A Vocalista Da Banda Do Meu Irmão
11 Capítulo 10 - Enterro
Notas iniciais
Abri os olhos lentamente, sentindo a claridade me cegar. Levantei da cama assustada quando ouvi vozes alteradas no andar de baixo. Abri a porta do meu quarto e cambaleei para o lado ainda zonza pelo sono.
Quando cheguei perto das escadas, ouvi soluços altos, parecia que alguém estava chorando. Fiquei paralisada no topo da escada, sentindo-me angustiada de repente, por ver meus pais e meus irmãos reunidos na sala chorando.
– Ever... — Papai sibilou com os olhos lacrimejando.
– O que aconteceu? — Obriguei meus pés a descerem as escadas e meu coração batia acelerado em meu peito.
Alguma coisa estava errada.
– Sente-se querida. — Minha mãe deu um tapinha ao seu lado no sofá e eu apenas obedeci calada e aturdida, sentando-me ao seu lado.
– O seu tio Carlos sofreu um acidente de carro quando vinha para cá resolver pendências da Escola de artes pois ele é o sócio de seu pai então... — Minha mãe não terminou a frase, o que me deixou ainda mais agoniada.
– Então... — Incentivei-a a continuar.
– Ele não resistiu filha. — Mamãe respondeu aos prantos enquanto todos na sala inclusive eu, desabava em lágrimas.
Meu irmão mais novo se agarrou a minha mãe chorando e Jeremy tentava controlar suas lágrimas sem muito sucesso. Papai se ajoelhou em minha frente, me abraçando.
– O enterro será hoje, Se vocês não quiserem ir, não precisa. — Papai disse intercalando olhares entre eu, Jeremy e Jack.
– Não, eu quero ir. — Falei convicta.
– Eu também vou. — Disse Jeremy com a voz trêmula.
– Eu também quero ir! — Jack respondeu fungando.
– Então vamos todos. — Mamãe falou enquanto se levantava e limpava suas lágrimas subindo para seu quarto para ir se arrumar.
(...)
A notícia de que meu tio havia morrido me pegou tão desprevenida que parecia que eu é que havia acabado de falecer. Eu não conseguia falar, parecia que tinham apertado a tecla mute e tudo ao meu redor tivesse ficado mudo e sem cor. Parecia que tudo havia desaparecido, inclusive o chão.
Eu sempre gostei do meu tio, ele sempre fez o estilo brincalhão. Era raro vê-lo triste. Quando ele e meu pai fundaram a escola de artes, eu podia ver quão realizado os dois estavam. Meu pai sempre dizia que me tio era o melhor amigo dele e que ninguém substituiria esse título tão importante.
Só agora eu percebi o quanto a morte é dolorosa. Ela surge sem aviso prévio e faz uma bagunça interna e externa em nossos corações. Nunca havia perdido um parente tão próximo de mim e não fazia idéia do quanto doía.
Chegamos ao enterro meia-hora antes de começar e o local já estava cheio. Cumprimentamos parentes, conhecidos e amigos, que partilhavam da mesma dor que a nossa. Meus irmãos estavam com seus semblantes abatidos e não pude deixar de pensar que talvez eu também esteja assim.
O caixão de madeira estava ali e era quase impossível acreditar que o corpo inerte que habitava aquele caixão era o do meu tio.
Depois do enterro, chegamos em casa não só fisicamente mas também emocionalmente. Os cemitérios parecem sugar toda a nossa energia, nos deixando quase sem vida, sem expressão. É como se fosse uma TV a cores que aos poucos fica preta e branca. Era como eu estava agora: vendo tudo em preto e branco.
Meu pai estava preocupado e inquieto com algo que não parecia ser com a morte de meu tio. Resolvi perguntar a ele o que estava acontecendo mas acabou nem precisando.
– Pessoal, temos um problema. — Meu pai estava sério.
– O que aconteceu agora? — Perguntou Jeremy preocupado.
– Não me diga que morreu mais alguém? — Surgiu do nada o agourento do meu irmão mais novo.
