A Vilã Revelada
6 Um Novo Ser
Notas iniciais
A guerra entre os Haros e os Dragões era feroz. Eu me encontro ao lado de Gadosen, que dá ordens aos seus subordinados. Os soldados a minha frente atiram contra os Dragões que voam acima de nós. Olho tudo atenta, aguardando o momento de usar meus poderes. Os Dragões rugem alto para tentar superar o barulho de tiros que inundam o local. O vento de suas asas que é jogado contra nós nos empurra violentamente.
— Fique atenta. Logo os Dragões começarão a soltar rajadas de fogo, esteja pronta para agir – Disse Gadosen olhando para frente, prestava muita atenção no campo de batalha enquanto segura firme sua espada.
Eu estou totalmente alerta. Os Haros atacam sem piedade. Posso sentir os respingos de sangue que caem do céu, das feridas de bala que os Dragões recebem. O cheiro de sangue fresco é forte, o barulho da batalha é ensurdecedor. Logo vi um Dragão abrindo a enorme boca, sabia o que devia fazer.
— Agora! Proteja-os! – gritou Gadosen. Enquanto ele ainda falava, eu já havia conjurado uma BARREIRA MÁGICA acima de todos os soldados.
Concentrei-me para conseguir manter a Barreira. O fogo veio rapidamente ao nosso encontro. A Barreira não estava muito acima de nós. As chamas se espalharam, a visão era maravilhosa, labaredas vermelho alaranjadas nos rodearam, pareciam dançar acima de nós. Depois de poucos minutos, o fogo cessou e eu desfiz a magia.
Os Dragões pareciam enfurecidos. Cerca de três dezenas rugiam de raiva, seu objetivo é nos amedrontar, e, sinceramente, eu estou agradecendo as Deusas por não estar na frente de batalha. Cinco das enormes criaturas pousaram para nos atacar por terra. Os soldados correram para não serem esmagados por suas patas.
— Agora você deverá prestar atenção a todos os Dragões em terra, impedindo que eles firam nosso exército. – ordenou Gadosen, ainda concentrado na batalha a nossa frente.
Sinto-me aflita. Devo prestar atenção a tantos lugares ao mesmo tempo. Meu coração começou a bater forte em meu peito. Eu teria que conjurar rapidamente uma série de magias poderosas e ainda mantê-las por algum tempo. “Essa situação com certeza me fará mais forte e aumentará meus poderes” pensei, tentando ser positiva. O primeiro Dragão girou seu enorme corpo com o objetivo de derrubar os Haros com sua cauda.
— ESCUDO MÁGICO! — Criei escudos em todos próximos ao local, para que não sofressem muito dano.
Outro Dragão ameaçou jogar uma rajada de fogo contra os soldados. Criei uma BARREIRA MAGICA em volta do Dragão, assim ele levaria dano do próprio ataque.
Um terceiro Dragão levantou sua enorme pata dianteira, pretendia esmagar os soldados a sua frente. Ele estava mais distante de onde eu me encontrava. Teria de agir rápido.
— PARALISAR! – exclamei e no mesmo instante o Dragão ficou imóvel com sua pata a poucos metros do chão.
“Não vamos ganhar agindo assim” pensei. Apesar de os Haros serem poderosos, seus ataques demoravam algum tempo para debilitar os dragões, afinal: pequenas balas contra Dragões de Ferro! Parece algo injusto. Olhei para o lado e vi Gadosen. Sua mão apertava cada vez mais sua espada, ele sabia que logo deveria começar a atacar para equilibrar a batalha. Repentinamente uma ideia surge em minha mente. Isto pode significar nossa vitória.
Fecho os olhos e começo a recitar palavras que li em um dos pergaminhos que Elena me mostrou. Eram poucas palavras, mas nestes instantes um Dragão abocanhou alguns soldados, isto fez Gadosen perceber que eu não estava prestando atenção à luta.
— CRIATURA INSOLENTE!! — gritou para mim furioso – Os Haros precisam de sua ajuda e você fica ai de olhos fechados? – eu estava nas palavras finais do feitiço – FAÇA ALGO!
— MURMÚRIO SOMBRIO! – Estas palavras selaram a Maldição. No mesmo momento abri os olhos.
