A Véspera
1 Antes da meia-noite
Notas iniciais
John ainda sentia as bochechas geladas, de quando acompanhara as visitas até a porta junto de Mrs. Hudson, quando se sentara ao lado da figura esparramada de Sherlock no sofá. Beijou a senhoria na bochecha e lhe desejou uma boa noite, subindo as escadas logo em seguida. Cutucou as pernas compridas do moreno, e ele as encolheu, para que John pudesse se acomodar junto de si.
A sala estava confortável e quente. O lugar era iluminado apenas pelo fogo vermelho na lareira e os pisca-piscas coloridos pela sala. John sentiu os dedos gelados, dos pés nus, de Sherlock por baixo de seu suéter vermelho e verde e sentiu um arrepio. Trouxe os pés do amigo até seu colo e os envolveu com a pele quente de suas mãos, os acariciando. O mais alto estava virado para as costas do sofá, o tecido fino de seu terno amassando contra o estofado.
John o observou com atenção, da forma como havia aprendido depois de anos ao lado do único detetive consultor do mundo. Ele estava emburrado. Suas sobrancelhas estavam unidas e seus lábios contraídos com firmeza. Sabia muito bem que contato social não era a especialidade do companheiro e sabia que a ceia daquele ano fora muito mais demorada que todas as outras. Ele próprio havia se animado numa conversa com Greg, enquanto Molly e o namorado conversavam com Mrs. Hudson alegremente. Eram 23h14min de uma véspera de natal e John podia ver o quanto Sherlock estava cansado.
–Você foi ótimo hoje, Sherlock – o loiro disse sem parar com a carícia leve no pé do outro. – Estou orgulhoso de você.
O mais alto bufou ante suas palavras, enquanto se remexia contra o sofá como um gato atacado. Mas John estava falando a verdade. Não eram apenas palavras para uma criança birrenta melhorar de humor. Sherlock realmente se esforçara para não atacar ninguém com sua língua ferina. Presente de natal para mim, John pensou com um sorriso sarcástico. E talvez fosse verdade, se não fosse os dois únicos pacotes brilhosos embaixo da árvore enfeitada no canto da sala.
–Não sei por que você me obriga a fazer coisas tão mundanas e irritantes – reclamou com a voz de tom forte. – Achei que eu fosse explodir a qualquer momento durante aquele jantar.
O loiro sorriu, enquanto rolava os olhos azuis, mas sabia que era verdade. Não duvidou, se quer por um momento, que o mais novo pudesse explodir bem no meio da ceia.
–São nossa família, Sherlock – o loiro disse enquanto fitava o rosto escuro do companheiro, virado contra a luz da lareira. – É bom, não é, passar um tempo com a família?
Claro que era uma pergunta tendenciosa, ainda mais sendo direcionada para Sherlock, e John não pode conter o riso ante o olhar cínico que o moreno lhe lançou. Apertou os dedos do namorado com carinho e viu seu corpo relaxar com o toque morno. Sherlock bufou mais uma vez, em desistência.
As janelas jaziam cobertas de neve branca e o vento invernal gemia contra o vidro fechado. A sala era aquecida pelo fogo da lareira e sua luz fazia os enfeites resplandecerem na árvore de natal. John permitiu que seu corpo relaxasse contra o estofado e se deixou levar pela respiração calma do moreno ao seu lado, enquanto o acariciava levemente. Teria pegado no sono alguns momentos depois se a voz rouca do detetive não houvesse soado no cômodo.
–Preferia ter passado a noite com você – disse num miado rouco. – Só com você.
John sentiu o queimar dos olhos claros de Sherlock sobre sua pele, mesmo sob toda aquela roupa. Sorriu de lado e, com um pensamento nada puritano, pensou em como o moreno se comportara bem durante aquela véspera de natal. Ele merecia uma recompensa pelo bom comportamento.
–Ainda não é meia-noite – o doutor se insinuou, correndo os dedos para dentro da barra da calça social que o moreno vestia. – A noite ainda não acabou... E, bem, todos já foram embora e Mrs. Hudson logo estará dormindo. Você me tem todo pra você agora.
O sorriso que recebeu de Sherlock respondeu tudo o que o restante da noite – e parte da madrugada. – seria. Apenas os dois na sala quente e mal iluminada durante a véspera de natal. Apenas os dois.
–Talvez não seja tão ruim passar por essa coisa de ceia – o moreno sussurrou, enquanto sentava-se no sofá. – Se o final da noite for sempre essa constante.
E se fosse pelos dois, seria sempre assim.
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