A Vocalista Da Banda Do Meu Irmão
40 Capítulo 39 - Descobrindo a Verdade
Notas iniciais
– EVEEEEEER! — pulei de susto ao ouvir o grito que o Michael deu e fiquei me perguntando o quanto ele era louco de ir até a minha casa naquele tempo horrível.
Não deu tempo de agir. Quando eu vi, Michael já estava abrindo a porta do meu quarto.
Ontem, depois que eu saí da festa, eu fiz a promessa de nunca mais me meter com a Lindsay ou o Michael e em nenhum momento eu me lembrei daquela entrevista idiota.
Talvez as coisas não fossem voltar ao normal tão cedo e tudo seria como era há 5 anos atrás.
Só que de uma forma estranha e totalmente distorcida.
– Pare de gritar desse jeito, seu infeliz! — exclamei, já me preparando para colocá-lo para fora do meu quarto a pontapés.
– Você ficou louca? — O que foi que fizeram com o seu cérebro? Colocaram uma ervilha no lugar dele? — Fiquei tão indignada com aquelas perguntas que eu até abri a boca para responder, mas não consegui falar uma palavra sequer. — Você vai desmentir tudo o que falou naquela droga de entrevista!
– Não vou mesmo! — discordei, levantando um dedo na direção do rosto dele. Michael deu um tapa na minha mão.
– Mas é claro que vai! Se não, eu não respondo por mim!
– O que você vai fazer? Vai me bater? — perguntei, me aproximando dele como se estivesse pronta para brigar. Michael me olhou furiosamente.
– Vou te obrigar a retirar tudo o que disse. — Tive que levantar a cabeça para conseguir olhá-lo de perto. Antes eu não tivesse feito aquilo.
Estávamos muito próximos. Parece que Michael notou a mesma coisa porque segurou o meu braço com força e eu acabei tremendo quando senti aquela mão gelada em cima da minha pele. Naquele momento eu percebi que ele estava completamente molhado.
Jurei para mim mesma que só estava tremendo porque a mão dele estava fria e não porque o impacto de sua mão sobre a minha pele tinha a capacidade de me fazer sentir pequenas correntes elétricas.
– Como se atreve? — gritei, me debatendo. — Você não pode me obrigar a nada! Você não manda em mim!
– Eu posso te processar por difamação. — disse ele, ainda apertando o meu braço.
– Então vá em frente, me processe! — desafiei-o, me desvencilhando de sua mão em meu braço. — Eu não vou retirar nada do que eu disse na entrevista, Michael.
Michael estava furioso. Dava para ver pelo jeito que ele me olhava que se eu não fosse uma mulher ele já teria partido para cima de mim.
– Isso é o que nós vamos ver. — ele disse, decidido. Eu estava tão irritada que praticamente marchei até a porta do meu quarto.
– Saia do meu quarto! Saia agora! — gritei, abrindo a porta com um movimento brusco.
Michael passou por mim, olhando-me com uma expressão desafiadora e um sorrisinho de deboche totalmente irritante. Foi só olhar para aquele sorriso enquanto Michael se afastava que eu percebi que estava ferrada.
Afinal, eu havia comprado guerra com duas celebridades importantes e cheias de fãs prontas para defendê-los com unhas e dentes.
Bati com a minha cabeça na parede três vezes seguidas quando me dei conta da burrada que eu havia feito ao dar aquela entrevista ontem. Eu estava perdida.
– EVEEEEEER! — Quase bati com a minha cabeça na parede uma 4° vez quando ouvi a voz de meu pai berrando o meu nome.
Reuní a pouca coragem que eu tinha e desci as escadas, indo ao seu encontro. Michael já tinha ido embora, mas eu tenho certeza de que ele havia dito algo sobre mim para meu pai.
– O que houve? — perguntei, me fazendo de desentendida.
Papai estava sentado no sofá e mamãe estava em pé bem ao seu lado, com a mão em seu ombro.
– Você ainda pergunta? Tem noção do quanto eu fiquei envergonhado ao ver seu rosto naquele programa de fofocas contando tantas mentiras? — O rosto de papai estava transtornado.
– Foi a Lindsay quem começou! Ela deu convites falsos para mim e para os meus amigos para que fôssemos impedidos de entrar na festa. Nós pedimos para que o Michael liberasse a nossa entrada mas ele agiu como se nem nos conhecesse! — defendi-me, vendo que papai não estava nem aí para as coisas que eu estava dizendo. Ele estava tão irritado quanto o Michael.
– Isso é verdade, querida? — confirmei com a cabeça. — Rodolfo, eles também tem culpa. Não haja como se a Ever fosse a única culpada. Coitadinha...
