A Voz Da Morte
3 3
Notas iniciais
O homem que dirigia era... Estranho. Parecia ser velho, mas nem tanto. Tinha cabelos longos e brancos, pele clara, usava uma camisa verde, um avental por cima, calça surrada e botas nos pés, que não combinavam com o resto da vestimenta. O carro percorria as ruas bem rápido, atropelando tudo o que cruzava o seu caminho. Lá fora, as ruas estavam cheias de mortos vivos. Eram cenas horríveis. O carro fazia muito barulho, como se o motor fosse estourar a qualquer momento. No banco do passageiro, havia um taco de beisebol, um machado, três facas e uma escopeta.
— Q-quem é você? – Clark perguntou pra ele.
Ele não tirou os olhos da estrada e não respondeu o garoto. Ficou no vácuo. Então, Clark olhou para a garota que estava do seu lado. Ela tremia e não tinha coragem de olhar para fora.
— Está... Tudo bem com você? – Perguntou, colocando a mão no joelho dela
— N-n-não está... – Ela afastou a perna, e começou a chorar.
Clark ficou em silêncio. É... Melhor ficar na minha mesmo. Mas não conseguiria.
— Pra onde está nos levando? – O garoto fez outra pergunta para o velho.
— Para um lugar seguro. – Ele respondeu desta vez, com uma voz grossa e rouca.
— Um lugar... Seguro? – Clark perguntou, mas não obteve resposta.
A garota ainda tremia e chorava baixinho. Mas Clark não podia culpá-la, há alguns minutos estava igual a ela. Lá fora, o número de zumbis tinha diminuído consideravelmente, mas ainda haviam muitos sendo atropelados e andando pelas ruas.
Logo, o carro diminuiu a velocidade e entrou devagar na garagem de uma casa. Entrou, e a porta da garagem se fechou sozinha. O velho saiu do carro sem dizer nada, tirou as botas e o avental, e entrou na casa. Clark ficou ali sem saber o que fazer, e então desceu do carro. A garota não esboçou nenhuma reação, parecia que ia ficar por ali mesmo.
O garoto abriu a porta para entrar na casa, mas antes de entrar olhou lá para dentro. Estava olhando para uma sala... Comum. Tinha televisão, sofás vermelhos, uma poltrona... Entrou, e procurou pelo velho. Ele logo apareceu.
— Não fomos devidamente apresentados... Meu nome é Clark. – Estendeu a mão para ele.
— Prazer, Maxwell. – O velho respondeu, mas não apertou a mão de Clark. Ao invés disso, se inclinou um pouco para frente, igual a um japonês.
— Então... Onde estamos? Que lugar...
— É a minha casa. – Ele interrompeu Clark, e foi para outro cômodo.
O garoto o seguiu. O velho tinha ido para um quarto um tanto grande, com uma cama de casal e um grande guarda-roupa.
— O que está acontecendo lá fora? É mesmo um... Apocalipse zumbi?
— Pelo que eu vi, acho que é sim. – Maxwell disse, mexendo no guarda-roupa.
— E... O que vamos fazer? Porque você me salvou?
— Escuta aqui, — ele chegou bem perto de Clark, olhando fundo nos olhos dele – eu não te salvei porque eu quis, mas nessas condições, é fundamental que... – ele hesitou – não fiquemos... Sozinhos.
Ele disse isso, e se retirou do quarto. Clark ficou ali pensando. Que velho esquisito...
***
— Não. Entrem. Em. Pânico! – O padre no altar falou pausadamente, para todas as pessoas dentro da igreja.
Kate não era muito religiosa, mas esse era o único lugar que achou para se esconder. Uma igreja. Alguns zumbis tentavam entrar, mas tudo estava fechado e trancado. Haviam bastante suprimentos ali dentro, assim como eletrodomésticos, roupas, jóias e outras coisas, que as pessoas haviam roubado.
— A nossa fé em Deus todo poderoso irá nos salvar! – Ele gritava.
Só um terço das pessoas que estavam ali prestavam atenção nele. Elas louvavam Deus e rezavam o terço direto, para se acalmarem. Todos ali tinham perdido a família, amigos, vizinhos... Tudo o que era mais precioso. Kate estava ali faz 2 dias, teve sorte de entrar antes de fecharem a pesada porta. Agora, as pessoas entoavam um canto, muitos choravam e outros não estavam nem aí.
De repente, um grito, vindo do lado esquerdo da igreja. Uma pessoa correu até o centro sendo perseguida por um morto-vivo. Todos entraram em pânico e não sabiam o que fazer. O padre tremia de medo, e gritou, enquanto o zumbi mordia uma senhora no chão:
— Acalmem-se! A palavra do nosso Senhor nos libertará das feras do demônio!
Nessa altura, outra pessoa tinha acabado de ser zumbificada. Ela de repente começou a gritar e morder as outras. O primeiro zumbi, largou de sua presa e correu na direção do padre, que estava no altar. O mesmo pegou a Bíblia e bateu na cabeça do zumbi, que caiu no chão. O padre largou a mesma em cima do altar, e decidiu usar um pequeno e pesado castiçal para lutar contra o zumbi. Antes que a fera pudesse levantar, ele bateu com o objeto na cabeça da mesma, bateu até que ela parasse de se mexer.
