Cruzo os braços na frente do rosto, na tentativa vã de amenizar a queda, mas isso só faz com que tudo seja mais doloroso.

Atinjo o chão com força, caindo de bruços sobre uma superfície molhada e barrenta que, graças aos céus, não é o asfalto duro que eu esperava, mas que ainda assim me machuca. Quase todo o ar dos meus pulmões é expulso pra fora, e eu gemo de dor. Sinto algo quente escorrer pelo meu queixo e o cheiro do sangue é inalado por minhas narinas. Com toda a correria, a sutura de Clara – sua obra de arte – deve ter arrebentado, e agora estou com a ferida do queixo aberta novamente. É a explicação mais lógica.

Mas isto nem se compara ao dano que eu causei antes de pular do muro. Ainda posso ver seus olhos verdes arregalados olhando para mim, implorando pela minha ajuda.

Eu o matei.

Permaneço deitado no chão barrento, em posição fetal, com as gotas da chuva batendo no meu rosto furiosamente. Estou encharcado e, à medida que o tempo passa, é como se eu me fundisse à superfície pegajosa, como se estivéssemos nos tornando um só. Agora a dor da queda se torna mais evidente e meus músculos latejam incessantemente.

Sinto as mãos de alguém que não distingo me puxarem para cima, desfazendo a fusão entre o chão e eu. Ela me ergue pelo braço e me põe de pé. Assim que me estabilizo, visualizo o rosto de quem me levantou. Dani me encara, seu pavor quase exalando.

– Cézar – ela diz, com a voz trêmula. Quase não a ouço, por conta dos trovões. – Cadê o João?

Minha respiração trava e sinto o gosto da bile subindo pela garganta. O que eu digo a ela?

– Eu... – começo, mas não continuo. Não consigo. Meu rosto queima e sinto as lágrimas inundarem meus olhos. Expiro com força e tento reprimir o choro com uma careta, mas acho que minha expressão denuncia tudo, porque agora é Dani que está prestes a chorar. Ela me encara com os olhos estatelados e o resquício de cor que ela tinha se esvai de seu rosto.

Vejo pelo canto do olho que Anna e Marcos, com uma expressão perplexa, se aproximam de Dani.

– O que você fez com ele? – ela pergunta incrédula, a acidez em sua voz atingindo-me em cheio.

– Não, Dani, por favor – digo em tom de súplica, as lágrimas quentes escorrem pelo meu rosto sem cessar e se misturam às gotas da chuva. – Eu não queria fazer isso, por favor... Ele estava em minhas mãos num segundo e no outro eles conseguiram puxá-lo, eu não pude evitar, eu tentei, eu tentei, me desculpe...

Ela aperta os olhos e cobre a boca com as mãos. Solta um ruído áspero que soa quase como uma tossida, enquanto balança a cabeça em negativa, como se quisesse apagar da mente o acontecido. Enquanto escorrem, suas lágrimas desenham um caminho pelo seu rosto sujo e ela as limpa furiosamente com as costas das mãos, desfazendo o desenho.

Ela consegue controlar os soluços e se aproxima de mim devagar.

– Ele bem que me disse – ela morde o lábio inferior, fazendo-o parar de tremer. – Disse que você o olhava estranho, que você não era confiável... Disse muitas coisas, e eu sempre discordava dele... Te defendia... Como eu pude ser tão tapada?

– Dani, por favor, me escuta – eu caminho em sua direção e toco seu braço, mas ela se empertiga e soca minha mão com força, me fazendo recuar. Ela nunca agiu dessa forma comigo.

– Não toque em mim! – ela engasga, apontando o dedo indicador em meu rosto. – Assassino! Você fez isso com ele porque estava morto de ciúme! Mas, se pensou que me teria dessa forma, está muito enganado! – ela cospe as palavras cada vez com mais fúria. – Fraco! Assassino!

Não sei o que fazer. Estou estático. Meus sentimentos estão travados. Não choro. Não imploro para que ela me escute. Não me movo. Não respiro. Apenas encaro o vazio, com a boca aberta.

Anna a puxa para longe de mim. Saio de minha estática.

A chuva está amena, mas não parou por completo. Olho em volta, e percebo que estamos no que parece ser o quintal de uma residência. Fixo meu olhar na varanda coberta da casa e, sentada no chão, vejo que Clara enfaixa o pé esquerdo de Matheus, que aperta os olhos e geme. Caminho em direção a eles, não porque eles estão ali, mas porque quero me proteger da chuva embaixo da telha.

Não digo nada quando me aproximo deles, apenas me sento ao lado de Clara com as pernas cruzadas e a observo enfaixar o pé de Matheus. Seus dedos finos são ágeis e não erram. Quando ela termina, se vira para mim e encara o meu queixo.

– Santo Deus – exclama ela, os olhos castanhos arregalados. – Isso está pior do que eu imaginei!

Ela guarda as faixas de gaze na caixinha de plástico branca e pega uma agulha com um líquido transparente dentro. Sussurra algo que não ouço para Matheus e ele move as mãos pela montanha de mochilas que está no canto e pega uma delas, posicionando-a no chão como um travesseiro.

