A Vênus Esculpida
1 Prólogo
Notas iniciais
Talvez eu não seja um narrador confiável. Cabe a você julgar isso. O problema é que se você julgar errado poderá acabar se surpreendendo muito, porque a história que devo te contar é densa e, muitas vezes, complicada. De todo modo, essa é a única intervenção que farei. Daqui por diante irei narrar os fatos sem julgamentos ou parcialidade. Afinal, além de mim, talvez você esbarre em outros narradores e, meu amigo, garanto que eles serão ainda menos comprometidos com a verdade. Porém, não me estendendo no assunto, e tomando o papel que me cabe, o de contar uma história, devo pontuar que tudo de fato começou no dia vinte e três de novembro de dois mil e doze.
Na realidade tudo havia começado bem antes, mas as pessoas só começaram a sentir os efeitos quando Miranda Gaitán, a querida Nanda de seus amigos ou Nandinha de seus pais, se jogou de uma janelo rumo ao chão. Ninguém entendeu, talvez porque não havia muito a ser entendido. Mas ela se matou e aqueles que a amavam, do fundo de seus corações, ansiavam em saber as razões. Mas Nanda já estava longe e só ela poderia contar aquilo que todos clamavam por resposta. Entretanto, meu papel aqui não é falar sobre os efeitos da perda de Nanda, não agora, pelo menos. Nesse primeiro momento é preciso entender como foi a última noite da garota, pois ela representou também a última noite verdadeira de uma amizade que parecia indestrutível.
Em uma mesa redonda e marrom de um bar bucólico da cidade se encontrava cinco jovens, em meio a risadas e garrafas de bebida. Eles sorriam e falavam alto, como em toda boa reunião após a faculdade. Eram comuns como todos os outros grupos, a menos talvez pela duração daquela ligação entre eles. Nanda, Lola, Nick, Becca e Leo se conheceram ainda na idade de seis anos, pois estudaram na mesma escola. É o que ocorre com muitas crianças, a criação de um círculo de amizade. Mas muito vezes esse laço construído tão ternamente é também quebrado com facilidade. Nesse caso, não foi assim. No auge de seus vinte anos, cada um deles continuava tão amigo quanto na época das primeiras brincadeiras. Cada um era diferente entre do outro, embora essas diferenças caibam ao leitor descobrir. De todo modo, eles conseguiram encontrar-se e continuar juntos, independente de seus gênios.
— O que a vida nos reserva. — Disse Lola, já bêbada. — Às vezes sinto que estou caminhando para qualquer rua sem saída. Como se nenhum caminho tivesse um sentido real.
— Acho que todos nós temos a mesma sensação. — Respondeu Nanda, enrolando uma mexa dos cabelos escuros. — A gente acha que isso é individual, que nos sentimos assim e mais ninguém. Na realidade estamos todos no mesmo barco.
Becca franziu o rosto em resposta a conversa. A face bonita da jovem se tornou carrancuda, demonstrando em seu rosto o que tinha no mais íntimo de seu coração. Ao contrário de suas outras duas amigas ela não gostava de pensar em coisas desse tipo, não porque fosse fútil, mas sim porque sabia que olhar para o poço, como Nanda e Lola fazia muitas vezes, poderia ser um caminho sem volta. Nick, percebendo o semblante de Becca, a cutucou, como um lembrete de que ela deveria manter a postura. Geralmente ela não sabia o limite de suas expressões porque era feita disso, demonstrações corpóreas de suas angustias. Mas ela se acalmou ao toque do velho amigo e deu um sorriso fraco para ele, enquanto tocava sua mão. Era a Becca de sempre retornando.
Os dois engataram uma conversa sobre alguma coisa aleatória, provavelmente as expectativas para o final de faculdade. Enquanto isso Lola ainda debatia fortemente com Nanda sobre o sentido daquilo que viviam. Lola acreditava que o sentido residia em algum lugar, mas Nanda continuava firme na sua ideia de que nada seria suficiente para a vida se sustentar. Obviamente alguém deveria ter prestado atenção nessa conversa, visto que o acontecimento dessa noite poderia ter sido diferente. Mas Lola estava alterada e Leo, que as analisava, tinha mais olhos para o modo como as mãos de Nanda se movimentavam, ora passando nos cabelos, ora tocando os próprios braços. Era nítido que Leo parecia hipnotizado, mas todos estavam ocupados de mais para enxergar isso.
— Eu acho que está tarde para mim, pessoal. — Nanda levantou-se, bocejando preguiçosamente. — Não sei quanto a vocês, podem continuar a reunião, mas eu preciso ir embora.
— Por quê? Você está de folga amanhã, né? — O tom de Leo era enfático, como se não estivesse perguntando, mas sim exigindo algo.
— Porque estou cansada. — Os olhos de Nanda Gaitán brilharam, e todos viram aquele traço indiscutível da jovem, o de se retrair frente a qualquer tentativa de dominação. — Você é muito intrometido, Leo, meu querido. — O jeito brincalhão da fala fez Leo ficar ainda mais bravo com sua amiga. Mas Becca, repetindo o gesto de Nick, o tocou levemente. — Eu vou embora, sobretudo, porque eu posso e quero.
Os olhos azuis de Leo se fixaram nos escuros de Nanda, como se quisesse vencer uma luta não com a menina, mas com ele próprio. Todos na mesa se calaram, sabendo que o comportamento possessivo de Leo no passado causava as reações estranhas de Nanda. Becca ainda continuava o tocando, agora com o rosto baixo e os lábios franzidos. Tal atitude não passou despercebida por Lola, que sutilmente esperou os olhos de Becca pousar sobre ela para fazer um sinal de brinde com seu copo cheio.
— Boa noite, amigos. — Nanda falou, divertida como sempre, jogando beijinhos para os outros enquanto saia, ao passo em que eles respondiam a sua despedida. Claro, não imaginavam que seria a última. A última de todas.
Segundo Nick, ela saiu do jeito clássico de Nanda sair de cena. Leo continuava estressado e a admirado, enquanto Becca tinha os olhos fixos nele. Os quatro olhavam Nanda, a cola do grupo, sair em passos leves. Enquanto ela olhava a noite fora do restaurante e caminhava rumo ao prédio no qual ceifaria suas vidas. Sabemos que seus amigos não esperavam por isso, se soubessem desse fato, e das consequências, a teriam impedido. Mas o que se passava na cabeça dela própria ninguém nunca entendeu. E no fim, saberia Nanda que caminhava para seu próprio fim?
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