A Volta Pra Casa
1 A Volta Pra Casa
Depois de mais um dia intenso e estressante de trabalho, novamente acabei saindo depois do horário e já estava há mais de uma hora no ponto e nada do ônibus aparecer. Me sentia cada vez mais apreensiva conforme as pessoas entravam no veículo indo para seus destinos e o local se esvaziava, até que finalmente o meu ônibus chegou. Dei o sinal e entrei, notei que o motorista parecia um tanto apático, dei boa noite e ele sequer respondeu ou olhou de volta, apenas fez movimentos mecânicos para liberar a catraca, mas não fiquei com isso em mente, pois é raro encontrar um motorista que retribui seus votos. Passei pela catraca e, mais uma coisa estranha, o ônibus estava vazio. Não que neste horário, por volta das dez da noite, eu esperasse encontrar pessoas em pé devido a lotação, só que geralmente quase todos os bancos estão ocupados e hoje apenas dois estavam. Duas pessoas, uma mulher em torno de 25 anos, com uma regata roxa e colar prateado com um pingente que não consegui identificar; e um homem encapuzado, de cabeça baixa, achei que devido o horário ele estivesse dormindo.
A mulher, assim como o motorista, parecia estática, congelada, notava-se apenas o movimento de seu tórax recebendo e liberando o ar, conforme respirava lentamente. Eu continuei andando e sentei-me no último banco, lá no cantinho. Gosto de me sentar lá, pois pareço ficar invisível, ali também fico na janela e vejo o lado de fora, enquanto ouço minhas músicas e viajo na maionese me imaginando em videoclipes e shows enquanto não chego ao meu destino. Para melhorar minha experiência, gosto de colocar o som no último volume, pois me dá mais sensação de imersão e desligamento da realidade. Porém, especialmente neste dia, o cansaço me pegou, os olhos começaram a pesar e pesar, até que eu finalmente adormeci.
Acordei num solavanco, como se eu tivesse ouvido um grito de meu pai me dizendo para acordar. Ainda na urgência do sonho e com a música alta na cabeça, abri os olhos desnorteada e, com a visão ainda embaçada olhei para a direção onde o casal estava. Pareceu num primeiro momento que os dois estavam se beijando, mas, numa segunda piscada, quando foquei minha visão, vi a jovem com a cabeça pressionada no vidro da janela por uma mão grande e pálida. Logo abaixo, na área do pescoço que ficou exposta, havia sangue saindo de dois pontos paralelos, causados por duas presas imensas e afiadas, que eram as do rapaz que a segurava. Não consegui enxergar seu rosto, apenas os dentes e os olhos. Eles estavam fechados no momento e num deslize dei um pequeno grito de susto, rapidamente abafado pelas minhas mãos, porém isso foi o suficiente para chamar atenção dele, ou sei lá o que aquilo era. Então, ele olhou de volta para mim, com olhos de um amarelo intenso, quase como duas bolas de ouro, que reluziam e, de alguma forma me senti compelida a fazer tudo o que meu senhor me mandasse. Rapidamente a voz de meu pai veio em minha cabeça: "O cordão, use o cordão".
