A ambição de uma estrela
1 Capítulo 01 –Ascensão
Notas iniciais
—Pode começar.
O garoto se alongou e começou a pressionar as teclas do piano, a música teve um início suavemente, mas conforme seus habilidosos dedos dançavam, as notas cresciam e se intensificavam até capturar completamente a atenção dos ouvintes.
Seu nome era Arthur da Silva e essa devia ser uma história de amor, entretanto os acontecimentos levaram-na a se tornar uma batalha pelo estrelato, um relato da ambição de um figurante e a fúria de um diretor diante de uma sombra que sonhava em ser luz.
Aula de piano? Ok; Aula de canto? Excelente; Atuação? Maravilhosos resultados.
—Como você se chama?
—Arthur Snow –Respondeu um garoto sorridente, cabelo arrumado, maquiagem corretiva para esconder algumas marcas de espinha, roupas impecáveis, olhos brilhantes e repletos de determinação e confiança.
—Snow? –Perguntou o diretor olhando suas fichas de avaliação –O único Arthur que consta aqui, é um Arthur da Silva.
—Sou eu mesmo. Este é meu nome artístico.
—Oh, sim –O diretor Castro suspirou, odiava os iniciantes que já chegavam se sentindo estrelas –Vejo aqui senhor... Snow, que se saiu incrivelmente bem no teste de música, o senhor toca piano, é isso?
—Exatamente, toco desde os quatro anos, já ganhei vários prêmios na...
—Ótimo, ótimo –Castro o cortou antes que começasse a falar sobre as conquistas insignificantes de sua vida. Ele não queria saber que prêmios inúteis de escolas pequenas aquele garoto com nome artístico tinha ganhado –Vamos começar o teste de atuação.
O diretor Castro estava empolgado com seu novo projeto, a primeira novela focada em casais gays da televisão brasileira! “Cante-me uma canção” seria praticamente um clichê adolescente colegial, o roteiro não era tão fantástico, mas era divertido e prometia quebrar vários paradigmas. Para tal projeto decidiu-se dar chance de novos atores estrelarem, nada de personagens de renomes, todos seriam atores praticamente desconhecidos.
Arthur Snow tinha esperança de ser um dos protagonistas, ele nunca tinha contracenado com alguém do mesmo sexo, mas para obter sucesso estava disposto a qualquer coisa. Ele tinha 16 anos, estatura mediana, cabelos escuros e curtos, pele clara e olhos castanhos. Depois de vários testes passou dias esperando receber o telefonema confirmando sua aprovação.
—Eu vi meus concorrentes, nenhum deles chegava nem aos meus pés, claro que vou ser escolhido! –Ele dizia para si mesmo, mas na frente dos outros –Ser aprovado vai ser realmente uma surpresa, eu vi tantas pessoas melhores que mesmo que não seja escolhido ficarei feliz pela experiência.
Arthur era extremamente competitivo, no entanto não deixava transparecer essa sua característica, todos o viam como um garoto doce e talentoso. Ele era o filho único de uma costureira, dona Flor fez todas as roupas das apresentações ao longo da vida do garoto. Ele já tinha feito um comercial de creme dental, mesmo aparecendo por apenas quatro segundos, aquele tinha sido o ponto alto de sua carreira. Atuar em Cante-me uma canção era sua grande chance de finalmente se tornar uma estrela. Arthur já estava no final do segundo ano e se não ficasse famoso logo, teria que seguir outro rumo, arrumar um trabalho de meio expediente e fazer faculdade. Ele odiava estudar, a não ser claro, música e artes cênicas, entretanto aqueles não eram cursos disponíveis em sua cidade e nem que dariam garantia de uma vida bem remunerada.
Numa manhã de segunda-feira o telefone de sua vizinha tocou, as paredes eram finas e Arthur pode ouvir, esperou alguns segundos e finalmente a escutou chamando.
—Dona Flor, tem gente no telefone querendo falar com você sobre seu menino.
Arthur levantou-se num pulo e seguiu a mãe até a casa da vizinha. Dona Flor pegou o telefone, respondeu algumas perguntas corriqueiras, enquanto o coração do garoto quase saía pela boca.
—Coloca no vivo-a-voz! –Disse eufórico.
—Parabéns, temos um papel para seu filho na novela Cante-me uma canção!
Arthur teve que se segurar na parede, estava com as pernas bambas. Quem ele seria? O Felipe? O cara de interior que arrasaria corações chegando na escola de música. Talvez o Carlos, o galã, líder da banda e namorado da filha do diretor? Se não fosse alguém do casal principal, poderia ser o melhor amigo do Carlos, o Henrique que mais pra frente sem dúvida teria destaque na trama.
