A Voz
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Nesse carnaval venho postar a fic do desafio dos 100 temas que a Chimichurri me desafiou, sendo que ela escolheu o tema 14. Baseada na frase “foda-se o sistema”:
Essa foi meio dificil para começar, ou melhor, para continuar , pois fiz bem umas cinco sinopses de fics diferentes para esse tema e não saia nada :v
Porém, eu gostei do resultado e de escrever a voz e espero que gostem também.
Ps: Não consegui pensar em nada para colocar de capa.
Boa leitura!
"Hora de acordar, levantem para suas atividades diárias"
Aquilo começou a ser repetido de minuto a minuto, por uma voz doce meio automatizada, até todos naquela área se levantassem. Carlos devagar abriu os olhos, incomodado tanto pela claridade quanto pela voz que não o deixava ficar ali, se levantando da cama para obedecer o que a voz dizia.
"Bom dia, vocês estão com fome, que tal comerem algo?"
Carlos ouviu aquilo, uma pequena sugestão que na verdade era uma ordem, e saiu da sua sala de descanso, esse quarto era um cubículo com apenas uma cama. O homem de cabelos brancos observou as vestidas de cinza caminhando na direção do refeitório, enquanto a voz repetia a frase sobre estar com fome.
"CL-X, você deve está com fome, deveria estar indo se alimentar."
Aquilo não foi dito no alto falante, a voz as vezes aparecia, dentro da cabeça, falando diretamente com a pessoa. Muitos ficavam felizes quando isso acontecia, diziam ser uma benção a voz lhe notar, já que tinham várias pessoas com quem se preocupar. Porém, naquele momento Carlos não se sentiu grato ou satisfeito com aquilo, pois não estava com real fome ou pelo menos achava isso.
"CL-X, você deve está com fome, deveria estar indo se alimentar."
—Estou indo — falou baixo.
Carlos começou a caminhar até o refeitório, pegando uma bandeja com comida que estava em cima de uma bancada, e seguiu até uma mesa quase vazia. No geral, o refeitório tinha várias mesas retangulares para cerca de 10 pessoas, a maioria que estavam ali comiam e conversavam.
—CL-X, porque não está comendo?
Carlos estava distraído observando as pessoas quando aquela pergunta veio, porém dessa vez a voz era diferente, tinha um real tom de preocupação e não parecia algo automatizado. Quando o homem olhou para frente notou KL-T, uma moça negra com lindos cabelos cacheados de cor pretos, o observando com seus olhos castanhos preocupados.
—Kylie, já disse para me chamar de Carlos — comentou dando um sorriso — CL-X é um nome tão...
Carlos não tinha palavras para explicar o que sentia quanto CL-X, porém não gostava. Por isso, havia um mês que tinha inventado que seu nome seria Carlos, apesar de ninguém saber de onde ele tinha retirado aquela idéia.
—Kylie não é meu nome e Carlos não é o seu — comentou a mulher sentando na frente dele -Você precisa parar com isso, CL.
—Você prefere ser KL? Então tudo bem — disse ele sério -Porém, prefiro ser Carlos.
—Carlos? De onde tirou Carlos?
KL o olhou séria, porém parecia realmente curiosa. Carlos olhou de um lado para o outro e respirou fundo antes de aproximar com um tom de cumplicidade, iria lhe contar algo que descobriu, porém desistiu e resolveu desabafar.
—Eu estou cansado da voz.
—Cansado da voz? Mas a voz é o que nos faz viver!
—A voz apenas manda em nós, diz quem nos somos e o que devemos fazer — ele reclamou -Eu queria poder pensar por mim mesmo sem ter essa porra de voz na minha cabeça.
—CL, você está se descontrolando!
—KL, eu acho que sou o único são aqui — disse irritado -O único que vê como isso tudo é errado e feito para sermos controlados.
—Você está louco.
—Talvez esteja — ele respondeu se levantando -Porém, queria eu poder decidir a hora que sinto fome, a hora que me levanto e a hora de qualquer merda que eu faço.
"CL-X, você está doente, que tal ir a enfermaria?"
Carlos colocou a mão na cabeça, não queria nada daquilo, não queria ouvir e muito menos seguir a voz. Muitas pessoas já o olhavam e se afastavam, algumas sentiam medo daquele comportamento estranho vindo do, normalmente, calmo CL-X.
