A Vingança
1 O passado.
Notas iniciais
Fazem apenas alguns minutos desde que cheguei no consultório do Dr. Gray, o psiquiatra mais famoso dos Estados Unidos, mas já começo a me sentir desconfortável. Todos na sala de espera ficam me encarando e muitos parecem querer vir falar comigo. Esse é o lado ruim de ser famoso, você nunca tem privacidade, nem quando isso é a coisa pela qual mais anseia.
Eu estou sentado na frente de um grande espelho e não consigo evitar de ficar encarando o meu reflexo. Meu cabelo está bagunçado e meu olhar perdido. Pareço um bichinho abandonado e não o grande escritor Hiroshi Maruyama, que causa surtos de histeria toda vez que lança um livro novo.
–Hiroshi Maruyama, entre por favor. -Escuto a recepcionista dizer e eu saio do meu “transe”.
Quando levanto do sofá me sinto mais observado que o normal, começo a acreditar que estou ficando mais neurótico que o de costume. Ignoro a sensação e ando até a porta da sala do Dr. Gray. Bato nela e espero a confirmação de que posso entrar. Quando eu o escuto gritar finalmente abro a porta.
A sala dele é bem iluminada, quadros (bem bonitos, diga-se de passagem) enfeitam as paredes e dão um ar mais amigável ao local. O Dr. Gray, um homem de cabelos grisalhos e olhos claros, estava sentado em uma poltrona azul e ele olhava pro sofá vermelho que havia na frente de sua poltrona. Quando fecho a porta atrás de mim ele me encara e abre um sorriso muito acolhedor.
–Bem vindo Sr. Maruyama. –Ele diz enquanto eu me aproximo.
–Ah por favor Dr. Gray, pode me chamar apenas de Hiroshi.
–Tudo bem então, Hiroshi. Pode me chamar apenas de Ed.
Ele diz e eu forço um sorriso pra ele. Dr. Ed me manda sentar e aponta pro sofá vermelho, mas eu dou um passo pra trás.
–O que foi?-Ele pergunta ao ver minha hesitação.
–Não gosto da cor vermelha.
–Nossa, sinto muito, eu não sabia. Vem, senta no meu lugar.
–Não eu... Sento no chão.
–Não! Eu insisto –Ele diz e se levanta da poltrona. Eu fico sem graça mas me sento e quando ele se acomoda no sofá vermelho me encara.
–Quantos anos tem Hiroshi?
–24.
–Sério? Puxa, você poderia ser meu filho! Tenho um filho da sua idade.
Dou um sorrisinho pra ele apenas para ‘me enturmar’, o Dr. Ed parece ser um cara muito legal mas eu estou perturbado demais para ser amigável ou qualquer coisa do tipo.
–Me diga, tem namorada... Ou algo do tipo? –Ele me pergunta seriamente, e eu hesito um pouco antes de responder.
–Tenho.
–Que legal, qual o nome dela? –Ele me pergunta visivelmente interessado no fato de eu ter uma namorada.
–Victoria...Victoria Mirai.
–Não brinca, aquela modelo super famosa? –Ele fica com uma expressão engraçada, ele está mesmo surpreso.
–Sim,ela mesmo.
–Nossa, você é um cara de sorte.
–Obrigado...pois é, sou mesmo. –Digo e acabo sorrindo de verdade.
Conheci a Victoria a uns 3 anos atrás. Eu tinha sido obrigado a ir a um desfile por causa do George, meu patrocinador, ele disse que seria bom pra mim pois eu estava muito ‘deprimido’ então era uma boa oportunidade de encontrar os fãs, aparecer na mídia e sair um pouco do buraco. O desfile já tinha acabado e eu estava terminando de tirar fotos com fãs quando a Victoria esbarrou em mim, ela veio pedir desculpas e quando viu que era eu disse que era uma fã e começamos a conversar. Ela me deu o seu número e depois de 2 meses de conversas e jantares, nós começamos a namorar. Fiquei chocado quando ela me mostrou que tinha todos os meus livros e na primeira vez que tive que viajar pra longe dela fiz questão de dar um ‘presente’ e autografei cada um deles antes de ir ,eu realmente a amo muito, ela é uma das únicas que me entende e não me julga por ser uma pessoa estranha.
–Bom Hiroshi, agora que eu conheço mais um pouco sobre você eu quero que me diga... Porque está aqui? – Ele pergunta mudando o tom de voz para um tom mais firme do que o de antes.
–Dr.Ed...há 10 anos eu venho tendo o mesmo pesadelo –Digo e não consigo segurar as lágrimas. – Todo dia... A água, meu irmão...
