A Vilã Annielize Sataruss
2 2: Uma passagem para o Inferno
Notas iniciais
Quando cheguei ao quarto do hotel onde estava hospedada, fui direto ao banheiro e vomitei tudo o que tinha dentro de mim... Quem diria que a minha intuição estaria tão certa.
Depois de conseguir me recompor, decidi tomar um banho frio e aproveitar a minha última noite de folga, já que amanhã eu estarei a caminho da minha morte certa, ou quase.
Demorei-me no banho, a ponto que as minhas mãos e pés estavam enrugados, e quando saí, não me importava com o frio que meu corpo sentia, ou com a fome que agora crescia em meu ser. Decidi não me importar, já que provavelmente estaria morta em no máximo 1 ano...
Quando deitei na cama, ela estava confortável, quente, e muito convidativa, então deixei que o sono simplesmente viesse e me levasse a um mundo onde tudo o que eu mais amava está presente...
“Era véspera de natal, estávamos todos reunidos, eu, meus amigos que considero minha única família, e estávamos felizes como nunca. A mais nova de nós tinha conseguido um bom pão e vinho para comemorarmos mais um ano da nossa existência que ninguém se importava, mas no fim das contas, o que realmente importava éramos nós mesmos, então desde que todos estivéssemos bem, mais nada importava realmente, nem nossos corpos famintos ou nossas finanças inexistentes. Até que neste fatídico dia, onde tudo parecia mais feliz do que o normal, simplesmente desapareceu a calmaria e a fúria veio no lugar. Era um terror sem fim, um mar de sangue que inundava as paredes da humilde cabana no lago em que vivemos por quase uma década, e simplesmente, restava apenas eu, a cabana, o lago, e um mar de sangue...”
Acordei sobressaltada e com as costas pingando de suor.
Não foi a primeira vez que tive esse sonho, e provavelmente não será a ultima, já que estou aparentemente condenada a ter sonhos que os bons de coração chamam de pesadelos, mas eu não sou boa, e provavelmente, no inicio da minha existência já sabia, mas estive apenas evitando o obvio... Agora não mais posso fazê-lo.
Tomei uma ducha rápida, me vesti, penteei os cabelos, tudo dando comandos silenciosos na minha mente, pequenos comandos que foram executados aos poucos e lentamente, mas que no final, estava pronta e querendo fazer alguma coisa para não pensar no sonho maldito.
Olhei para a minha escrivaninha, e foi quando notei que tinha uma carta em cima dela, uma carta que não estava lá antes.
Peguei a carta e abri-a sem pensar duas vezes, e lá estava a minha passagem de trem direto para a capital, no trem particular do Conde, que hoje só levaria uma passageira, no caso eu.
Também tinha um pequeno bilhete, que dizia: “Invente seu próprio disfarce, já lhe arrumei um meio de transporte, agora, basta você caracterizar-se de acordo com o que esperam que seja lá na corte”
O bilhete estava assinado por CG, mas mesmo sem essa assinatura, já sabia de quem se tratava.
O trem partia as 14h, então ainda tinha um tempo para me despedir de algumas pessoas que eu ainda me importava um pouco.
***
Caminhei até os arredores da cidade, um lugar onde eu realmente podia achar bonito: o subúrbio.
Lá, as pessoas não são tão requintadas e não se importam com a aparência, mas isso não quer dizer que elas não queriam ter uma aparência melhor... Aqui se encontram o mercado negro e todo tipo de gente que simplesmente não teve oportunidades suficientes na vida e quis melhorá-la mesmo assim, por isso o trafico e o roubo são intensos aqui, e é como se fosse outra cidade, uma cidade separada daquela podre idealizada pelo Conde, mas o mais importante para mim, é que nesta cidade, mando eu.
Quando entro em um de seus bares, a primeira coisa que vejo é o respeito que essa gente tem por mim, mas é claro que esse respeito foi conquistado, e foi feito a força.
Todos aqui sabem quem eu sou e do que sou capaz de fazer se sou questionada, então me liberam espaço para passar, e quando passo perto das pessoas, estão todas cabisbaixas, com um certo medo de que qualquer tipo de insolência me ofenda.
