A arte de se expressar
12 12 - Aquele em que o dia é um saco
Notas iniciais
Momo acordou quando seu despertador tocou. Ela sentou-se na beira da cama e desligou o aparelho antes de espreguiçar-se. Ela levantou e se esgueirou para o banheiro pelo estreito espaço entre a sua cama e o guarda-roupa. Ao abrir a porta Yaomomo parou e olhou para a cama, Jirou continuava dormindo. Yaoyorozu suspirou e engatinhou pela cama e cutucou sua amiga sem nenhuma resposta.
— Kyouka-chan – sacudiu Yaomomo gentilmente – Kyouka-chan, acorde! – ela chamou mais alto. Dessa vez fazendo a garota punk se remexer e gemer frustrada.
— Eu me recuso, você não pode me obrigar – resmungou Jirou cobrindo a cabeça com o edredom.
— Você já se atrasou ontem, não pode se atrasar hoje também.
— Vamos testar essa teoria – contrariou jirou com a voz abafada pelos lençóis.
— Kyouka!
— Isso é culpa sua! – bufou Jirou tirando o edredom bruscamente e erguendo-se emburrada.
— Claro, por que você voltou bem cedo ontem a noite do pequeno passeio – rebateu Momo sarcástica.
— Ei, sarcasmo é meu estilo, não seu.
— Tudo bem, só vá se arrumar, só temos uma hora até a aula começar – ordenou Momo voltando para a porta do banheiro.
— O quê? Um hora? Momo! – choramingou Kyouka irritada – Por que você me acordou tão cedo?
— Não é cedo, é o melhor horário para se arrumar e chegar com calma na sala – respondeu Momo de dentro do pequeno banheiro do quarto.
— Eu não sou vice-representante! Esse é o seu melhor horário! – berrou Kyouka para que Momo ouvisse enquanto reunia seus pertences para sair do quarto da amiga.
Yaomomo não se importou com o mau-humor da amiga, as duas tinham dormido menos de 4 horas na noite anterior e pelo incomodo no baixo ventre ela sabia que nenhuma das duas iria estar particularmente amigável hoje.
Jirou voltou para o seu quarto bufando irritada, ela só precisava de 15 minutos para se arrumar, e dez deles eram no banho e escovando os dentes. Agora ela estava acordada cedo demais para se arrumar e tarde demais para voltar a dormir. Isso sempre acontecia quando ela passava a noite no quarto de Momo em dias de aula, por isso elas só dividiam a cama nos fins de semana. E para completar ela tinha com cólicas diabólicas torturando-a.
Depois de já estar arrumada e com muito tempo de sobra antes do café, Kyouka desceu para a cozinha e resolveu tomar um dos chás que Yaomomo servia para ela quando os remédios não aliviavam suas cólicas. Ela teria esperado pela garota da criação se não soubesse o quanto sua amiga demorava a ficar pronta.
— O que você tá fazendo aqui, orelha? – indagou Bakugou rispidamente ao ver Jirou sentada na cozinha.
— Procurando por um idiota, mas parece que não preciso mais procurar – retrucou Jirou irritada. Seu mau-humor não permitia segurar a língua nem mesmo contra Bakugou.
— Morre! – rosnou ele indo em direção à geladeira.
As grandes refeições da UA eram servidas pela escola, isso não impedia os alunos de manterem algumas pequenas regalias. Por isso eles mantinham alguns lanches na geladeira ou nos armários da cozinha.
Bakugou jogou uma barra de cereal com chocolate na frente dela.
— Coma.
— Pra que isso? – perguntou ela confusa e surpresa.
— É o máximo de chocolate que eu tenho por aqui – Resmungou ele procurando por alguma coisa na geladeira novamente – Você está tomando aquela coisa fedorenta da riquinha, o remédio não fez efeito? – continuou ele agora mordendo uma maça e recostando-se na geladeira.
— Eu poderia perguntar por que você repara nessas coisas, mas, ei! Eu tenho chocolate, então... — Comentou Jirou mordendo a barra de cereal.
— Tch, eu tenho uma mãe, sabia? A bruxa velha fica insuportável nesses dias.
— Ainda assim, não é estranho você saber esse tipo de coisa sobre mim?
— Eu posso tomar a porra dessa barra de cereal na hora que eu quiser, orelha. – rosnou Bakugou pondo-se ao lado dela altivamente.
— Só tô dizendo – declarou ela erguendo uma mão pacífica — Mas obrigado, é fofo ver você se preocupando.
— Eu não sou fofo! – berrou ele soltando pequenas explosões que fizeram Jirou pular do banco em que estava.
— Eu sei, seu sei – apaziguou ela tão tranquila que soou falso – Só acho legal que você ajude os seus amigos.
— Tch, eu não faço amizade com extras – cuspiu ele mordendo novamente a maçã e desviando o olhar – O único motivo para eu ajudar você é por que você é a dona da única bateria em um raio de 10 km.
