A Vitrola e a Vida

1 A FESTA SÓ COMEÇA QUANDO SE QUEBRA UM COPO


Notas iniciais
Bom dia/tarde/noite,caro ser interludiano da existência. Vejo que escolhestes minha obra para se deleitar com o prazer de viajar sem sair do lugar. Bem, não leia. Mas boa sorte, se quiser ler. Apenas gostaria de citar que este capítulo me veio por causa de um livro que minha irmã me indicou, e eu /*não li*/ estou lendo. Nele, o personagem principal teve um amigo que se suicidou. Bem , agora que já lhes dadivei com /*revelações sobre o enredo*/ spoilers, irei /*comer sucrilhos*/ descansar minha mente idônea, e estarei de volta a tempo de poder adicionar qualquer informação sem valor /*nutricional*/ referencial algum para que vocês possam deixar-me em paz e não lerem meus manuscritos.

Numa vaga para carros, num certo lugar não muito movimentado e não muito calmo, debaixo de uma enorme árvore de angá, dois homem uniformizados descarregavam a suja van amarela estacionada.

– Ugh! – gemeu o rapaz que carregava o objeto de costas, ao tropeçar no degrau na entrada do bar – Mas que filha da puta, nem vi essa merda camuflada aqui!

– Uai, a culpa é sua Zé, olha pro chão! – O homem baixinho com a barba por fazer olhava fatigado para o mais alto – Cê acha que o mar abre por onde cê pisa?

– Ah, vai te catar... E fica esperto, senão dá com o dedão nele também, viu.

Os rapazes se recompuseram e terminaram sua graciosa entrada. Já estavam para começar novamente a discussão, mas uma pessoa interviu:

– Olá, senhores. – disse o idoso atrás do balcão, com um sorriso no rosto e um avental no resto do corpo. – No que posso ajudá-los?

– Ah, bom dia, patrão. – respondeu Zé – Você é o senhor... – ele fez uma pausa para olhar a prancheta que carregava enfiada nas calças, enquanto pigarreava – ...Hector ?

– Não, não, sem isso de senhor. Senhor tá lá na Igreja. – Falou o velho, sorrindo com os olhos apertados. Sua barba cinza bem aparada e os cabelos grisalhos por cortar o davam um ar gentil natural – Mas sou Hector, sim.

– Ahn, tudo bem... É... Entrega pra você. – Os clientes mais desocupados olhavam descontraidamente para a cena enquanto bebericavam e comiam suas respectivas iguarias.

– Ah, claro, claro, minha vitrola!

– Só preciso da sua assinatura... Aqui. – Zé apontou na prancheta e ofereceu a caneta amarrada ao grampo de metal por um barbante sujo a Hector, que recusou-a educadamente com um gesto.

– Nah... Uso a minha. – Ele puxou sua caneta do bolso do avental e a balançou ao lado do rosto, com um sorriso de lado, e assinou o papel.

– Então... Onde pode deixar? – Perguntou Zé, guardando a prancheta.

– Ah, coloca ali naquele canto – disse Hector, apontando para um lugar perto da porta. – Já limpei e tudo mais. Achei que ia chegar anteontem, o prazo tava a partir de quatro dias úteis.

– É, ‘contece. – O barbudinho tomou a voz – Normalmente a gente’ntrega no comecim’ do prazo mesmo, ainda mais quando é no mesmo estado. Deve te’ sido problema na estrada, ‘guma coisa assim. – Ele não tinha sotaque, era só mais uma dessas pessoas que comem algumas letras.

– Ah, não, não, o.k., já chegou, então tá bom. – respondeu Hector. – Hoje em dia, com a internet desse jeito, o difícil mesmo é achar sites de verdade, né.

~xXx~

O dono do bar – o velho – acabou de ligar a vitrola e foi para o balcão. Os dois entregadores estavam comendo numa mesa, e o bar se encontrava razoavelmente cheio, e duas garçonetes andavam por entre as gentes. Numa mesa, um casal se enamorava. Em outra, seis amigos conversavam comendo uma porção de fritas. Três amigas conversavam na mesa ao lado, e no balcão estava um homem bebendo sozinho.