—Seu filho vai ser o Cláudio –Arthur ficou pasmo, quem era Cláudio? –É um membro da banda, não terá muitas falas, mas vai fazer muitas apresentações em grupo.
Ele se imaginou num famoso meme, estava dançando animado ao lado da Xuxa Meneguel que lhe repreendia dizendo: Senta lá, Cláudio. E ele sentava tristonho. Viu os holofotes se apagando o deixando no escuro por trás das câmeras.
—Você conseguiu! Conseguiu mesmo! Meu filho vai ser uma estrela de TV! –Dona Flor gritava alegre abraçando o filho. Arthur engoliu seu descontentamento e comemorou com sua mãe e sua vizinha.
Depois de uma longa comemoração com família e amigos, quando finalmente pode ir pra cama, ele chorou. Ele sonhava em ser um dos protagonistas e acabou sendo praticamente um figurante. Arthur tinha o costume de discutir consigo mesmo, como se fosse duas pessoas, uma reclamaria e outra lhe daria um sermão, chegando ao equilíbrio e tomando uma decisão.
—Eu merecia receber um dos papéis principais! Acho que meu erro foi ir bem de mais no piano, por isso quiseram me colocar na banda! Devia ter me dedicado mais na atuação! Eles nem me chamaram para um teste de canto.
—Não seja mal agradecido! Você vai ter um papel e vai receber muito bem por ele! Esse não será seu último trabalho! Aprenda com ele e se torne um artista melhor.
—Artista melhor é meu ovo esquerdo! Eu já sou incrível!
—Não seja soberbo! Não deixe ninguém ver esse seu temperamento! Todos gostam de pessoas amáveis e alegres, se verem esse seu lado rabugento e cheio de si, vão te detestar.
Arthur respirou fundo e adormeceu. No dia seguinte acordou como a pessoa mais feliz do mundo. A produção lhe mandou dinheiro para comprar malas e roupas, bem como uma passagem de avião para são Paulo, onde a novela seria filmada. O garoto teve uma emocionante despedida e partiu rumo ao seu sonho de se torna uma estrela.
Num motel de beira de estrada...
—Aaaaaar! Isso! Isso! –Gemia a prostituta, enquanto levava tapas na bunda.
—Ooooor! –Chegara ao ápice o diretor Castro.
Ele se deitou e acendeu um charuto, no dia seguinte daria início aos preparativos do elenco para filmagem. Estava realmente muito empolgado com isso, essa novela alavancaria sua carreira já notada. Vinha dirigindo uma serie de novelas de sucesso, essa seria a quarta vez em que a emissora colocava um grande projeto em suas mãos.
Castro começou a carreira dirigindo peças de teatro, mas no Brasil praticamente só é valorizado quem aparece na TV. Teve sua grande chance ainda jovem, quando foi convidado à dirigir uma minissérie, felizmente obteve grande aceitação do público e começou sua carreira. Foram dez anos trabalhando nesse ramo até conseguir a primeira novela recorde de audiência. E então mais duas seguiram em sequência, atualmente todos o consideravam um gênio das dramaturgia, por este motivo, a Cante-me uma canção, tinha que ser sua obra prima!
—Casais gays estão na moda, sem dúvida vai ser um sucesso! Os gays vão querer assistir para sentirem-se representados, as menininhas adoram yaoi, e claro que os homofóbicos também vão assistir pra poder falar mal. Em outras palavras: Sucesso garantido!
O elenco mesmo inexperiente foi fácil de lhe dar, pois todos se esforçavam ao máximo para obterem sucesso. Castro se reuniu com os seis protagonistas e ficou muito feliz em ver como eles eram bonitos e talentosos, tinham algumas falhas de atuação, mas com esforço e repetições, as cenas estavam ficando muito boas.
A rotina de Castro estava cansativa, mas divertida. Ensaiava com os atores, editava alguns dos textos e fazia pequenas alterações no roteiro. Quando caía a noite, bebia com a equipe e depois partia para algum clube adulto onde sempre saía com uma mulher diferente, na maioria das vezes uma prostituta. Ele nunca se casou, teve algumas paixonites ao longo da vida, mas nada arrebatador. Algumas das garotas não gostavam do seu jeito selvagem de fazer amor, mas bastava abrir a carteira e podia dar fortes tapas e chicotadas.