–Calma Hiroshi, você precisa se acalmar se não eu vou entender nada, por favor... Respire fundo e me conte tudo.
–Certo . – Digo e faço o que ele manda. – Tudo começou a muitos anos atrás...Eu morava no Japão com meus pais mas eles morreram quando eu tinha 6 anos de idade, em um acidente de carro... Eu não tinha mais ninguém, a não ser o Seiji, meu melhor amigo que chorou e fez de tudo que podia para o pai dele pegar a minha guarda. Seiji não tinha mãe, sua mãe morreu no parto do seu irmão mais novo, Ryo. O pai deles, como gostava muito de mim resolveu me adotar, ele entrou na justiça e fez tudo que pode. Fiquei muito feliz por isso e fomos uma família feliz, fizemos muitos amigos, alguns deles americanos pois os avós de Ryo e Seiji tinham uma fazenda aqui nos Estados Unidos e sempre vínhamos passar as férias... Tinha o Shinji, o Ren, a Miya, a Mina, a Elizabeth e a Erin. Todos eram meus melhores amigos e tudo ia bem até que no aniversário de 7 anos do Ryo, Takashi Yamada, o pai dos meninos morreu. Então tivemos que morar com os tios deles, que também me aceitaram, o que foi muito legal da parte deles. Tudo ia bem com nossos tios, e quando eu e Seiji tínhamos 14 anos e Ryo tinha 10, decidimos ir passar outras férias na fazenda. Chamamos nossos amigos que moravam no Japão e viemos juntos para nos encontrar com os que moravam aqui. Ficamos bastante tempo por lá, cerca de 2 semanas, até que um dia... Eu e Seiji estávamos dormindo e acordamos com os gritos de Ryo... Quando fomos ver ele estava se afogando no rio. Ele não sabia nadar e os outros que não sabiam disso o jogaram no rio como uma forma de brincadeira, eu e Seiji pulamos na água para procurar ele no rio, nesse momento ele já tinha parado de ser debater e meu desespero aumentou. Nadei o rio inteiro e quando encostei em algo estranho e puxei, era ele. O trouxemos pra beira do rio, ele estava inconsciente, tentamos de tudo mas quando eu fui verificar... Não havia mais batimentos cardíacos. Os policiais vieram, uma ambulância também mas não havia nada que podia ser feito, Ryo, que eu considerava meu irmãozinho estava morto. Seiji não parava de chorar e nossos amigos de se desculparem, eles não sabiam, não foi intencional, ninguém queria matar ele. Depois disso tudo voltamos para o Japão, Seiji mudou, não falava com ninguém, não comia, não fazia nada só ficava trancado no quarto dele. Eu não podia agüentar aquilo então mudei pra casa do Shinji, mas até lá o clima estava estranho, não era mais a mesma coisa.
–Nossa... E o que aconteceu depois?
–Bom... Depois eu esperei até ter idade suficiente pra ir fazer faculdade nos Estados Unidos. Larguei tudo pra trás e só fui. Deu pra me virar bem com o dinheiro que meus pais haviam guardado, eu morava na faculdade então meus gastos eram poucos. Durante a faculdade comecei a escrever o meu primeiro livro, O Assassino de Hideville. Quando acabei de escrevê-lo fui em uma editora que se interessou bastante e resolveram publicar alguns exemplares... Depois de dois meses eu já era ‘O Hiroshi Maruyama’. Larguei a faculdade, fui morar na minha casa própria e hoje sou assim. Um dos maiores escritores da America, mentalmente perturbado, volátil e viciado em cigarros.
–Entendi... Só mais uma pergunta. Porque não gosta da cor vermelha, Hiroshi?
–Era a cor favorita de Ryo. -Respondo seriamente o encarando e ele se encosta na poltrona.
–Céus Hiroshi... Você realmente precisa de ajuda. Porque não veio antes?
–Eu não queria vir, mas a Victoria me obrigou, disse que se eu não viesse ela ia terminar comigo.
–Ela sabe como te chantagear. — Ele diz e eu começo a rir. É a pura verdade.
–Nosso tempo acabou, mas por favor, peço que retorne semana que vem nesse mesmo horário. Vamos começar o seu tratamento, ok? Precisamos dar um jeito em você. –Ele diz e eu balanço a cabeça positivamente.
–Obrigado Dr. Ed. –Digo e me levanto. Ele se levanta também e aperta a minha mão. Depois disso eu caminho até a porta e saio.
Quando entro na sala de espera todos voltam a olhar para mim, QUE SACO! Eu paro no meio da sala e encaro aquelas pessoas.