— Ainda temos 20 minutos até o café chegar – começou Jirou com uma voz sugestiva – o que me diz, quer tocar?
— Vamos acordar esses preguiçosos – concordou ele sorrindo confiante.
Jirou tomou em um só gole o que restava na xícara e a pôs na pia. Ela lavaria quando descessem para o café. Bakugou já estava no elevador quando ela saiu no Hall.
— você é muito lenta, orelha, anda logo! – berrou ele irritado.
— Já vou, já vou!
Os dois tocaram até que Yaomomo aparecesse no quarto de Jirou censurando-os por tocar tão cedo na manhã. Apesar de as paredes serem grossas e Jirou só ter Hakagure como vizinha de andar, os dois se empolgaram demais e a vice-representante conseguiu ouvi-los no andar de cima. De qualquer forma, o café da manhã já havia chegado então eles decidiram combater o frio com uma bela xícara de café.
O dia foi bem corrido, Jirou ainda estava dolorida dos treinos anteriores e cansada da noite de sono curta e da cura da Recovery girl. O treino matinal testou as habilidades de camuflagem dos primeiranistas da UA adquiridas no dia anterior. O treino a tarde foi precedido de uma aula sobre administração de pessoal em crises de grande escala. E agora eles estavam saindo de um enorme treino em equipe, com pessoas que ela não conhecia, onde eles precisavam se organizar com o que tinham.
Kyouka estava irritada, suja, enjoada e com frio. As cólicas haviam voltado agora que passava das 19h00 e só agora eles tinham parado. Seus amigos não estavam em estado melhor. Se Kyouka estivesse no espírito, ela teria feito algum comentário sobre a rara expressão mal-humorada de Momo, o rosto triste de Uraraka e os gemidos chorosos de Ashido.
— Jirou-san! – ela ouviu a voz de Inasa ao longe e virou-se para ele.
— Não é um bom momento, universo. – rosnou ela baixinho.
Yoarashi veio correndo Como ele ainda tem energia para fazer alguma coisa depois de um dia como esse? Pensou Jirou enquanto se afastava das garotas para falar com o garoto dos ventos.
— Jirou-san, está tudo bem? – perguntou ele preocupado percebendo a expressão de Jirou.
— Não exatamente – suspirou ela se aquecendo – Só cansada e com frio.
— Oh, eu posso ajudar com isso – ajudou Inasa movimentando os dedos. – Eu mantenho ar quente na minha roupa para ajudar a voar, agora não vou precisar dele – explicou ele circulando o rosto de Jirou com o ar quente.
Era uma sensação reconfortante, Kyouka sorriu com vento se enlaçando em seus cabelos e fazendo cócegas atrás das orelhas. Inasa sabia o que estava fazendo, de forma que o vento não empurrava os cabelos de Jirou contra seu rosto e nem deslocava sua roupa. Era calmo e morno, como um banho de banheira.
— Melhor?
— Muito, obrigada – agradeceu ela suspirando aliviada – Então, por que me chamou?
— Oh, eu só agradecer, eu fui muito bem no treino de agora, nem um pouco impulsivo! – Comemorou ele com um sorriso radiante e erguendo o punho ao peito.
— Que bom – sorriu Jirou, por um segundo o mal-humor sumiu – Ei, eu disse dois dias, não foi? Eu cumpro o que prometo – brincou ela batendo o punho no braço dele.
— Eu também queria saber se poderia visita-la novamente hoje – disse ele brandamente.
— Ia ser legal – concordou Jirou inicialmente, então ela sentiu outra cólica e algo quente se mexendo no seu útero e pensou que seria uma péssima ideia – Mas é melhor não, eu estou realmente cansada.
— Oh, eu entendo – soltou Yoarashi exageradamente decepcionado.
“Porra, por que ele tem que ser tão...” Jirou não encontrou a palavra para descrevê-lo e percebeu que isso acontecia muito. Quase todas as vezes que ela tentava encontrar um adjetivo para Inasa, Kyouka tinha a imagem na cabeça, mas não conseguia nomear.
— Ei, por que você não aproveita hoje para desenhar algumas coisas? – sugeriu ela com um sorriso sincero, tentando animá-lo.
— Ótima ideia! – aceitou ele recuperando o ânimo.
— Desculpe por não poder essa noite.
— Está tudo bem. Ao menos pude confirmar antes. – Ele sorriu pondo a mão no ombro dela — Fiquei preocupado o dia todo com medo de não encontra-la.
— O dia todo? – duvidou Jirou brincando.
— Sim – confirmou ele sem notar o tom zombeteiro da garota – Passei o dia todo pensando em você!
Isso foi embaraçoso. Jirou corou profundamente e olhou para baixo para esconder o rubor.
— Não seja estúpido, não precisava se preocupar com isso – murmurou ela rapidamente.