– Deite-se – diz Clara, dando tapinhas na mochila. Eu a obedeço sem hesitar. Depois que me deito, posicionando a cabeça em cima da mochila, ela pede para que eu feche os olhos e incline a cabeça para trás.

– Segure e lanterna aqui para mim, Matheus – ela pede. Matheus bufa, mas obedece. Sinto o calor da luz da lanterna sendo jogado em meu rosto e então tremo com a picada da agulha em minha bochecha.

– Ai – murmuro. Matheus contém um riso.

Segundos depois, não consigo mais mover os músculos do meu rosto. Estão completamente inertes, adormecidos, como se eu não fosse mais dono deles.

Tento falar algo, mas meus lábios recusam a se mover. O mesmo acontece quando tento abrir os olhos. Uma agonia nasce dentro de mim, mas me controlo, porque me lembro de que é Clara que está cuidando de mim. Ela sabe o que está fazendo.

Sinto seus dedos finos e ágeis tocarem meu queixo, mas não há dor quando ela o faz.

Essa deve ser a finalidade do líquido, penso, enquanto noto a antiga sutura sendo removida da superfície carnuda do meu queixo. Novamente sem dor. Depois, sinto a agulha furar minha carne padronizada e periodicamente. Clara está reconstituindo sua obra de arte.

Pouco tempo se passa até que ela termine a costura. Dez minutos, talvez. Ela põe uma camada fina de algodão por cima e a cobre com gaze e esparadrapo. Quase não ouço mais o barulho da chuva. Quando finaliza, ela pede para que eu me levante, mas que permaneça sentado. Sento-me, um pouco tonto, mas logo alcanço a estabilidade. Aos poucos, meu rosto volta a ser meu e eu consigo controla-lo. Abro os olhos. A chuva parou por completo, e o que ouço é só o gotejar da água acumulada nas calhas as casa. Tirando isso, o mundo está afundado na escuridão da noite e tremendamente silencioso, como era de se esperar.

Longe de nós, mas perto do muro que pulamos, estão Marcos, Anna e Dani, que está com o rosto enterrado nas mãos. Anna está olhando para ela coçando a cabeça, e posso ver que está impaciente. Pelo movimento de suas mãos, vejo que Marcos tenta consolar Dani de alguma forma, mas sei que nunca vai funcionar. Dani não é o tipo de pessoa que gosta de ser consolada.

– Estou com pena dela – Matheus diz, por fim. Eu suspiro, e ele olha para mim. – Mas de uma coisa eu sei – ele completa. – Você não teve nada a ver com a morte do João, Cézar.

– Eu poderia tê-lo segurando por mais tempo... – tento retrucar, mas Clara me interrompe.

– Matheus tem razão, Cézar – fala ela, guardando a caixa de primeiros-socorros na mochila e devolvendo-a ao monte. – Você não pode se culpar por isso... Viemos para cá sabendo dos perigos. Isso poderia acontecer a qualquer momento com qualquer um de nós.

Então por que logo comigo? Por que logo quando eu estava subindo? Por que não fui o primeiro a escalar? Maldita sorte, maldita sina, maldito destino, malditos, malditos.

Suspiro e afundo o rosto nos joelhos.

– Eu não queria fazer a Dani se sentir assim – digo. – Juro que não queria. Eu estava com... ciúme – torço o nariz ao assumir isso –, mas nunca teria coragem de fazer uma coisa dessas. Não depois de ver o quão feliz ela estava com João... Eu não queria que a Dani me odiasse, eu...

Minha voz some, e eu tenho que engolir para não chorar.

– Venha cá – Clara diz, pousando minha cabeça em suas pernas dobradas. Ela tira meus cabelos ensebados da testa e os alisa suavemente e, pelo incrível que pareça, isso me acalma. Não faz com que a culpa atordoante suma, porém me sinto um pouco melhor.

– Quer me contar sobre a Dani? – pergunta ela, sem parar de mexer em meus cabelos. – Talvez isso te ajude. O Matheus não se importa de te ouvir também, não é, Matheus?

– Ah, claro – Matheus responde irônico. Clara o cutuca com o cotovelo e sorri. Meneio a cabeça devagar, em concordância, e tomo um pouco de ar pela boca. Então começo.

Conto como a conheci, o que parece ter sido há milênios. Um dia comum no Centro de Treinamento Intensivo, como qualquer outro dia de treino. Eu estava tentando atirar facas, sem sucesso. Até que a vi esmiuçando os sacos de areia com a katana de um jeito incrivelmente lindo. Ela percebeu meu olhar vidrado e veio em minha direção. Apresentou-se e, depois disso, nos tornamos amigos.

Conto a Clara sobre como fiquei apavorado quando ouvi o nome dela sendo sorteado no Dia D, e como fiquei, em partes, aliviado por também ter sido sorteado. Falo também sobre como me senti quando vi João flertando com ela pela primeira vez.

Conto sobre nosso beijo, e como fiquei feliz por pensar que tinha alguma chance com ela, mas omito o fato de meu avô ter sido morto por médicos de Morada. Lembrar-me dele ainda me faz chorar.

