A Voz do Tordo
4 Como Conquistar o Coração de uma Mulher
Notas iniciais
De modo geral, Katniss não gosta de Peeta Mellark. Na verdade, ela não gosta mesmo é de se sentir constantemente observada. E é isso que Peeta está fazendo agora, do outro lado da mesa de piquenique: a observando quando acha que ela não está prestando atenção.
O Sr. Everdeen organiza esse piquenique anualmente para comemorar a boa colheita e a prosperidade de sua fazenda. Então, chama toda a vizinhança para um dia inteiro de muita comida e dança. E Katniss, como a filha mais velha do velho fazendeiro, é obrigada a comparecer com um grande sorriso, muito diferente de sua carranca usual.
E, este ano, Peeta parece ainda mais interessado nela. Madge sussurra isso para ela toda vez que as duas o pegam olhando, seja na cidade ou na escola. A amiga não entende a resistência dela ao garoto bonito, de ombros largos e olhos azul-brilhantes, que também tem o mérito de vir de uma boa família dona da padaria do distrito.
Logicamente, ela não teria por que recusá-lo, mas detesta que todo o relacionamento deles se baseie em olhares furtivos e em uma dívida que ela nunca será capaz de pagar. E toda vez que ele olha para ela, parece estar requerendo esse pagamento.
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Tudo aconteceu cerca de três meses atrás. É bem verdade que o Sr. Everdeen adora sua filha mais velha e fará, sempre que possível, todas as suas vontades. Katniss não se considera uma garota mimada. Ela entende que tudo o que sua família tem vem de muito trabalho duro e esforço. Não há espaço para vaidade.
Mas ela queria muito aprender a andar a cavalo. Madge já sabia galopar desde os 13 anos de idade e ela gostaria de poder experimentar também. Mas o pai já era um homem de certa idade e não poderia confiar a nenhum de seus peões o bem-estar de sua única filha. Ele precisaria encontrar um bom instrutor de montaria para garantir que ela não se machucasse.
Então, havia o filho mais velho dos Hawthorne, Gale. Sendo um rapaz que também cresceu em uma fazenda, não foi difícil ensiná-la. E, em apenas algumas semanas, Katniss já montava perfeitamente o cavalo da família.
No entanto, a garota nunca foi conhecida por sua prudência. Era de uma natureza aventureira demais, que por vezes trazia grande aflição ao pai. E, em um sábado específico, conseguiu convencer Gale a deixá-la montar seu cavalo: um belo alazão de pelagem escura e porte de corrida.
O pai a observava de longe enquanto conversava com o Sr. Hawthorne sobre a temporada de caça aos patos, quando ouviu os gritos da filha. Seu sangue gelou ao vê-la sendo carregada velozmente pelo cavalo descontrolado. Ela poderia ser uma boa aluna e ter aprendido rápido, mas há coisas que exigem mais do que poucas semanas para serem dominadas. A natureza é implacável quando quer.
Mesmo com os joelhos protestando, o Sr. Everdeen correu até próximo aos estábulos numa tentativa inútil de alcançar a garota. Gale já estava montando outro cavalo para tentar chegar até Katniss.
“Meu Deus, guarde minha menina.” Rezar era tudo o que podia fazer.
Ele constatou, angustiado, que Gale não seria capaz de alcançá-la antes que ela fosse jogada pelo furioso cavalo que rodopiava no meio da relva. Mas, como em um conto romântico que sua esposa o obrigava a ler antes de dormir, um jovem de cachos loiros surgiu do aparente nada.
Montado em um belo cavalo cinza e com seu uniforme de soldado da União de Panem, o filho mais novo dos Mellark conseguiu conter o animal puxando a rédea. O movimento brusco fez com que Katniss caísse com um baque surdo no chão.
“Ela está morta”, lamentou o pai quando o rapaz trouxe a filha nos braços, acompanhado de Gale.
“Não, apenas desmaiada. Ela vai ficar bem, senhor.” Ele disse, e em seguida se apresentou como Peeta.
Estava fazendo um treinamento em uma colina próxima, testando novos truques com seu cavalo, quando ouviu os gritos da garota e se apressou em ajudar. O Sr. Everdeen insistiu que ele ficasse até Katniss acordar, para que ela mesma pudesse agradecer, mas ele se recusou por precisar voltar ao quartel em breve.
