A Vingança de Hera
15 Isso Não Está Acontecendo
Notas iniciais
POV Hera
Fico no ginásio por horas. Era noite, e eu conseguia me teletransportar, então não havia um grande risco de eu ser vista. Choro até não poder mais. Fico tentando esquecer que ele foi embora, mas a minha mente teima em me lembrar.
Sinto a luz do luar iluminar meu rosto, e, depois sinto-a parar de me iluminar. E vejo que tenho que voltar para o Olimpo. Seco o excesso de lágrimas e mordo os lábios. Ninguém podia me ver assim. Ninguém podia me ver nesse estado. Fraca.
Eu me teletransporto para o Empire State. Aperto o número do andar num impulso.
Eu agradeço mentalmente quando a porta do elevador se abre, para que eu pare de ouvir a música infernalmente feliz que tocava.
Aperto a manga da minha jaqueta, e imagino o pescoço de alguém ali. Só que eu não conseguia capturar de quem era o pescoço. Porque naquele momento, eu não estava com raiva de uma pessoa específica.
Eu estava com raiva da vida. Estava com raiva do responsável por aquilo ter acontecido. Estava com raiva de ser deusa, estava com raiva de mim mesma por ter contado naquele momento. Ou por ter contado tão rápido, por não tê-lo preparado.
Meu punho já está fechado e amassando a jaqueta quando chego à porta do meu quarto.
E... Não. Não. O que ele está fazendo aqui?
Aperto a manga ainda mais forte.
Agora aquele pescoço tem, sim, um dono.
Zeus.
**
— Ah... Olha quem está aqui... — diz Zeus. — Hera... Minha querida esposa... Andou chorando, meu amor? Seus olhos parecem... Inchados... Mais vermelhos que o normal...
O tom de voz usado por Zeus era de sarcasmo e... Desprezo.
— Não é da sua conta... — responde Hera, entredentes.
E Zeus dá um sorriso irônico para Hera, antes de responder.
— É aí que você se engana, minha amada Hera... — diz ele. — Eu tenho que me preocupar o que a minha querida esposa anda fazendo perambulando pelas ruas, a essa hora da noite. — ele completa, observando o relógio em seu pulso.
E nesse momento Hera não aguenta mais. Ela explode. Ela não podia aceitar mais aquilo. Hera desvia dos braços de Zeus que tentavam fazer com que ela ficasse presa entre ele e a parede.
— Bom, você se preocupa, porque sabe o que é possível se fazer. Porque você faz. Bom, eu gostaria muito de dizer que eu ando transando com qualquer ser que tenha um pênis que eu encontre na rua, exatamente como você faz com qualquer ser que use saias, mas eu não saio por aí fazendo isso! Então, Zeus... — Hera abaixa o tom de voz e chega mais para perto do marido. — Vai se foder. — Zeus ergue a mão em direção ao braço de Hera para segurá-lo, mas ela é mais rápida. Seu joelho vai parar na barriga de Zeus, e quando ele tem que colocar as mãos no lugar onde ela encostara o joelho para que parasse de doer, Hera chega mais perto dele e sussurra, vagarosamente: — Não se atreva a tocar em mim.
Hera estala os dedos e aparece no corredor do seu quarto. E é quando ela vê outra pessoa.
Não, não e não! A minha cota de visitas desagradáveis em horas inadequadas por hoje já acabou!, pensa Hera.
— Ah, olá, Hera... — diz Afrodite, com a sua voz esganiçada, fazendo Hera revirar os olhos. — Andou chorando, querida? Vejo uma desilusão amorosa aí... Parece que o meu garoto andou aprontando alguma coisa...
— Se você não consegue controlar as flechinhas do seu filho, isso não é problema meu! — diz Hera, abrindo a porta do quarto, quando sente as enormes unhas de Afrodite cravarem no seu pulso.
— Não fale assim comigo... Você é esposa de Zeus, mas parece que a relação de vocês não está nos melhores momentos. Então você não tem como se defender direito contra mim. Eu posso arruinar você, Hera... Eu realmente posso, e você sabe disso. Então... Tome cuidado, Hera, porque um passo em falso pode trazer a sua desgraça... — Afrodite vira de costas e sai andando em linha reta pelo corredor. Quando Hera se vira para entrar no quarto, Afrodite olha para ela e completa: — A propósito, da próxima vez que você chorar, passe uma maquiagem depois. Essa cor realmente não favorece seus olhos.
Depois de dizer isso, Afrodite dá uma risadinha. Dessa vez, Hera aperta a manga da jaqueta ainda mais forte. As duas mangas. Porque agora ela tem dois pescoços para apertar.
**
POV Benjamin
Ele não conseguia acreditar. Mary, na verdade, era a deusa Hera, e... Céus, ele estava apaixonado pela mulher de Zeus! Ele não conseguia imaginar estar mais ferrado que isso.
Descobrir que os deuses gregos são reais deveria ser uma coisa maravilhosa, um sonho a ser realizado. A informação também não deveria ter sido jogada no seu colo daquele jeito.
Tudo o que Benjamin conseguia pensar era a imagem de Mary — ou Hera, ele não sabia mais do que chamá-la -. O tempo todo ela era como uma bomba prestes a explodir. Ela chegara em sua vida de maneira repentina, virara tudo de cabeça para baixo, e depois... Depois ele descobria que essa garota fantástica por quem ele estava apaixonado... Bem, ela era simplesmente a esposa de um dos seres mais poderosos do Universo, que poderia acabar com a existência dele com apenas a ponta de um de seus dedos.
Ou não só acabar com a sua existência, mas também torturá-lo de maneiras piores que ele conseguia imaginar. E por toda a eternidade.
E, além disso, não poderia, sei lá, ser vítima de um processo. Você não podia simplesmente mandar Zeus para ser julgado num tribunal. Ele era Zeus! Ele era aquele que as pessoas esperavam que julgasse as pessoas.
E Benjamin achando que a pior situação amorosa que ele poderia arranjar em toda a sua vida fora aquela que viu em um programa de televisão: uma mãe que estava grávida do namorado da filha. E esse namorado estava na cadeia.
Ou talvez se ele se apaixonasse por uma lésbica comprometida... Essa ia ser difícil de conseguir.
Mas nada como uma deusa, imortal, que fosse esposa do rei do Universo. Isso era realmente... Inesperado. Para dizer o mínimo.
Benjamin esfregou as têmporas e foi procurar uma dose de penicilina no armário de remédios de sua casa, e depois tomaria uma grande quantidade de cafeína.
Porque nada deixava as coisas mais claras em sua mente como cafeína e chocolate.
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