– Victória, não a defenda! — ordenou papai para minha mãe. — Ever, quero que você retire tudo o que disse naquela entrevista.
– Não, eu não vou fazer isso. Eu entendo que o que eu fiz foi muito idiota mas o Michael e a Lindsay estão merecendo!
– Então você prefere ser processada, xingada por milhares de fãs e ser procurada pela mídia? Porque com certeza o Michael e a Lindsay irão desmentir tudo o que você disse e com certeza vão querer saber de você detalhes do que contou em rede nacional no porgrama de ontem. — Papai estava certo mas eu me recusava a retirar o que eu disse. Pelo menos por enquanto eu não contaria a verdade. Aqueles dois estavam merecendo uma boa lição.
– Eu não estou preparada nem para retirar o que eu disse e nem para encarar as consequências do meu ato. Quero que o Michael pague pelo que me fez. — eu disse, decidida.
– Querida, eu sei que você ainda nutre sentimentos por ele mas isso está indo longe demais. A corda sempre arrebenta para o lado mais fraco e nós sabemos muito bem de que lado você está. Ever, a única que sairá prejudicada quando isso tudo acabar será você mesma.
– Eu sei, mãe mas...
– Não importa o que você faça, o Michael e a Lindsay ainda vão se casar. — Doeu muito ouvir aquilo. Primeiro porque eu não estava tentando destruir o casamento de ninguém e também porque eu não queria que eles se casassem. Não queria que o Michael tivesse me abandonado.
Não queria tê-lo conhecido.
– Não estou fazendo isso para destruir o casamento dele! — exclamei, vendo meus pais trocarem um olhar preocupado. Eu sabia que olhar era aquele. Era mesmo olhar que eles trocavam quando viram o estado em que eu fiquei após o Michael ter me abandonado. — Eu vou retirar o que eu disse, tá legal? Mas não agora. — Mamãe suspirou e papai me olhou de forma desaprovadora antes de se levantar.
– Então aguente as consequências dos seus atos. — Papai disse antes de subir as escadas com mamãe segurando seu antebraço.
Permaneci parada feito um poste no sofá, pensando na repercussão que aquela entrevista iria causar na minha vida e na vida dos meus amigos, já que eles apareceram na entrevista e estavam empolgados, concordando com todas as besteiras que eu dizia.
– Cara, você é muito louca! — Jeremy disse, saindo da cozinha com uma maçã na mão.
– Se com louca você quer dizer suicida, então eu acho que sou isso mesmo. — Nós dois rimos. Jeremy se sentou do meu lado, dando uma mordida em sua maçã.
– O Michael saiu daqui furioso. Ele e a Lindsay vão gravar um programa hoje para desmentirem tudo o que você disse. — suspirei, lembrando-me do quão próximos Lindsay e Michael estavam ontem e do que ele me disse. Só de lembrar eu já sentia vontade de cair no choro.
– O Michael me odeia, Jer. — eu disse, olhando para baixo. — Eu não estou mais no coração dele.
– Não diga isso. — Jeremy me abraçou pelos ombros, tentando me animar.
– É verdade. Ele me disse isso ontem. — Franzi os lábios, tentando inibir a vontade de chorar.
– E você acreditou nele? O Michael só disse isso porque está com raiva. parece que o seu hábito de se meter em confusões não acabou com o passar dos anos. — Jeremy disse, dando uma pequena risada.
– De qualquer forma, eu não vou mais me meter com aqueles dois depois que isso tudo acabar. — Meu irmão arqueou uma das sobrancelhas, duvidando do que eu disse.
– Só acredito vendo.
[...]
Meu telefone começou a tocar e o meu coração acelerou. Eu estava morrendo de medo de que aquela fosse uma ligação de algum repórter querendo agendar uma entrevista ou de algum fã psicótico do Michael ou da Lindsay querendo me ameaçar de morte pelo celular.
Poderia ser qualquer pessoa me ligando inclusive, o advogado do Michael querendo me processar.
Finalmente resolvi atender o telefone e quando o fiz, respirei fundo antes de falar alguma coisa:
– Alô.
– Ever! Sou eu, a Mandy.
– Oi Mandy.
– Eu queria saber se podemos nos encontrar amanhã.
– Só posso a partir das 15:00.
– Então 15:30 nos vemos na Starbucks, o que acha?
– Por mim, tudo bem.
– Legal. Até amanhã.
– Até.
Desliguei o celular, abismada. Quem diria que a Mandy e eu conversaríamos amigavelmente pelo telefone algum dia? Eu nunca poderia adivinhar.
