“Lovino!”

Aquele era o som de sua própria voz.

Não era algo que pudesse controlar, era mais como uma espécie de filme que já havia visto muitas e muitas vezes, mas não conseguia deixar de sentir a mesma emoção causada pela primeira vez.

Estava ajoelhado, o chão acidentado machucando suas pernas, as unhas enterradas no chão. E suava, e chorava, e tremia — seu corpo já não agüentava mais.

A dor que carregava em seu coração, porém, nem se comparava à dor física.

Sentiu uma mão pousar em seu ombro. Foi encarar o dono da mão e deu imediatamente com a expressão cansada do jovem parado ao seu lado.

Poderia tê-lo confundido com um homem de mais idade, de uns trinta ou quarenta anos, mas, com um olhar mais atento, via-se que ainda era jovem. De porte atlético, tinha algo de bonito, mas certamente era a sombra do que fora um dia.

Faltava-lhe uma das vistas (esta, coberta por tiras mal-feitas de pano) e da outra mão uma parte.

Do olho verde que sobrava, o que agora o mirava, podia-se constatar um olhar verdadeiramente ferido.

Um coração quebrado, na certa.

Esmigalhado.

Ouviu-o dizer-lhe algo sobre sorrir e ser forte, mas não conseguia conformar-se — berrava e chorava loucamente por Lovino.

... Mas quem diabos era Lovino?

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E sentiu uma pontada fina e dolorida atravessar-lhe o peito.

Viu também o mundo ao seu redor tornar-se um borrão — umas lágrimas indesejáveis formavam-se, insistentes, nos cantos de seus olhos. Engoliu o choro, apesar de tudo. Recusava-se a qualquer custo a entregar os pontos.

A lista de aprovados tremia já meio amassada nas mãos de Ludwig. Era agora sua quinta vez prestando o exame para a Academia Aeronáutica e a terceira vez naquele dia que procurava seu nome na lista de aprovados, já sem esperanças reais de achá-lo. Encarava-a, inconformado, por pura revolta.

Procurara uma vez, duas. Pedira à mãe que procurasse por ele e o irmão também deu uma olhada. Viu nas feições dos dois uma expressão de pesar, em vez dos sorrisos de felicitações que esperava.

Não agüentava mais aquilo.

Despedaçou-a — jogou no chão todos os pedaços do que um dia fora a lista.

Era a quinta vez que passava por aquela sensação. A quinta vez que falhava. A quinta vez que via colegas de classe (não podia chamá-los de amigos) que tinham a mesma idade que ele passarem a sua frente sem se esforçarem tanto quanto ele, deixando-o para trás. Inaceitável.

Permaneceu de cabeça baixa sentado no sofá, o rosto afundado entre as mãos, até ouvir chamar-lhe a voz afável da mãe.

“Você pode tentar de novo da próxima vez”. Ela sorriu ao dizê-lo, afagando-lhe os cabelos.

Aquele era o tipo de mãe que tinha: Sophia sabia ser carinhosa naquelas horas, mas era severa quando achava necessário que o fosse. E somente os dois irmãos sabiam o quanto podia sê-lo. Talvez Gilbert mais ainda.

— Vou me esforçar mais — disse, tentando tirar do rosto a expressão de revolta para tranqüilizar a mãe e o irmão, este último, por sinal, igualmente preocupado com ele. — Mas que bagunça...

Referia-se agora aos pedaços de papel picado que ele mesmo havia espalhado no chão. Pôs-se imediatamente a recolhê-los.

— Ei, ei. — Gilbert fez menção de abaixar-se para ajudá-lo, mas Ludwig terminara a tarefa antes disso. — Tá tudo bem mesmo? Não gosto de te ver com essa cara.

— Estou bem.

O loiro retirou-se em silêncio sem olhar diretamente nos olhos dos mais velhos.