– Aiai... – suspirou Hector, para si mesmo – Carnaval chegando, isso aí.

Nisso, uma mulher jovem, uns vinte e poucos anos, loira, com óculos escuros na cabeça e vestindo jeans e camisa social, adentrou ao estabelecimento, olhando para a estrutura com um discreto sorriso no rosto.

–Olá, senhorita, no que posso lhe ajudar?

– Boa tarde – respondeu a moça, sorrindo enquanto se sentava ao balcão – Você pode me dar um pão de queijo, por favor?

– Claro... Tá na mão. – Disse, servindo o salgado.

A moça fechou os olhos enquanto se deleitava com sua comida, e olhou a sua volta.

– Hum... – Começou ela, com a mão em frente à boca, terminando de mastigar – Eu vim de lá de BH só pra comer aqui, sabe. Parece que valeu a indicação. Lindo o seu bar!

O senhor sorriu imediatamente ao ouvir isso, mas quando ia responder, a moça o interrompeu:

– Opa! Não me contaram daquilo! – Disse ela animadamente, apontando para a vitrola – Cara, isso é tão grunge!

O velho riu.

– Ah, isso aí? Chegou hoje. E que bom que gostou do bar.

–Nossa, pode colocar pra tocar, moço? Precisa de ficha?

– Puts, é mesmo, até esqueci de testar, acredita? Quer ter a honra? Não precisa de ficha, é só ir lá.

Os olhos da moça brilharam, e ela foi saltitando para a máquina. Poucos segundos depois, já estava de volta. Uma música havia começado, e ela tinha um semblante orgulhoso no rosto.

– Então – disse o velho –, conseguiu a música que queria?

– Não exatamente. É a primeira vez que vejo uma dessas, então só fucei e saiu isso.

Hector deu uma gargalhada grave e sonora.

– Ha, essa pra mim é nova!

Os dois riram, e ela continuou seu pão de queijo.

“Shiny happy people laughing

Meet me in the crowd

People people

Throw your love around

Love me love me

Take it into town

Happy happy ♪

Put it in the ground

Where the flowers grow

Gold and silver shine

Shiny happy people holding hands

Shiny happy people holding hands

Shiny happy people laughing”

– Ana. – Disse a jovem, limpando a boca.

– Oi? – O velho foi pego de surpresa com a fala repentina

– Meu nome – riu a moça – é Ana.

– Ahh, claro, claro... Bem, é um prazer, Ana. Meu nome é Hector.

–Huum... E por que estava com um semblante tãão contemplativo agora à pouco? – Ela perguntou, apertando os olhos e exagerando em floreios verbais para caracterizar a brincadeira.

–Ah, é que... Só, lembrei de um amigo meu. – Seu olhar parecia cansado de repente

– Entendo... E o que lhe afliges?

– Nada – riu educadamente – Apenas lembrando mesmo.

Por um momento, ficou em silêncio, mas Ana olhava pra ele como se esperasse que batesse asas e saísse voando por cima do balcão.

– Você quer a história, não é...?

Os olhos dela brilharam como os de uma criança, e ela balançou a cabeça positivamente.

– Bem, que seja. – Disse ele, enquanto abria uma lata de Sprite

~xXx~

É uma história curta.

– Foi no ensino médio. Naquela época a gente tinha que malhar ferro na aula, as pessoas valorizavam a educação pra caramba. – o velho fazia gestos enquanto contava a história – No começo do terceiro ano, eu presenciei pela primeira vez na minha vida acadêmica alguém mais “inadimplente” com as tarefas escolares do que eu mesmo. Eu não tava nem aí. Eu dormia nas aulas e passava apenas com ótimas notas nas provas. No ano anterior, eu havia sido aprovado antes das trimestrais.

– Haha – riu Ana – Sempre tem um revoltado desses nas salas. – Ele apontou pra ela e riu brevemente como resposta

– Mas esse garoto... – Hector deu um bom gole no refri, continuando – Ele era mais novo que eu, e eu realmente não sabia como ele havia chegado ali. Ele ficava sempre na dele, num canto da sala, conversando apenas quando solicitado. Ele tinha sim potencial, mas desperdiçava pra caramba.