O tempo lá fora estava terrivelmente feio. O vento forte fazia com que a velha goiabeira que tínhamos no quintal balançasse de forma impiedosa.
Pelo menos com aquele tempo horrível as chances de que a Lindsay venha até aqui me ameaçar eram quase nulas. Pena que ela ainda podia fazer aquilo por telefone.
Apesar de adorar ficar dentro de casa sem precisar interagir com o Michael, eu sabia que não demoraria muito para que eu ficasse entediada.
A internet sempre me ajudava nesse caso, mas como eu sabia que havia ficado famosa de um jeito inconsciente e ruim, eu tinha medo de ver o que estavam falando.
Será que haviam muitas pessoas me odiando? Será que pelo menos alguém me apoiava?
Fiquei olhando para o meu notebook por um bom tempo. A curiosidade ia se alastrando aos poucos e quando dei por mim, o notebook já estava ligado em cima das minhas pernas.
Entrei no meu twitter, vendo que de 200 seguidores, agora eu tinha 100.456 seguidores e milhares de mentions. A maioria dizia que eu era uma invejosa querendo fama, uma biscate interesseira e outros nomes que eu prefiro nem citar. Mas uma boa parte da galera estava me apoiando.
@nanyhurd: Adorei a entrevista @williams_rock ! A Lindsay é apenas uma patricinha que acha que o Michael é um troféu.
Sorri, orgulhosa, lendo o próximo tweet:
@pinkfriday12: A Lindsay é uma vaca leiteira. Aposto que você tem mais talento do que ela @williams_rock.
@gwenbeauty4: Virei sua fã! Só de ter namorado com o gostosão do @msalvatore já se tornou minha diva @williamsrock
@sam224: Michael e Lindsay se merecem! São duas merdas de cachorro! @williams_rock
Eu ri com os tweets e repondi alguns, somente os que me apoiavam. Stalkeei o Michael e a Lindsay para ver se eles tinham se pronunciado sobre o assunto e nem me surpreendi ao ver o que a Lindsay disse:
@lindsaygilbert_: A @williams_rock é uma garotinha frustrada que está presa ao passado. Ela só quer chamar a atenção. Não ligo para esse tipo de coisa. Além do mais, ela nem sabe mentir.
Logo depois, fui para o twitter do Michael.
@msalvatore: Eu e a Ever namoramos, mas isso foi há bastante tempo. No programa de amanhã eu falo melhor sobre isso +
Grande parte das coisas que ela disse foram mentiras. Foi tudo uma vingança por ela estar brava comigo +
E com a Lindsay, que armou para ela. É uma pena porque a vingança nunca é a solução de um problema.
Michael estava se fazendo de bonzinho. Será que ele nunca se cansaria disso?
Saí da internet e me joguei em minha cama de barriga para cima.
As coisas estavam começando a mudar. Acho que a mudança não era tão boa, mas eu só descobriria isso no futuro, conforme os dias forem passando. Por ora, eu tentaria aguentar tudo o que viria pela frente, mesmo sabendo que essa seria uma tarefa super difícil.
[...]
Meu telefone não parou de tocar no dia seguinte. Meus amigos, Danny e alguns repórteres entraram em contato comigo logo de manhã, mas não me pronunciei sobre Michael e Lindsay para os repórteres.
Ao contrário dos meus pais, Danny e meus amigos adoraram a repercussão que a entrevista estava tendo. Chris, Yuri e Caroline também haviam ganho muitos seguidores no twitter, principalmente depois que o Chris revelou que fora ele que gravara o vídeo de Lindsay se coçando na festa.
Serena e Selena acharam que aquela ideia foi muito louca e Sam disse que não me queria mais na banda, alegando que eu era uma má influência. A única chance que eu tinha de conseguir um contrato com uma gravadora foi totalmente jogada aos quatro ventos.
Como o tempo estava bem melhor, papai disse que eu poderia ir para a Escola de Artes.
Hoje eu e o Michael faríamos uma audição individual com as crianças e eu não poderia me atrasar, apesar de querer mais do que tudo no mundo adiar o encontro que eu teria com o Michael.
Apertei as pastas de partituras que eu trazia comigo contra o meu peito, sentindo meu estômago se revirando de nervoso. Entrei na sala onde aconteceria a audição e encontrei Michael de costas para mim. Ele vestia uma camisa preta e calça jeans. Nos pés um All Star preto e na cabeça, uma bandana preta.
Fechei a porta da sala com mais força do que o necessário. Michael olhou para trás, na direção em que eu me encontrava, ainda paralisada na porta com cara de monga. Ele franziu os lábios e me lançou um olhar de repulsa antes de voltar aos seus afazeres.