Todos os Dragões rugiram de dor ao mesmo tempo, fazendo Gadosen desviar o olhar. Vi que vários soldados se assustaram com o enorme estrondo repentino. Também vi vários caídos no chão, alguns inconscientes.
— CURAR! – disse algumas vezes seguidas, direcionando aos que estavam mais feridos.
Naquele momento a batalha estava a favor dos Haros. Os Dragões continuaram urrando de dor. Tinham dificuldade de atacar. Aproveitando essa diminuição momentânea da tensão, Gadosen me olhou por alguns instantes.
— O que você fez com eles? – disse se referindo aos Dragões. Sua voz estava baixa, como que tentando esconder dos outros oficiais sua admiração e curiosidade.
— É uma maldição – disse seria olhando a batalha a minha frente – Faz com que a vitima sinta continuamente profundas dores, assim, diminuindo sua força e concentração.
Ele não respondeu, apenas se virou novamente para frente. Mais Dragões começaram a pousar. Eles ficaram nas bordas do campo de batalha, cercando os Haros. Todos em conjunto começam a andar em direção ao centro da batalha. Um grande Dragão pousou atrás de nós, rugindo alto e andando rapidamente em nossa direção. Neste momento Gadosen percebeu a estratégia deles.
— Malditas lagartixas! – falou num sussurro e logo bradou ordens ao seu exército — Eles querem nos encurralar! – gritou.
Ao ouvir isso os sub oficiais começaram a gritar ordens aos seus subordinados. “Que plano ótimo!” pensei. Eles estão com dores, em desvantagem e sofrendo muito dano, então resolvem nos ajuntar em um único local e nos atacar ao mesmo tempo. “Eu preciso agir antes que eles nos ataquem”.
— Gadosen, os Haros tem fraqueza a gelo? – disse com a voz baixa.
— Não! – disse ele sem entender minhas intenções.
— NEVASCA! – densas nuvens se juntaram acima de nós e um vento frio nos atacou.
Vários flocos caem rapidamente e são empurrados pelo forte vendo. Sinto o gelo batendo em meu rosto. Olho em volta e vi que os Dragões não estão sendo afetados, porém os Haros começam a se encolher de frio.
— De que lado está?! Isso prejudicará meu exército! – disse Gadosen furioso.
— Não é forte o suficiente! – disse num sussurro, como se estivesse pensando alto, ate que me virei para Gadosen e gritei – Vocês tem alguma forma de se esquentar? – havia urgência em minha voz.
— Não fale asneiras! – repreendeu ele.
— Preciso fazer uma nevasca forte. Ela vai congelar os Dragões! – estou quase gritando, os Dragões se aproximam mais e estamos totalmente encurralados, não há tempo a perder – Me diga: Vocês têm como se esquentar aqui?
— Temos as chamas azuis – ele disse hesitante, sei que ainda não entendeu meu plano.
— Rápido! Conjure-as no meio dos soldados para nos esquentar – logo após dizer isso eu fechei os olhos, me concentrei mais.
Os ventos aumentaram, vêm em todas as direções. A neve cai violentamente em nós. O chão começa a criar uma fina camada fofa que aumenta cada vez mais. Os dragões estão andando mais lentamente. “Está funcionando”.
O frio aumenta a cada segundo. Começo a me perguntar se Gadosen entendeu a ordem de “criar chamas para nos esquentar”. Olho em volta, os Dragões estão parando de andar, em suas escamas forma-se uma leve camada de gelo. Ainda é possível ouvir urros de dor, porém fracos. Vejo de relance uma luz azul se aproximando. Fico tensa. Sinto o frio diminuir. “Devem ser as tais chamas azuis”.
Ouço os barulhos de tiros aumentando. Os Dragões estão a poucos metros, congelados. É possível ver várias marcas de balas em suas peles. O sangue começa a escorrer, frio, apenas pinta de rubro a fina camada de gelo que está nas escamas. A neve em volta dos Dragões também recebe o tom escarlate.
Lembro-me da Guerra de Vermécia. Corpos espalhados pelo chão, inertes, sem vida. O tom vermelho de sangue ainda fresco pintando o solo. O cheiro forte da carne começando a se decompor. Meu coração começa a acelerar novamente. Começo a tremer.