Chego ao balcão e é o gerente que me atende:
“Deseja algo, senhorita?”
“Quero uma informação...”
“Pois pergunte”
“Quero saber se O Ceifador está aqui...” –Falo com a voz mais calma e assustadora que conheço, e isso faz o gerente tremer um pouco
“Sim, milady, e ele já estava a sua espera”
Quando ele diz isso, nem pergunto duas vezes antes de subir as escadas e ir em direção ao quarto que conheço muito bem, e então entrei no quarto à direita e lá estava ele, o homem que ao mesmo tempo consegue ser a minha vitória e a minha ruina, O Ceifador.
Até hoje não descobri o seu nome verdadeiro, mas só o fato de que ele confiou em mim ao ponto de mostrar sua verdadeira face, devo considerar isso um elogio.
A história que tenho com ele é longa e dolorosa, mas para resumir, no final acabamos os dois numa cama de um motel bem barato, ele em cima de mim com as costas todas cortadas e eu mesmo assim arranhando-as e nós dois transado até o amanhecer, felizes por estarmos vivos.
“Ora, ora, minha linda Annie...”
“Olá meu ceifador preferido” — Disse quase que ronronando
“Veio se despedir de mim?”
“Hum... Sim e não”.
“Então, porque não?”
“Porque quero lhe pedir um favor, me despedir e lhe recompensar por esse favor...”
“Ora, ora, então peça”.
“Quero saber tudo o que tem para se saber sobre a corte do rei”
“Vamos com calma então...”
Assim que ele disse isso, se aproximou de mim, e como se fossemos dois amantes apaixonados, me deu um beijo, vendo tudo o que se passava em minha mente, e logo depois, me deixou cair com tudo no chão do quarto.
“Ora, que interessante, então vai roubar o rei e matar a sua nova amante não é? Bom, então deixe-me adivinhar, você quer sair viva dessa e por isso veio me pedir informações, porque sabe que eu sei muito de muita gente...”
“Eu sei que você é muito mais velho do que aparenta, e em uma de sua aventuras, já foi a corte e serviu por quase 40 anos o antigo rei, e sabe mais daquela corte e suas intrigas do que qualquer um já ousou sonhar, então, aqui está uma oferta: Me ajude a sair viva dessa, me falando tudo o que sabe e o que eles vão provavelmente esperar de alguém que vá para a capital no trem do Conde, e é claro, se eu sobreviver, vou lhe dar o que mais gosta, e nós dois sabemos que não é o dinheiro...”
“Menina esperta... Está bem então, aproxime-se de mim, pois o tempo é curto, e não são apenas 40 anos de corte que eu presenciei, e o que vi, já foi de chorar, então tenha cuidado e apenas confie em quem eu também confiaria... Vou informar alguém de minha confiança para ajudá-la a sobreviver, mas não diga que não foi avisada sobre os riscos de se infiltrar e tentar sair daquele lugar, da última vez, eu mesmo mal consegui sair sem ser pego, então tome cuidado...”
E ele me beijou, e o que para muitos poderia ter sido uma despedida, um gesto simbólico de amor, foi para mim a minha morte...
O poder do Ceifador é, em primeiro lugar, conseguir matar quem ele quiser sem deixar rastros, e faz isso com apenas um toque, como por exemplo esse beijo, mas também absorve lembranças de quem quer que ele toque, e sua memoria é perfeita, lembrando-se de cada detalhe ao longo dos séculos que ele já viveu... Foi tolice minha achar que ele apenas esteve lá uma única vez, considerando que ele me disse que parou de contar a idade a partir dos 1000 anos, mas isso foi a muito tempo, de acordo com ele, que é um ser imortal.
Preferia ter ido aquele lugar sem ver o que O Ceifador me mostrou...
Pensei que já tinha visto dor, sofrimento, angustia, traição, mas aquela corte... É um lugar além da imaginação do vilão mais tenebroso...
