Notas iniciais
O primeiro contato com a história em si. Sejam bem vindoooos!

—Sophie, estava te procurando.

Diminuo o ritmo e olho Alicia que esta em seu jipe.

— Você sabe, eu gosto de aproveitar a manhã para correr, é quase provável que não conseguiria tempo até o final do dia. – Digo enquanto paro e tento recuperar o folego.

—Eu sei, mas tentei contato pelo seu celular também, e não consegui retorno. – Alice diz enquanto se debruça na janela do carro.

— Desculpe, tive uma péssima noite e pelo jeito não tirei do modo avião – Digo enquanto verifico o aparelho e ajusto para receber as milhares de ligações perdidas e mensagens enviadas.

—Ok, entra no carro, estamos com um problema.

—Qual é? Houve novamente um acidente com o banheiro de um dos meninos? – Mês passada em uma briga entre alguns garotos nós tivemos a quebra de um vaso sanitário e uma divisória, e claro, alguns problemas de rixas que nos levaram a uma dor de cabeça por semanas.

— Não, dessa vez não são os garotos, acredite, todos estão se arrumando para ir para a escola e ainda não tive nenhuma reclamação de Alex sobre algum desordeiro.

Alex era o gerente da área masculina, ele cuidava mais de perto do grupo de garotos que cuidamos, algo como eles mesmos denominaram como o “Tio certinho“.

Respiro fundo tentando achar no meio das mensagens algo anormal.

—Ok, qual foi a dessa vez – digo olhando o celular mas dando a volta no carro para ir sentar no lado do passageiro.

—Clara, lembra que ela estava com algum tipo de virose?

—Lembro, chegou os exames dela? – pergunto enquanto Alicia começa a andar com o carro e me oferece uma garrafa de água.

—Chegou, na verdade ontem, mas como você não atendia o telefone achei melhor aguardar até hoje.

—Ok, e qual é o problema? Algo sério? Ricardo mandou algo?

O projeto cuidava atualmente da quantidade de 30 jovens, sendo que 10 moravam em nossa estrutura. E alguns patrocinadores nos auxiliavam com a questão monetária e outros com serviços. Ricardo era nosso médico voluntário.

—Ricardo foi ontem te procurar, mas, disse que você teve que se retirar mais cedo. Então ele deixou o envelope, o qual eu achei hoje no seu escritório aberto.

Olho para Alicia sem entender bem.

—Alguém entrou no meu escritório e abriu o envelope? Qual motivo? O que tinha lá?

—Acho que Clara entrou no seu escritório So, e o exame confirmava um único diagnóstico. Ea está gravida!

Por um segundo a respiração ficou presa.

—Me leve até ela.

—Vamos para os dormitórios, eles ainda devem estar se arrumando para ir as aulas.

Quando a ideia do projeto surgiu, muitos de nós saímos de nossas cidades, abrimos mão de carreiras mais rendáveis e claro, começamos mais com coragem do que com dinheiro.

Os patrocínios vieram com o tempo, e em dois anos nos achamos sortudos por tudo que conseguimos.

Céu Azul do Sul é uma cidade que chamamos de interior do interior, ou como alguns diziam nos primeiros dias sendo castigado pelo frio e pelos mosquitos, o fim do mundo esquecido.

Em particular quando vim para cá eu abri mão somente de uma coisa, o direito de me agarrar ao medo, o resto ficou como segundo plano quando eu percebi o quanto poderia fazer aqui.

Viemos e lutamos muitos anos antes disso para conseguir o direito das guardas, o regime de adoção é algo incrivelmente difícil no Brasil, e olhar para esses jovens e pensar que eles poderiam ter uma chance de conseguir algo puro como esperança, mesmo que não percebessem no primeiro momento, era algo surreal e que estava disposta a lutar com todas minhas forças.

Então, lutamos por direitos, investimos em faculdades que antes nem sonhávamos em fazer, fizemos um time de professores, enfermeiros, advogados e por cima fizemos todos cursos que poderíamos pensar que um dia usaríamos: marcenaria, T.I., culinária, artes de todos tipos que achávamos.

Juntamos nossas roupas e o que conseguíssemos carregar, fomos a frente com um projeto de cuidado de jovens e depois de muita briga pelas leis arcaicas e sem sentidos, conseguimos!

E agora a surpresa, uma jovem gravida.

Clara Joe, órfã desde os 10 anos, ficou em pelo menos 3 orfanatos diferentes até os 16 anos, quando conseguimos fazer a proposta dela se mudar para uma cidade do interior para conseguirmos algo melhor para ela, estudo e proteção.

Nós entendemos que jovens são muito mais difíceis de ser adotados do que as crianças, mas nós buscamos algo mais arriscados, jovens chamados de: problemáticos.

Clara tinha sérios problemas com os policiais da sua região, ou como eles mesmos diziam, ela era um problema sério para eles.

Furtos, drogas e agressões aos colegas de orfanatos. Esses motivos a fizeram ser transferidas tantas vezes, tirando é claro as fugas contínuas.

E agora, a jovem grávida em nosso projeto.

Quando chegamos a Gran Casa — acreditem, os jovens tiveram bastante tempo para apelidar as coisas por aqui – sai da picape indo em direção a porta.

—So, que bom que chegou, estava preocupada. – Dizia Bete, nossa “Vó“.

Bete tinha agora, 56 anos, e devido seus abraços aconchegantes, seus conselhos e claro, seus incríveis dotes culinários, todos nós achamos que ela seria boa para esse cargo.

Ela hoje era quem cuidava de todos nós quando esquecíamos de que precisávamos. Ex enfermeira chefe de um hospital municipal e viúva desde os seus 46 anos, ela foi uma das que estiveram na fundação do projeto. Está conosco desde o começo da mudança e ainda é a que nos faz manter a calma nos dias de tempestades.

—Bete, preciso falar com a Clara, sabe me dizer se ela esta la em cima? – Dou um abraço nela e entro enquanto a mesma vem logo atrás.

—As meninas desceram e falaram que não a viram desde ontem, fui no quarto e parece que esta faltando a mochila dela, mas os materiais estão em cima da cama. Ela levou o casaco e roupas pelo jeito. – Diz ela enquanto torce as mãos e mantem o tom baixo.

—Ela fugiu – Constato em voz alta tentando fazer o mundo para um pouco.

Notas finais
E ai? Se algum filho meu estiver lendo isso daqui uns 20 anos, espero que o futuro esteja melhor!