🌌 Cena de Abertura – O Salão e o Sussurro do Destino

O Salão Principal de Hogwarts fervilhava com sons típicos do fim de tarde: o tilintar dos talheres, risadas entre mesas, o burburinho animado das casas trocando provocações amigáveis. Mas para Amy Caroline Thompson Moore, tudo aquilo parecia acontecer sob vidro.

Ela estava sentada no canto mais afastado da mesa da Corvinal, com o corpo meio virado para o lado, os olhos vagando pelas velas flutuantes. Seus dedos desenhavam palavras quase imperceptíveis em um caderninho de capa gasta. Cada página era um pequeno altar de pensamentos não ditos, visões que não ousava compartilhar nem mesmo com a professora de adivinhação, ideias rabiscadas como se pudessem prendê-la ao chão.

Mirra, sua gata preta, dormia enrolada em seu colo — a única presença constante na vida de Amy desde que deixara o orfanato, já em seu terceiro ano Amy conhecia muita gente e a maioria dos alunos de seu ano também a conhecia, ela era amigável e educada com todos e eles com ela mas por algum motivo ainda não havia criado vínculos fortes com ninguém; não que ela se importasse – claro – afinal ela tinha amigas: Luana e Mary do orfanado. Não é como se ela pudesse contar sobre Hogawrts para elas e a mentira constante de onde passava a maior parte do ano a incomodava, mesmo assim... as duas eram suas amigas, melhores amigas do mundo, as três tinham chegado ao orfanato no mesmo período e cresceram juntas.

O rabo da gata se agitou a tirando de seus devaneios, como se captasse algum presságio invisível ao redor. Em uma ponta distante do salão uma gargalhada alta chamou sua atenção, era Rose Weasley passava ao longe, cercada por amigos, rindo alto de alguma piada que algum deles tinha feito— um som forte, cheio de vida. Amy observava tudo como quem assiste a uma peça em que não foi escalada, as duas não haviam conversado muito durante os três primeiros anos, afinal o que ela poderia ter em comum com a senhorita popular? Ela achava que nada realmente.

Ela rabiscou sem olhar:

“Há um silêncio que antecede certas escolhas. Como se o tempo prendesse a respiração.”

E então... prendeu mesmo.

Um arrepio atravessou sua espinha.

O som ao redor se dissolveu, como se o mundo afundasse num lago profundo.

O teto do Salão cintilou com um brilho pálido, quase imperceptível. E as chamas das velas... oscilaram.

Amy fechou os olhos. O caderno escorregou de seus dedos.


🌫️ A Visão

Ela viu.

Um corredor vazio.

A estátua do bruxo de armadura quebrada.

E atrás dela, encolhida, uma garotinha de olhos arregalados, encurralada.

E então — um rugido. Um cheiro forte de sangue e mofo. Uma criatura gigantesca. Ela reconheceu o horrendo animal como um trasgo, pois já havia visto desenhos em livros anteriormente.

Amy abriu os olhos com um sobressalto.

Mirra também.

A gata se endireitou no colo, o pelo eriçado, como se tivesse visto a mesma coisa.

Quando voltou o transe os professores já haviam se levantado. Um murmúrio crescente tomava o salão e um tumulto de alunos. Alguém correu até diretora. Alunos eram chamados para voltar às suas torres com urgência.

Amy estava de pé antes de entender por quê.

Ela sabia.

Nem todos foram evacuados.

E o que quer que estivesse nos corredores, estava indo atrás de alguém que não devia estar ali.

Ela não disse uma palavra.

Apenas pegou sua varinha.

E correu.

️Cena – A Corrida Contra o Tempo

Amy agarra a varinha, ignora os avisos dos retratos e indo contra a multidão de alunos desce correndo pelos corredores.

Enquanto corre, se recorda de uma das primeiras lições da professora Patil:

"Algumas visões não vêm do futuro. Vêm daquilo que o tempo ainda está decidindo. E às vezes... ele espera que você faça a escolha certa."

Se sobrevivesse a essa loucura esperava que sua professora de adivinhação ficasse orgulhosa, Amy só tinha começado a ter essa aula há alguns meses e a senhorita Parvatti tinha começado a lecionar em Howgarts esse ano após a professora de adivinhação se aposentar, apesar disso ela gostava muito das aulas e duvidava que fosse sentir o mesmo entusiasmo com a matéria se a estranha professora Trelawney ainda lecionasse.

A professora Patil sempre dizia a ela que verdadeiros videntes como ela eram extra mente raros, apenas um a cada geração de alunos possuía tal dom, isso se sendo otimista. Ela acreditava que esse era o caso de Amy e a orientava a usar suas visões com sabedoria para ajudar os outros, enquanto corria no sentido contrário à multidão de alunos pensou que essa atitude não parecia lá muito sábia mas... o que mais poderia fazer?

Cena – O Confronto com o Trasgo

No corredor perto das masmorras, ela encontra o que viu:

A menina pequena está ali, escondida e em pânico, tremendo do dedinho do pé ao último fio de cabelo.

E o trasgo... também.

Gigante, lento, mas violento.

Amy treme. Quer recuar. Mas a menina a vê.

E então:

"Petrificus Totalus!"

Ela acerta o trasgo — o feitiço o paralisa parcialmente, o suficiente para que ele caia pesadamente, desacordado após bater contra uma parede. O som atrai os professores, que chegam correndo.

