Notas iniciais
Premissa: Katniss e Peeta são membros de uma banda e precisam resolver algumas pendências. Inspirado em todo o drama do Paramore no último ano. Recomendo a música Crystal Clear de Hayley Williams se quiser ler com a vibe correta.

Está tão silencioso quanto possível para um trem em movimento quando Katniss vaga até o bar para uma bebida. É mais uma noite, desde que a turnê de sua banda começou, em que não consegue dormir.


O bartender já deve ter ido para a cama, pois o balcão está vazio. Então, ela apenas pega uma garrafa de vinho e se acomoda em uma das mesas.


Alguns minutos depois, Peeta surge, parecendo ter tido a mesma ideia, e entra no vagão-bar para não encontrar ninguém além dela.


“Você nunca dorme, Mellark?”, ela chama sua atenção. Ele parece se assustar antes de perceber quem é.


“Posso perguntar o mesmo a você”, diz, se aproximando para sentar à sua frente.


“Apenas cansada demais até para dormir. Quer um pouco?” Ela oferece a garrafa a ele, que aceita com certa hesitação.



“Não sabia que tinha voltado a beber. Pensei que tivesse feito uma promessa à Prim.”


“Tempos difíceis. Minha irmã vai entender.”


Eles caem em um silêncio nada agradável. Peeta parece culpado, e ela sabe exatamente no que ele está pensando agora — no beijo que dividiram há alguns dias.


“Katniss, eu…”


“Olha, não quero ouvir seu discurso novamente. Eu entendi. Foi apenas um beijo e não deveria ter acontecido.”


“Certo.”


“Mas você poderia parar de me evitar.”


“Não estava te evitando. Não conscientemente, eu acho.”


Eles voltam a ficar em silêncio, e Katniss olha pela janela, observando a paisagem noturna.


“Se sabia que as coisas ficariam estranhas entre a gente, por que me beijou?”


Peeta suspira, recostando-se na cadeira. Ele desvia o olhar para a janela, espelhando a postura anterior dela.


“Não foi exatamente planejado. Eu só queria e então fiz. Me desculpe por isso.”


Ela devolve a garrafa à mesa, absorvendo suas palavras e sentindo o estômago apertar de forma desconfortável.


“Você se arrepende?”


“Não, não.” Fala rapidamente, voltando-se para ela. “Não foi o que quis dizer. Só acho que fui meio precipitado.”


“Por quê?”


“Porque temos pessoas que dependem de nós, dessa banda. E não podemos arriscar tudo assim.”


Katniss pensa em seus colegas, que dormem pacificamente em seus vagões agora.


“A gente junto seria algo ruim?”


“Finnick acha que sim.”


“Você pediu conselhos amorosos ao Finnick?”, ela ri com sarcasmo.


“Não tinha mais ninguém com quem falar sobre isso.”


“Podia ter falado comigo.”


“Isso não ia me ajudar muito.” Ele passa os dedos pelos cabelos, afastando os fios que caem no rosto.


É somente quando faz isso que Katniss percebe o cansaço em sua voz. Não deve estar dormindo muito, assim como ela.


“E o que o Finnick te disse exatamente?”


“Apenas que, se a gente não der certo, a banda pode ser prejudicada. E que eu deveria pensar bem antes de tentar levar isso adiante.”


“Ele parece ter tanta certeza de que a gente não duraria.”


“Bem, não tem como saber. E concordo um pouco com ele.”


“Então é isso?”


A constante hesitação dele em responder suas perguntas a irrita. Ele é normalmente tão tagarela.


“Sabe, depois do que aconteceu, achei que eu ficaria com medo e fugiria. E, no fim, foi você quem fez isso.”


“Não estou com medo. Só não quero acabar te magoando e prejudicando a banda no processo.”


“Adivinha? Você já está me magoando, Peeta. Sua indecisão já está prejudicando essa banda. Não percebe isso?”


“Katniss…”


Ela não suporta mais ouvi-lo repetir as mesmas coisas. Então, se levanta e caminha para seu quarto antes que comece a chorar na frente dele.


O cômodo está escuro quando se joga na cama, sem nem mesmo se dar ao trabalho de trancar a porta.


E finalmente se permite realmente chorar, todo o peso das últimas semanas caindo sobre ela de uma vez. Ela está se sentindo cansada e sozinha. Eles estão nessa turnê há meses, viajando de um lado para o outro infinitamente. Tudo o que quer é se sentir em casa novamente.


Ela saiu de sua cidade ainda adolescente, em busca de um sonho que achou que satisfaria todos os seus desejos. Mas os anos mostraram uma realidade diferente. Nunca se sentiu tão vazia e solitária.


Peeta era a única coisa que ainda a conectava àquele velho mundo. Um amigo de infância. Um rosto conhecido. Alguém para chamar de lar.


E quando ele a beijou na outra noite, com as mãos ancoradas em suas bochechas de forma tão doce e familiar, ela sentiu sua guarda baixar. Exposta ao calor de seu toque.


Deveria ter previsto que aquilo não duraria. Ele escolheu se afastar, sem lhe dar chance de tentar. Seria melhor se ele a tivesse deixado somente imaginando, pois agora sabia como eles poderiam ser bons juntos.


Ela não sabe quanto tempo passou quando ouve uma batida leve em sua porta. Não precisa descobrir quem é, pois a maçaneta gira pouco depois e Peeta entra no quarto.


Ele caminha lentamente e se senta ao seu lado na cama, parecendo pedir permissão para ficar. Katniss se recosta na cabeceira, abraçando os joelhos.


“Sinto muito.” Ela o ouve dizer e as lágrimas correm pelo seu rosto agora sem reservas. Deixe que ele veja como suas palavras a afetam.


Ele se aproxima, a envolvendo com os braços. Cedendo, ela esconde o rosto na camisa limpa dele.


“Eu sou um idiota covarde. Me desculpe.” Os lábios dele estão em seus cabelos, os beijando. “Esperei tanto tempo por você, e quando finalmente te tenho, estrago tudo com meus medos.”


Ficam abraçados assim por alguns minutos, até que o choro de Katniss começa a diminuir. Ela tira o rosto do peito dele e o encara com os olhos vermelhos. Isso é tudo que ele precisa para a beijar suavemente, sem pressa.


Seus braços agarram os ombros dele, e ela se reclina no colchão, o puxando para si. Quando suas bocas se separam, Peeta volta a falar.


“Não tem como saber se vamos durar para sempre. Talvez Finnick esteja certo. Mas quero ver onde isso vai dar, se você ainda estiver disposta.”


“Okay.”


Ele a beija novamente, como quem sela um pacto.


“Não vá embora. Fique comigo esta noite”, Katniss pede, se sentindo sonolenta agora.


“Sempre”, ele sussurra.


Eles adormecem juntos, sem saber como isso vai acabar. E Katniss torce para que eles não precisem descobrir.

Notas finais
Até a próxima