— Gadosen... – digo num sussurro, há nervosismo em minha voz. Ele, que analisava a batalha a nossa volta, se vira em minha direção – Vocês vão.... matar os.... Dragões?
— Ganhar uma batalha não significa matar o inimigo. – disse de forma séria – Apenas vamos humilhá-los para que não se atrevam a se rebelar novamente.
Fico mais calma. Pouco tempo depois a batalha foi dada como encerrada. Vencemos. Mas desta vez eu não sentia um gosto amargo, com na Guerra de Vermécia. Sentia orgulho de ter participado nesta luta, sentia satisfação de sair vitoriosa e feliz de ter testado meus limites e aumentado meus poderes. Voltamos ao Quartel.
Acompanhei Gadosen até a sala onde conversamos alguns dias antes. Ele entrou, fechou a porta atrás de si e eu esperei do lado de fora. Estava tão exausta que poderia dormir ali mesmo. Já estou lá há algum tempo. Provavelmente Gadosen estava conversando com o garoto loiro, o tal de Lupus. “Ele não estava na batalha!” pensei.
O som da porta abrindo me tira de meus pensamentos. Gadosen saiu e fechou a porta atrás de si. Ele andou dois pequenos passos e parou em minha frente. Não consegui ler sua expressão, parecia calmo e sério, como sempre. Ele falou e sua voz saiu grave e baixa.
— A batalha de hoje foi bem sucedida. Os Dragões ficaram muito fracos e vamos nos aproveitar disso. Nos próximos dias atacaremos seu Ninho e acabaremos com esta disputa. Você deverá permanecer aqui por mais algum tempo, até termos confirmação sobre o fim da Guerra. — Assenti com a cabeça – Agora vou preparar os soldados.
Ele saiu. Voltei para meu quarto, no qual havia permanecido desde que “cheguei” em Hades. A porta rangeu quando a abri. Este é simples, feito de pedras negras, das quais são feitos todos os edifícios desde local. Possui uma cama, um guarda roupas e um pequeno banheiro. Deito em minha cama. Abusei de meus poderes hoje, cheguei ao meu limite! Isso me deixa exausta. Fecho os olhos. Começo a sentir meu corpo, frágil, magro.
O sono vence minha mente. Acordo com a luz forte e fria da lua cheia invadindo meu quarto. Levanto-me e vou ao refeitório. Grandes mesas de pedra são ocupadas por Haros famintos. Alimentos estranhos são atacados e devorados. Sento-me no canto mais isolado que encontro, porém, não como nada.
Logo vários Haros saem do refeitório e vejo que Gadosen, que estava na outra extremidade do cômodo, também se levanta. Ele vem em minha direção e para ao meu lado. Levanto-me em respeito e ele faz um sinal para acompanhá-lo. Começamos a andar pelos corredores escuros.
— Gostaria de informar que sua presença seria de suma importância na invasão ao Ninho que acontecerá hoje. – disse com a voz autoritária – Porém, meu superior me impediu. Na verdade ele te proibiu totalmente de ir às próximas batalhas. – fez uma pequena pausa — Mesmo assim deverá permanecer neste Quartel.
Não respondi nada, somente o encarei. Estava confusa e, com certeza, minha expressão revelava isso, pois ele continuou a falar.
— Ele me disse que é parte de um acordo. – disse Gadosen sem entender o significado daquelas palavras e logo continuou – Ordens são ordens, todos devem segui-las.
Paramos em frente a uma sala. Ele se despediu brevemente e entrou, fechando a porta atrás de si. Voltei ao meu quarto, ainda processando suas palavras. Sentei-me na cama, ainda em transe, e, depois de certo tempo, consegui compreender aquela frase, que me soou como uma sentença de morte.
— Eu vou morrer... – disse num sussurro para o vento.
Sim, agora estava claro. Não poderia ir a batalhas e não poderia mais usar meu poder. Lembrei-me das palavras de Lupus, que meu corpo está entre a carne e o espectro. Agora percebo como esta afirmação é verdadeira. Meu corpo estava morrendo e, em pouco tempo, eu estaria totalmente extinta. Uma dor se apoderou de meu peito. A cada minuto que passa sinto que meu corpo morre um pouco. “Recuso-me a morrer”. Não sem antes me vingar de Astaroth.