–SIM É ISSO QUE ESTÃO VENDO! HIROSHI MARUYAMA NUM PSIQUIATRA! PORQUE EU SOU LOUCO, DOIDO VARRIDO. –Grito e saio sem nem olhar pra trás.
Quando saio daquele lugar eu sinto uma sensação de libertação incrível,mas ainda assim um pouco estranho. Procuro nos meus bolsos por algum cigarro mas tudo que encontro são maços e maços vazios. Escuto alguém gritar meu nome e quando me viro George estava vindo em minha direção, seu cabelo castanho estava bagunçado, sua roupa amarrotada e ele vinha andando igual a um zumbi.
–E então como foi? –Ele me pergunta e entrega o copo de café que estava segurando.
–Horrível! –Respondo e bebo um pouco do café. Ele me encara com uma expressão estranha.
–Eu ia discutir mas não temos tempo, rápido! Você tem uma sessão de autógrafos agora. –Ele diz e começa a caminhar em direção ao carro, eu o sigo e entro no veículo.
–Por favor, finja ser uma pessoa normal. Sorria para as fotos, pergunte se os fãs estão bem e não durma sentado. –O George ordena e eu balanço a cabeça positivamente. O motorista começa a dirigir e eu fico olhando a janela durante o percurso. Nova Iorque está muito cheia nessa época do ano, podemos ver turistas em tudo quanto é lado, mas a pesar de tudo, gosto de morar aqui.
O motorista estaciona um pouco longe do teatro aonde vai acontecer a sessão de autógrafos. Eu visto o capuz do casaco que estou usando, ele cobre meu rosto então não vou ser reconhecido. Saio do carro e vou correndo até o teatro, esbarro em algumas pessoas mas não tenho tempo de me desculpar, estou atrasado 5 minutos. Eu odeio me atrasar.
Quando entro no teatro, para minha surpresa ele estava mais que lotado, e isso me faz sentir um arrepio na espinha. Ninguém me reconhece então consigo transitar livremente pela multidão de fãs que me esperavam, ansiosos para terem minha assinatura em seus livros. Eu entro numa porta que havia perto do palco e o pessoal da equipe estavam me esperando ali. Mary, Jacob e Zack, a maquiadora, o estilista e meu conselheiro motivacional (que ridículo) estavam logo a frente.
–Anda, rápido que você já está atrasado. – Jacob diz me entregando uma muda de roupas. –Vai se trocar que depois a Mary vai passar alguma coisa em você pra disfarçar essa cara de Madrugada dos Mortos.
Eu pego as roupas, me troco e quando volto a Mary estava segurando um pincel, paro na frente dela ela começa a passar aquilo na minha cara.
–Isso vai tirar a sua palidez! Não passa a mão no rosto se não vai sair, ouviu? –Ela pergunta.
–Sim senhora.
–Vamos cara, fica tranqüilo. Você é Hiroshi Maruyama. Você é o melhor. –Zack diz me cutucando de leve no ombro.
–Obrigado. – Respondo sem paciência e quando ela termina de me maquiar (que coisa ridícula, me sinto uma garotinha) eu abro a porta e subo no palco. Me sento na minha mesa, pego a caneta, forço um sorriso e espero os fãs começarem a vir.
(...)
Eu já estava um bom tempo autografando e tirando fotos quando duas meninas sobem juntas , cada uma delas trazia todos os meus 5 livros. Elas os colocam na mesa e eu pego um de cada uma e abro na primeira página.
–Nomes, por favor. –Digo tentando ser o mais amigável o possível.
–Miya e Mina. –Elas dizem e meu coração gela. Será que as duas eram a Miya e a Mina que eu conhecia? Não tem como. Eu levanto a cabeça e encaro elas.
–Oi Hiroshi... Quanto tempo. -A Mina diz e eu continuo sem acreditar.
As duas estão bem diferentes mas ainda posso reconhecê-las. Miya agora tinha descolorido o cabelo e seus olhos azuis pareciam estar mais azuis que o normal, já Mina está usando o cabelo preto, extremamente liso.
–V-Vocês aqui? –Pergunto e elas sorriem.
–Claro, precisávamos ver como nossa uvinha estava se saindo. -A Miya diz e eu dou uma risada. Uvinha (por mais escroto que pareça) era o apelido que elas me deram anos atrás.
–Anda logo, uvinha. Assina ai! A gente vai te esperar ali do lado. – A Mina diz e eu começo a assinar os livros.
–Porquê? –Pergunto.
–Porque temos uma proposta pra você. -Miya diz e quando eu termino de assinar os livros elas os pegam e saem. Depois de alguns minutos eu as vejo entrando na porta aonde a equipe estava. Fico morrendo de curiosidade... O que elas querem tratar comigo?
Continua...
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