A Volta
1 One Shot
Dois garotos corriam alegremente por uma grande rua. O Sol brilhava ao longe, em sua eterna caminhada ao horizonte, cada vez mais próxima ao poente. Seus olhos brilhavam alegres e felizes, enquanto gritavam alegremente, cada uma levando pequenas esculturas em suas mãos, orgulhosos por conseguirem criar tantas e tão complexas, mostrando ao mundo como estavam progredindo na arte da alquimia. Corriam para a grande casa no centro da campina, seus corações batendo alegremente, gritando por sua mãe, querendo mostrar sua arte para ela. Finalmente alcançaram a porta, e a abriram, gritando cada vez mais alto:
“MÃE! ONDE VOCÊ ESTÁ?! NÓS QUEREMOS TE MOSTRAR ALGO!” Eles abriram a porta com força, o mais velho dos dois entrando primeiro. Ele olhou o corredor sorridente, buscando o eterno sorriso de sua mãe, mas o que viu fez seu sangue gelar. Percebendo a imobilidade do irmão, o caçula o empurrou, entrando também em casa. Ambos ficaram imóveis olhando em frente, vendo algo que faria qualquer um desabar no mesmo instante. Uma maçã rolou lentamente, tocando no pé do mais velho, refletindo um pouco do pôr-do-sol à suas costas. Mas nenhum dos dois irmãos prestou atenção nisso. Nenhum dos dois prestou atenção em mais nada. Lagrimas escorriam de seus olhos, seus corações ainda batendo rápido, mas não mais de excitação e alegria, mas de puro terror e desespero. As lagrimas lavavam o rosto dos irmãos, enquanto eles lentamente se aproximavam do corpo de sua mãe, caído na sua frente, o cesto onde colhia maçãs ainda em suas mãos. O filho primogênito tocou o rosto de sua mãe, implorando e rezando, pedindo a qualquer divindade existente, qualquer uma, que aquilo não fosse verdade. Sua mão recuou ao sentir a pele gelada, e uma nova onda de lágrimas começou a escorrer de seus olhos. O irmão caçula abraçou o corpo de sua mãe, seus gritos ecoando por todo o vale, sua emoção se transformando em urros de puro medo e tristeza. O mais velho tocou mais uma vez o rosto da mãe, sem conseguir acreditar. As lagrimas se intensificaram uma ultima vez, e ele também a abraçou, como uma ultima despedida. Sombras surgiram na porta, gritando coisas incompreensíveis, fragmentos chegando aos ouvidos dos irmãos, palavras como “Médico”, “Ajuda” ou “Morta” eram as mais ditas. Nada fazia sentido... Aquilo não podia ser... Não... Só podia ser um pesadelo... Mas mesmo tentando acordar, mesmo tentando sair daquele mundo terrível, não havia como. Aquela era a realidade, aquele era o mundo real. Não havia escapatória... O Sol não mais aparecia, seus grandes raios sendo barrados por grandes nuvens. Gotas caiam do céu, molhando toda a ravina, incluindo as poucas pessoas que ali estavam. Os poucos presentes se reuniam no centro de um grande campo sagrado, o único cemitério da região. Varias das pessoas que estavam lá choravam copiosamente, todos vestindo roupas negras, prestando suas ultimas homenagens. Os dois irmãos eram os mais próximos da pequena vala onde fora colocado o grande caixão negro, embora nenhum dos dois chorasse. As lagrimas haviam já secado, sendo trocadas por uma grande determinação, uma grande força, um grande desejo, que foi exprimida em palavras pelo irmão mais velho, ajoelhando-se ao lado do tumulo: “Nós vamos fazer isso. Nós vamos fazer a transmutação humana. Nós vamos a ressuscitar, mãe...”Cerca de dois anos depois, Edward Elric e Alphonse Elric, os dois irmãos que já haviam sofrido tanto, se reuniam no grande porão da casa onde haviam morado por tantos anos. Um grande desenho enchia todo o chão, com um grande pote no centro, contendo vários ingredientes diferentes. Os dois irmãos sorriram, cada um deixando uma pequena gota de seu próprio sangue cair sobre todos os outros ingredientes. Edward sorriu, murmurando algumas palavras estranhas, e assumiu sua posição na extremidade do circulo, vendo seu irmão assumir sua posição do lado oposto. Ele se concentrou ao máximo, sabendo que não poderia errar. Eles, com apenas 12 e 11 anos cada, fariam algo que nem adultos sonhariam a fazer. Eles iriam fazer a transmutação humana. Eles quebrariam o Tabu. Tudo por