– As crianças já chegaram? — perguntei na tentativa frustrada de quebrar o gelo.
– Não. Eu conversei com as crianças outro dia e fiz as partituras das músicas que elas irão cantar na audição de hoje. Você poderia tocar no piano enquanto elas cantam. — ele sugeriu e eu apenas assenti, pegando as partituras de suas mãos.
As crianças começaram a chegar. A maioria aparentava ter 10 anos de idade mas algumas tinham 8 e outras, 12 anos. A maioria das meninas usava lenços coloridos na cabeça e pareciam muito felizes.
Michael e eu as colocamos sentadas em um grande banco de madeira.
– Olá, crianças! Eu sou a Ever Williams e esse é o Michael, mas tenho certeza de que vocês já devem ter ouvido falar dele. — As crianças gritaram e eu ri, contagiada com tanto entusiasmo. Michael dava um sorriso enorme ao meu lado. Tinha certeza de que ele se identificava com aquelas crianças, pois como elas ele também já teve câncer. — Como vocês sabem, faremos uma pequena audição com vocês para termos uma noção dos tipos de talentos que temos aqui hoje. — Abri um sorrisão ao ver a animação das crianças.
Uma menina que aparentava ser a mais nova dali levantou o dedo e Michael sorriu, concedendo a palavra a ela:
– Pode falar, pequena. — ele piscou para ela e eu achei tão linda aquela cena que se pudesse, teria tirado uma foto ou filmado.
A menina ajeitou o vestido verde água que usava, preparando-se para falar:
– E se nós formos tipo, muito ruins? — Todos nós caímos na gargalhada com a sua pergunta. Percebi que ela era a mais enérgica da turma e também a mais tagarela.
– Ai garota, pare de fazer perguntas idiotas! — Um menino de olhos verdes se intrometeu, implicando com a menina. Ele usava um boné azul na cabeça e parecia inquieto e agitado.
– Vocês não são ruins. E nós estamos aqui para ajudar vocês. — Michael respondeu, fazendo a menina dar um sorriso tímido e iluminado. — Bom, vamos começar. — ele esfregou uma mão na outra, sentando-se atrás da mesa e pegando um papel e uma caneta, enquanto eu me posicionava atrás do piano.
– Mary-Jane, pode vir até aqui? — Uma menina de vestido rosa e chapéu da mesma cor se levantou do banco, se posicionando na frente do Michael. Ela parecia bem confiante e suas feições eram delicadas, como as de uma boneca.
Ajeitei a partitura da música que ela iria cantar e fiz uma pequena introdução no piano. Assim que a menina começou a cantar, eu me arrepiei toda. A sua voz era muito suave e bonita. Michael também estava estagnado, pelo que eu pude perceber.
Nos entreolhamos rapidamente, surpresos.
Sem perceber, nós havíamos sorrido um para o outro.
Quer saber de uma coisa? Trabalhar com o Michael não é tão desagradável quanto eu pensava.
[...]
Saí da Escola de Artes incrivelmente transformada. Trabalhar com aquelas crianças que mesmo doentes eram tão cheias de vida, me deixou revigorada.
Todas as crianças tinham um talento. Cada uma a sua maneira, cada uma do seu jeito. Eu nem havia ficado muito tempo com elas e já havia me apegado.
Michael também se sentia do mesmo jeito que eu. Claro que ele não havia dito, mas o seu humor já falava por si só.
Me dirigi até a Starbucks para me encontrar com a Mandy e assim que eu cheguei, senti um cheirinho muito bom de café invadir as minhas narinas.
Olhei para os lados e a encontrei sentada numa mesa no canto, praticamente encostada na parede. Mandy olhava para o seu copo de café e fazia desenhos imaginários na borda do copo.
– Oi, Mandy. — eu disse, meio desconcertada. Ela levantou a cabeça e deu um sorriso.
– Oi, Ever. sente-se! — eu dei uma risada, sentando-me de frente para ela.
– E então... porque você mudou de idéia e resolveu me ligar? — Me senti um pouco desconfortável ao fazer aquela pergunta.
Era totalmente estranho conversar amigavelmente com alguém que costumava te odiar há alguns anos atrás.
– Para te pedir desculpas. — ela disse, dando um gole em seu café. — Eu era uma garota mesquinha e cruel. Te fiz muito mal na época da escola.
– Eu te desculpo.
