A Vida de uma Anônima

3 Há justificativas para traição ?


Quando cheguei a minha casa, me senti aliviada pela minha família ainda estar na chácara. Joguei minha mala no meio do meu quarto e deitei na cama. Facilmente as lágrimas começaram a rolar novamente. Tentei dormir e não consegui, cada vez que tentava fechar os olhos, eu revia tudo o que se passou. Precisava encontrar algo que me fizesse esquecer, por um momento, dessa sensação de perda, de derrota, de vazio... Desamor.

Levantei-me um pouco, peguei o controle que estava no criado mudo e liguei a televisão do quarto. Estava passando Sex and the City: o filme. Nunca assisti, pois sempre achei superficial, cheio de futilidades e roupas impossíveis para mulheres comuns. Uma delas estava vestida de noiva e com o que parecia ser um pavão na cabeça (por que alguém usaria um pavão na cabeça?), era a cena em que ela foi abandonada no altar e isso me fez querer assistir. Ao terminar o filme, percebi que ela e suas amigas passaram por quase a mesma coisa que eu e muitas outras mulheres, quando se fala de traição. Não posso dizer o mesmo das roupas, eu nunca entraria no vestido preto da Charlote.

O filme conseguiu captar todo sofrimento de uma mulher ao descobrir que foi traída, não importa a situação. No caso da Carrie, foi traída pelo noivo, ao ser deixada no altar. Com a Miranda, foi à clássica traição, marido transou com outra. A Samantha foi traída pelo seu desejo insaciável por sexo. A Charlote foi traída pelo seu intestino frouxo.

Decidi assistir o segundo filme. Neste filme, é retratada a questão dos tipos de relacionamentos e traições. A protagonista trai seu marido com um ex-namorado e as amigas pedem para ela não contar. Isso me deixou intrigada, pois no primeiro elas eram totalmente contra a traição e agora dizem que ela deve esconder a traição, pois não vale a pena tanta dor. Ou que um beijo não significa nada. Ficou parecendo que dependendo da justificativa, perdoar ou esconder uma traição, era válido.

Fui para o meu quarto pensando nisso. Deitei na cama com um caderno, uma caneta e fui anotando em uma folha todas as justificativas que escutei na cafeteria:

1.“Quando ela acordou não saiu correndo da cama, não me disse que tinha que ir para casa antes que os pais soubessem, ou tinha de pegar o avião, ou tinha trabalho da faculdade para fazer, procurar emprego... Todas as desculpas que você dava quando estava comigo”;

2. “Eu podia levá-la a todas as festas da empresa e sair a qualquer hora sem ter de ficar ligando para seus pais, como se ela fosse uma adolescente e não uma mulher”;

3. "Podia acordar com ela todos os dias";

4. ”Eu podia conversar com ela pessoalmente e viver os bons e maus momentos, sem computador, celular e cidades entre nós”;

5. "Ela se tornou a minha companhia na sua ausência";

6. ”Se você tivesse agido de acordo com os nossos planos, não estaríamos discutindo a respeito”;

7. ”Se não colocasse a sua família, sua vida lá na tua cidade, sempre na frente do nosso relacionamento... Eu não ia precisar ficar procurando atenção em outro lugar”;

8. "Se não tem comida em casa, a gente encontra na rua”.

9. "Isso tudo não significou nada";

10. "Foi só um tropeço";

E ali estavam as dez justificativas de Arthur, só que eu não conseguia perdoar nenhuma. Rasguei a folha ao meio e fiquei olhando para o teto do meu quarto: “Hoje, não” pensei.

Notas finais
Obrigada por ler o capítulo! Não se esqueçam de comentar, tanto se for bom quanto ruim!!!!