– Tá, definitivamente não era você o revoltado. Confesso o erro. – Brincou a jovem

– Em um dia em que o mundo estava inspirado a clichês, fizemos um trabalho em duplas, e eu puxei papo com ele, e passamos a nos conversar um pouco. Ele sempre debochava das outras pessoas em silêncio, focando nos populares e nas garotas festeiras. Sempre que se juntavam e começavam a falar da última festa, da noite passada, do rolé no final de semana, ele ria sarcasticamente e dizia algo como “esses idiotas, ficam gastando o tempo com essas coisas”, e blá blá blá. Por isso estava pensativo. Lembrei dele com essa música... Shiny happy people laughing, meet me in the crowd, people people, throw your love around ♪.

– Ahh... Entendi... Mas e aí?

– Acabou que paramos de conversar, eventualmente. Depois da metade do ano, as notas dele pioraram muito, Ele estava tendo problemas em casa, parece que apanhava para o pai, a mãe tinha problemas com bebida. O irmão era um skinhead, e parece que ele também tinha bastantes problemas com ele. Acabou que em um momento ele não aguentou mais, e explodiu na sala de aula. Eu não me lembro bem o que houve, acho que alguém o provocou, não sei... Mas depois... – Hector foi interrompido pelos dois homem que haviam trago a vitrola, para pagar a conta – Só um momento, senhorita.

Rapidamente, os homens pagaram e partiram em sua van. Logo que saíram, o homem que bebia no canto do balcão também pagou e se retirou.

– Bem... Aonde estávamos...

– Ai... – Ana torceu seu rosto numa carranca de decepção – Desculpa Seu Hector, mas eu tenho que ir... Meu horário de almoço tá acabando já e to cheia de coisa pra fazer.

– Não, não, tudo bem. Você pode voltar sempre que quiser: mi casa é su casa! – o idoso abriu os braços indicando o bar com animosidade

– Awn... Beleza então. Volto assim que der.

– O.k.!

– Mas aqui... – A moça se aproximou mais – O que aconteceu com o garoto?

– Ah! Claro, claro... Bem... Ele tentou se suicidar, mas... Eu ajudei ele quando ele precisou. Ele me mandou uma mensagem no zapezape, se despedindo e dizendo que não iria mais à escola. Passei na casa dele, e... Impedi ele. Viver é legal. Morrer é chato. Essas coisas.

– Nossa. – comentou, boquiaberta. – Achei que isso só acontecesse em filmes antigos.

Hector gargalhou alto mais uma vez.

– Pois é! Tava na moda as pessoas fazerem isso de imitar filmes e livros. Todo mundo fazia isso!

– Tudo bem, então vou lá... Quanto ficou?

– Ah, não, não, essa é por conta da casa. Vai lá. – A garota sorriu, virando a cabeça de lado meio desconfiada e abaixando os óculos escuros.

– Por quê você fala duas vezes as palavras no começo da frase? – Indagou a moça, sem ter o que falar

– Ah, cacoete de velh... Espera, que pergunta mais sem noção. Onde isso se encaixa no assunto?

– Em nenhum lugar! – riu. – Mas fala aí, quanto ficou?

– Vai embora! – disse o velho, rindo – Vai, voa, bate asa!

– Mas você... – Ela foi interrompida por Hector

– Em nome da pedra e da terra, eu te bano – ele molhou os dedos no Sprite e jogou nela sem cerimônia

– Mas o quê...? – Ela deu de ombros rindo, e foi embora.

O senhor olhou para a rua por um momento e depois olhou para a vitrola. Seu olhar parecia cansado. Ele bebeu o resto do refrigerante, e voltou a alisar a madeira com o pano.

Notas finais
Então, curtiram? Eu sinceramente não fiquei muito satisfeito. Eu esperava mais de mim e da minha mente idônea, mas estou há quase um ano sem escrever absolutamente nada /*e estou com um puta sono também*/ ... Bem, de todo o coração eu espero que o próximo capítulo esteja ali amanhã. Senão o desafio me faz pular uma música. Bah. Vou ir dormir, já é tarde. Até a próxima ou não, criatura indulgente que desobedeceu minha ordem de parar de ler.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.