A Vitoriosa, O Presidente e A Semente
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Quando o primeiro tiro foi dado, seus tremores ao sempre escutar armas apareceram. Não conseguiu conter um grito de surpresa misturado com o medo. Medo do desconhecido Coriolanus. Não, ela não o conhecia. No momento em que ela percebeu que ele mandou o melhor amigo para a forca, ela percebeu também que não o conhecia. Mas claro, ele era um menino da capital que conhecia há poucas semanas, como poderia realmente conhecer seu interior?
A sensação de ter sido traído a inundou. A confiança quase cega que tinha nele desmoronou com uma facilidade que a assustou. Ele agora estava armado, atrás dela e já havia atirado. O que mais precisava para confirmar que ele não era a pessoa que dizia ser esse tempo todo? O que o impedia de mata-la e assim acabar com qualquer ligação dele ao assassinato de Mayfair Lipp? Afinal, além das armas, ela foi tudo que restou como prova.
Sabia que não conseguiria correr em segurança com ele atirando, então se abaixou atrás de uma árvore até os tiros loucamente dados passarem. Tiros que ele queria que acertassem nela. Assim que acabou, ela não perdeu tempo em correr para onde ela achava que era o Norte.
Tudo por dentro ruía, mas seu instinto de sobrevivência clamava mais alto. Deixou para trás o lenço laranja que estava no cabelo momentos antes, numa tentativa frustrada de se sentir separada dele de verdade. Agora não era só o prefeito que a queria morta, mas Coriolanus também. Aquele que ela acreditou estar destinado a ela, em quem ela confiou, a quem ela amou.
Mas ela sabia reconhecer quando precisava ir embora.
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Depois de tantos anos, voltar ao 12 era quase como estar num sonho. Um sonho esquisito, que a fazia ter vontade de chorar como o bebê em seus braços fazia.
— Shhh, calma, está tudo bem. Shh, não precisa chorar, estamos em casa. — Os olhinhos acinzentados se abriram com força, quase como se ele entendesse o que a mãe queria dizer.- Bom menino. — Ela sorriu tristemente para ele.
Passar pelo lago e constatar que ele estava igual foi quase o tiro que ela não levou no passado. Era como se o tempo tivesse parado por ali, apenas esperando que Lucy Gray retornasse e tomasse seu lugar novamente para a cena continuar. Olhar a cabana a relembrou dos últimos momentos ao lado dele.
Quando chegou no Norte, Lucy Gray ficou maravilhada e muito surpresa com o fato de ter mesmo pessoas ali. E o mais importante, gente disposta a aceitar a menina de 16 anos que cantava tristemente pelos cantos depois de chegar pele e osso até a pequena aldeia. Refizera sua vida, cantava para se sustentar e ela até se casou com um bom homem, que lhe deu dois filhos — apesar da menina ter sido levada desta vida logo após um nascimento.
Nunca parou de pensar nele, mesmo casada com outro. Não era um pensamento romântico, como se fossem dois adolescentes apaixonados como um dia foram. Pensava nele com rancor, ao mesmo que sentia pena, quase uma compaixão. E isso quase beirava um gostar, porque como ela mesma disse, ela se atraia por coisas em que não confiava e Snow havia se tornado a coisa número para não confiar.
O fato de estar acompanhada dele logo atrás de si nesta situação dizia muito sobre o indivíduo. Ele tinha acabado de se tornar presidente, quando rumou para o Norte em busca de rebeldes que estivessem tramando contra a capital. Achou um punhado de pessoas que nada tinha a ver com essas práticas — algumas sequer vinham de Panem. Mas é claro que a loucura em matar todos aqueles inocentes teriam que vir do momento em que ele percebeu que ela estava ali.
Viva, crescida e com a língua no lugar. Uma ameaça.
Ela viu o marido morrer na sua frente com um tiro dele. Aquele que preferia o Snow ao primeiro nome, que há muito tempo tinha deixado de ser o rapaz apaixonado e com algum bondade no coração. Agora ela sentia ter mais sangue inocente nas mãos, mesmo que de forma indireta.