Mas prometeu jantar com a família no dia seguinte. E cumpriu sua promessa, estando na porta dos Everdeen pontualmente às 18 horas, trazendo nas mãos uma saborosa torta de maçã.
E isso se tornou rotina. O pai adorava o garoto Mellark, sempre o convidando para jantares, festas e incluindo-o em seu grupo de caça aos patos da temporada.
“Papai me disse que foi você quem me ajudou a levantar quando caí do cavalo ontem”, Katniss disse a Peeta logo após o jantar, quando o velho Everdeen deixou a sala.
Levantá-la era eufemismo, pois ela ficou desacordada por alguns minutos devido à concussão. Mas, se ela quisesse chamar aquilo de uma pequena queda, não seria Peeta a ferir o ego de uma moça bonita.
“Esse fui eu, sim. Está se sentindo melhor?”
“Só uma leve dor de cabeça, mas ficarei bem. Ainda preciso convencer o papai a me permitir voltar às aulas de montaria. Ele ainda está bravo com Gale.”
“Talvez ele possa ser persuadido se você tiver um melhor instrutor. Um em quem ele confia.”
“Não sei. Já foi um grande trabalho para conseguir Gale. O senhor conhece alguém?”
E foi assim que Peeta passou a ser o instrutor da jovem. Quando a filha levou a ideia ao Sr. Everdeen, não foi nada difícil que ele aceitasse, afinal devia a vida da garota ao rapaz. Ele podia confiar nele.
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“Acho que estou apaixonado pela senhorita Everdeen”, Peeta segredou ao amigo tarde da noite, depois de algumas bebidas.
Finnick era o companheiro mais antigo dele, tendo-o incentivado a entrar para o exército depois que percebeu que não poderia assumir a padaria dos pais devido ao interesse do irmão mais velho.
Ele teria um lugar para ficar, poderia guardar algum dinheiro e estar na companhia de bons camaradas não seria nada mal. E Finn era o melhor deles, pelo menos na opinião masculina. As mulheres o teriam como devasso, ainda que algumas desejassem ser aquela que o faria um homem digno.
Em contraste, Peeta era irremediavelmente romântico. Culpe o bom casamento dos pais e o fato de o Sr. Mellark contar aos filhos, sempre que possível, como a mãe deles foi sua primeira e única namorada.
“Ela sabe disso?”, perguntou o amigo, parecendo se divertir às custas dele.
“Nem sonha. Acho que ela não sente o mesmo. Às vezes quase posso crer que sim. Tem um olhar, um gesto, uma palavra. Mas não tenho certeza. Talvez eu esteja apenas projetando meus próprios sentimentos nas ações dela.”
“Bem, meu bom amigo, nada o impede de perguntar. Deixe que ela lhe tire as dúvidas.”
“Tenho medo de ser rejeitado. O pai, esse sim gosta de mim.”
“Case-se com o velho, então. Que ótimo desfecho.” Finnick zombou dele, achando graça da situação.
“Não seja um babaca. Me aconselhe seriamente. Você já deve ter se apaixonado pelo menos uma vez, apesar de todos os seus casos de uma noite.”
“Ainda não. Mas, se quer mesmo a minha opinião, é simples: fale com ela. Elogie a beleza dela. Leve-a para dançar e então a beije. As mulheres gostam de homens de atitude.”
“Beijá-la… não sei se consigo. E se ela me der um tapa por não gostar disso?”
“Você é um fracote, Mellark. Vai morrer sozinho, infelizmente.” Disse o amigo, sem esconder sua diversão.
Na semana seguinte, Peeta planejou chamá-la para um passeio a sós. O pai dela não parecia se opor a nada. Na verdade, até mesmo incentivava a aproximação dele com a filha, ainda que nunca tivesse falado abertamente.
As palavras sempre estavam na ponta da língua toda vez que eles se despediam depois das aulas de montaria; no entanto, ele nunca as dizia.
“Tem razão, Finn. Vou acabar meus dias como um velho solitário”, falou ao amigo enquanto os dois voltavam para o quartel.