“O garoto tem palavra” pensei. Para ele eu seria muito mais útil lutando a favor de seu exército. Porém possuíamos um acordo. Começo a pensar em como eu poderia ser tirada de Hades. Também crio planos de vingança contra Astaroth. “Aquele verme maldito, bastardo, filho de Orcs”. Uma raiva preenche meu peito. Todas as imundices que ele me obrigou a realizar voltam a minha mente.
Ate que relembro dos meus últimos dias. Os aliados que fiz. Lembro-me da semana que passei na Academia. Elena. “Será que sua promessa de estar ao meu lado, também inclui vir a Hades?” pensei em tom de brincadeira. Depois de varias horas sentada em minha cama, o tedio toma conta de mim.
Não posso ir a batalhas, não posso usar meus poderes e nem sair deste Quartel. Distraio minha mente relembrando e decorando as centenas de feitiços e magias que aprendi. Não quero esquecer-me de nenhum. O tempo passa. Muito tempo passa.
Passo alguns dias sentada em minha cama, inerte, sentindo apenas meu corpo se definhar, minha mente concentrada em feitiços que não posso treinar. Até que ouço batidas na porta. Levanto-me e a abro. Em minha frente se encontra um ser loiro, seu único olho visível brilha em um tom vermelho sangue, são frios e intensos. Suas armas reluzem em seu cinto. Fico parada, apenas encarando sua postura autoritária. “Porque ele consegue me paralisar desta forma?”
— Tenho assuntos a tratar contigo – disse de forma fria, sua voz não expressa nenhuma emoção – vá até minha sala depois do almoço.
Apenas assenti com a cabeça. Lupus se virou e sumiu por entre os corredores frios e escuros. “Este garoto é um grande mistério”. Vejo que o almoço está para começar. Vou ao refeitório pela primeira vez desde que conversei com Gadosen. Poucas dezenas de Haros preenchem o local, que está quase vazio. Não sei o motivo, mas devido ao garoto vir falar comigo e poucos soldados estarem presentes imagino que a Guerra deve ter acabado.
Ando lentamente ate a sala de Lupus. Meu corpo fraco resiste em obedecer meus comandos. Fico em frente à porta. Meu coração acelera e meu corpo treme. A ansiedade transborda em meu peito. “Será que finalmente poderei sair daqui?”. Bato cuidadosamente na porta. Ela se abre, rangendo, e me deparo mais uma vez com aqueles rubis inexpressivos.
Entro na sala. A luz fria da lua preenche o local. Lupus está parado de costas para a janela. Ele faz um sinal para que eu feche a porta. Obedeço. Não me atreveria a desobedecer qualquer ordem sua, só de pensar nas consequências fico apavorada. Ele dá alguns passos em minha direção, ficando frente a frente comigo. Então fala lentamente, sua voz sai forte, porém num sussurro, creio que ele não quer que ninguém nos ouça:
— Há um jeito de você sair de Hades. – fico mais nervosa, minhas mãos tremem violentamente – Porém há algumas restrições.
— Diga, por favor – há desespero em minha voz.
— Eu encontrei seu cristal. Ele está muito instável. – fiz uma expressão de dúvida, que ele logo entendeu – Cada alma que vem pra Hades é contida em um cristal. O seu já está se quebrando e, por isso, você tem pouco tempo. A forma que eu encontrei de você voltar a Ernas é encontrando um novo corpo. Os únicos seres que possuem corpos físicos no Submundo são os Haros.
— Então deverei possuir um Haro? – disse confusa.
— Isso seria impossível. – um sorriso orgulhoso surgiu em seu rosto – os Haros são criaturas fortes, que tem o objetivo de supervisionar Hades, você não tem poder suficiente para se apoderar de um.
— Mas enta... – disse nervosa, porém fui cortada por ele.
— Porém, conheço um ser fraco do qual você poderia se aproveitar. Ele está preso. Mostrar-lhe-ei o caminho, não será fácil, ele possui carcereiros poderosos. Se for derrotada será extinta. Poderá sair ao anoitecer.