— Hm? – Inasa abaixou-se em busca dos olhos dela fazendo a saltar com a proximidade e soltar um grito estrangulado. – Oh, você está vermelha de novo – ele disse com naturalidade enquanto sorria.
— Não estou não! – contrariou ela um tom mais alto do que pretendia.
— Ah, e agora está ficando ainda mais – continuou ele aproximando-se novamente para olhar de perto o rosto corado de Jirou.
— Pare de olhar! – repreendeu ela baixando os olhos e virando de costas para ele.
— Por quê? Seu rosto fica ainda mais bonito – comentou ele inclinando a cabeça para o lado um pouco confuso.
— Jeez, você é sincero demais! – resmungou Jirou esfregando a nuca nervosamente e ainda evitando olhar Inasa.
— Desculpe, eu fiz algo errado?! – disparou ele preocupado.
— Não, não! – Jirou respirou e virou-se para ele – Ok, hm, eu tenho que ir, o jantar já deve estar servido – despediu-se ela fugindo do assunto.
— Mas
— Tchau! – terminou ela correndo para alcançar as garotas.
— Está tudo bem, Kyouka-chan? – perguntou Tsui quando ela se aproximou.
— Sim, por quê? – respondeu ela limpando a garganta para afastar o nervosismo.
— Você está corada – comentou Hakagure.
— E-eu, é do treino, só isso – gaguejou ela abanando as mãos na frente do rosto.
Por sorte estavam todas tão cansadas que decidiram não questionar Kyouka.
Depois de um merecido banho, todos se reuniram para jantar, Uraraka estava particularmente comilona, Ashido parecia um pouco enjoada, então deu seu jantar quase todo para a amiga antes de subir mais cedo. Hakagure nem mesmo havia jantado.
Kaminari parecia excessivamente barulhento para Jirou hoje. A garota punk estava mal-humorada pelas cólicas e o maldito período, então se manteve quieta o jantar inteiro. Ela agradeceu que Momo também estava silenciosa hoje. O mal da TPM é que mulheres que convivem o tempo inteiro acabaram regulando o ciclo, então Kyouka sabia que a amiga estava na mesma situação (isso e ambas tinham reclamado disso juntas mais cedo durante o almoço).
— Ei, Jirou! – chamou Kaminari.
Kyouka se encolheu com o barulho desnecessário e encarou o amigo loiro com uma carranca.
— Terra para Jirou – brincou Kirishima – Nós acabamos de fazer a mais estúpida das piadas e você não tem sequer um comentário sarcástico?
— Quem é você e o que fez com a Jirou? – zombou Sero rindo.
Jirou apenas encolheu os ombros e continuou comendo devagar, ignorando-os novamente.
É verdade que ela tinha uma espécie de amizade com os garotos, não que ela convivesse com eles como com Momo ou Tsui, até mesmo com Mina. Contudo, dentre as garotas ela era com quem os garotos se sentiam mais a vontade. Claro, em grande parte por Kyouka ser “nem um pouco feminina”.
— Hmmmm, eu já sei o que houve – insinuou Kaminari com um tom grave e malicioso – É por que o Yoarashi-san não veio visitar ela hoje – declarou Kaminari apoiando um cotovelo na mesa e apontando para ela com o talher.
— Tanto faz – Jirou revirou os olhos, ela só queria que todos comessem calados! Eles não conhecem as regras à mesa?
— Ei, Jirou, é só um dia e você já está com saudades? – continuou Kaminari sentindo-se mais ousado.
— Ei! Calem a boca e comam! – ordenou Bakugou.
Ele nunca admitiria, mas ele sabia como Jirou odiava ter esse tipo de atenção e também sobre como cólicas a deixam no limite (ele também nunca contaria como descobriu isso).
Kirishima também não se meteu nisso, ele não gostava de brincar com as pessoas quando elas não estavam afim, e Kyouka claramente não estava.
— É só uma pergunta – alegou Kaminari com um sorriso quase inocente.
— Kyouka-chan, vou preparar um chá, você quer também? – intrometeu-se Momo querendo livrar a amiga desse inconveniente.
— Claro, eu vou com você – concordou Jirou sem ânimo. Ela levantou-se mesmo sem ter terminado de comer.
— O que foi, Jirou? Yoarashi desmarcou o encontro? – zombou Kaminari.
Desta vez o garoto foi longe demais. Jirou enfiou os dois fones de ouvido nas orelhas de Kaminari e reverberou seus batimentos um pouco mais altos e por um pouco mais de tempo do que ela costuma usar para punir Kaminari.
— Não. Me. Irrite. Idiota – ela ameaçou entre os dentes, tentando conter a raiva ao máximo.
Por um segundo, o único som na mesa foi do Bakugou rindo enquanto terminava o jantar. Então os poucos que ainda estavam lá voltaram às suas conversas normais. Afinal, não era tão incomum Kaminari sendo punido pela garota punk.
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