– Sabe, eu só percebi que era uma completa idiota quando eu perdi o meu pai. Ele morreu um pouco depois de ter descoberto que sofria de uma doença em um estado terminal. Não consegui entrar em nenhuma faculdade e minha mãe surtou. Nós não tínhamos nenhum centavo. Hoje, eu tenho que trabalhar para pagar a casa e sustentar a minha mãe, já que ela quase nunca sai do quarto dela. — Senti uma compaixão muito grande por tudo o que a Mandy me disse. Seus olhos estavam cheios de lágrimas.
– Eu sinto muito, Mandy.
– Está tudo bem. — ela sorriu, enxugando uma lágrima que caíra. — Eu vi você na televisão ontem. — Nós duas caímos na gargalhada.
– Pois é, a noiva do Michael estava merecendo. — eu disse, ainda rindo.
– Eu e a Stacy fomos atrás do Michael em Londres quando soubemos que ele havia ficado famoso. — Arregalei os olhos quando ouvi aquilo.
– Londres? — perguntei, sem saber se eu havia ouvido direito.
– É, a Stacy pagou a minha passagem.
– Não, você acabou de dizer que foi atrás do Michael em Londres? Ele não estava morando na França? — Franzi o cenho, achando a situação muito esquisita.
– Pelo que eu saiba, o Michael nunca esteve morando na França. Ele foi para Londres. Eu e a Stacy queríamos um autógrafo, já que viramos fãs do seu trabalho. — Fiquei absorvendo aquelas palavras por um bom tempo.
– É que ele disse para todo o mundo que estava indo para a França. — balbuciei, sentindo-me ainda mais enganada.
– Então ele mentiu para todo o mundo.
[...]
A Escola de Artes ainda estava aberta, apesar de já estar de noite. Eu sabia que o Michael ainda estava lá, pois eu o ouvi dizer que iria ficar trabalhando até tarde em algumas músicas.
Eu já havia deixado a Starbuck's e me despedido da Mandy. Na verdade, não consegui me concentrar em mais nada após o que ela havia me dito.
Era exatamente por isso que eu estava a caminho da Escola de Artes. Para tirar satisfação com aquele mentiroso. Além de ter sido abandonada, eu havia sido enganada também. Eu não consigo entender a necessidade que ele tem de mentir tanto para todo o mundo mas esperava que ele me esclarecesse aquela história toda ainda hoje.
Será que o Michael não queria que soubessem para onde ele estava indo?
Entrei na Escola de Artes pisando firme. A única coisa que eu queria era que o Michael me desse respostas.
Empurrei a porta da sala onde costumamos ensaiar as crianças e o encontrei arrumando a mochila, pronto para ir embora.
Eu honestamente posso dizer que você esteve na minha mente
Desde que eu acordei hoje, até hoje
Eu olho para sua fotografia o tempo todo
Essas memórias voltam à vida
E eu não me importo
– Porque você disse para todo o mundo que estava indo para a França quando na verdade, você nunca esteve lá? — perguntei, parando bem na sua frente. Michael deu um suspiro cansado.
– Como você entrou aqui? — Michael colocou algumas pastas em cima da mesa e cruzou os braços.
– Meu pai é dono disso aqui, esqueceu? E não foge do assunto. — ele deu uma risada seca, fechando a mochila e colocando-a no chão.
– Quem sempre foge do assunto é você. — retrucou, me olhando com deboche.
– Eu não estou fugindo agora. — declarei.
Ele soltou outro suspiro cansado e ficou me encarando por um longo tempo. Enxuguei o suor que escorria de minhas mãos na calça e esperei que ele me contasse tudo. Afinal, eu tinha esse direito. Saber que eu estava perto de descobrir tudo o que aconteceu me deixava muito ansiosa.
– Sente-se. A história é longa. — Me sentei numa cadeira e Michael sentou-se em minha frente no banco de madeira. Ele soltou outro suspiro e ficou em silêncio por um bom tempo, antes de se sentir preparado para começar a contar tudo o que aconteceu. — Há muito tempo atrás, meu pai estava devendo muito dinheiro aos agiotas. Só que ele não tinha dinheiro para pagar tamanha quantia, pois nossa condição financeira não era das melhores. Aquela mansão em que morávamos antes de eu ter que ir embora, era um presente dos meus avós para o meu pai. Desde então, os agiotas viviam nos ameaçando.
"Após a morte de minha mãe, tivemos que nos mudar para cá, lembra-se disso, Ever? Eu não contei os motivos, mas foi por isso que nos mudamos. Meus avós tinham comprado aquela mansão e os móveis para nós e com meu pai sendo sócio da Escola de Artes, nossa condição financeira melhorou um pouco." — Recordei-me do dia em que tivemos o nosso primeiro encontro como namorados. Lembro vagamente da história que ele me contou sobre como estava arrasado pelo falecimento de sua mãe e que seu pai disse que eles teriam que se mudar.