Cante-me uma canção finalmente estrelou e foi um sucesso, bateu recordes de audiência, sempre estava nas primeiras colocações dos assuntos mais comentados da internet, recebeu criticas dos religiosos, sem imaginar que suas reclamações faziam a novela ter ainda mais atenção.
Já tinham sido exibidos cinco episódios e Arthur Snow tinha falado apenas uma frase e aparecido apenas tocando piado e sorrindo ao fundo.
—“Que legal, Carlos!”, Que legal, Carlos?! Eu estudei atuação por dez anos pra dizer apenas, que legal, Carlos?! Que saco! –Reclamava Arthur socando a parede, deitado na cama de cima de um beliche.
Os figurantes ficavam num hotel de segunda e dividiam quartos triplos, Arthur dormia no beliche de cima, um garoto que tocava triangulo no de baixo e um operador de câmera numa cama ao lado.
—E ainda tenho que dividir o quarto com aquele trator! –O cara roncava alto, ainda assim o outro garoto dormia tranquilamente, enquanto Arthur reclamava pra sigo mesmo.
—As coisas vão melhorar, tenho certeza que logo você vai ter mais destaque. Afinal amanhã, você vai cantar uma canção –Ele disse em seus diálogos consigo mesmo.
—Tem razão, mas... –Ele lembrou-se da música –A melodia é simplória e a letra ridícula, é uma música que nem vai estar no CD! –Ele cobriu a cabeça com o travesseiro –Nunca vou ficar famoso, desse jeito! –Ele colocou seus fones de ouvido –Melhor dormir, que ganho mais –A música começava suave e evoluía com fortes acordes e... Ele levantou da cama num pulo –É isso! É muito arriscado, mas vou tentar! Não nasci pra ficar na escuridão dos figurantes!
No dia seguinte Arthur ainda teve que ensaiar a música sem graça, mas quando finalmente foi gravar a cena...
—Esse é o momento que você deve tocar o piano –Disse um auxiliar do diretor –E cantar a canção, a versão resumida, certo?
—Claro –Respondeu Arthur.
Castro estava de muito bom humor, como planejado o sucesso da novela ia de vento em polpa. Agora ele começaria a introduzir melhor os personagens da banda, ele adorava essa estratégia de dar histórias secundarias menos importantes, afim de explorar perfis diferentes de personagens e assim fazer com que mais pessoas se sintam identificadas. Nessa cena Cláudio cantaria e tocaria uma simples canção na frente de Henrique, o melhor amigo de Carlos, aquilo serviria para despertar o interesse pelo piano nele. O plano era dar mais destaque para Henrique, Cláudio só serviria de intermédio para isso, o ensinando a tocar.
—Vamos começar! –Anunciou o auxiliar.
—Não sou bom em tocar nenhum tipo de instrumento –Disse o ator que faz Henrique sentando-se ao lado de Arthur que pensou: “Que atuação ridícula! Esse cara só ganhou o papel por ser bonito”.
—Ninguém é bom no início –Arthur disse sua segunda frase na novela, mas dessa vez ele aproveitaria ao máximo esse momento enfrente às câmeras, ele colocou sua mão sobre a de Henrique e completou sua frase olhando em seus olhos –Você precisa praticar, eu posso te ensinar se você quiser.
Castro olhou para o roteiro, não havia nada ali falando sobre contato físico e o jeito que o Cláudio estava olhando para Henrique era demasiadamente interessado.
—A forma de falar, a linguagem corporal, aquele garoto esta induzindo um shippe –Disse para seus companheiros de equipe.
—Quer que mandemos recomeçar?
—Não, vamos ver até onde isso vai –Respondeu curioso –Como é o nome desse ator mesmo?
—Arthur Snow.
—Snow? –Castro lembrou-se da entrevista, do garoto animado que se saiu muito bem em sua atuação, mas ele não tinha gostado muito de seu jeito infantil e metido a artista –Ahh lembro dele, o Arthur da Silva, Snow é seu nome artístico –Ele riu do quão ridículo aquilo soava, mas voltou a prestar atenção à cena.
Arthur começou a tocar e no mesmo instante os produtores estranharam.
—O que foi?
—A música não era essa.
Arthur estava tocando e cantando “Love Me Like You do” de Ellie Goulding:
—So love me like you do, lo-lo-love me like you do –Ele tocou, cantou e interpretou perfeitamente. Cada olhar tinha uma mensagem, todos seus movimentos levavam a quem assistisse a querer um romance dele com o Henrique. Por sua vez o ator de Henrique reagiu bem, expressou surpresa, mas a música de Arthur era tão bem tocada e cantada que o deixou totalmente envolvido o olhando como quem estava prestes a se apaixonar.