— Vamos logo, eu preciso voltar para a Capital.
A voz grosseira a fez voltar a realidade, já que sua cabeça a transportou para dias passados. Ela ainda não entendia o que ele queria com ela, não entendeu porque ele a deixou viva em meio àquela tragédia. Mas estava disposta a tudo para salvar o serzinho que agarrava com toda a força nos braços e quando ele propôs poupar a criança, desde que ela a deixasse com o Bando no 12, ela não pensou nem por um momento o que seria dela depois.
Ela foi andando, chamando a atenção por todo o distrito. Alguns não a conheciam e só olhavam pelo fato dela ser acompanhada pelo presidente e uma meia dúzia de pacificadores. Outros a olhavam preocupados, já que ela havia sido dada como desaparecida. Ela evitou os olhares de pena o quanto pôde.
Na costura, sua casa ainda era a mesma. Quase nada havia mudado. Num ato quase misericordioso, Snow permitiu que ela adentrasse sozinha para entregar o bebê.
— Maude Ivory? — Falar o nome da priminha era como música. Ela, que remexia em algo de costas para a porta, virou forte a cabeça.
Passaram um tempo se encarando, até os olhos de ambas se encherem com lágrimas, que caíam ao mesmo tempo que Maude Ivory, agora com cerca de 19 anos, pulava em cima da prima para um abraço desajeitado com o bebê entre as duas.
— Achei que estivesse morta! — Maude Ivory exclamou, com a voz pesada do choro. — Pelos céus, por onde você andou? Sabe o quanto te procuramos? Eu nem sei como começar e você volta, depois de todos esses anos com um bebê no colo como se nada tivesse acontecido? Você vai precisar me... — Maude Ivory parou no momento em que Barb Azure entrou em casa.
— Lucy Gray... — Barb Azure sentiu os olhos umidos, assim como Lucy sentiu vontade de só se deixar levar e chorar o que desse ali, no meio de sua família. O abraço apertado das duas, junto com Maude Ivory as abraçando também, mostrou o amor que as três sentiam, mesmo com 10 anos de lacuna.
— Eu não tenho muito tempo para explicar. — Depois de se separarem, ela retirou duas cartas do bolso e entregou para Barb Azure. — Mas Snow me encontrou e eu não consigo mais proteger o meu bebê. — Todas olharam para a criança, que agora parecia sonolento e calmo. — Sei que não posso chegar aqui como se nada tivesse acontecido e pedir para que cuidem dele, mas vocês são tudo que me sobraram nesse mundo e eu não confiariam meu filho a outras pessoas. — O choro a consumiu novamente e ela não conseguiu mais falar.
Barb Azure e Maude Ivory se olharam, numa mistura de pena e preocupação. Ao longo dos anos, principalmente depois de uma visita de Snow cerca de um mês antes, elas perceberam que a prima ou já estava morta ou havia fugido e se ela o fez sem dizer nada, existiam razões muito sombrias por trás. O tom de ameaça do recém nomeado presidente deixava claro que os motivos eram um segredo bem guardado, apesar de nem ele ter certeza do que ocorreu a ela, e ele só foi embora depois de garantir que Lucy Gray não perambulava naquela casa há muito tempo.
Maude Ivory então pegou o bebê da prima, que levantou os braços num instinto de pega-lo de volta, mas os deixou cair logo em seguida. O olhar desolado dela deixou a prima com mais vontade de chorar de novo.
— Posso adotar ele. Meu marido e eu estamos tentando ter filhos desde que nos casamos e ainda não conseguimos, então eu cuido dele para você. Você vai voltar algum dia para vê-lo, né? — Lucy Gray baixou o olhar e limpou as lágrimas do rosto, dando uma risada com escárnio.