Voltou em pouco tempo com livros debaixo do braço, ainda em silêncio. Beijou as faces maternas e disse-lhe que estava saindo, voltaria antes do jantar.

— Aonde vai?

— Biblioteca.

Não esperou resposta. Pegou suas chaves e em pouco tempo já havia saído de casa.

Mãe e filho se entreolharam. Ambos sabiam que Ludwig não estava bem. Nada bem.

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- Ludwig? – chamou, meio preocupado.

No início, achava o nome engraçado e um tanto chato de pronunciar, mas em pouco tempo acostumou-se com ele.

O mais alto o olhou como quem despertava de um pensamento longínquo. Esperou que o dissesse alguma coisa, mas como Feliciano não o fez, voltou a concentrar-se na leitura do livro que tinha em mãos.

Já tinha notado que Ludwig andava estranho, mas, naquele dia, ele se mostrava mais taciturno que o comum. Um pouco aéreo também: se alguém lhe dizia alguma coisa, demorava para responder, terminando sempre por soltar um monossílabo ou um murmúrio truncado. Gilbert também não parecia muito bem disposto, não dava as gargalhadas altas que eram de costume.

Feliciano estranhou no início, mas acabou entendendo, por fim: um dos cães dos irmãos morrera pela manhã.

Deu falta de um deles assim que chegou a casa dos dois e ligou uma coisa à outra quando viu o buraco recém-aberto no quintal, uma cruz rústica de madeira estacada sobre ele.

E a partir daí sentiu outro de seus infernos particulares começarem.

Quando pensou que as dores que sentia martelarem sua cabeça estavam diminuindo, elas voltaram com toda a força. Voltaram e lhe trouxeram mais uma preocupação — aquele maldito sonho que vinha o assombrar todas as noites.

A cruz fincada na terra, o homem de um só olho verde que lhe falava palavras de força, as lágrimas que se misturavam ao suor de sua pele... Sentia que tudo aquilo lhe era muito próximo, mas era um baque lembrar-se daquilo.

Tinha a impressão de que conhecia aquele mundo empoeirado de tons de amarelados de seus sonhos muito melhor do que qualquer outra pessoa, ao que, ao mesmo tempo, nutria por ele certa repulsa.

Aquele mundo cheirava a sangue. Mesmo que o que se lembrasse fosse vago e desconexo, tinha dentro de si essa certeza.

Não fazia questão de recordar-se dele, por mais que aqueles fantasmas insistentes o perseguissem. E também não contava a ninguém sobre ele: não era algo que fosse racional, mas temia que um dia aquele sonho viesse a se concretizar, que tivesse de enfrentar aquele mundo cara a cara.

Uma dor insistente golpeou-lhe a cabeça.

Queria apagá-lo, com toda a certeza.

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Os olhos verdes pousaram inquietos no rosto adormecido do menor.

O mais novo Hérdeváry ressonava agora tranqüilamente no quarto de Elizabeta, bem diferentemente do jovem que há pouco chorava, transtornado, em seu colo. Vê-lo dormir a fazia ficar com o coração um pouco mais aliviado, mas ainda se preocupava.

Foram seis meses para que tudo ficasse nos conformes, um pouco de “empurra pra cá, joga pra lá” e, não fosse por um pouco da boa e velha influência, o processo seria mais demorado ainda.

Com as condições favoráveis à família e a comprovação da falta de registros do jovem, a custódia foi mais facilmente concedida. A data de nascimento que constou na certidão foi descoberta com aproximação de setenta por cento da data exata (Ah, e como era eficiente a tecnologia da União!).

Mas cada esforço feito valera à pena.

Feliciano conquistou o coração de todos, tornara-se um verdadeiro filho para aquela família. Até mesmo Roderich, que não admitia o fato, tomou-o como uma espécie de irmão mais novo. Ou quase isso (o tratava com a mesma falta de paciência que se tem para com irmãos mais novos).

