A alma que herdou a si mesma.
2 2 - À Deriva no Escuro
A morte não era aquilo.
Raphael tinha certeza disso.
Ou pelo menos tinha certeza de que não era aquilo que imaginara durante trinta e oito anos.
Não havia céu.
Não havia inferno.
Não havia anjos.
Não havia um túnel de luz.
Não havia julgamento.
Não havia sequer escuridão.
Porque escuridão ainda era alguma coisa.
Aquilo era diferente.
Ele existia.
Mas não da forma que conhecia.
Não tinha corpo.
Não tinha olhos.
Não tinha mãos.
Não tinha sequer direção.
Ainda assim, existia.
A primeira percepção foi essa.
Existência.
Depois veio a confusão.
Porque a última coisa de que se lembrava era o céu do Texas.
O poste.
A dor.
O sangue.
A mulher gritando.
O carro.
O pensamento sobre sua mãe.
Então nada.
E agora...
Aquilo.
Tentou pensar.
A própria tentativa pareceu estranha.
Os pensamentos existiam, mas eram lentos.
Difusos.
Como se alguma coisa estivesse amortecendo sua mente.
Passou o que poderia ter sido um minuto.
Ou uma hora.
Ou um ano.
Ele não fazia ideia.
Tempo parecia ter perdido o significado.
Então veio a primeira sensação.
Tensão.
Não física.
Emocional.
Uma sensação de aperto.
Ansiedade.
Medo.
Não era exatamente dele.
A impressão era estranha.
Como sentir uma emoção através de uma parede.
Ela o atravessava.
Depois desaparecia.
Depois voltava.
Às vezes mais forte.
Às vezes mais fraca.
E sempre sem explicação.
Raphael tentou entender.
Não conseguiu.
Apenas registrou.
Ansiedade.
Medo.
Preocupação.
Algo ou alguém estava sentindo aquilo.
E de alguma forma ele também sentia.
Depois vieram outras emoções.
Raiva.
Frustração.
Tristeza.
Alívio.
Nenhuma parecia realmente sua.
Mas todas o alcançavam.
No início ele pensou estar enlouquecendo.
Depois concluiu que não havia informação suficiente para chamar aquilo de loucura.
A conclusão era simples.
Não sabia o que estava acontecendo.
E ficar desesperado não ajudaria.
Então observou.
Era a única coisa que podia fazer.
Observou.
Esperou.
Pensou.
Ou tentou pensar.
Porque até mesmo raciocinar parecia cansativo.
Sua mente entrava em longos períodos de torpor.
Às vezes uma lembrança surgia.
O rosto da mãe.
O laboratório.
A universidade.
O cheiro de café.
Depois tudo afundava novamente naquela estranha deriva sem forma.
Não havia fome.
Não havia sede.
Não havia dor.
Não havia sono.
Mas existia uma espécie de letargia.
Como se estivesse adormecido sem realmente dormir.
Aos poucos, porém, algo mudou.
Ele começou a sentir limites.
Não de imediato.
Primeiro apenas uma impressão.
Uma fronteira.
Um contorno.
Algo ao seu redor.
Era quente.
Constante.
Confortável.
Não sabia quanto tempo havia passado quando percebeu aquilo.
Mas percebeu.
Não estava flutuando no nada.
Estava envolvido por alguma coisa.
Algo vivo.
Algo macio.
Algo quente.
A descoberta o assustou mais do que deveria.
Porque significava que existia um lugar.
E se existia um lugar...
Talvez existisse um corpo.
Tentou mover-se.
Nada aconteceu.
Ou talvez tivesse acontecido algo tão pequeno que ele não percebeu.
Não tinha certeza.
Na verdade, não tinha certeza de quase nada.
Apenas continuou observando.
Mais emoções vinham.
Mais sensações.
Às vezes aquela presença ao redor transmitia tranquilidade.
Outras vezes nervosismo.
Uma ocasião, uma explosão súbita de medo o atingiu com tanta força que ele quase acreditou ser sua.
Durou pouco.
Mas foi intensa.
Depois desapareceu.
E ele voltou a esperar.
O tempo continuava impossível de medir.
Talvez semanas.
Talvez meses.
Então veio o primeiro som.
No início ele nem percebeu.
Era muito distante.
Muito abafado.
Muito constante.
Tum.
Tum.
Tum.
Tum.
Tum.
Um ritmo.
Regular.
Persistente.
Raphael concentrou toda sua atenção nele.
O som não desapareceu.
Continuou.
Tum.
Tum.
Tum.
Tum.
Tum.
Um batimento.
Coração.
A conclusão surgiu quase imediatamente.
Era um coração.
Disso ele tinha certeza.
A frequência parecia rápida.
Mais rápida que a de um adulto em repouso.
Mas ainda era um coração.
A descoberta trouxe algo que não sentia desde a morte.
Esperança.
Porque sons significavam realidade.
