A Vigilante Noturna: Memórias antes dos Canários.
2 Escrito em dias de chuva: Capítulo I
Notas iniciais
-É meio depressivo
Eu passei muito tempo dentro de casa, presa e iludida com a ideia de que algo poderia melhorar minha situação. Eu tinha um emprego em uma velha biblioteca, várias decepções amorosas, fui muito revoltada e sou só. Se me chamassem de bruxa não faria nenhum diferença.
Eu tinha um coração insaciável, me sentia a estrela, tinha o sangue azul, e era superior. Minha concepção de ser melhor que os outros ultrapassava as leis do bom senso, acho que foi por isso que acabei nessa lástima, horrenda e sucumbidora que me afoga em mágoas de um passado obscuro.
Eu acabaria de qualquer modo, enferrujando nessa casa, com meu gato, tricô e cereais. Mas isso não seria algo bom de se pensar para alguém com 28 anos. Sou jovem, porém desiludida.
Muitos poderiam se identificar comigo, desastrada, depressiva, bipolar e fresca. Mas várias de minhas amigas, que me davam esses adjetivos acabaram se prostituindo, ou mortas por seus maridos monstruosos e sem coração, então acho que estou lucrando.
Confesso que tenho vontade de encontrá-las, para rir da cara delas.
–
O por do sol era lindo na varanda da minha casa fedia a mofo. Snuff se acomodou no cesto de roupas, perto de mim. "Quer comer de novo seu porquinho?" falei. Ele miou assentindo. Impressionante como ele sempre estava me acompanhando. Me sentia bem por ser especial pra ele, mesmo que nossa relação estivesse firme apenas por pedaços de peixe e tigelas de leite.
Começou uma chuva fina, mas estávamos lá, eu e gato, a observar a vermelhidão do céu desaparecer em meio a uma escuridão completa, de um céu sem estrelas e frio.
Olhei para Snuff, ele retribuiu o olhar, pude ouvi-lo dizer: "Sempre estarei do seu lado, somos irmãos agora de sangue, e você é a estrela que vai brilhar esta noite."
Nada tinha sentido, fui pra dentro e arrumei as coisas do gato. O mundo esteva agitado demais, a chuva o frio, nada fazia meu peito parar de queimar, acendi um cigarro.
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