A Vingança
11 10.
Notas iniciais
Na segunda feira, o impacto da morte de Gui era um pouco menor, mas a tristeza perdurou com a notícia da morte de Carla. Muitos alunos caíram aos prantos novamente.
A aula também não foi a mesma. A falta que Carla fazia na sala de aula era imensa. Pelo menos, nenhum policial nem jornalista ficaram interferindo. O caso já tinha se resolvido no sábado, em que Carla foi assassinada.
Marc passou o recreio todo com Bia. Ela ainda precisava de um apoio maior. Carla era como uma irmã para ela. Devia ser muito mais difícil para Bia do que para qualquer um.
À tarde, Marc combinou de se encontrar com Ana e José para tentarem – de alguma maneira – achar o esconderijo de Liz. Bia queria passar a tarde com Marc, mas ele já tinha marcado compromisso.
– Quer ir conosco? Eu te protejo, não precisa se preocupar.
– Não. Ninguém é capaz de me proteger desta maluca.
– Oras, se você morrer, eu vou junto com você.
– Vai fazer a mesma besteira que fiz no domingo? Não. Prefiro você vivo, bem aqui, comigo.
Beijaram-se.
–--
Depois da escola, Marc voltou para casa – como sempre. Chegando lá, cumprimentou sua mãe, Flávia. Ela fez uma cara de preocupada, e o olhou com severidade.
– O que foi mãe?
– Por que você está escondendo as coisas de mim?
– Como assim?
– Você não me contou sobre o Gui. Nem sobre a Carla. Que horror, que acontecimentos horríveis. Você não me contou nada disto. Você anda muito distante, meu filho. Sai sem avisar. Não me mostra mais nenhuma prova. O que aconteceu?
– Estou normal, mãe. – disse Marc, com um suspiro.
– Não, você não está! – gritou Flávia. – O que está acontecendo? – perguntou novamente Flávia, desta vez, mais calma.
– Mãe, não está havendo provas. A época de provas já passou. Não quis contar a você sobre... Sobre o Gui e sobre a Carla por que... – e Marc começou a chorar – Porque eu não queria parecer bobo e infantil para você. Veja, já estou chorando.
– Oh meu filho... Desculpe. – e acariciou Marcos, abraçando-o. – Não queria fazer pressão a você. Perdoe-me.
– Tudo bem mãe. Desculpe por eu não compartilhar meus sentimentos com você.
– Imagina. Olha – Flávia segurou o rosto do filho, e olhou diretamente em seus olhos – Desça logo para o almoço. Ele já está pronto. Se arrume e desça.
– Ok.
Foi a melhor desculpa que Marc inventou. Ele não contou sobre a morte de Gui e Carla, porque senão ela o impediria de ir à escola. O impediria de continuar com sua vida. Além de que seria um choque para ela. Marcos prezava muito a mãe, não mentiu por mal.
Foi o melhor almoço que a mãe fizera nestes últimos dias. A tristeza e ódio tinham se apoderado de Marc, mas naquele almoço, ele não sentia mais nada disto. Estava feliz, e com sua mãe.
Marc perdera o pai ainda jovem. A mãe era sua melhor amiga. Até que ele conheceu Bia. Flávia gostou muito da garota, e ao saber que eles namoravam, ficou encantada.
– Mãe, tenho que sair. – disse Marc de repente.
– Vai aonde?
– Sair com uns amigos meus. Até logo.
– Volte antes das seis. – impôs Flávia.
– Certo, até mais.
– Até.
Marc não contou à mãe sobre a investigação. Se ele contasse, Flávia ficaria paranoica. Ele tinha consciência que estava se pondo em risco, mas se sua mãe – que é muito protetora – soubesse, ficaria muito preocupada. Talvez até o impedisse de ir.
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Encontrou com Ana e José no local da feira. Não havia ninguém lá, pois ela só abre aos domingos. Ana guiou-os até onde tropeçara, enquanto explicava a história para eles.
– Então ela foi naquela direção. Interessante... Você sabe para qual lado ela virou? – indagou José.
– Não. Quando me levantei, ela já tinha sumido.
– Droga. – disse Marc.
Os três ficaram em silêncio por uns minutos. Refletiam a possibilidade de descobrir a direção de Liz. Até que Marc falou:
– Havia testemunhas? Se houvessem, poderíamos consultá-las.
– Provavelmente, não. A rua estava deserta, e já tínhamos saído da feira. Passaram alguns carros, mas eu não os reconheceria.
– Podemos pedir alguma gravação. – disse José.
– Como assim? – indagou Ana.
– Olhe: a rua é bifurcada. Ela só pode ter ido por dois lados. Do lado direito, há um banco, que com certeza têm câmeras externas. Se ela passou por lá, há gravação.
– Continue.
– Entendi! Do outro lado, há uma escola. Que também tem câmeras... Se ela passou pelo lado esquerdo, as câmeras gravaram! É isso? – disse Marc.
– Você entendeu garoto!
– Certo! Consultaremos as câmeras. Bela ideia José.
– Experiência própria. Obrigado.
– É. A não ser... Que ela tenha virado no beco. – lembrou Marc.
Os três olharam em direção ao beco. Sim, havia esta possibilidade. Mas será que era válida? Ninguém que estivesse fugindo de alguém se esconderia em um lugar fechado, onde pudesse ser pego. Ou talvez sim.
