A Vila Velha
5 O que movimenta uma fugitiva.
Camile fechou a porta bem devagar, querendo evitar inutilmente os rangidos das dobradiças velhas. Ao estalar final da maçaneta, virou e observou o ambiente. Estava em uma pequena salinha dos fundos má iluminada por lâmpadas a óleo. Nela havia algumas cadeiras velhas, além de pequenos baús e um armário fechado de madeira, tragicamente furado por cupins. O chão era feito de tábuas firmes e enceradas, por isso bastou o esforço de andar devagar e nas pontas dos pés para a jovem não emitir som. Os olhos estavam atentos ao seu redor para não trombar em nenhum dos móveis que, mantidos aos montes em lados opostos, formavam um caminho estreito e turbulento até uma outra porta mais a frente. No meio do caminho, bem lembrou-se de levantar um pouco o vestido para não prendê-lo em algo.
Conforme se aproximava vagarosamente, Camile erguia a mão na direção da maçaneta redonda e simples de cobre. Parada diante da porta, abriu-a com cuidado e começou a espiar o outro lado conforme abria uma fresta surgia e a expandia. "Que ela não tenha percebido", pensava repetidas vezes, quase numa súplica urgente. "Que ela não tenha percebido!"
Deparou-se com um cômodo grande e claro, com janelas em três das quatro paredes amarelas. O chão de ébano estava preservado ao contrário do o que ela ainda pousava os pés. À sua esquerda havia dois armários, semelhantes em aparência ao deteriorado. Mais a diante, uma pequena mesa quadrada e duas cadeiras simples estavam próximas da janela arredondada, a qual era, como sua gêmea do lado oposto da mesma parede, inútil para ver a vila mais embaixo. As densas folhas do chorão que acobertava a casa se derramavam em cascata diante das janelas, negando qualquer vista. À direita havia uma cama que, apesar de projetada para solteiro, era larga. Tinha um lençol simples e um travesseiro branco, os dois amarrotados. Camile estranhou. Como se já não bastasse o ambiente estranhamente vazio, a cama estava desarrumada, algo nada comum para aquela casa. Em seguida, uma voz falou alto e claramente, dando-lhe um susto.
– Enfim chegou. — foi o que disse alguém.
Camile teve um sobressalto e acabou não evitando um gritinho breve e o arregalar dos olhos. Entrou no aposento de uma vez, fechando a porta e se afastando um pouco para ver a origem da voz. Com o coração disparado, uma senhora estava bem do lado das dobradiças e seus olhos mostravam que não era por acaso.
– Senhora Ametiste! — a jovem disse exaltada, mas rindo-se — Que susto!
A velha mulher deu um sorriso carinhoso lento, enrugando ainda mais seu rosto marcado pelo tempo. Ametiste Bellini era alta, de pele esbranquiçada mesmo após anos trabalhando no campi. Esbelta, tinha cabelos grisalhos e lisos presos em um nó baixo reforçado. Seus olhos pequenos e azuis eram caídos e gentis, o nariz tinha traços delicados, assim como os lábios finos e vermelhos que geralmente esboçavam um sorriso leve e tranquilo. Naquela noite usava uma camisola longa e branca de mangas curtas. Seus braços finos estavam cruzados ente o peito e suas sobrancelhas claras estavam levantadas com um ar de preocupação.
– Pensei que a senhora estava dormindo — Camile prosseguiu logo em seguida.
– Não consegui tirar minha soneca habitual, querida — respondeu com gentileza em sua voz rouca. — Fiquei preocupada com você — A senhora mirou a mancha no pulso e no tornozelo de Camile com ansiedade. Notando isso, a jovem apressou-se em dizer carinhosamente que estava melhorando, um sorriso cálido.
Em seguida abraçou a cintura de Ametiste com rapidez, como se tivesse esperado anos por aquele momento. Pouco depois, sentindo dois braços a envolverem ao ouvir um riso cheio de graça, quietamente Camile pediu que aquele momento se prolongasse eternamente. O calor, o perfume e a sensação aconchegante daquele abraço que adorava repetir alcançava seu coração, acariciando a criança que existia bem no fundo do peito. Todo o amor pela senhora, também, Camile esforçava-se para ser transmitido todo por cada molécula sua. Mesmo assim, sempre a menina sentia que ia somente uma parte dele nos abraços e que não adiantariam séculos e mais séculos: aquela tarefa nunca seria cumprida.
O abraço delas era especial pela sinceridade.
Ametiste sorria enquanto via a cabeça de cabelos morenos contra si, passando seus dedos finos devagar sobre eles com todo o carinho.
– O que houve para você não me visitar ontem, como de costume?... — questionou numa voz suave tão suave quanto a brisa. — Perturbaram-lhe outra vez?...
– Edna e seu grupo que se danem, senhora Ametiste. — declarou Camile apertando um pouco mais a cintura da idosa. — Não foi nada grave, juro.
Um suspiro profundo e triste.
– Isso só começou porque encontrou-se comigo sem querer na frente desta casa. — Bellini desabafou, clareando uma culpa que procurava manter no coração — Não precisa voltar mais se isso estiver a prejudicando.
As mãos de Camile apertaram o tecido de trás da camisola. Outra vez aquela conversa que não gostava.
