A arma da mão esquerda
1 Highway To Hell
Os corvos me observam a ler o pequeno caderno de couro. Um pentagrama na capa… Me pergunto se os corvos entendem o que é um pentagrama… Pensamento idiota.
— Nossa, pai, você não tinha nenhum nome melhor do que sanguessugas? -Perguntei ao seu túmulo, cinza e triste, lendo um trecho de seu diário sobre quando ele enfrentou vampiros no Texas.
Já faz uma semana que ele morreu e eu não aguento mais, tenho de ter ele de volta, mas não posso fazer o acordo e nem a Alu. Meu prazo está acabando... eu tenho só mais um ano. Penso em como a Alu ficará sem mim. A Alu morreu há 4 anos e meu pai tentou trazê-la de volta sem precisar de um acordo, mas não conseguiu... desgraçado demônio que tirou a vida de minha irmã.
Eu fui escondida e fiz um acordo com o tal demônio e não sei por que ele só me deu cinco anos ao invés de dez como todo mundo. O fato era que meu pai morreu tentando me salvar e eu vou vingá-lo, ele morreu para poupar nossas vidas… e eu irei poupar a vida de minha irmã.
Os corvos continuam a me observar. Eles berram, gritam, incomodados comigo, e saem voando quando a Alu atravessa o cemitério e se aproxima.
— Jay, o pessoal do orfanato chega daqui a 1 hora, temos de ir embora agora! -Alu falou se sentando ao meu lado.
Pensei sobre o assunto. Era inevitável, teríamos de ir embora… eu tinha que procurar alguma maneira de quebrar o acordo. Eu me recuso a morrer. Mas não levaria a Alu comigo, não a levaria para a morte… porem sabia que a escolha não era minha.
— Alu, eu quero que você fique no orfanato, não quero que você se meta no meio desse caso! — Disse me levantando e ficando de costas para ela.
—Vamos nos ver de novo. – Disse ignorando os olhos de minha irmã indignada com o que eu havia dito. – Assim que eu quebrar o acordo, eu venho aqui te buscar.
Alu levantou e botou a mão no meu ombro me virando e me botando de frente pra ela.
Bateu a mão de leve no meu rosto umas quatro vezes como quem quisesse me acordar para a realidade.
— Ei, maninha, eu vou com você, isso é fato, não vou ficar sozinha e te deixar ir com só um ano para curtir! — Disse ela me abraçando. – Vamos juntas. – Era a escolha dela. Confirmei com a cabeça e atravessamos o cemitério.
Os corvos comemoravam a nossa partida voando ao redor do cemitério e pousando no local onde estivemos sentadas. A nossa casa não é longe dali, no máximo uns cinco minutos de caminhada. Ao chegar, o grande Pastor Alemão, Ferrari, que se hospeda em nossa casa, veio correndo nos receber, pulando em nossos colos e lambendo nossos rostos.
Ferrari é um cachorro diferente, tem algo de humano, os seus sentimentos são notados com facilidade e ele parece compreender as emoções das pessoas. Ele é grande, maior que os cães de porte grande normais, e foi adotado por nosso pai e treinado especificamente para rastrear criaturas sobrenaturais. Lembro-me de meu pai entrando pela porta de nossa casa com um grande cão quando a Alu ainda era um bebê, o cachorro nos cumprimentou acenando com a cabeça e foi nesse momento que percebi algo, ele entendia e sabia que iria morar naquela casa dali em diante.
A lembrança foi um pouco dolorosa, fazendo o meu peito sofrer com um aperto agoniante. Tentei espantar a lembrança do meu pai e me concentrar em arrumar o carro para a viagem. Corri até a garagem e abri a porta, revelando uma linda Mercedes prateada e velha. Meu pai nunca me contara como havia conseguido o carro, mas sabia que tinha algo a ver com a minha mãe, que falecera no parto de minha irmã. Não culpava a Alu pela morte de nossa mãe, mas sabia que ela se culpava.
Pegamos roupas, comida e armas. Abastecemos a Mercedes com tudo que iríamos precisar e entramos no carro. Eu no volante, Alu no banco do carona e Ferrari nos bancos traseiros. Abri a janela e Ferrari estendeu a cabeça para fora. Percebi que estava animado com a viagem. Dei a partida no carro e fomos para a estrada.
O fato de Alu ter quatorze e eu quinze anos não interferia no fato de estarmos portando armas e saindo da cidade sem um adulto pelo outro simples fato de que eu e Alu somos médiuns. Quando bebês, fomos amamentadas por um demônio em segredo e por isso arrecadamos poderes especiais. A Alu tem o poder de convencer qualquer um sobre qualquer coisa, então se um policial nos parar, ela somente explicará que esta tudo bem e que nós podemos prosseguir e ele assentirá. E meu... bem, deixemos que eu o explique em outra ocasião.
Peguei a freeway, agora estou saindo da cidade. Me recusei a olhar para trás. De agora em diante só olharei para frente e esquecerei o passado.
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