Conto a ela também sobre a conversa que tivemos na cozinha da casa abandonada, e como isto me fez ficar confuso em relação aos meus sentimentos por ela.

Enquanto falo, minha voz fica cada vez mais embargada. E quanto mais eu falo sobre ela, menos como antes eu me sinto. Não sei se consigo sentir mais o que eu sentia por ela duas semanas atrás.

Quando termino, contando sobre como ela agiu quando pulei do muro sem João, as lágrimas já escorrem pelas minhas bochechas.

Olho para cima, para os rostos de Matheus e Clara. Matheus está com uma expressão pensativa, enquanto que a de Clara está impassível.

– Eu já sabia de tudo isso – ela diz, por fim. – Quero dizer, quase tudo.

Eu franzo o cenho e me levanto de seu colo, sentando-me de frente para ela.

– Como? – pergunto, vasculhando pela mente alguém que saiba da minha história com Dani. A única pessoa que sabe de algo é meu avô, porém ele não sabe de tudo o que aconteceu e nem está mais aqui. – Quem te contou?

– Há uns dois ou três dias – Clara responde –, quando você estava dormindo por causa daquele zumbi que te atacou, eu conversei com a Dani. Conversamos um dia inteirinho sobre você. Ela me contou tudo isso que você me contou, só que no ponto de vista dela, obviamente. Por isso pedi pra você falar sobre ela. Queria saber sob seu ponto de vista.

Mais calmo, expiro.

– E... O que ela disse? – pergunto. – Digo... O que ela disse sobre mim?

– Nada demais – Matheus responde por Clara. Olho para ele, ultrajado. Ele também sabe?

– Desculpe – ele deve ter percebido minha expressão, porque encolhe os ombros. – É que a Clara esqueceu-se de dizer que eu também estava na conversa.

– Ah, e o Matheus estava na conversa – Clara diz, como se estivesse lembrando só agora. Matheus solta um risinho abafado.

– O que quer dizer “nada demais”? – pergunto. – Vocês não responderam a minha pergunta.

– Bem... – Clara começa. – A Dani não demonstrou sentir o mesmo que você sente, ou sentia, tanto faz, por ela quando ela conversou com a gente. E eu sou ótima em detectar isso nas pessoas, quando elas amam umas às outras – ela faz uma pausa. – A Dani gosta muito de você. Mas não daquele jeito.

Ela dá um sorriso sem graça e eu só assinto. Tudo o que ela disse eu já sabia. Mas, não sei, ouvir agora da boca dela faz com que pareça mais real.

– Agora, Cézar... – Matheus começa. – Acho que Dani precisa de espaço e tempo para assimilar tudo. E tenho certeza que, como sua amiga, ela vai acreditar em você, assim como nós acreditamos. Ela só está com a cabeça quente, precisava de alguém para culpar. Já passei por isso uma vez...

Você?! – Clara pergunta sarcasticamente. Eu sorrio.

– Digamos que eu também já passei por algumas tragédias amorosas – é o que ele responde, com um sorriso torto. Mas seus olhos não sorriem junto dele dessa vez.

Avisto Anna, Marcos e Dani caminhando em nossa direção. Quando eles já estão perto o bastante, Marcos pergunta se achamos melhor passar a noite na casa, e dizemos que sim de pronto. Ele saca, então, a escopeta que pertencia a João e dá um tiro na maçaneta, estilhaçando-a e abrindo a porta.

Colocamos as mochilas nas costas, adentramos a casa e a revistamos. Nada de zumbis, porém Anna diz que tem a leve impressão de que alguém dormiu em uma cama do andar de cima recentemente. Ignoramos o comentário dela. Não pode ser um morto-vivo, porque mortos-vivos não dormem. Eu acho que não, pelo menos.

Antes de todos irem se deitar, Dani e Marcos vedam a porta por dentro e Anna comunica que sairemos assim que o sol se levantar, ou seja, daqui a algumas horas. Por isso, ela chamou nossa parada de “descanso”.

Depois que Matheus, Clara e eu comemos alguns tabletes do chocolate que eu trouxe comigo da academia de musculação, nos deitamos nos sofás da sala de estar, e nos preparamos para dormir.

– Que noite, não? – Matheus fala em meio a um bocejo e Clara geme um sim preguiçoso como resposta, sua cara afundada em uma almofada.

– Espero que não se repita – digo, mas Matheus já não está mais ali para me responder, já posso ouvir seu ronco leve. Decido me forçar a dormir também.

Porém, quando estou prestes a cair no sono, fixo meu olhar na janela de vidro da sala de estar. Ela não é tão grande, e seus vidros estão sujos e embaçados de poeira. Vejo algo se mover, mas meus olhos estão cada vez mais pesados, estou cada vez mais leve...

Antes de eu cair no sono por completo, vejo a silhueta de um ser que me observa pela janela, parado como uma estátua. A lua, que está quase sumindo, ilumina seus cabelos. Não sei se isso é um sonho ou se é verdade, mas posso jurar que seus cabelos são vermelhos intensos, como fogo vívido. Seus cabelos pegam fogo. Seus cabelos são o fogo.

E é com esse delírio que eu me dirijo à inconsciência.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.