Imediatamente peguei meu cordão, dado por meu pai antes de desaparecer. -Segundo ele era uma herança de família, que começou com meu tataravô. Numa medida desesperada levantei o pingente na direção daquele ser, aquele monstro, porém, ele não estava mais ali, apenas jazia o corpo da jovem moça, totalmente pálido e ensanguentado. Ouvi um barulho de passos acima de mim e, antes que pudesse reagir, o monstro caiu do teto do ônibus na minha frente. Numa velocidade absurda arrancou o cordão do meu pescoço e o arremessou longe, eu completamente aterrorizada cai no chão de joelhos, meu corpo tremia e eu soava frio, enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto. Enquanto uma gota e outra embaçava minha visão, eu conseguia enxergar seus tênis pretos, e ele sequer se movia, apenas ficava lá parado, como se contemplasse meu momento de terror. Então, uma voz como um trovão ecoou em minha mente: "OLHE PARA MIM" , Dizia, e eu tive que lutar contra um corpo que não me respondia, pois era como se um ímã gigantesco puxasse minha cabeça para cima. Mesmo assim não olhei. Resisti com todas as minhas forças, então, vi seus joelhos se dobrarem e suas mãos pálidas alcançarem o chão sujo do ônibus, ficando então nessa posição por algum momento sem se mover, eu não me contive e, com muito custo levantei minha cabeça na altura do rosto dele. Meus olhos agora estavam fechados e eu sentia o ar gelado que saia de sua respiração bater no meu rosto. Depois de um tempo, finalmente os abri. Me surpreendi ao perceber que não estava enxergando embaçado devido ao susto de ter acordado, realmente a criatura não tinha rosto. Havia um rosto, mas estava embaçado para mim, era como se vários rosto e formas se misturassem de uma maneira tão grotesca que não conseguissem formar uma identidade, apenas os olhos eram facilmente identificáveis. A íris completamente amarela, como uma pepita muito polida de ouro, como um olho de jacaré, só que muito mais profundo e assustador. Então, a coisa abriu a boca e falou:
—Por mais que seu pai tentasse, você sempre será atraída até nós, balcan. Não se preocupe, não vou te matar. Não agora. Pelo contrário, vou te dar uma dádiva, a dádiva que seu pai tentou tirar de você por todo esse tempo, vou te permitir ver meu rosto e o rosto de todos os meus semelhantes. Até que chegue o dia em que você verá com esses olhos despertos todo esse mundo ser consumido por nós e você não puder fazer nada".
A coisa então pegou meu pulso, a essa altura o desespero e o medo eram tantos que meu corpo não sentia nada e por mais que eu tentasse não conseguia reagir. A criatura abriu a boca, notei que os lábios pareciam enrugados e havia pequenos dentes em formato de serra e na parte que correspondia aos caninos, existiam duas protuberâncias e dali saíram grandes presas, finas e cilíndricas que entraram profundamente em meu pulso. Na hora eu senti um choque, um calor. Meu corpo todo estremeceu, era como se facas passassem pela minha circulação e levassem uma ardência incontrolável pela minha corrente sanguínea, sentia como se minhas células estivessem borbulhando e derretendo, todas mesmo tempo, minha mente não suportou tanta dor e subitamente apaguei.
Acordei num banco de madeira no ponto final do Ônibus, era quase 3 da manhã. Toquei meu rosto compulsivamente para ver se estava tudo no lugar, depois passei para meu corpo, mas não havia nada, nem no pulso, apesar da sensação de dor ainda existir no fundo do meu ser. Peguei minhas coisas e fui embora andando para casa, andei tão desnorteada que nem percebi quanto tempo se passou, muito menos a distância que percorri, só queria chegar a um lugar seguro.
Assim que cheguei tive todo cuidado para não acordar minha mãe, fui direto para o banheiro, abri a válvula e enquanto a água caia sobre meus cabelos, as lágrimas escorriam pelo meu rosto sem parar.
Até hoje tenho medo de pegar este ônibus voltando para casa e dar de cara com aquela criatura, mas nunca mais o vi, nem o motorista. Inclusive fui até a garagem da empresa tentar encontrar o motorista, para saber da experiência dele, tentar achar conforto no trauma partilhando com alguém, porém, informaram-me que ali nunca trabalhou ninguém com aquela descrição física.
Continuo seguindo minha vida trabalhando, pegando meu ônibus , mas agora com muito mais medo e apreensão do que antes, às vezes sinto que estou sendo vigiada, às vezes vejo uma silhueta atrás de algum poste, na esquina de alguma rua, no meio das árvores e sei que aquilo não foi um pesadelo nem um delírio, aquilo foi real. E o que me assusta mais ainda é saber que se aquilo tudo foi real, uma hora inevitavelmente ele voltará para me buscar.
Notas finais
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