– Continue. — pedi, falando baixinho. Eu estava cada vez mais curiosa.
– O ataque que o Chris sofrera não foi mandado por Stacy, Mandy e os outros. Foram os agiotas. Estavam observando os meus passos e os passos de meu pai e viram quem são meus os amigos. Consequentemente, quiseram ferir um deles e infelizmente, Chris acabou sendo o escolhido. Deixei você acreditar que foram as meninas porque vocês não tinham provas concretas para incriminá-las e porque eu não podia falar sobre os agiotas para você. Meu pai me fez prometer que eu não contaria e foi por esse motivo que tivemos que ir embora sem avisar.
"Não podíamos dizer para você o nosso paradeiro. Os agiotas podiam fazer algo com você para descobrir então, inventamos que tínhamos ido para a França mas na verdade, acabamos indo para Londres e de lá, meu pai continuava administrando a Escola de Artes. Meu pai acabou conseguindo o dinheiro e assim, pagou os agiotas, que foram presos dois dias depois."
Eu me lembro quando nos beijamos
Eu ainda sinto isso nos meus lábios
O tempo que você dançou comigo
Sem nenhuma música tocando
Eu me lembro das coisas simples
Eu me lembro até eu chorar
Mas a única coisa que eu desejaria esquecer
A lembrança que eu quero esquecer
É o adeus
Fiquei em silêncio, sentindo várias emoções borbulhando dentro de mim quando ouvi pela primeira vez todo o mistério da ida de Michael para fora da minha vida. Ele respeitou o momento e me deixou pensar.
Meu cérebro ia processando lentamente tudo o que ele me dissera.
A história era praticamente surreal, mas eu acreditava em todos aqueles fatos, pois só agora eu me dava conta de que tudo aquilo fazia sentido.
Lembro que quando cheguei correndo no aeroporto para comprovar que o Michael ia mesmo embora, que antes de ouvir a chamada para o voo para a França, ouvi a chamada do voo para Londres e lembro também que o Michael ficava estranho de uma hora para a outra em diversas ocasiões.
O Michael sabia que algum dia teria que ir embora e eu sempre soube que ele não iria embora da minha vida sem mais nem menos, apesar dele ter errado feio em não ter me avisado que teria que sair do país.
– Eu entendo os seus motivos. — eu disse, serenamente. Michael me encarou surpreso. — Só o que não entra na minha cabeça é o fato de você não ter me contado que ia embora e de não ter me procurado depois que tudo foi solucionado.
– Eu não tive coragem de te contar. Lembra da noite em que cantamos com a Bloodstream pela última vez, fomos a praia e eu te deixei em casa? — confirmei com a cabeça. — Eu pretendia te contar ali dentro do carro, mas eu não consegui.
Lembrei-me do seu olhar entristecido e de suas palavras desesperadas. Suas lágrimas molhando o meu ombro enquanto ele praticamente me implorava para que eu sempre me lembrasse de que ele me amava e sempre me amaria.
Lembrei-me de como fiquei desolada quando saí do carro e o pressentimento de que algo ruim iria acontecer me dominou.
Tentei segurar o choro quando a cena me veio a mente mas quando dei por mim, eu já chorava em sua frente.
Eu acordei essa manhã
E coloquei nossa música
E sobre minha lágrimas, eu cantei sozinha
Eu peguei o celular e então coloquei lá
Porque eu sei que estou perdendo meu tempo
E eu não me importo
– Porque você não me procurou? Suponho que os seus problemas com os agiotas tenham sido solucionados em menos de 5 anos. — Enxuguei as lágrimas com as costas das mãos. Michael não sabia se me consolava ou se continuava sentado. Podia perceber isso pelo seu olhar e seus movimentos nada sutis no banco de madeira.
– Eu tive medo de te procurar. Sempre que eu pensava em te encontrar, me vinha a mente o quanto eu te fiz sofrer e o quanto você devia estar me odiando. Eu fui muito idiota. — fiz que sim com a cabeça e Michael abaixou a cabeça por um instante. — Me perdoe por ter feito você sofrer tanto. — Michael levantou os olhos para mim. Eles estavam cheios de lágrimas.
Céus, como eu o amava! Como eu conseguia amá-lo mesmo depois de todos esses anos angustiantes? Como? Mas que droga! Eu não aguentava mais tudo aquilo. Não aguentava mais ter que vê-lo todos os dias com outra mulher, não aguentava estar ao seu lado sem poder tocá-lo.