apenas um sorriso. Apenas por um beijo de boa noite ao dormir a cada noite. Tudo para ter sua amada mãe de volta. A contagem começou, Edward gritando os números, se preparando para o momento em que poderia ver sua mãe de novo. Finalmente, a contagem chegou ao fim, e o brilho do circulo de transmutação iluminou todo o porão, criando uma luz simplesmente incrível. Ambos os irmão esperavam pacientemente, temendo que algo desse errado, apavorados com a idéia de que todo seu esforço fosse em vão. Mas então, a luz desapareceu, e no centro do circulo, onde pouco tempo atrás os ingredientes repousavam, uma mulher olhava em volta, ligeiramente surpresa. Seus longos cabelos castanhos balançavam lentamente, enquanto seus olhos verdes vasculhavam o ambiente. Trisha Elric sorriu, reconhecendo o ambiente. Quase que instantaneamente, os irmãos Elric pularam sobre ela, rindo e chorando, a felicidade transbordando no ambiente. Trisha os abraçou, seu sorriso aumentando ainda mais. “Mamãe... Mamãe...” Alphonse repetia sem parar, limpando as lagrimas que escorriam por seu rosto, enquanto Edward abraça a mãe fortemente. ”Mamãe... Trisha passou a mão no cabelo do filho caçula, passando por seu rosto, até tocar suavemente em seu pescoço. Por um segundo, foi como se o tempo tivesse parado. Edward viu, como em câmera lenta, o sangue de seu irmão espirrando, sujando seu rosto, sujando sua mãe, sujando todo o cômodo. Seu corpo se movia extremamente devagar, vendo os dedos de sua mãe atravessando o pescoço de Alphonse, vendo o sorriso de seu irmão diminuir um pouco enquanto sua vida se esvaia por suas artérias cortadas, vendo seus olhos lentamente cruzando os domínios do desconhecido, enquanto seu cérebro lentamente morria sem oxigênio. Por um segundo Edward não pode acreditar no que via, seu corpo paralisado enquanto seus olhos acompanhavam o corpo de seu irmão desabando, entre murmúrios de “Eu te amo, mamãe”, sentindo em seu próprio coração como se ele próprio estivesse morrendo. Seus olhos convergiram para sua mãe, vendo o sangue pingando de sua mãe e rosto, vendo o seu sorriso, que não se abalara um único centímetro enquanto matava seu filho. O mundo pareceu desabar enquanto Edward caia para trás, sentindo suas pernas perderem as forças, o horror paralisando todo seu corpo. O sangue de seu irmão, aquele que o havia acompanhado por toda sua vida, pingava de seu rosto. Sua mão, quase num movimento inconsciente, agarrou a mão de seu irmão morto, sentindo o calor que ainda emanava de sua pele, vendo as lagrimas de felicidade se misturando com o sangue fresco, vendo os olhos mortos fitando o vazio. Por um segundo, nada aconteceu, o sangue de Alphonse se espalhando pelo chão, até onde Edward estava, enquanto Trisha virava lentamente, penosamente, em direção ao seu filho primogênito. Seus olhos pareciam brilhar de felicidade, seu sorriso bondoso visível no meio da grande quantidade de sangue que escorria por sua face.
“Estou muito orgulhosa de vocês... Vocês realmente conseguiram... Vocês me fizeram voltar...” As palavras de Trisha surpreenderam Edward mais do que seus atos. Ele tentou se arrastar para trás, se afastando, mas Trisha foi mais rápida, aplicando um chute extremamente forte no estomago do filho, que tombou para o lado, gritando de dor, novas lagrimas lavando o rosto sujo de sangue. Sua visão estava embaçada por causa das lagrimas, mas ele conseguia ver os contornos de sua mãe se aproximando, e sentiu as pontas dos dedos dela tocando seu peito. “Por que...? Por que isso? POR QUE?” O grito de Edward ecoou pelo cômodo, voltando cada vez mais fraco para seu próprio dono. No seu ultimo segundo de vida, enquanto seu coração era perfurado pelos dedos de sua própria mãe, Edward ouviu a resposta. Por um segundo, ele sentiu uma grande paz tomando conta de seu corpo, junto com um grande ódio, e uma grande consciência de fracasso, antes que sua existência fosse varrida deste mundo para sempre. A resposta era: “Me desculpe, filho. Mas, você fracassou. Você não me trouxe de volta. Mas eu irei levá-los de volta comigo.”
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