— Eu acho que depois de flertar tanto com a morte, ela finalmente resolveu me encontrar de vez. — O silêncio que se instalou foi desconfortável, mas foi quebrado pela própria Lucy Gray. — Eu não sei o que me acontecerá, mas acho muito difícil eu escapar novamente. Tudo, absolutamente tudo que me aconteceu, está nas cartas. A última é pro meu filho, para ele saber sobre mim, o pai e irmãzinha que a vida nos tirou. O nome dela era Katniss. — O choro parecia querer vir novamente, mas tratou de dar um sorriso para disfarçar. — Falem do Bando para ele, cantem nossas músicas e digam que eu o amei muito. Eu também amo muito vocês, e quero que saibam que tudo o que eu fiz foi também pensando na segurança de vocês, por todos esses anos e ... — Clerk Carmine e Tam Amber entraram rapidamente na casa e sem perguntas, se jogaram em Lucy Gray.
Ela entendeu o desespero dos dois quando Snow e mais dois pacificadores entraram na casa, como um sinal claro que deveriam partir.
Um último beijo no bebê que ela tanto amava a fez se sentir desapegada de tudo que havia nessa vida. Dar adeus para a família pareceu algo definitivo.
Com a infinidade de cartas escritas, Lucy Gray sabia que entenderiam tudo que ela passou e talvez a perdoassem em algum momento pelas preocupações que causou. Ela sabia que cuidariam de seu filho, que ele não passaria fome e não sofreria na mão de um desconhecido. E com isso, ela fechava o último capítulo da sua vida que a ligava de forma positiva ao mundo. Deixando o Bando para trás, sabia que agora, com Snow na cola dela, ela não voltaria a vê-los.
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Não foi surpresa ser presa e interrogada assim que colocou os pés na capital. Mas foi uma surpresa ele leva-la para a própria casa, com a desculpa de que mantê-la por perto era mais seguro que mantê-la numa cela.
Comer numa mesa com ele o pudim de pão que a remetia a tantas lembranças foi estranho. Não mais estranho era o pó num potinho ao lado da taça dele. Será que ele a havia envenenado?
— Não se preocupe, não te envenenei, ainda preciso de algumas respostas. — Pacientemente ele colocou um pedaço de filé na boca e ela só ficou calada. — E essa estratégia é sua, não posso tomar o crédito dela.
Ela apertou os olhos na direção dele, mas não disse nada. O que poderia falar, rebater? Era uma vitoriosa dos jogos com o veneno de rato e serpentes. Uma vitória suja, mas uma vitória.
— Claro que a insinuação veio de você, então não me importo de dividirmos os créditos. — Ela deu de ombros como se estivesse numa conversa casual com alguém qualquer. Eles estavam sozinhos na sala, ele dispensou os avoxes para ter privacidade e ele aparentemente não morava com ninguém. Então ali não estava presidente Snow e sim Coriolanus em forma adulta.
Ele riu, propondo um brinde com a taça que ela não possuia, pois ela só teve direito ao pudim. — Dedicado à nós dois, duas faces de uma mesma moeda que um dia esteve unida. — E tomou o conteúdo, que ela percebeu que havia algo dentro além da bebida.
— Nossa união passada não passou de uma diversão momentânea para você, principalmente quando tentou me matar com tiros. — A boca dele despencou pela lembrança, mas ele logo voltou a si, dessa vez com uma raiva calculada escondida nos olhos.
— A culpa foi sua de colocar aquela serpente no caminho para me matar, eu só devolvi o favor. — Ele limpou graciosamente a boca com um guardanapo. — Mas o passado não pode ser mudado. Agora me diga, para quem você contou sobre o assassinato de Mayfair?
— Meu marido. Ele sabia de tudo, mas você fez questão de esfolar a cabeça dele na minha frente. — Ela tentou soar brava e distante, mas o sentimento ao falar do homem fez Snow se remexer na cadeira.