– Eu verifico as câmeras do banco. José verifica as da escola. Marc, você procura pistas no beco.
– Por que justamente EU tenho que ir ao beco?
– Você não tem credenciais para ir entrando e vendo gravações alheias. O beco é publico. Vá logo. – disse Ana.
– Vou assim? Sem nenhuma proteção?
– Ok, tome este rádio. Você poderá contatar Ana se necessário. Mas ande logo! – apressou José, lhe entregando o rádio da polícia.
Os três se separaram. Cada um foi para o lugar predestinado. Marc foi se dirigindo ao beco vagarosamente. Ele parecia tão obscuro, mesmo estando de dia.
Passou a linha imaginária que dividia o beco com a rua. A escuridão não era tanto, como ele imaginava. Mas não havia muita luz do sol: os prédios faziam as sombras. Marc não encontrou nada que pudesse significar que Liz passou por lá. Até que viu que alguém vinha em sua direção, das profundezas do beco.
Marc se assustou. Foi se afastando devagar, e o vulto lhe disse “Precisa ter medo não... Sou da paz”. Marc conseguiu enxergar uma silhueta masculina, apenas isso. Não via muitos detalhes.
O homem foi chegando mais perto. Até que apareceu um pouco na luz. Marc conseguia vê-lo melhor: era alguém alto, tatuado, e com um topete no cabelo. Sorria como se estivesse nas nuvens.
Era alguém muito estranho.
– Oi moleque. Tudo de boa?
– Quem é você?
– Eu sou o David. Prazer. – e estendeu a mão. Marc não aceitou o cumprimento. – Nossa. Não precisa ter medo, eu não mordo. – e imitou um rugido.
David riu. Começou a analisar a lata de lixo. Marc percebeu que ele não estava em si. David usara alguma coisa, que alterara sua personalidade.
– Me diz uma coisa... David. – começou Marc, meio receoso – Você é sempre feliz assim?
– Mas é claro! Como dizia minha mãe (e que Deus a tenha): Um dia sem sorriso é um dia perdido. Viva o prefeito! – e deu muitas risadas.
Com certeza, David estava fora de si.
– Ai, minha vida é tão difícil... – dramatizou Marc. Queria descobrir o motivo daquela alegria toda – Como você faz para ser feliz deste jeito? É mágica?
– Não... É algo revolucionário! Pode mudar o mundo! Eu estou compartilhando com todas as pessoas que eu conseguir ajudar. Ontem mesmo eu mostrei este segredo mágico para uma menina que entrou aqui, correndo...
– Que menina? Como ela era?
– Ah, uma menina bonita... Tinha cabelos cacheados... E uns peitões... Bem bonita mesmo. Ela entrou correndo aqui, até tentou me acertar com a arma... Mas errou!
Marc percebeu que era Liz. Pelo que David disse, ela entrou correndo, e tinha uma arma. E pela descrição, tinha as mesmas características físicas de Liz. Era com certeza ela.
– Mas... Que mágica é essa? Que coisa revolucionária é essa que deixará todos felizes?
– Este enroladinho aqui...
Um cigarro de maconha.
Marc olhou para aquilo e deu uma risada forçada.
– Já tenho isso amigo! Mas eu não sabia como usar... Como faz?
– Você coloca na boca, e respira bem fundo. Assim olha – e David daria uma demonstração, mas Marc foi embora. Não queria respirar ar de fumante, além de que já tinha conseguido o que queria.
(Conseguiu entender também, aquele cheiro suspeito do beco).
Marc só ouviu David gritando “Felicidades cara...”. Que piada!
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Encontrou Ana e José no mesmo local onde se separaram. Confiante, Marc chegou com um sorriso no rosto. Tinha certeza que a menina que David se referiu era Liz.
– As câmeras do banco mostram uma menina cambaleando. Seguiu reto até as câmeras não conseguirem gravar mais. Pela silhueta, com certeza era Liz. – disse Ana.
– Nas câmeras da escola, não tinha nada. – disse José, cabisbaixo.
– Vocês não vão acreditar... Liz passou pelo beco! – Os policiais olharam atônitos para Marc. Como assim? Marc explicou – Havia um usuário de maconha lá. Chamava David. Ele disse que passou uma menina com cabelos cacheados por lá. Ele disse que ela entrou correndo, parecia fugir de alguém. David disse que ela até atirou, mas não o acertou. Ele deu um cigarro de maconha para ela.
Os policiais riram. Então, é por isso que Liz estava cambaleando nas câmeras do banco. Ela devia estar nas nuvens.
– Mas agora... Ela é usuária também? Ou apenas experimentou? – indagou Marc.
– No caso dela, acho que apenas deu uma tragada. Aposto que ela não terá mais contato com esse tal de David. – concluiu José.
Depois de discutirem por um tempo, concluíram que: Liz virou à direita; o esconderijo de Liz podia estar mais perto do que esperavam; Liz tinha apenas três tiros, pois gastara os outros (e policiais andam com mais ou menos, seis tiros na arma); Liz poderia voltar à feira.
Eles podiam esperar até domingo, durante a feira, para ver se Liz aparecia. Ou podiam investigar e descobrir rapidamente onde era o esconderijo de Liz.
Claro que eles escolheram a última opção.
Mas isso ficaria para amanhã. Marc tinha que ir.
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