“Anime-se. O pai dela vai organizar um piquenique na próxima semana, não vai? Está aí sua oportunidade. Leve-a para uma caminhada só vocês dois e então lhe confesse.”
“Você faz parecer tão simples.”
“O amor é simples. São os apaixonados que complicam tudo com drama.”
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No dia do piquenique, Peeta tem um plano. Um muito bom, aliás. Ele chama o Sr. Everdeen de lado logo após chegar à propriedade e pede permissão para cortejar sua filha.
“Mas é claro, meu jovem. Tem toda a minha bênção. Vá em frente. Que coisa maravilhosa será tê-lo como meu genro.”
“Ficaria muito feliz com isso também, senhor. Mas preciso convencer sua filha primeiro.”
“Ela ainda não sabe de suas intenções?”
“Creio que ela desconfie. Ainda não lhe disse.”
“Então, se apresse, rapaz.”
Quando Peeta sai da sala com a esperança renovada, o Sr. Everdeen vai em busca da filha para lhe contar as boas novas. A reação dela não é das melhores.
“Não vou me casar com ele. O senhor não pode me obrigar.”
“Nunca disse que faria. Só peço que pense sobre isso. Peeta é um bom rapaz. Ele a salvou uma vez, lembra?”
“Então, o senhor está me oferecendo como pagamento de uma dívida por ele ter salvado minha vida?”
“Mais uma vez você está distorcendo minhas palavras, Katniss.”
“Bem, é assim que soa para mim, papai.”
“Ele está apaixonado por você e quer se casar. Que mal haveria em aceitá-lo? A menos que você tenha outro pretendente em mente.”
“Não tenho. Mas isso não significa que precise me lançar nos braços do primeiro que demonstre interesse.”
“Eu sei. Só queria deixá-la preparada para quando ele lhe propuser, para não ser uma surpresa completa.”
“Agradeço o aviso.” Com isso, Katniss saiu do escritório, pisando duro. Como Peeta ousava encurralá-la desse jeito, indo diretamente ao pai antes de falar com ela?
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Alheio à conversa que ocorrera mais cedo no escritório do Sr. Everdeen, Peeta toma um lugar na mesa de onde possa ver perfeitamente sua futura noiva.
A garota o percebe olhando, e ele sorri. Ela apenas se volta para a amiga, conversando baixo demais para que ele entenda. Isso começa a abalar sua confiança recém-adquirida.
E o momento parece se repetir o dia inteiro. Ele se aproxima cheio de boas intenções, apenas para que ela o receba sem qualquer entusiasmo. Suas respostas são vagas, e ele parece ser o único que quer continuar conversando.
Até que desiste, se isolando carrancudo perto da fogueira acesa quando a noite começa a cair. Ele não está fazendo avanço algum. O pai dela o ama, mas ela não. Maldito Finnick, que o fez pensar que o amor poderia ser simples. É uma bagunça.
“O senhor dança?”, uma voz aguda pergunta de repente. É Johanna, a prima de Katniss, que está passando uma temporada na casa dos tios porque os pais não aguentavam mais sua rebeldia na cidade grande.
Peeta logo põe sua máscara de moço alegre, levantando-se e pegando a mão dela.
“Não muito, mas como posso recusar o pedido de uma moça?”
“E é bom dançarino?”, ela diz com um tom coquete que apenas garotas da sua idade têm.
“A senhorita me dirá.” Então, ele a gira ao som do banjo que um dos capatazes dos Everdeen dedilha em uma música animada. Os casais ao redor se juntam a eles em instantes.
Ele está suado e quase esqueceu a rejeição sofrida mais cedo quando volta ao seu lugar. Johanna fala sem parar ao seu lado, elogiando suas habilidades na dança, e ele não pode evitar olhar para além da fogueira, encontrando os olhos de Katniss já nele. E ela não parece muito feliz.
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Katniss o observa enquanto ele rodopia com Johanna perto da fogueira. Ele não parecia tão apaixonado quanto o pai o descrevera, se conseguia se entreter tão facilmente com outra garota.
E, antes que perceba, seu humor se torna azedo. Ela não gosta de pessoas que mudam da água para o vinho de forma tão rápida. Era ele que queria pedir sua mão em casamento?
“Eu te disse que, se você não deixasse de ser teimosa, outra viria e o roubaria”, diz Madge.