Ele assimilara bem os novos hábitos e até agora se saíra muito bem, mas, ainda assim, era um menino cheio de peculiaridades. Tinha noção de socialização, no entanto, para a surpresa dos Hérdeváry, ele parecia não estar habituado com o mundo ao seu redor.

Olhava com curiosidade objetos que lhes eram comuns e, se sabia para quê serviam, não sabia usá-los com perfeição. E chamou-lhes atenção também o fato de que parecia ter medo de qualquer animal com asas.

Parecia bobo, mas começaram a reparar nisso em uma ocasião em que Gilbert foi visitá-los. O canário que o jovem estava acostumado a carregar de um lado para o outro (até mesmo sem perceber) fez Feliciano encolher-se num canto e aproximar-se somente quando o albino lhe mostrou que o pássaro não oferecia perigo algum.

Agia assim também com pombos e pardais na rua, afastando-se quando via algum e assustando-se quando um deles levantava vôo.

Elizabeta achava-o adorável, mas preocupava-se por não saber se o processo de adaptação seria ruim para ele. E ultimamente andava mais alarmada.

Feliciano dera para acordar exaltado no meio da noite e procurar conforto no quarto da mais velha. Tinha lágrimas nos olhos e soluços presos na garganta. E nu, na maioria das vezes.

Ou ao menos não usava as calças do pijama, por motivos que a própria Elizabeta desconhecia, já que, mesmo no verão, as noites não eram tão quentes assim.

Ela, no entanto, não se importava muito com o fato. Achava graça, para dizer a verdade. Seis meses de convivência eram suficientes para ela saber que inocência daquele menino era tamanha que o fazia parecer até uma criança (e nada era mais engraçado que ver Roderich tentando fazê-lo vestir as calças do pijama para ir dormir, sem dúvidas).

Tanto ela quanto Roderich, que também acabara acordando e se encontrava agora junto a ela, tentaram interrogá-lo algumas vezes para descobrir o que lhe afligia, mas não tiveram sucesso: respondia ele, em um vocabulário pobre e meio desajeitado, que não se preocupassem, ao que dava um sorriso meio amarelo.

O moreno, ainda meio contrariado por não ter conseguido vestir o mais novo e por estar acordado àquela hora da madrugada, preparou chá e agora o servia para os dois. Não demonstrava, mas também estava preocupado.

Resolveram que o melhor remédio era dar tempo ao tempo, pois só o tempo acertaria as coisas que eles mesmos não podiam.

Roderich recolheu-se e disse-lhe que tentaria descobrir algo pela manhã. Elizabeta também achou melhor ir deitar-se, mas...

Ainda havia uma coisa que queria fazer.

Era um pouco arriscado, porque poderia acordar Feliciano, mas ela simplesmente não poderia deixar aquela oportunidade passar em branco — era quase um pecado não tirar pelo menos uma foto daquele rostinho angelical que repousava em sua cama.

E, para a alegria de Elizabeta, Feliciano era um rapaz muito fotogênico.

Divertiu-se por alguns minutos escolhendo com a câmera qual seria o melhor ângulo, amaldiçoando-se mentalmente por não ter tido aquela idéia antes.

Agora, além das fotos de Roderich, teria também as de Feliciano ao lado delas. Segredos aqueles que ela guardaria com gosto.

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Feliciano acertou quando imaginou que encontraria Ludwig na praça.

Aquele era o lugar onde o achava quando não havia mais lugar algum para procurar, na maioria das vezes. Era perto da casa dos dois e Feliciano conseguira decorar o caminho.

Achou o loiro num dos bancos e sentou-se perto dele, estranhando a reação dele. Esta foi só olhar em sua direção e permanecer em silêncio, voltando a fixar os olhos azuis no nada, logo depois.

Os castanhos de Feliciano continuaram analisando-o. Os claros de Ludwig estavam avermelhados e sem brilho.