Depois disso, foi para cima do outro zumbi, que já tinha mordido umas duas pessoas. Bateu na cabeça dele com o castiçal e continuou batendo em lugares aleatórios do corpo, até que o monstro “morresse”. Quando terminou, o padre estava cheio de sangue, e as pessoas estavam com medo dele. Muitas choravam e alguns até correram para a porta principal, para tentarem fugir. “Tem mais demônios lá fora do que aqui dentro!” o padre gritou e elas desistiram.
Havia um médico ali, que prestou primeiros socorros às pessoas que tinham sido mordidas, enfaixando os ferimentos. Alguns senhores levaram os corpos dos zumbis para um canto isolado da igreja.
Kate não queria falar com ninguém. Estava quieta, no último banco, sem querer falar com ninguém. Estava assustada demais com as pessoas, preferia assistir tudo dali, no seu canto, no seu mundinho isolado e particular.
***
Meio perdido ali naquela casa, Clark resolveu conversar com a garota. Ou pelo menos, tentar. Talvez fizesse amizade com ela. Ou não.
Foi até a garagem, e abriu a porta de trás do carro, onde a garota estava. Ela se assustou. Estava encolhida e ainda chorando um pouquinho.
-Tudo bem com você? – O garoto perguntou.
— N-n-não... Claro que não...
— Como é o seu nome? – Ele tentou puxar assunto.
— Nellie...
— O meu é Clark.
E os dois ficaram em um silêncio besta e que incomodava muito. Até que ela murmurou:
— M-muito... Muito prazer, Clark. – E deu um pequeno sorriso.
O silêncio voltou. Incomodava muito, não ter nenhum assunto para conversar com ela.
— Vamos lá pra dentro? Deve ter algo para comer. – Clark falou, e os dois foram para lá.
A menina desceu do carro, e Clark fechou a porta. Ela estava com uma blusa azul e uma calça jeans bem colada. Não era lá muito magra, e sim um tanto gordinha. Mas sem exagero.
Lá dentro, o velho Maxwell, mexia em um velho rádio, tentando sintonizar algo, mas só se ouviam chuviscos e interferências, nenhum som limpo.
— Tem algo pra comer? – Clark perguntou pra ele.
— Tem, — o velho desviou o olhar do rádio – mas não vamos comer agora.
— Não?
— Cada vez mais vai começar a faltar comida. Temos de racioná-la. Ainda mais a água!
E voltou a lidar com o rádio. Racionar comida e água? Aí uma coisa com que Clark não estava acostumado.
Nellie de repente começou a chorar novamente. Colocou a mão no rosto e deitou em um sofá. Lá fora, começou a chover. Clark também sentou em um sofá, para descansar um pouco e tentar organizar a cabeça.
Um apocalipse zumbi. Era real. Lá fora, haviam milhões daqueles monstros matando pessoas e devorando-as. Agora teria de sobreviver neste mundo, nesta situação, com um velho rabugento e uma menina que só sabia chorar. Seria difícil...
Logo, algo estava batendo desesperadamente na porta da frente. Clark se assustou, e quase gritou, se não fosse a mão suja e velha de Maxwell, tampando sua boca.
— Quieto! Daqui a pouco ele vai embora. – Ele disse, então apagou a luz da sala e da cozinha também.
Um zumbi, batendo a porta. Desesperado por comida, com certeza. O garoto olhou para Nellie, para ver a reação dela, mas a garota estava dormindo. Porque será que não tinha sido evacuada da cidade também?
Depois de minutos, o zumbi parou de bater na porta. Desistiu.
— Desistiu... Estava desesperado por comida, provavelmente. – Clark resmungou, e o velho o corrigiu:
— Zumbis não desistem. – Falou, sem tirar os olhos do rádio.
— Não? Esse desistiu.
— Não devia ser um zumbi. Provavelmente uma pessoa desesperada pra entrar ou algo assim. Um animal talvez...
— Uma pessoa?! Então porque não abrimos a porta?! – Clark falou revoltado.
— Se abríssemos, um monte de zumbis iriam entrar junto com ela, do jeito que ela estava desesperada... Mas tenho que confessar que no início pensei que fosse um zumbi.
— Devíamos ter ajudado! Daríamos um jeito de...
— Escuta aqui garoto – o velho parou o que estava fazendo e olhou para Clark, igual da outra vez – esta é minha casa, minha propriedade. Você devia agradecer por eu ter te salvado! Minha casa, minhas regras.
— Mas...
— Não concorda, vá embora! Mas saia rápido para que nenhuma besta entre. – Disse, e voltou a mexer no rádio.
Clark decidiu ficar em silêncio, novamente. Se encolheu num canto do sofá e decidiu que tentaria dormir. É claro que não conseguiu. Ficou pensando na vida, em como ela seria agora. Ficar naquela casa, o dia todo, para sempre, sem fazer nada? Seria uma vida bem tediosa, nada parecido com as séries que falavam de apocalipse zumbi.
O garoto também lembrou de seu avô. Como estaria o velho? Será que tinha sido zumbificado? Provavelmente estava em segurança, no hospital...
Passou bastante tempo, e em todo ele, Clark tinha ficado ali, encolhido em seu canto. De repente, o velho largou do rádio, e levantou-se. Foi até a cozinha e voltou de lá com um pacote de bolachas recheadas. Acordou Nellie, abriu o pacote e ofereceu para nós dois.
— Bem, está na hora de uma conversa franca – Ele disse, mordendo o biscoito.
Fale com o autor