“Me roubar o quê?”, Katniss diz com desdém, tentando esconder o desconforto de ter sido pega.
“Não se faça de desentendida. Óbvio que estou falando de Peeta. Ele gosta de você, mas você o trata com indiferença.”
“Não sou indiferente. E ele não parece se importar muito com isso agora.”
Madge bufa, cutucando a amiga quando Peeta olha na direção delas.
“Aposto que ele largaria a Jo no momento em que você o chamasse. Mas isso não vai acontecer. Você é orgulhosa.”
“Ele só gosta de mim porque lhe devo a vida. Não é amor. É dívida, e só posso pagá-la se me casar com ele.”
“Não seja tola. Ele gostava de você muito antes disso. Todo mundo sabe. O irmão dele o provocava por isso o tempo todo na escola.”
“Agora você está inventando histórias.”
“Não acredita? Pergunte a ele.”
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Na hora do jantar, todos se reúnem ao redor da mesa disposta no gramado. Um conjunto de luzes está envolto nas árvores próximas, iluminando fracamente o lugar — o suficiente para que todos possam ver a comida.
O velho Everdeen fez questão de sentar Peeta e Katniss lado a lado, de forma nada sutil. Sua filha pode ser cabeça dura às vezes. Ela não protesta tanto assim.
Peeta trouxe uma sobremesa deliciosa da padaria dos pais. Ele vai agradecer aos Mellark depois. A expressão da filha quando dá a primeira mordida no bolinho arranca um sorriso do rosto do rapaz.
Ele não consegue ouvir o que ela diz a Peeta, mas parece um elogio, pois o jovem sorri ainda mais. E, pelo resto da noite, Katniss parece mais aberta às investidas dele. O pai contempla esperançoso. Quem sabe ele possa ter um genro até o fim da semana.
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Demora uma semana para que Peeta tenha coragem suficiente para propor casamento a Katniss. Ele ignora todos os conselhos de Finn, abre mão de qualquer plano elaborado. Ele simplesmente pergunta:
“Sei que agora a senhorita gosta de mim como amigo. Mas acha que pode me amar algum dia? Como seu marido?”
Katniss morde o lábio, desviando o olhar. Suas mãos parecem muito interessantes agora. Ela pensou sobre esse momento desde o dia do piquenique. Sabia que ele perguntaria e, no início, sua mente se empenhou em criar formas de rejeitá-lo gentilmente.
Mas, agora, ela não tem argumentos válidos contra a ideia de se casar com ele. O pai tem razão: ele é um bom rapaz. Se analisar bem, até bom demais para a carrancuda Katniss Everdeen.
E precisa admitir que gosta de como ele a olha. Com uma admiração que ela nem consegue entender o porquê. Gosta de como ele sorri sempre que ela entra na sala. E da sensação presente da mão dele sobre a sua, entrelaçando os dedos, enquanto espera uma resposta.
“Acredito que sim.” Ela fala, e Peeta beija suas mãos unidas.
“Então, você vai se casar comigo, Katniss?”
“Sim. Eu vou.”
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É certo que o Sr. Everdeen fica feliz por a filha ter aceitado o pedido de Peeta. Já pode imaginar sua casa cheia de netos correndo por todos os lados.
Mas isso não quer dizer que ele esteja contente quando encontra a filha pressionada pelo garoto do lado de fora do celeiro, parecendo despenteada e culpada por ter sido pega aos beijos com o noivo.
“Hmm… boa tarde, Sr. Everdeen.” Diz Peeta, tentando arrumar os próprios cabelos bagunçados.
“Sua mãe está à sua procura, Katniss.” Ele fala com tom severo, recebendo um aceno dela que parte, deixando apenas os dois homens.
Peeta tem a decência de parecer envergonhado.
“Guarde isso para o casamento, meu jovem. Não quero netos antes do tempo.”
“Sim, senhor. Me desculpe.”
“E feche a camisa.”
Ele ri para si mesmo ao ver o rapaz se atrapalhando com os botões. Mais tarde, sentado em sua cadeira de balanço na varanda, lembra o dia em que pensou que perderia sua querida filha. Quem imaginaria que seria o dia em que ganharia um filho?
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