A Volta da Raposa
52 Não há Escapatória
Todos já tinham se surpreendido com a ilustre presença do Governador Interino no humilde povoado, mas o assombro foi ainda maior quando perceberam que quem saía da carruagem, com um pouco de dificuldade, não era outro, senão o próprio Governador Alcazár.
Grande parte da população acreditava que o pobre homem já estivesse à beira da morte, mas não poderiam estar mais enganados, já que ele tinha acabado de aparecer ali, bem na frente deles. É verdade que estava bastante debilitado, mas apesar de ter enfrentado uma longa viagem da capital até Los Angeles, parecia estar bem disposto.
— Governador Alcazár! – disse Don Alejandro, espantado.
— Veja como as coisas são realmente curiosas, Don Alejandro. – comentou Don Arturo. – Depois da sua visita, não somente eu fiquei intrigado, mas o Governador também. Assim que ele se sentiu melhor, achou ser uma boa ideia virmos até aqui. Nós pretendíamos falar com o Capitão Monastário e com alguns dos moradores, mas jamais imaginaríamos que também encontraríamos o próprio Zorro, disposto a falar conosco por vontade própria, mesmo depois de estar sendo procurado justamente pela tentativa de assassinato do Governador. O acaso é mesmo algo imprevisível! – achou graça, apesar de tudo.
— É verdade. – concordou Don Alejandro.
Enquanto conversavam, o esbaforido Sargento Garcia finalmente surgiu, para recepcionar os visitantes e ficou quase sem palavras ao ver que o próprio Governador se aproximava com o auxílio de uma bengala e do Capitão Aurellana.
— Boa noite, senhor Governado Interino! – cumprimentou o soldado, prestando continência. – Sargento Demetrio Lopez Garcia, ao seu dispor.
— Boa noite, Sargento. À vontade.
— Eu imagino que o senhor deseje saber o que está acontecendo por aqui... – começou Garcia ainda sem saber ao certo o que diria aos visitantes, pois precisava explicar toda aquela cena, mas ao mesmo tempo não queria prejudicar Diego.
— Don Alejandro já me disse alguma coisa, — respondeu Don Arturo, para o alívio de Garcia — mas desejo falar com o Capitão Monastário. Don Alejandro disse que ele está ferido. Ele tem condições de nos receber?
— Oh, sim. – respondeu mais relaxado, ao perceber que Don Alejandro tentava ajuda-lo — O Capitão já foi levado ao quartel e está sendo atendido pelo médico, mas tem condições de receber os senhores. Acompanhem-me, por favor.
— Obrigado, Sargento. – agradeceu Don Arturo, mas só para depois voltar a deixar o Sargento amofinado — Lá no quartel, gostaria que me explicasse com mais detalhes o que aconteceu, e traga também o bandido a quem chamam de Zorro. Gostaríamos de falar com ele.
— O Zorro, senhor? – perguntou Garcia, quase gritando por causa da surpresa do pedido. Ele estava preocupado, pois viu que Diego ainda não tinha fugido e temia que ele pudesse ser preso ou algo pior. Na tentativa de ajuda-lo, disse a primeira coisa que veio à sua cabeça.
— Infelizmente... o Zorro é muito escorregadio e conseguiu escapar outra vez. – respondeu com um sorriso forçado.
— Como assim, Sargento? – perguntou o Governador Interino, confuso pela história do soldado — Don Alejandro acabou de me dizer que ele está bem ali e quer falar conosco também. Imagino que ele seja aquele todo vestido de preto, ou estou enganado?
— Ah... Não é que o senhor tem razão? – disse ele, tentando sair da embrulhada em que tinha se metido – Ele está mesmo ali! É que isso nunca tinha acontecido antes. – respondeu sem graça e olhando para Don Alejandro em busca de algum auxílio.
— O senhor tem razão, Sargento. O Zorro sempre desaparece rapidamente. – disse Don Alejandro, que já tinha compreendido a tentativa de ajuda frustrada de Garcia – Mas dessa vez, ele disse que não vai fugir, porque quer acertar as contas com a justiça.
— Ele disse isso? – perguntou Garcia incrédulo.
— Disse. – confirmou, tentando acalmar o Sargento atrapalhado — Acompanhe os senhores até o quartel e não se preocupe, pois eu mesmo vou falar com o Zorro e me encarrego de levá-lo até vocês.
— Está bem, Don Alejandro. Gracias. — Agradeceu ainda sem saber ao certo o que estava acontecendo, mas decidindo entrar no jogo.
Garcia levou o grupo até o quartel, enquanto Don Alejandro foi falar com o filho. Boa parte da população já havia se dispersado, mas alguns continuavam em vigília na praça, curiosos para saber o que aconteceria dentro do quartel.
— Você está bem, filho? – perguntou o velho fazendeiro, preocupado.
— Sim, meu pai. Só meio zonzo. – respondeu ele, que ainda sangrava um pouco – Eu vi quem acabou de chegar, e como os soldados passaram direto por mim sem me levar preso, acho que o senhor me deu uma ajudinha.
— Bem, eu fiz o que pude, mas acho que hoje precisaremos da verdade ou pelo menos de boa parte dela, se quisermos a ajuda do Governador para tirar Monastário de uma vez por todas de circulação. Talvez não seja necessário que sua identidade venha à tona. – concluiu Don Alejandro, enquanto passava o braço do filho por sobre os ombros, para ampara-lo no caminho até o quartel. – Agora vamos, porque o Governador quer falar com você.
— Puxa! O Governador quer falar comigo sem me levar algemado? Isso está ficando mesmo interessante!– brincou Diego, surpreso com a notícia — Acho que não precisaremos mais dos serviços do Dr. Ávilla, já que o senhor está se saindo um ótimo advogado.
— Não faça brincadeiras, porque o assunto é sério. Consegue andar?
— Consigo. Vamos lá.
E assim, pai e filho caminharam lentamente, um amparando o outro, em direção à entrada do quartel. Aquela era a primeira vez que Zorro passava pelos portões sem ter que atacar ou ser atacado pelos soldados. Era uma sensação nova e engraçada para ele.
Bernardo acompanhava tudo aflito e à distância, enquanto roía as unhas sem poder seguir os patrões até lá dentro.
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