Realidade significava contexto.
Contexto significava respostas.
Ainda não sabia quais.
Mas era um começo.
Passou a prestar atenção naquele ritmo.
Por muito tempo.
Até perceber outra coisa.
Havia um segundo.
Mais distante.
Mais grave.
Mais lento.
Tum.
Tum.
Tum.
E então.
Tum-tum-tum-tum.
Dois ritmos.
Dois corações.
Raphael congelou.
Ou teria congelado, se ainda soubesse o que isso significava.
Dois corações.
Não um.
Dois.
A conclusão demorou.
Porque era absurda.
Mas eventualmente chegou.
Não estou sozinho.
A ideia permaneceu.
Imóvel.
Pesada.
Não estou sozinho.
O que quer que estivesse acontecendo...
Havia outra vida próxima.
Muito próxima.
Próxima demais.
Pela primeira vez desde a morte, o medo apareceu.
Medo verdadeiro.
Porque uma possibilidade começava a tomar forma.
Uma possibilidade que ele ainda se recusava a aceitar.
Então vieram os sons.
Primeiro ruídos sem sentido.
Vibrações.
Murmúrios.
Mudanças de tom.
Nada compreensível.
Mas presentes.
O cérebro que antes mal conseguia processar a própria existência agora parecia despertar lentamente.
Os sons ficaram mais claros.
Ainda abafados.
Ainda distantes.
Mas reais.
Vozes.
Não entendia palavras.
Apenas ritmos.
Entonações.
Algumas suaves.
Outras ríspidas.
Uma delas aparecia mais que as outras.
Uma voz feminina.
Frequentemente calma.
Às vezes ansiosa.
Às vezes triste.
Às vezes feliz.
A mesma presença emocional que ele sentia havia tanto tempo.
Foi então que algo se encaixou.
Devagar.
Relutante.
Mas inevitável.
As emoções.
O calor.
Os batimentos.
A voz.
O espaço ao redor.
A ausência de liberdade de movimento.
Tudo apontava para uma única conclusão.
Não.
Não podia ser.
Mas era.
Estou dentro de alguém.
A ideia o atingiu como um raio.
Dentro de alguém.
Vivo.
Protegido.
Crescendo.
Não morto.
Não espírito.
Não fantasma.
Não alma flutuando em algum plano desconhecido.
Dentro de alguém.
Raphael tentou rejeitar a conclusão.
Falhou.
Toda nova percepção apenas reforçava a hipótese.
As vozes.
Os batimentos.
O ambiente líquido.
A pressão constante.
Tudo.
Então veio a conclusão final.
A única que explicava todas as outras.
Eu renasci.
Durante muito tempo ele apenas ficou ali.
Tentando aceitar.
Não havia desespero.
Não era sua natureza.
Mas havia choque.
Um choque tão profundo que parecia impossível de medir.
Porque aquilo mudava tudo.
A morte não era o fim.
A morte não era sequer uma porta.
Era uma passagem.
Uma mudança.
Uma transição.
E ele não fazia ideia do motivo.
Nem das regras.
Nem das consequências.
Apenas sabia que estava acontecendo.
E que não podia impedir.
Então fez o que sempre fizera diante do desconhecido.
Observou.
Aprendeu.
Esperou.
As semanas seguintes trouxeram mais clareza.
Mais sons.
Mais sensações.
Mais movimento.
O corpo ao seu redor se movia.
Às vezes caminhava.
Às vezes corria.
Às vezes permanecia imóvel por longos períodos.
Ele começou a perceber mudanças de posição.
Mudanças de temperatura.
Mudanças na própria consciência.
Seu cérebro parecia crescer junto com seu entendimento.
O mundo deixava de ser apenas sensação.
Tornava-se informação.
E então, sem aviso, tudo mudou.
A tranquilidade desapareceu.
O espaço ao redor começou a pressioná-lo.
O ambiente inteiro entrou em movimento.
A voz que conhecia tão bem parecia assustada.
Outras vozes surgiram.
Mais altas.
Mais urgentes.
A pressão aumentou.
Raphael sentiu algo puxando.
Empurrando.
Apertando.
Pela primeira vez desde a morte, sentiu desconforto físico real.
Muito.
O calor desapareceu.
A segurança desapareceu.
O mundo inteiro parecia expulsá-lo.
O pânico ameaçou surgir.
Mas ele o conteve.
Observou.
Aprendeu.
Esperou.
Então veio a luz.
Não uma luz divina.
Não uma luz celestial.
Uma luz real.
Violenta.
Ofuscante.
A primeira luz de uma nova vida.
O frio atingiu sua pele.
O ar invadiu seus pulmões.
A sensação foi horrível.
Dolorosa.
Abrupta.
Instintiva.
E antes que pudesse impedir...
Antes mesmo que entendesse...
Raphael abriu a boca.
E chorou.
Pela segunda vez em sua existência.
Ele havia nascido.
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