— Um marido, hein? — Ele riu de leve, quase como se estivesse se divertindo. — Espero que saiba que revisei todas as cartas que você escreveu para sua família. Tomei liberdade de jogar fora a letra da música da árvore-forca. Sabe como é, precisava ter certeza de que sua família não seria um problema posterior.
Ela apertos os lábios. É claro que sabia que as cartas não seriam dadas sem uma garantia. Por isso escondeu uma nas roupas do bebê, contando o que houve em detalhes. Morreria sabendo que foi honesta com seu Bando até o fim.
— Como sobreviveu? — Ela sentia que ele estava enrolando, perpetuando a conversa.
— Vá direto ao ponto, não demore para fazer o que quer.
— Você sabe o que eu quero? Tem certeza? — O sorriso que um dia a encantara tanto agora mostrava algumas feridas pequenas, discretas.
— Me quer morta, para enterrar todo o seu passado – Ela rebateu. A risada alta dele a assustou. Pôde ver que havia feridas no céu da boca também.
— Me diga porque tentou me matar com a serpente, que deixarei você viver com seu filho. — Ela via a mentira nele. Ela sabia que jamais veria o filhinho de novo, porque mesmo que saísse viva e livre da Capital, ele sempre estaria em seus calcanhares, avaliando tudo que ela dizia, tudo que fazia. Um escorregão e sua cabeça estaria longe do corpo. Ela não podia arriscar o Bando e o filho assim.
— Isso é uma piada? — Ela levantou e bateu com as mãos na mesa, então começou a gritar. — Como eu poderia controlar uma serpente a distância? E como eu poderia confiar em você depois de ligar os pontos e perceber que Sejanus estar na forca era culpa sua? Não pode me culpar por tentar fugir de alguém que poderia me matar e poucos minutos depois você só confirmou minha teoria.
— Eu só fiz aquilo depois da maldita cobra me picar e a culpa é toda sua. — Ele levantou abruptamente da mesa. Mexer com essa lembrança ainda o afetava. Lucy Gray era um passado que ele gostava de pensar que estava enterrado, mas que volta e meia o fantasma aparecia para assombra-lo.
— Eu ganhei os jogos com as serpentes, vai ver elas passaram a me obedecer depois disso. — O tom dela tinha puro deboche, mas a menção a alguma vontade de vê-lo morto mexeu com ele.
— Se prepare para uma apresentação amanhã, ao vivo. — E deixou a sala, com pacificadores entrando para guia-la, agora sim, para a prisão.
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A humilhação de se tornar avoxe na frente das câmeras foi algo que mexeu com ela. Logo após cantar uma cantiga que fosse ‘’apropriada’’, dois homens a seguraram para cortarem sua língua.
Lucy Gray Baird, vencedora da 10ª edição dos Jogos Vorazes, de quem quase não lembravam, tinha sido encontrada com rebeldes no Norte e agora, após sua última performance ao vivo, ela tinha sido punida.
Ela entendia agora o porquê de ser levada para a Capital, para TV. Só ela poderia dar um show antes da tragédia acontecer. Só ela seria o símbolo perfeito do que a Capital faria com simpatizantes aos rebeldes (mesmo que ela não fosse uma). Um exemplo. O sangue manchava toda a sua roupa e a dor quase a fazia desmaiar. No instante em que olhou para Coriolanus, sentiu que por um breve momento, ele a olhou como olhava no passado e parecia sentir remorso. Mas o momento logo passou, pois ele fez um sinal para a TV parar a transmissão e nesse exato momento, os tiros incontáveis atravessaram seu corpo. E assim, o as cortinas se fecharam, encerrando para sempre o show de Lucy Gray na vida.
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Snow tomava um drink enquanto olhava Katniss, a menina do distrito 12 que estava lhe dando dor de cabeça, encenar um romance de forma péssima. Olhava para ela e não podia deixar de lembrar que Lucy Gray falou que ia plantar Katniss para eles, ou algo assim. Ele só não imaginava que ela, mesmo depois de morta, cumpriria a promessa.
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