A Vingança dos Lobos
1 Nascido para ser Selvagem (Único)
Notas iniciais
“Como um verdadeiro filho da natureza
Nós nascemos
Nascemos para ser selvagens
Podemos escalar tão alto
Eu nunca quero morrer.”
(Born to Be Wild – Steppen Wolf)
— Vai se arrepender amargamente por isso, amigão. — sentenciou Estevão com um sorriso estranho.
Cercado por seus inimigos, o motociclista não demonstrava o menor medo diante da morte iminente. A lua cheia banhava com sua luz prateada a cena do crime que estava prestes a acontecer.
A figura obesa e repleta de adereços do presidente do Moto Clube rival lhe apontava uma devastadora escopeta calibre doze de cano duplo serrado, coisa de filme de faroeste. Bigorna – esse era o apelido pelo qual os colegas motociclistas o tratavam – fez um muxoxo de desdém antes de falar:
— Duvido muito, seu verme. Só me arrependo daquilo que não faço.
E apertou o gatilho.
Depois que o tiro estraçalhou o tórax de Estevão, Bigorna se aproximou da motocicleta do morto: uma lustrosa Shadow 750, preta como a noite que os cercava, e em cujos detalhes cromados o luar era refletido com magnitude.
— Como dizem: Ao vencedor, os espólios. — grunhiu com sarcasmo.
Seus amigos riram enquanto ele dava partida no motor possante, que roncou poderoso, rascante.
Bigorna era presidente do Moto Clube Fênix, que cultivava uma rixa eterna com o pessoal do Moto Clube Lobos, do qual o falecido Estevão era membro. Não raro as contendas entre ambos os grupos terminavam em baixas para os dois lados.
Montando suas potentes e ruidosas motos estilo Custom, os Fênix seguiram seu presidente rodovia adentro. As máquinas, conduzidas por seus extravagantes embora experientes pilotos, adotaram a formação própria de viagem quando em grupo, onde se agrupavam na faixa da direita, visto que aquela era uma estrada de duas faixas de tráfego. Mantendo uma distância segura uns dos outros, posicionavam-se uns à esquerda e outros à direita, de modo que seu campo de visão era amplo, com os pilotos se enxergando com clareza. Dessa forma organizados tinham mais segurança, espaço para manobra e frenagem, e também seriam vistos com mais facilidade pelos motoristas. Estranhamente a pista se encontrava praticamente deserta naquela hora e o brilho potente do luar ajudava e muito os faróis a iluminar o caminho. Os Fênix seguiam a uma velocidade que oscilava entre cem e oitenta e cinco quilômetros por hora.
Rumavam para o Ozônio, um movimentado bar à beira da estrada, freqüentado especialmente por motociclistas. Ali iriam se embebedar para comemorar a morte de mais um adversário.
Entretanto, não chegaram a rodar sequer um par de quilômetros.
Bigorna, que encabeçava seu Moto Clube, levantou a enluvada mão direita e fez sinais padronizados que seus companheiros entenderam como gesto de parada. Obedeceram a contragosto, porque aquele era um trecho perigoso, envolto em vários casos de acidentes graves. E só então perceberam o real motivo da interrupção inesperada na marcha.
Logo à frente havia cerca de trinta motocicletas customizadas: Shadows. Drag Stars. Boulevards. Harleys. Mirages. Vulcans.
Seus tanques negros e robustos, caprichosamente encerados, rebrilhando ao luar. Todas as motos imponentemente estacionadas, atravessadas na pista, barrando o caminho. Os Lobos estavam por toda parte. Cabelos compridos. Barbas por fazer. Piercings. Brincos. Tatuagens. Jaquetas. Coletes. Roupas de couro repletas de correntes, chapas metálicas e medalhas. Luvas. Grossas botas, apropriadas para pilotagem.
Silenciosos e imóveis, fitando os adversários com fúria contida. A figura alta e musculosa de Fenrir, o presidente dos Lobos, se destacava à frente do bando. Era mais que um presidente de Moto Clube: era o líder de uma alcateia.
Bigorna deteve a Shadow 750, desligou o motor, desceu o descanso com o pé e desmontou da moto. Estacionando pouco atrás dele, seus camaradas o imitaram, e a algazarra de motores trabalhando, semelhante a um enxame furioso de abelhas, cessou praticamente a um só tempo.
Erguendo as mãos espalmadas para mostrar que estava desarmado, o líder do Moto Clube Fênix deu dois passos cautelosos em direção ao grupo rival. Movia-se vagarosamente, sem gestos bruscos, semelhante a um especialista do Esquadrão Antibomba prestes a manusear uma carga explosiva de poder devastador. Num primeiro olhar, examinando o bando adversário superficialmente, Bigorna tranqüilizou-se um pouco ao ver que nenhum dos Lobos portava armas. Se a coisa esquentasse a ponto de chegar às vias de fato, acreditou que em uma disputa mano a mano não se sairiam tão mal.
— Dá pra resolver isso de um jeito sensato. — arriscou uma negociação, um pouco mais confiante – Podem pegar a Shadow do seu amigo de volta.
Fenrir meneou a cabeça antes de dizer com sua voz poderosa e rouca:
— A devolução da moto é pouco. Há um preço a ser pago.
— E o que é que vocês querem?
— Carne fresca. – replicou Fenrir.
Os membros do Fênix se entreolharam, espantados.
Entre os Lobos, uma figura sombriamente masculina se distinguiu.
Não podia ser!
Bigorna gemeu.
Estevão estava de pé, vivo. A jaqueta ainda ensangüentada na altura do peito, esfacelado pelo tiro que deveria ter sido fatal.
Lançando ao transtornado Bigorna um olhar selvagem, bradou:
— Eu avisei que você iria se arrepender.
E arremeteu velozmente contra o inimigo paralisado de pavor.
No meio do caminho, converteu-se em uma grande e medonha criatura, um misto de homem e lobo: um ser de olhos diabolicamente amarelos, corpo musculoso recoberto de pelos, unhas longas e afiadas em forma de garras, dentes enormes e agudos, uma mandíbula capaz de despedaçar ao meio uma chapa de aço. Um espesso fio de saliva prateada a escorrer de sua bocarra colossal. Estevão já não corria: agora trotava como bicho que se tornara, ganhando velocidade em direção ao adversário.
O grito de terror que Bigorna soltou ficou estrangulado na garganta dilacerada.
Metamorfoseando-se também, os companheiros de Estevão atacaram os demais membros do Moto Clube Fênix, sem dar-lhes qualquer chance de fuga.
Depois do massacre, tendo se saciado com a carne e o sangue de seus inimigos, os Lobos retomaram sua aparência humana. Lançaram um olhar desdenhoso, quase indiferente ao panorama de morte que tinham criado. Aquele trecho da BR agora se convertera literalmente na Estrada para o Inferno.
Então subiram em suas motos e partiram acelerando dentro da noite, correndo com a lua cheia.
Danilo Alex da Silva
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