Eu me lembro quando nos beijamos
Eu ainda sinto isso nos meus lábios
O tempo que você dançou comigo
Sem nenhuma música tocando
Eu me lembro das coisas simples
Eu me lembro até eu chorar
Mas a única coisa que eu desejaria esquecer
A lembrança que eu quero esquecer
O sentimento que eu nutro por ele nunca morreu com o tempo e eu sempre odiei o Michael por me fazer tanto mal. Porém, naquele momento, eu via que ele estava arrependido.
Eu sabia que as coisas nunca mais voltariam a ser as mesmas. O Michael não me amava mais. E estava noivo. Mas ele se sentia mal pelo sofrimento que me causou e eu não queria mais ficar pensando nas mágoas que acumulei ao longo dos anos por causa das cicatrizes do passado.
– Eu te perdôo. — eu disse, com a voz embargada. Nós nos olhamos por alguns segundos, mas eu me levantei quando percebi que não aguentaria mais a dor que eu estava sentindo.
Era como se eu tivesse acabado de bater a barriga com força no chão. Todo o ar estava se esvaindo dos meus pulmões e eu achei que fosse morrer sufocada. Saí andando rapidamente para fora da sala mas parei perto da porta, de costas para ele.
– Você me fez prometer que eu não me esqueceria do amor que você sentia por mim, Michael. — eu disse, incapacitada de segurar as lágrimas e de soluçar baixinho.
– E sei. — ele murmurou. Percebi que ele também havia se levantado e estava próximo a mim, apesar de não poder vê-lo, já que eu ainda estava de costas. — Eu fiz uma promessa também.
– Qual promessa? — Fechei os olhos com força, sentindo meus lábios tremerem.
– A de que um dia eu iria te reencontrar. — A voz de Michael também parecia estar embargada.
De repente meu celular está tocando
Com o seu toque
Eu hesitei mas terminei atendendo
Você parecia tão sozinho
E eu fiquei surpresa ao ouvir você dizer
Meu peito subia e descia rapidamente e eu abri os olhos. Eu sentia Michael perto de mim agora. A sua respiração tocava o meu cabelo. Meu coração bateu mais rápido e eu quase me virei, mas acabei permanecendo parada onde eu estava.
– Acho que ainda te amo. — sussurrei. Antes que ele pudesse cortar o meu coração, eu saí correndo da sala, mas pude ouvi-lo dizer algo antes mesmo que eu virasse o corredor.
Não, ele não disse aquilo.
Definitivamente não.
Claro que eu imaginei aquilo e distorci as palavras. Não é possível que o Michael tenha dito o que eu acho que disse.
No entanto, quanto mais rápido eu corria, mais a sensação de que aquilo fora mesmo real invadia o meu cérebro.
Se eu estiver mesmo certa, posso jurar ter ouvido o Michael dizer as seguintes palavras antes que eu desaparecesse no corredor:
– Acho que eu te amo também.
Você lembra de quando nos beijamos
Você ainda sente isso nos seus lábios
A vez que você dançou comigo
Sem nenhuma música tocando
Você se lembra das coisas simples
Nós conversamos até chorarmos
Você disse que seu maior arrependimento
A única coisa que você desejaria que eu esquecesse
É dizer adeus
Dizer adeus
Adeus
[...]
O tempo ensolarado deixou papai animado. Tão animado que sugeriu que todos nós fôssemos a praia, já que era feriado.
O problema é que esse "nós" não se referia somente a mim, meus pais e meus irmãos. O que tinha tudo para ser um grande programa de família se tornou um pesadelo quando vi Michael, Lindsay e Alfonso se materializarem em nossa frente.
Meus amigos também estavam aqui conosco, inclusive Serena, Selena e Danny. Este último inclusive, não havia se desgrudado da Lindsay um minuto sequer desde que foram apresentados e aquela bruxa estava adorando a companhia dele.
Michael estava odiando aquilo tudo tanto quanto eu, o que só me fazia pensar que o que ele disse na outra noite não foram aquelas palavrinhas mágicas tão amorosas. Eu posso muito bem ter imaginado aquilo, não é?
A gravação do programa idiota que os dois gravaram só iria ao ar na semana que vem e desde que chegaram, nem o Michael e nem a Lindsay falaram comigo, o que só confirmava as minhas suspeitas de que o que eu ouvi Michael falando era somente fruto da minha imaginação.
Caroline e Jeremy também não estavam muito bem. Enquanto ela estava deitada em sua cadeira de praia fingindo ler um livro, Jeremy estava na água junto com Chris, Yuri, Serena, Selena, Jack, meus pais e Alfonso.
Danny e Lindsay estavam andando pela areia e Michael estava deitado em uma espreguiçadeira quase dormindo ao meu lado.