Entre os professores, está Rose Weasley.

Ela e Amy trocam um olhar. Algo é reconhecido ali.

Respeito. Curiosidade. Surpresa.

— Você voltou — Rose diz, incrédula.

— Eu... tive um pressentimento — responde Amy, com a voz ainda trêmula.

— Um bom pressentimento. Você salvou ela. — E depois de uma pausa: — E se tivesse se machucado?

— Alguém precisava ir. — Amy diz, simplesmente. — E você, o que estava fazendo aqui?

- Eu... estava evacuando com os outros alunos mas escutei um grito, parecia de uma criança, assustada, tentei convencer os outros a voltarem para ajudar e quando eles não quiseram ... bem, eu acabei vindo sozinha, mas você já tinha salvo o dia não é?

Uma pausa. Então a senhorita popular tinha voltado para ajudar?

Amy encara a colega de turma um pouco incrédula. Talvez as duas tivessem algo em comum afinal.

Ela não disse mais nada mas abriu um sorriso discreto para a garota que retribuiu com uma expressão ligeiramente desafiadora, como se soubesse exatamente o que Amy estava pensando.

🌹 Cena – “A Garota que Voltou”

(Ponto de vista de Rose Weasley)

O som do rugido ainda ecoava em seus ouvidos, mesmo depois de tudo ter terminado.

O trasgo jazia desacordado no chão do corredor lateral da Ala Oeste, pedras rachadas ao seu redor e um rastro de caos por onde passara. A menina do primeiro ano estava em choque, sendo levada por Madame Pomfrey. Professores se reuniam, lançando feitiços de contenção e discutindo, nervosos, como aquilo havia acontecido de novo em Hogwarts — DE NOVO -, depois de tantos anos.

Rose Weasley, ofegante e com a varinha ainda firme na mão, não conseguia tirar os olhos de Amy Caroline Thompson Moore.

Ela estava parada no meio do corredor, a respiração irregular, o rosto sujo de fuligem e um arranhão fino na bochecha direita. Seus olhos não procuravam aprovação, nem medo. Ela apenas... estava ali. Silenciosa. Como se fizesse aquilo todas as manhãs depois do café.

Rose se aproximou devagar.

— Então, aquele seu pressentimento .... — disse, sem conseguir evitar o tom de surpresa.

Amy virou os olhos lentamente para ela. Havia algo antigo naquele olhar — como se tivesse vivido mil vidas em silêncio e voltado para mais uma.

— Eu vi. — respondeu apenas.

— Viu o quê?

— A menina. O trasgo. — uma pausa curta. — Antes de acontecer.

Rose piscou, o coração acelerando.

“Visões?” Ela pensou. “Mas ela... nunca... ela nem parece do tipo que fala com ninguém.”

— E você... confiou nisso? Só... viu e voltou?

— E se estivesse certa? — Amy respondeu. — E se estivesse errada?

— E se tivesse morrido? — retrucou Rose, um pouco mais alto do que gostaria.

Amy olhou para ela com uma expressão estranha. Quase... curiosa.

— Alguém precisava ir.

Rose se calou.

-É, eu pensei o mesmo quando ouvi o grito.

Foi ali, naquele instante, que algo se rompeu. Ou talvez algo tenha começado.

Ela conhecia aquele tipo de coragem. Não a do heroísmo barulhento, mas a do tipo que age sem alarde, por pura convicção. A que não espera medalhas.

Rose se viu, inesperadamente, admirando aquela garota que até então ela só conhecia de vista — a Corvialina calada da biblioteca, a da gata preta, dos cadernos velhos e das frases afiadas quando respondia professores com mais inteligência do que respeito.

“E se ela não for só mais uma aluna esquisita?”

E se ela for uma daquelas... que mudam as coisas?”

Rose mordeu o lábio inferior e hesitou por um instante antes de dizer, em voz baixa:

— Você é muito mais do que deixa parecer, Moore.

Amy não respondeu. Apenas inclinou a cabeça, como quem recebe um elogio disfarçado e prefere guardá-lo do que agradecer.

Rose não sabia, naquele momento, que estava começando a mais importante amizade de sua vida.

Mas sentia.

E isso, para Rose Weasley, já era mais do que suficiente.


📚 Epílogo – Primeira Conversa Real

Alguns dias depois, na biblioteca, Rose aparece do nada e senta-se ao lado de Amy com uma pilha de livros.

— Você realmente gosta de fazer isso sozinha, né?

— Funciona melhor assim.

— Pena. Eu queria te mostrar uma coisa sobre magia ancestral e como ela pode estar ligada à clarividência.

Amy ergue uma sobrancelha.

— Isso foi... um convite para estudar juntas?

— Isso foi um aviso. Eu vou sentar aqui até você aceitar minha ajuda.

- Mas você não está na eletiva de adivinhação.

- Não, na verdade essa foi uma das única eletivas que eu não peguei, se quer saber a minha opinião essa matéria é uma verdadeira perda de tempo. – disse Rose sorrindo ligeiramente como se fosse a conclusão mais óbvia do mundo

- Mas então por que ...

- Você quer estudar ou não garota?

Amy sorri, plenamente pela primeira vez em muito tempo. E a resposta vem instintivamente:

— Tá bom. Mas só porque suas referências são, no mínimo, decentes.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!