Logo após isso ele me deu instruções para encontrar a “prisão” onde este misterioso ser estava. Perguntei sobre suas características, para poder identifica-lo, porém só recebi como resposta um “você saberá quem é quando o ver”. Voltei ao meu quarto, apenas esperando a lua se tornar menos luminosa. Nesta hora eu estava autorizada a sair do local. Com as instruções bem decoradas em minha mente, fechei a porta de meu quarto.
Atravessei a cidade dos Haros lentamente. A luz opaca da lua me guiava. Depois de me afastar da cidade, fui abraçada pela densa nevoa. Andei, somente pensando no que faria quando encontrasse meu hospedeiro. Após certo tempo o ambiente clareou, a luz da lua se tornou forte novamente, a neblina se tornou mais leve. Começo a ouvir sons, bem fracos, ao longe. Logo depois vejo fortes luzes, vindas de algo que não consigo identificar.
Aproximo-me rapidamente, apenas sendo movida pela ansiedade. Vejo tendas enormes montadas no chão rochoso. Uma grande placa tem escrito “Circo”. Quando leio este nome sei que estou no local certo. Repasso mentalmente as instruções de Lupus.

Vou para os fundos. Escondo-me de vários pequenos palhaços que saltitam pelo local. Eles não notam minha presença, estão concentrados em fazer malabarismos com bombas... bombas? Presto atenção em tudo, não posso vacilar. Ando pelas diversas barracas, procurando a mais suja e abandonada. Após alguns minutos de busca eu a encontro, vou a sua direção sem produzir nenhum barulho. Entro na barraca.
Um cheiro pútrido invade minha respiração. Somente um fio de luz ilumina o local. Vejo uma pequena jaula, toda enferrujada e muito suja. Há um ser ajoelhado dentro dela, quieto, imóvel. Aproximo-me da lateral da cela, o cheiro me deixa com tontura. Olho dentro, tentando identificar o ser ali presente.
— Um garoto? – meu pensamento se solta como um inaudível sussurro.
Neste momento o garoto olha em minha direção. Sinto arrepios. Olhos azuis, opacos se encontram com os meus, seu olhar transmite tristeza, cansaço. Marcas profundas decoram sua pele pálida, dando arrepios aos que o observam. Logo seu olhar se direciona novamente ao chão, como se me observar tirasse suas forças.
“Como vou tirá-lo dali?” este pensamento se recusa a deixar minha mente. Analiso a jaula com cuidado. Encontro um grosso cadeado, situado na direção que o garoto está ajoelhado. Vou até ele, o pego vagarosamente em minha mão, evitando qualquer tipo de barulho. O menino olha de relance para mim e se encolhe. Resolvo jogar uma pequena ESFERA DE ENERGIA concentrada no cadeado. O mesmo se quebra ao meio.
Deposito-o levemente ao meu lado, ainda evitando qualquer ruído. Abro cuidadosamente a porta da jaula. O garoto não se move, continua olhando o chão. Estico meus braços em sua direção, indicando para sair da jaula. Ao ver meu gesto o garoto se encolhe mais.
— Vamos fugir... – disse num sussurro.
O garoto passa a me olhar nos olhos, sua expressão demonstra dúvida. Ele não confia em mim. Preciso sair logo deste local. Começo a ficar nervosa, sinto o suor frio se formando em minha testa.
— Acredite, vamos fugir... – há urgência em minha voz e por isso acabo falando mais alto do que gostaria.
Ouço rugidos de animais ao fundo. Uma voz rouca dá ordens fora desta minúscula tenda. Meu corpo começa a tremer involuntariamente. O menino me olha profundamente nos olhos, como que tentando analisar minhas intenções. Por fim ele começa a se esgueirar lentamente para fora da jaula. Ambos nos levantamos com dificuldade do chão. Vejo que seu corpo é magro, fraco. Não consigo dizer qual de nós está se definhando mais depressa.
Pego sua mão e começamos a andar para fora da tenda. Nenhum de nós consegue correr. Meu corpo dá passos pesados e lentos e o dele tem forças só para manter-se de pé. Coloco minha mão livre na lona, abrindo a passagem para fora do local. Sou surpreendida por uma voz maligna, aterrorizante.
— Ó Lass, meu adorável “irmão”, pretende dar uma volta pelo picadeiro?
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