Ao termino da cena os dois ficaram se encarando em silêncio até alguém gritar: Corta! Um dos produtores caminhou em direção à Arthur pronto para repreendê-lo quando todos no local começaram a aplaudir.
—Não sabia que ele cantava tão bem.
—Eu me arrepiei.
—Foi tão lindo!
—Todos vão adorar.
Castro viu àquela reação e pra ser sincero ele também tinha adorado. Ele se levantou e foi para o lado do outro produtor.
—Vamos deixar a cena assim mesmo, pela reação de todos ficou excelente –Arthur não conseguiu conter o sorriso –Senhor Snow, dá próxima vez que tiver falas, siga o roteiro a risca!
Arthur ficou muito feliz com o resultado de sua ousadia. Quando saiu do sete de filmagem foi abordado por Peter, o ator que faz Henrique.
—Cara, você foi de mais! Me arrepiei todo com você cantando! Tive que fazer muito esforço para me manter no personagem!
—Muito obrigado! –Agradeceu Arthur, aquela era a primeira vez em que conversava com um dos protagonistas fora das gravações. Nesse momento uma das faxineiras tirou uma foto deles.
—Vocês ficaram muito fofos naquela cena! Vou mostrar essa foto pra minha filha, ela vai adorar.
Em questão de segundos toda a cena da gravação passou rapidamente pela mente de Arthur, principalmente quando um dos produtores ia brigar com ele, mas quando todos o aplaudiram, ele voltou atrás e o diretor gostou e aprovou a cena. “A opinião pública!” pensou ele. Por mais que caiba aos produtores o destino dos personagens, a opinião dos telespectadores pode influenciar nos acontecimentos. “Vocês ficaram muito fofos naquela cena”. Uma lâmpada acendeu sobre a cabeça de Arthur.
—Peter, gostaria de almoçar comigo? Eu pago.
—Claro! Seria ótimo.
O diretor revisou a edição das cenas, eles já tinham mais cinco capítulos prontos. Assistiu em especial a cena de Henrique e Cláudio, tinha ficado uma das melhores, o tal Arthur cantava muito bem mesmo.
—Mesmo assim não planejo dar muito destaque a esse personagem –Ele terminou o dia nos braços de outra prostituta.
Na manhã seguinte ele foi ver os sites de fofocas para ver o que andavam falando a respeito da novela: “Peter Torres, o Henrique da novela Cante-me uma canção, foi visto almoçando com o colega de trabalho Arthur Snow, os fãs já começaram suas teorias”.
—Que povo idiota. Tudo isso só porque almoçaram juntos?
Na semana seguinte quando a cena do piano foi ao ar, já haviam dúzias de fotos dos dois juntos, foram vários almoços, saídas pra baladas e idas ao shopping, fotos com fãs e fotos de paparazzi. Surge um novo shippe: “Hendio” Henrique e Cláudio é o novo casal da novela!
Em todas as cenas seguintes que Arthur apareceu ensinando piano, disse suas falas à risca, mas sua linguagem corporal adicionava romantismo, isso somado as constantes fotos dele com Peter fazia o público fervilhar com teorias.
—O shippe Hendio é real?
—Meu Deus, quero ver um beijo deles!
Castro se viu forçado a dar mais falas para o até então figurante que passou para o elenco secundário.
—Aquele garoto pensa que me engana –Ele disse nos braços de uma prostituta –Desde a cena do piano eu vi sua intenção. Ele se mostra um doce de pessoa, mas é muito esperto. Me enganei sobre ele na audição, pensei que era infantil e sem sal, mas ele tem uma personalidade até interessante, é um puta manipulador.
—Você pode me dar meu dinheiro agora? Tenho outro cliente me esperando –Castro revirou os olhos e pagou a puta.
Alguns dias depois o elenco foi fazer uma participação num programa ao vivo. Arthur ficou sentado com o grupo da banda enquanto os protagonistas respondiam à todas as perguntas.
—Vamos abrir as perguntas para plateia –Disse o apresentador, um microfone foi passando até parar numa garota.
—Eu tenho uma pergunta para o Peter. O Henrique e o Cláudio vão ter alguma coisa na novela? –A plateia começou uma gritaria animada.
—Não posso dizer, se não o diretor me mata –Respondeu animadamente. O coração de Arthur estava à mil: “Faça mais perguntas! Insista garota!”.
