A Volta da Raposa
61 Reencontros
Após deixar o quartel Zorro não foi para seu esconderijo, pois como Diego estava hospedado na taverna, ele decidiu voltar para lá. Embora fosse quase certeza, ele não sabia se o taverneiro e seus funcionários também estavam na praça no momento da revelação de sua identidade, então, por ora, achou prudente seguir como se nada tivesse acontecido. Nem o Governador, nem sua escolta, sabiam de toda a verdade e era melhor que continuassem assim.
O vilarejo já dormia quando Zorro chegou ao pequeno pátio nos fundos da taverna. Depois de uma rápida escalada ele conseguiu acessar a janela do quarto por onde havia saído. Bernardo a tinha deixado aberta para facilitar seu retorno. Silenciosamente, ele saltou para dentro do aposento escuro, mas assim que acendeu as velas do castiçal, viu que havia algo diferente ali, algo que não estava lá quando ele saiu.
Sobre a escrivaninha, havia um jarro com água e uma bacia grande, juntamente de sabão, panos limpos, ataduras e tudo mais que pudesse ser necessário para fazer curativos. Ao lado do verdadeiro kit de primeiros socorros, estava um bilhete, escrito em um pedaço de papel bem pequeno e dobrado ao meio. Curioso, Diego o pegou para ler o que dizia. Ele continha apenas quatro palavras escritas com uma caligrafia delicada: “Obrigada por tudo. Maria”.
O rapaz sorriu com a gentileza da garçonete e sua suspeita de que todos realmente já sabiam da verdade foi confirmada. Ele não fazia ideia de como as pessoas reagiriam ao vê-lo novamente, mas isso só seria descoberto no dia seguinte. Pensativo, ele se sentou na cama ainda com o bilhete de Maria em suas mãos, e finalmente se deu conta de que as coisas passariam a ser diferentes a partir daquele momento.
Havia muitas dúvidas sobre o que o amanhã lhe reservaria, mas apesar de estar todo dolorido e ainda incrédulo de ter sido capaz de revelar sua identidade perante toda a população, Diego sentia uma leveza, uma tranquilidade que não sentia há anos. Aquela era a sensação de ter finalmente cumprido sua missão.
Decidir se tornar o Zorro, logo após retornar da Espanha, acabou trazendo algumas dificuldades para sua vida, mas ele jamais se arrependeu disso, nem por um segundo sequer. Muito pelo contrário. Ele amava ser o Zorro, porque isso lhe dava a oportunidade de ajudar a quem precisava. Ele jamais esperou por reconhecimentos, elogios ou recompensas, apenas fazia o que o seu coração e a sua consciência mandavam, por isso, eram nessas horas que ele se sentia mais livre e realizado. Contudo, também seria bom voltar a ser apenas Diego de la Vega, só que dessa vez, o verdadeiro Diego de la Vega, aquele que tinha muito do Zorro dentro de si. Ele já não precisaria mais mentir, nem fingir ser o almofadinha que nunca tinha sido. Embora fosse quase impossível não ficar apreensivo com o futuro que se desenhava, só a ideia dessa nova vida já lhe trazia um largo sorriso ao rosto.
Depois de passar alguns minutos completamente imóvel, apenas observando a parede e pensando em tudo o que tinha acontecido, ele finalmente tirou o chapéu e o colocou sobre a cama. Em seguida desamarrou a máscara e ficou segurando-a enquanto a contemplava.
— É, companheira, – disse ele, olhando fixamente para o pedaço de pano preto. – acho que chegou a hora de sairmos de cena. Parece que nossa missão finalmente foi cumprida.
Enquanto refletia sobre os acontecimentos, os pensamentos de Diego vagaram para longe até serem trazidos de volta à realidade por batidas na porta.
— Diego, você está aí? – perguntou uma voz preocupada. Era Don Alejandro.
Imediatamente, o rapaz se apressou para abrir a porta e receber o pai com alegria.
— Você está bem, meu filho? – perguntou Don Alejandro emocionado, enquanto abraçava o filho bem apertado. Ambos sentiam muitas dores, mas isso não os impediu de demonstrarem seu carinho um pelo outro.