– Eu fui me encontrar com a Mandy ontem. — eu disse de repente, fazendo Caroline me olhar boquiaberta.
– Você fez o quê? — soltou ela, fechando o livro.
– Eu me encontrei com a Mandy ontem. Acredite, ela veio me pedir desculpas.
– E você acreditou?
– Claro que sim! Ela mudou, Car. Desde que o seu pai morreu, a Mandy não tem agido mais como uma descerebrada. — Caroline ficou pensativa por algum tempo.
– Isso é bem esquisito. — Concordei com a minha amiga. O silêncio reinou por um tempo antes que ela se pronunciasse novamente: — Você está bem, amiga? Não sei, estou te achando meio tristinha. — Olhei para o lado. Michael ainda estava dormindo.
– Não muito. Quando toda essa história envolvendo a mim, o Michael e a Lindsay acabar, eu vou voltar para Nova Jersei. — sussurrei, com medo de que ele ouvisse.
– O QUÊ?!? — Caroline gritou, se levantando da cadeira. Fiz gestos com a mão pedindo para ela falar mais baixo.
– Eu estou sofrendo muito e acho que o único jeito de acabar com isso é tentando recomeçar a minha vida em outro lugar como Jornalista. — ela se sentou na cadeira, me olhando preocupada.
– Mas... e o seu sonho de ser cantora?
– Tá' na cara que eu não vou realizar esse sonho.
– Então você vai desistir do que mais quer na vida?
– Vou. — Mordi o lábio inferior, reprimindo a vontade de chorar. Nada em minha vida estava dando certo. Tudo o que eu fazia acabava sendo mal sucedido então para quê continuar insistindo em algo que não vai se realizar?
– Não vai, Ever. Por favor. — Caroline pediu, quase chorando.
– Eu vou pensar, está bem? — eu disse, tentando tranquilizar a minha amiga, mesmo sabendo que eu estava decidida a ir embora.
Eu e Caroline fomos até onde os outros estavam. Eles ainda se divertiam na água. Chris e Yuri ficavam dando caldos nas garotas.
– Eveeer! — Chris me gritou. Eu sorri, acenando.
Selena e Serena emergiram, cuspindo água. Jeremy e Yuri deram risada.
Caroline puxou meu irmão pelo braço para um canto afastado. Pela expressão que os dois faziam ia rolar uma dr daquelas.
Meus pais voltaram para a areia junto com Jack, que choramingava e eu fiquei na beirada da praia, sentindo as marolinhas molhando os meus pés. Eu não sabia nadar então achei melhor não abusar muito.
Alfonso parou ao meu lado e ficou um bom tempo sem falar nada.
– Eu sei que você ainda gosta do meu filho. — ele disse, olhando para o horizonte com um sorriso nos lábios. — E sei que ele gosta de você também.
– Não, ele não gosta não. Ele disse que ama a Lindsay e que não sente mais nada por mim. — respondi, me abaixando para pegar uma concha.
– Creio que o Michael já tenha lhe contado o que aconteceu para termos que ir embora. — confirmei com a cabeça. — Ever, meu filho ficou arrasado quanto te viu no aeroporto. Ele não queria ter te deixado. Quando lia os seus e-mails, ele brigava comigo, pedindo para que eu deixasse ele te responder. O Michael quase morreu numa cirurgia. Enquanto estava internado, ele ficava repetindo que ficaria vivo para voltar para você algum dia. — comecei a chorar quando me lembrei do pesadelo que eu tive com o Michael morrendo na mesa de cirurgia e meu coração deu um solavanco.
Não havia motivos para o Alfonso estar mentindo sobre aquilo.
– Mas porque está me dizendo tudo isso? O Michael está noivo. Mesmo que ele ainda me ame, sei que ele está disposto a se casar.
– Eu tenho certeza de que um dia ele terminará esse noivado. Os dois não se amam de verdade. — ele disse, virando-se para mim. — Eu sei que o Michael tem te machucado muito mas o amor que vocês sentem um pelo outro foi capaz de superar a distância. O amor de vocês é verdadeiro. Só o amor de verdade é capaz de suportar tudo. — Alfonso sorriu para mim e foi impossível não sorrir junto com ele.
Eu acreditava no Alfonso, apesar de ainda ter as minhas dúvidas.
Se o nosso amor era verdadeiro mesmo, porque nós dois não conseguíamos ficar juntos? Se a Lindsay não o ama, porque aceitou o pedido de noivado?
Enquanto eu pensava nessas coisas, ouvi gritos.
Eu e Alfonso olhamos para trás ao mesmo tempo e vimos o exato momento que o punho do Michael acertou o queixo do Danny.
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