—E você e o Arthur? –Outra gritaria. Peter olhou para Arthur e sorriu:
—Deixo isso a cargo da imaginação de vocês –Os fãs foram à loucura com a resposta.
Nos bastidores Castro mordia uma caneta: “Volte aos protagonistas!”.
—Você é o garoto do piano! –Disse o apresentador entregando um microfone a Arthur –Sua cena cantando e tocando foi muito comentada.
—Muito obrigado –Disse Arthur. Ele estava muito nervoso, mas era sua chance! Ele respondeu a algumas perguntas, mas era nos pequenos gestos que estava todo o truque, constantemente trocava de olhares com Peter, se mostrava tímido, mas animado.
—Até então você nunca tinha cantado na novela, foi a primeira e única vez que te vimos cantar.
—Se quiser posso cantar pra vocês agora.
—Filho da puta! –Exclamou baixinho o diretor –Calma, ele deve cantar só um trechinho daquela música.
—Posso cantar uma música diferente? –Perguntou Arthur pensando: “Não posso deixar minha imagem ser vinculada à apenas uma música, tenho que mostrar que tenho muito mais! Tenho que fazê-los querer muito mais!”.
Arthur emocionou à todos cantando “Chandelier” de Sia, sua timidez fingida desapareceu, sua voz era de longe a mais bonita do elenco. Dessa vez ele não tocou, usou sua voz ao máximo, sem errar nem ao menos uma nota. No final ainda chamou Peter para cantar a última parte com ele, a música desandou um pouco, no entanto foi tão fofo que saiu melhor que a encomenda.
—Eu shippo tanto eles!
—Me arrepiei toda com aquela música!
—Hendio forever!
Castro se reuniu com os roteirista, o personagem Cláudio tinha recebido mais destaque, a história agora deixava claro um romance se desenrolando entre eles. Aquilo enfurecia e empolgava o diretor.
—Aquele moleque é cobra criada!
Durante a semana de filmagens seguinte, Castro observava cada passo de Arthur, ele vivia tirando fotos com o elenco principal, convidando o Peter pra sair, sendo gentil com todo mundo, desde as senhoras da limpeza aos produtores. Castro achava seu sorriso encantador, mas não podia deixar de acha-lo fingido. Sem poder mais ignorar aquele garoto manipulador, o convidou para ir até sua sala depois das filmagens.
Quando recebeu o recado, Arthur ficou muito feliz, aquilo devia ser um bom sinal, o diretor querer conversar com ele depois das filmagens? Talvez fosse dizer que ele seria promovido para o elenco principal! Chegando à sala do diretor, entrou com fingida timidez, estava um pouco apreensivo é claro, mas timidez era mais fofo.
—O senhor queria falar comigo?
—Sim, pode entrar, sente-se.
—A última vez que ficamos assim cara-a-cara foi na minha audição. Muito obrigado por me dar a chance de participar dessa novela –Arthur sorria e sacudia a perna.
—Bem, Arthur Snow, eu me orgulho de saber ler bem as pessoas e você não me engana –Ele foi direto ao assunto.
—O que o senhor quer dizer? –Perguntou Arthur começando a realmente ficar nervoso.
—Você de besta não tem nada. Deve ser muito difícil passar o dia inteiro controlando cada um dos seus movimentos e palavras –O sorriso de Arthur vacilou –Suas aulas de interpretação devem ter sido realmente muito boas, você consegue convencer quase todo mundo. Não apenas por suas palavras, mas por sua linguagem corporal, cada olhar, toque e sorriso parecem ser friamente calculados. Pensei no início que você fosse um inocente cordeirinho, entretanto agora percebo que na verdade é um astuto guerreiro lutando por sua fama.
As mãos de Arthur tremiam, como aquele cara podia ter sacado tudo daquele jeito? O que devia dizer? Devia se fazer de inocente? Se fazer de desentendido? O diretor o encarava nos olhos, aquele olhar estava alerta, observava até mesmo sua respiração, não tinha como elaborar uma mentira, era quase como se ele pudesse ler seus pensamentos. O olhar de Arthur vacilou e ele olhou pra baixo, então prestou atenção nas mãos do diretor, não havia aliança, ele não era casado. Arthur pensou em sigo mesmo, no quão bom era sua interpretação, para alguém conseguir enxergar através de seus gestos teatrais teria que prestar muita atenção e por muito tempo. “Ele me observa de perto há um bom tempo”.