– Vira essa boca pra lá moleque! — Gritei na direção do pestinha que apenas me deu língua.
– Parem vocês dois! O que aconteceu querido? — Perguntou minha mãe preocupada.
– Temos que achar um novo sócio para a Escola de Artes o mais rápido possível. — Meu pai tentava manter-se calmo, mas era nítido o seu desespero.
– Mas porque? Você não pode administrar tudo sozinho? — Perguntou Jeremy.
– Não, o contrato da Escola de Artes exige que eu tenha um sócio.
– E o que acontece se você não arranjar um? — Perguntei temendo a resposta.
– Eles venderão ou fecharão a Escola de Artes. — Meu coração quase saltou pela boca com a resposta de meu pai.
Eu não imaginava a minha vida sem a Escola de Artes, pois lá era o meu segundo lar, eu amava aquele lugar.
– Mas não será difícil arranjar um novo sócio... ou será? — Jeremy estava aflito.
– Se não fossem as exigências do contrato, não seria difícil. Amanhã bem cedo irei em busca de alguém que tenha as exigências que o contrato impõe. — Papai disse altivo e seguro de si. — Não se preocupem, se depender de mim, a Escola de Artes Williams funcionará por um bom tempo. Agora durmam, hoje o dia foi difícil mas garanto que amanhã será bem melhor.
Papai tentou nos tranquilizar mas eu ainda podia sentir o clima tenso espalhado em nossa casa.
(...)
Depois de um longo banho, liguei meu celular vendo 4 chamadas perdidas de Caroline e 3 do Chris e um monte de SMS.
Carolinda:
Amiga, fiquei sabendo do que aconteceu... eu sinto muito! Desculpe não conseguir lhe dizer algumas palavras de conforto mas você sabe o quanto sou ruim com as palavras. Saiba que eu te amo e estarei aqui sempre do seu lado, pro que você precisar. Você deixou seu celular desligado e por isso não consigo te ligar né danadinha? rsrs. Espero lhe ver amanhã no colégio para poder te dar um abraço apertado. Meus pêzames, eu te amo e que Deus te abençoe.
Enviada: 16:00
Depois abri a outra SMS:
Chris B Boy da Praia o rap é nóis:
Falae minha parceirona! Sei que deve estar sendo difícil aguentar a barra mas seja forte, fique firme, não desista, vai! (8) ... Saiba que você tem a mim e a Carolzinha pra te apoiar otei? Vê se liga seu celular garota Slipknot. Te amo muito tá?Até amanhã.
Enviada: 16:30
E por incrível que pareça, tinha mais uma mensagem:
(xx) xxxx — xxxx
Er... Olá Ever. Sei que não nos damos muito bem mas fique firme. A dor é grande mas tudo o que você está passando valerá a pena. Talvez você não perceba isso agora mas, futuramente, você olhará para tras e verá que tudo o que você teve que passar foi por uma causa especial, para chegar a um caminho feliz. E quando isso acontecer, você olhará para o céu e reparará na beleza das estrelas e o motivo da sua felicidade estará logo a sua frente.
Por Michael Salvatore
Enviada as 17:00
Meu coração quase pulou do meu peito com a SMS do Michael. Eu não entendia muito bem o sentido de suas palavras mas elas inexplicavelmente, me deram forças. Era como se toda a minha energia sugada estivesse voltando aos poucos para mim.
Sinceramente, nunca pensei que receberia uma SMS do Michael e nunca pensei que isso me fortaleceria tanto!
Mas... como ele arranjou meu número? Será que o panaca do meu irmão havia dado a ele?
Mas quer saber? Não vou me importar com isso agora, me importarei apenas com as palavras de incentivo que recebi, principalmente a do Michael.
Deitei em minha cama com meu celular na mão e fiz questão de ler a mensagem do anjinho até suas palavras fixarem em minha mente. Eu sei que amanhã eu acordarei ainda disposta a atrapalhar a banda do meu irmão mas hoje, queria me entregar a sensação de paz que inebriava o meu quarto que coincidentemente, era a mesma paz que eu sentia quando eu me aproximava do Michael.
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