Lá, cada canto, cada beco daquele castelo esconde um segredo obscuro, e o que O Ceifador me mostrou, todo o sangue usado para a construção daquele castelo... Desde os tijolos até o último quadro lá colocado, tudo tem um porque, que nem mesmo ele poderia me responder tudo o que se passa na cabeça de um rei de Tylorn.
“Entende agora menina... Muito improvavelmente tu sairás viva daquele fétido mundo”- Se eu não o conhecesse bem, diria que ele parece até, de certa forma, triste por falar isso... Mas se o conheço bem, O ceifador já perdeu a capacidade de amar algo ou alguém a muito tempo.
“Entendo, mas tenho que tentar sair viva de lá e concluir o serviço para o qual sou paga ”-Estava quase saindo quando ele me chamou:
“Annielize”
“Sim?”
“Tome cuidado com toda a família real, com cada palavra, suspiro, ação, respiração, e resumindo, com tudo o que você faça naquela corte, pois lá, tudo é um jogo do rei, que quer apenas estender o seu domínio sobre tudo e todos”.
“Obrigada por me ajudar... Mais uma vez...”.
Com isso, saí daquele quarto e desci as escadas, fui ao balcão e pedi “o de sempre” para viagem.
***
Com a comida em mãos, fui a uma velha cabana na floresta, me despedir da última pessoa que realmente me importava naquela cidade... A única até hoje que, mesmo sabendo de tudo o que eu fiz, ainda sim tem coragem de olhar nos meus olhos e não me chamar de monstro... Meu irmão Armin.
“Armin?”
“Annie!”
Fazia tanto tempo que eu não o via que não reparei no quanto ele cresceu...
Armin era muito parecido comigo em vários aspectos físicos... Mesmos cabelos loiros pálidos e os mesmos olhos azuis, a diferença é que ainda havia luz nos olhos dele, enquanto nos meus, a maior parte era escuridão...
“Estou feliz que você veio me ver”
“Vim me despedir Armin...”
“E para aonde você vai?”
“Vou para a capital, estou em missão...”
“Ah, sim...”-Armin parecia triste com a minha partida, assim como todas as vezes que venho aqui para me despedir.
“Trouxe isso para você”- Mostrei a ele o seu prato preferido que ele sempre gostou quando eu cozinhava para ele... Tirando o fato de que eu nunca realmente cozinhei e sempre trouxe tudo pronto
“COMIDA!!!”-Não me aguentei e tive que rir da reação dele.
“Bom, agora tenho que ir...”
“Mas você acabou de chegar...”- Me doía ver a expressão de Armin
“Queria ficar mais, mas tenho que pegar um trem ás 14h e ainda nem arrumei as minhas malas”
“Tudo bem, então vai lá”
“Tchau Armin, quando eu voltar, nós podemos sair e caçar algo, que tal?”
“Acho uma boa ideia”- Me senti melhor quando vi que um pouco de luz voltou ao seu rosto.
***
Já estava quase na hora de partir e eu já estava no trem com 3 malas grandes cheias de roupas caras e consideradas “elegantes” na corte no rei.
O Ceifador me disse para parecer assim, elegante, mas não extravagante, delicada, meiga, linda, ou seja, uma dama que veio a corte para representar o conde que não estaria muito disposto e que estaria também com alguns problemas de saúde.
Ele me aconselhou com o máximo de informações que poderia me oferecer, mas se me perguntassem se eu lembro metade, ai eu digo “Não lembro nem o que comi no café da manhã”.
Estou tentando ao máximo bolar um plano inteligente, complexo e que fizesse o rei e a condessa sofrerem, mas a segurança do palácio era quase que impenetrável, e por mais que O Ceifador tenha me mostrado uma infinidade de passagens secretas, ainda sim não consegui pensar em um modo de entrar nos aposentos do rei, e isso eu certamente precisaria...
Talvez eu conseguisse seduzi-lo, mas, com toda e absoluta certeza escuto a voz do Ceifador na minha cabeça gritando para que eu não o faça, mas no momento ainda não pensei em um jeito melhor de entrar lá sem levantar suspeitas.
Quando me dei conta, já estava dentro do trem á pelo menos 2h e 30mim, e em breve chegaríamos á capital e a minha atuação deveria começar.
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