—Fale comigo sinceramente garoto, não gostei de você no início, pois o achei sem graça, mas você tocava piano tão bem que resolvi te colocar na banda –O diretor riu –Nunca imaginei ver um garoto manipulando toda uma produção, usando da opinião pública para ganhar mais destaque, se fingindo de...
—Você esta certo –Disse Arthur erguendo o queixo de forma soberba –Atuo tão bem que merecia um dos papéis principais –Ele encarou o diretor nos olhos, umas das frases dele tinha o feito optar por esse caminho: “Não gostei de você no início”, isso queria dizer que agora ele gostava. A forma com que o diretor o encarava mostrava que ele gostava de desafios, gostava de pessoas de personalidades controversas. Arthur sorriu encarando-o –Quando o vi pela primeira vez também tive uma visão errada de você.
—Você? O que aconteceu como o “senhor”?
—Se você quer que eu fale sinceramente, então assim será. Você me chama de manipulador e esta completamente certo, como você não me deu um papel justo que condizia com minhas habilidades, eu mesmo o construí, usei tudo ao meu redor para conseguir destaque. Não serei apenas um figurante, serei um dos personagens mais amados da novela.
—Isso não depende de você, posso te tirar da novela no momento em que eu quiser.
—Mas você não fará isso –Arthur colocava muita ênfase todas as vezes que dizia “você”.
—E por que eu não farei isso?
—Por que você me acha interessante –Arthur se levantou e caminhou até ele –Você sente raiva da minha manipulação, mas se diverte me vendo enganar todo mundo, você gosta de me observar, se fascina pela forma que ando, falo e me comporto. Você esta prestando tanta atenção em mim que ouso a achar que pensa em mim o dia inteiro –Arthur estava parado diante do diretor que estava sentado o encarando de cima.
Castro estava adorando aquele clima tenso e ainda mais a forma como aquele garoto resolveu bater de frente com ele, aquela conversa estava sendo muito excitante, uma batalha de egos. “Aquele filho da puta”, “Aquele garoto pensa que me engana”, “Aquele manipuladorzinho”, Arthur estava certo, ele gastava muito tempo pensando nele.
—Você disse que quando me viu pela primeira vez também teve uma visão errada de mim. O que viu? Um coroa fácil de manipular? –Disse Castro e Arthur riu.
—Você me ver como um gênio manipulador, não posso ser assim vinte quatro horas por dia. Na verdade quando te vi, te achei legal, bonito e obviamente quis te agradar ao máximo, afinal minha vaga nessa novela, meu futuro dependia de você.
—Seu futuro ainda depende de mim.
—Depende mesmo? –Perguntou Arthur se inclinando apoiando os braços na cadeira do diretor e o encarando mais de perto –Você vai aprender querido diretor, que algumas coisas são completamente incontroláveis, elas não dependem de nada, simplesmente acontecem.
—O que é essa proximidade toda? Planeja me seduzir? –Seus rostos estavam extremamente próximos, mas nenhum deles ousava desviar o olhar, como se fosse uma baralha que nenhum queria perder.
—Você por acaso esta com medo de ser seduzido?
—Por um garoto? Eu gosto é de mulher.
—Tanto que nem se casou com uma.
—Ainda não encontrei a certa.
—Talvez esteja procurando nos lugares errados –Aquela frase atingiu Castro, era quase como se aquele garoto soubesse de suas noitadas com prostitutas.
—Até onde você esta disposto a ir por sua fama?
—Não tenho limites –Arthur tocou entre as pernas do diretor que vacilou e olhou pra baixo surpreso, não pela atitude do garoto, mas sim, por sua própria reação corporal, estava de pau duro.
—Você sabe o quanto isso é errado, garoto?
—Errado? Fala sério, senhor diretor. Vai se foder!
Aquele xingamento foi como jogar gasolina na fogueira, Castro puxou o rosto do jovem ator e o beijou. Aquela conversa tinha tomado um rumo completamente diferente do que os dois tinham imaginado. Era a primeira vez de ambos beijando alguém do mesmo sexo e foi realmente incrível. Arthur montou no diretor evoluindo o beijo para algo mais quente.
No início foi dito que essa devia ser uma história de amor e que entretanto os acontecimentos levaram-na a se tornar uma batalha pelo estrelato, um relato da ambição de um figurante e a fúria de um diretor diante de uma sombra que sonhava em ser luz. Mas com aqueles dois transando na sala do diretor, talvez a primeira afirmação esteja certa e esta realmente seja uma história de amor.
Fale com o autor