O menor coçou a cabeça e passou a observar o pouco movimento de pessoas na praça. Não sabia exatamente o motivo (apesar de ter uma vaga idéia) de o amigo estar agindo estranhamente daquela forma por tanto tempo, mas devia ser algo sério, pois não conseguiu falar com ele por dias: ou lhe diziam que saiu ou que estava ocupado.

Já estava até um pouco preocupado, agora.

— Feliciano... — chamou Ludwig.

Feliciano, por sua vez, o olhou.

Era a primeira vez que ouvia aquele tom meio tremido, meio rouco na voz do loiro. Tinha a impressão de que também era a primeira vez que o ouvia dizendo seu nome.

—... Não pense em sair de casa novamente desse jeito. Ponha um casaco mais quente! Não tá vendo que está frio?! — O tom grave havia retornado a sua voz. — Se pegar um resfriado, não venha choramingar pro meu lado.

O moreno deu um sorriso. Aquele sim era o Ludwig que conhecia!

Viu, porém, a expressão do loiro fechar-se novamente. Ele encolheu-se e desabou em lágrimas.

Feliciano não podia deixar de sentir-se penalizado pela cena — nunca imaginaria que veria Ludwig, sempre tão sério e controlado, daquele jeito. Via-o soluçar tanto e tão alto que seu corpo chegava a balançar-se.

Passou o braço por cima do ombro de Ludwig. Quando este levantou a cabeça para encarar-lhe, Feliciano depositou-lhe um beijo na testa.

Recebeu um olhar perplexo.

O menor abraçou-lhe e teve seu abraço retribuído. Sentiu as lágrimas do loiro descerem quentes por seu pescoço, lugar onde Ludwig tinha sua cabeça apoiada. Os soluços dele diminuíram até finalmente cessarem.

Soltaram-se. Olhavam ambos para pontos distintos, o maior para o chão, o menor para qualquer coisa que estivesse chamando sua atenção. Ouviam agora somente os sons que a noite trazia.

— Esta é a primeira e última vez que vai me ver assim, entendeu? — Ludwig foi o primeiro a quebrar o silêncio. Esfregava os olhos, secando as últimas lágrimas remanescentes.

O moreno sorriu e concordou, meio sem entender (tinha a impressão de que era uma ameaça).

Feliciano sabia reconhecer que Ludwig era uma pessoa forte. Forte e que tentava reprimir suas mágoas e acabaria tendo uma explosão daquelas, uma hora ou outra.

Não sabia bem porque, mas sentia-se familiar com aquela situação; aquele tipo de atitude.

O mais novo levantou-se primeiro, mas foi impedido pelo outro, que o segurava pelo ombro, de ir mais longe.

— O cadarço da botina. Desamarrou. — Apontou para o calçado com o laço desatado.

Encararam-se os dois.

Feliciano tinha no rosto uma expressão quase cômica. Olhava da botina para Ludwig e de Ludwig para a botina.

—... Ainda não sabe amarrar?

— Er... Por favor...? — pediu, com um sotaque característico que Ludwig achava estranho.

Pela cara com que o loiro o encarava, achou que fosse ganhar um cascudo, mas, para sua surpresa, ouviu um “Está bem” e viu-o ajoelhar-se, amarrando o cadarço desenlaçado. (“Vê se presta atenção dessa vez!” e “Eu já te mostrei tantas vezes!”, ouvia-o resmungar). Feliciano não podia deixar de ter por ele algum afeto.

Caminharam sem pressa de volta para casa em um silêncio confortante.

Acabaram descobrindo, naquele dia, que não precisavam de muitas palavras para entenderem-se.

Notas finais
Aw, desculpem a demora, de verdade. Tentarei manter mais o ritmo de postagem agora ;; Daqui pra frente, se eu precisar, vou ter que mexer nas categorias e avisos, mas a faixa etária vai continuar a mesma. Obrigada pelos reviews e por acompanharem. E agradeço AnaMachado por se interessar e me mandar sugestões. Fico tão feliz ;w;