— Eu estou bem, meu pai. Melhor impossível. – disse o rapaz, tratando de acalmar o pai.
Bernardo, que tinha vindo com Don Alejandro, assistia emocionado à distância o reencontro de pai e filho. Ao ver que o amigo tinha lágrimas nos olhos, Diego foi até ele.
— Venha aqui, meu velho. Me dê um abraço! – disse o jovem, estendendo os braços à espera do abraço do amigo de todas as horas.
Bernardo obedeceu no mesmo instante e foi ao encontro do abraço carinhoso do patrão, que na verdade era muito mais do que isso. O criado não tinha família e se comunicar com as pessoas sempre tinha sido uma tarefa difícil ao longo da vida devido a sua deficiência, mas assim que conheceu Diego, os dois se entenderam perfeitamente. O fato de ele ser mudo jamais pareceu ser um empecilho para Diego e os dois acabaram se tornando grandes amigos e, mais tarde, também cúmplices. Depois de tantas aventuras e desventuras, Bernardo já se sentia como parte da família De La Vega e amava Diego como a um filho que ele nunca tinha tido.
— Não me diga que está chorando outra vez, Bernardo? – perguntou Diego, achando graça do amigo, que na mesma hora balançou a cabeça negativamente e, sem muita discrição, secou as lágrimas com as mangas do casaco, fazendo Diego achar mais graça ainda.
— Bem, senhores, como vocês viram, o Zorro se foi, e dessa vez eu acho que ele não vai mais voltar. – disse Diego com um certo pesar enquanto desamarrava a capa e tirava as luvas.
— Sim, Diego, mas agora é a SUA vez de aparecer. Eu não preciso dizer o orgulho que você deu a esse seu velho pai quando decidiu agir por conta própria em favor do povo. Saber que meu filho é um verdadeiro herói enche meu coração de alegria e tenho certeza de que sua mãe também estaria orgulhosa em ver o grande homem que você se tornou. Depois do que aconteceu hoje eu acho que as coisas não serão mais as mesmas, mas eu quero que você saiba que não importa o que aconteça, eu sempre estarei ao seu lado para o que der e vier.
— Muito obrigado, meu pai. – agradeceu o rapaz, comovido com as palavras do pai, mas tentando segurar as lágrimas. — Agora vamos parar com esse chororô e ver como estão esses seus ferimentos, Don Alejandro!
Embora Diego estivesse realmente preocupado com o pai, a situação não estava tão ruim quanto parecia. Os ferimentos de Don Alejandro tinham sido limpos pelo médico há algum tempo, então Bernardo tratou de limpá-los novamente e fazer os curativos necessários, apesar da teimosia do patrão que alegava estar bem.
Diego parecia melhor. O curativo feito pelo Dr. Ernesto ainda estava no lugar. Ele não sangrava mais e a fraqueza era mínima. Ele tinha vários hematomas pelo corpo que levariam alguns dias para desaparecerem e também alguns cortes leves, mas ele mesmo tratou de limpá-los, enquanto Bernardo cuidava de seu pai.
Os cuidados médicos invadiram a madrugada e o relógio já marcava quase duas da manhã, quando Don Alejandro e Bernardo deixaram o quarto de Diego e foram para seus próprios quartos.
Diego se viu sozinho novamente no aposento e por mais que estivesse exausto, seus pensamentos não o deixavam dormir. Tantos sentimentos se misturavam e sua cabeça girava só de imaginar como seria sua vida dali para frente. Ele se perguntava como seria seu convívio com as pessoas, agora que elas sabiam a verdade. Será que elas guardariam seu segredo? Ele também se perguntava se seria necessário revelar sua identidade para o governador, e, principalmente, se perguntava se teria alguma chance com Lupita.
Eram muitas perguntas sem respostas naquele momento e a única coisa da qual ele tinha certeza era que às nove horas da manhã tudo seria definido e, portanto, só lhe restava esperar. Com essa ideia na cabeça, mais de uma hora depois, ele finalmente adormeceu.
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