vice-representante de classe, eu tenho certeza que eu vou ouvir uns dois dias sobre como é errado e de mal tom trazer garotos para o dormitório depois das 20h00. Oh, não, Iida diria de “mal tom” – brincou Jirou rindo e mexendo em seus fones – Yaomomo vai dizer “inapropriado”.
— Se eu vier antes das 20h00, ainda seria inapropriado? – Sugeriu Inasa com um sorriso.
— Bem, depende do que vamos fazer – retrucou Jirou maliciosa.
— Oh, eu tenho algumas boas ideias – Insinuou ele abraçando-a de novo.
— Olha quem aprendeu a usar sarcasmo! – comemorou Jirou honestamente – Mas é, nesse caso, ainda estaríamos quebrando as regras. – cortou ela monotonamente. – “Não é permitido namorar nas dependências da escola” – imitou Jirou solene – Eu posso até ouvir Iida falando.
— Iida-san é seu representante de turma, não é?
— Uhum, ele é um cara legal, um pouco exagerado com as regras – comentou Jirou dando ênfase no “pouco”.
— E se ele não souber que estamos namorando nas dependências da escola?
— Você está sugerindo a uma garota punk para quebrar as regras? – ironizou ela – Claro. – acrescentou ela puxando-o para mais um beijo, o qual ela mesma interrompeu – Momo está aqui.
Kyouka se afastou de Inasa deixando-o um pouco aturdido. No segundo seguinte, Yaoyorozu bateu à porta e entrou.
— Bem, todos já foram embora – anunciou ela respirando profundo – Bakugou deu um pouco de trabalho, Kirishima-san está cuidando disso.
— Obrigada, Momo.
— Obrigada, Yaoyorozu-san.
— De nada, agora, por favor, já passa do toque de recolher, você precisa ir, Yoarashi-san.
Os dois desceram e se despediram no salão principal, estava vazio, ainda sim, Kyouka sentia-se muito envergonhada para beijá-lo em local público, então ela o beijou na bochecha e voltou para o quarto, onde Momo a aguardava na cama.
— Se eu vou encobrir vocês, vou precisar de detalhes – decretou Momo tentando manter-se séria. Sem sucesso, seu sorriso bobo não a deixava.
— Ok, mas tem quer ser no meu quarto – concordou Kyouka pulando para a cama de empolgação – Você tem muitas vizinhas e eu tenho certeza que você vai gritar.
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