– Não, senhora Ametiste. Não diga mais isso – murmurou, também ficando triste. — Não me importa que algumas pessoas mexam comigo por vir na casa de uma suposta bruxa. Quero vir semana após semana. Quero estar sempre aqui. Quero enganar os guardas. — concluiu, com humor proposital. Os ombros da senhora deram sacudidelas conforme o ritmo de seu riso musical.
– Mesmo assim — prosseguiu retomando o ar de apreensão instantes depois. — não quero que façam nada de ruim com você. Eu sou quase esquecida pelas pessoas graças a minha localização, e mesmo assim aparece alguém de vez enquanto para me perturbar. Por enquanto ainda está na fofoca, mas e se os moradores começarem a pensar que você é uma bruxa também? Temo a desgraça que cairá sobre você e o barão.
Afastando-se do corpo da idosa e levantando a cabeça para encará-la nos olhos enrugados sem largar de sua cintura, Camile sorriu com toda a sinceridade e tranquilidade que pôde transmitir. Após um momento de silêncio, no qual a jovem corou, ela disse alargando o sorriso a ponto de fechar os olhos, jogando a cabeça levemente para a sua direita:
– Está tudo bem!
A mulher relutou antes de retribuir o sorriso, mas o fez com mais alívio no peito.
– Certo. Agora, venha. Eu gostaria de ouvir novas histórias, querida.
Ouvindo o tratameto, Camile pareceu um tomate instantaneamente.
Por ser alérgica ao sol, Dona Billini era fraca, não podendo ficar fora da cama por muito tempo. Quando saía para fazer compras à noite, parava várias e duradouramente nas lojas, sem contar as outras pausas que fazia pelo caminho. Sabendo disso, Camile trazia mantimentos do castelo para a senhora toda quinta-feira à noite e aproveitava a oportunidade para conversarem por longas horas. Recentemente soubera que Ametiste era uma amante incorrigível de histórias, sendo as mesmas seu principal entretenimento enquanto não saía de casa. Diante isso, Camile, com sua ótima técnica de improviso, passou a divertir-se enquanto criava histórias sempre que a mulher lhe pedia. Ambas riam muito com toda a loucura que virava.
Billini sentou-se com cuidado e dando um suspiro de alívio ao pousar sobre o colchão agradável. Deitando-se devagarzinho, Camile ajudou-a um pouco a se cobrir. Ela era bem independente apesar de tudo.
– Pode ser continuação da última história? – a jovem sugeriu, já se preparando para dar o seu melhor independente da resposta.
– Aquela em que o ferreiro foi para uma estrela num cavalo? – indagou a mulher, rindo um pouco. – Eu adorei aquela, porém não imaginava que poderia haver continuação. Teve um final bem bolado, na minha opinião.
– Um cavalo branco com asas e que corta o céu ao meio enquando voa sempre pode mudar as coisas.
– O quê?!
A garota distraiu a dona solitária por duas horas, com atuações exageradas e alterações de voz, desgraçadamente interrompidas algumas por fisgadas no pulso e tornozelo. Apesar disso pôde contar a história, gerando risos, momentos de suspense e mais risos. Minuto a minuto, passando como o ar diante dos olhos: despercebidos. A senhora não desgrudava o olhar da menina, virando a cabeça de um lado para o outro, acompanhando suas maluquices e falando para tomar cuidado para não piorar os machucados. Camile, por sua vez, esforçava-se para dar o seu melhor naquele momento.
Como uma criança, Ametiste acabou dormindo antes do fim da história, o que surpreendeu Camile. Isso só acontecia quando ela estava realmente cansada. Com um peso na consciência e descendo da cadeira que arrastara por metade da sala fingindo ser sua salamandra gigante, ela pôs o móvel no lugar silenciosamente. Lembrou-se quando Billini disse que dormira bem e seu olhar entristeceu.
“Droga”, pensou, “só falta isso ser minha culpa... Dona Ametiste...!”
Espremeu os olhos com força e sentiu um aperto no coração.
“Ainda por cima, esqueci de pedir desculpas por não trazer nada! Maldito bruxo da cabana!”
Cerrou os punhos ao largar da cadeira. Com horror, permaneceu estática. Essa não! E se ele tivesse voltado para casa?! Não que ela quisesse voltar, mas a ideia de se encrencar com isso não a agradava. Queria muito visitar sua “mãe adotiva” mais e mais vezes.
Uma última olhada ao corpo relaxado e dormente e Camile partiu com pressa pelos fundos, tomando cuidado para não fazer barulho.
Infelizmente tinha forçado seu punho e tornozelo enquanto brincava, o que lhe retardou o passo. Após uma hora e dez minutos chegou à cabana do arqueiro, constatando com alívio que o ridículo pônei não estava visível. Atravessando a janela com mescla de afobação e cuidado, enfiou-se debaixo dos cobertores na ponta dos pés, ajeitou-se e decidiu ficar parada até pegar no sono.
“Só espero que ele não... saiba de nada...” pensou debaixo da coberta encardida, preocupada, antes de ser dominada pela sonolência.
Escondido em uma grande sombra de uma árvore, junto ao companheiro de quatro patas, uma figura baixa murmurou com seriedade minutos depois da volta de Camile.
– Então é isso...
Sua expressão estava vazia.
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