"CL-X, você está doente, vá a enfermaria para melhorar"
— Não, eu não vou lhe ouvir — respondeu Carlos — Meu nome não é CL-X, meu nome é Carlos.
O homem estava encolhido com a mão na cabeça, porém logo se levantou e a sacudiu. Estava decidido que não obedeceria a voz, afinal não estava doente e não queria ir para um lugar onde as pessoas que iam ou não voltavam ou quando retornavam não lembravam do que aconteceu, a enfermaria era um mistério. Rapidamente Carlos subiu na mesa, sabia que todos estavam o olhando e isso era o que importava no momento.
—Me ouçam, meu nome é Carlos — ele gritou -Todos temos um nome, porém esquecemos — uns murmurinhos começaram, porém Carlos não deu atenção -Todos estamos presos aqui, não sei o motivo, mas estamos presos e há um mundo lá fora — ele apontou para a direita -Um mundo depois dessas parede que é de onde viemos, porém não lembramos.
"CL-X, pare, você não está bem, vamos a enfermaria"
—Você é louco — gritou alguém -Estamos aqui para vocês nos proteger, não há outro lado e se houver não é algo bom.
Algumas vaias se iniciaram e algumas coisas foram jogados em CL-X, porém esse não se abalou nem com a voz e nem com os seus ouvintes.
—É isso que ele quer que vocês acreditem — disse Carlos decidido a continuar -A voz não é nada mais e nada menos que pessoas como nós que nos ficam vendo por telas.
"Pare, CL-X"
A voz estava mais agressiva, aquilo não era mais uma sugestão e sim uma ordem a ser seguida. Porém, as pessoas estavam mais quietas ouvindo o que ele tinha a dizer e isso o animou.
— Eles nos controlam e nos fazem trabalhar pa eles, nos fazem seguir suas ordem e esquecermos que temos gostos e podemos pensar! — continuou andando na mesa — Podemos pensar, podemos dizer foda-se o que a voz quer, foda-se esse sistema que me faz fazer tudo no mesmo horário — continuou tendo a atenção -Porra, vamos pensar!
—Fingindo que você está certo, como soube de tudo isso? Poderia provar que está certo?
—Eu posso...
"Pare Carlos!" a voz disse exasperada "Você se arrependerá do caos que vai causar."
Carlos olhou para todas aquelas pessoas que o olhavam ansiosamente, todas que assim como ele parariam de acreditar em algo que fazia tempo que acreditavam. Todos eles ficariam revoltados e perdidos assim como Carlos se sentia fazia dias, assim como Carlos se sentiu quando certa vez encontrou uma passagem que o levou a descobrir tudo.
—Foda-se tudo isso, acreditem em mim se quiserem, não vou forçar ninguém — comentou com raiva -Porém, eu cansei de seguir a voz e sei que ela é uma mentirosa, cansei da vida que temos e por isso seguirei a vida do jeito que eu quiser.
Carlos desceu da mesa e passou pelas pessoas, que primeiro estavam boquiabertas e depois começaram a vaia-lo, caminhou até o corredor indo de volta para seu dormitório.
"Que bom que ouviu, obrigado"
— Não me agradeça ainda — CL-X respondeu — Tenho uma exigência,na verdade duas, uma é não mexam mais na minha mente e me deixem pensar — comentou se encostando na parede — E a outra é me deixem sair daqui.
Não houve resposta, então Carlos continuou a anda calmamente e entrou no quarto, que diferente dos outros não estava trancado pela voz, sentando na cama.
Depois de um curto tempo a voz começou a lhe dar instruções, um caminho, que começou a seguir mesmo não sabendo se podia confiar. Após andar por corredores desconhecidos, pois estavam escondidos, acabou em um lugar sem saída.
"Bem, agora você pode fazer o que bem entender, não estaremos interferindo na sua vida"
A parede na verdade era uma grande porta que se abriu, trazendo uma claridade diferente e um mundo totalmente novo. Carlos podia pensar por si mesmo e descobrir as coisas sozinho. Ele estava livre daquele lugar, livre daquele sistema.
Notas finais
Eu sinceramente achei bem simples, porém espero ter entrado no tema e que tenham ela tenha sido nem que levemente agradável.
É isso, beijos e até mais!
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