A Vida Pós Apocalíptica de Cézar
9 Morto
No começo, não sei se é verdade ou se estou apenas em mais um daqueles sonhos tão reais que te fazem duvidar das coisas.
Abro os olhos. Estou deitado a céu aberto em um gramado que possui um verde tão vivo que parece artificial, mas, de alguma forma, sinto que não é. O céu possui um azul estranhamente limpo, como nunca esteve antes. Pelo menos, nunca o vi dessa forma. Nunca pensei que fosse possível estar dessa forma, possuir esta cor, este aspecto limpo, vivo.
– Cézar – ouço uma voz me chamar. Levanto-me rapidamente e me sento na grama, procurando o dono da voz.
– Cézar, seu dorminhoco! – a voz me chama de novo. A voz dela. Reconheço a voz de Dani, mas não a encontro em lugar nenhum.
– Onde você está? – pergunto, gritando para o nada.
– Atrás de você, bobinho – ela diz aos risos. Levanto-me da grama e limpo as mãos sujas de barro nas calças, enquanto me viro. E lá está ela, pendurada em cima de uma árvore que não estava ali antes.
Ela acena para mim, me chamando para perto dela. Quando chego perto o bastante, ela pede para que eu a ajude a descer e eu a ajudo, segurando suas mãos e sustentando seu peso. Quando ela pousa no chão, pula em meu pescoço, me puxando para um abraço. Eu o retribuo, porque parece bom demais para ser verdade.
– Eu morri? – pergunto com o rosto ainda enterrado em seus cachos negros. Ela não me responde, apenas me aperta mais para junto de si, e sussurra em meu ouvido, como se me contasse um segredo:
– Eu te amo.
Ficamos assim por muito tempo – tanto tempo que perco a noção de mim mesmo –, agarrados um ao outro, suas palavras preenchendo-me por completo. Horas, dias, semanas, meses. Podem ter sido anos, até. Mas não me importo, não me importo, não me importo.
Ela me ama. Eu a amo.
Sinto, então, um arrepio repentino, que me faz retornar do estado estático. Não posso ter morrido. Não posso ter abandonado a missão sem tê-la concluído. Não posso ter morrido e deixado para trás a chance de salvar as pessoas que se encontravam na mesma situação de meu avô. Não posso ter ido embora do mundo real sem ter vingado a morte dele. Ele não pode ter morrido em vão, não pode.
Ele não morreu em vão.
Afasto-me do abraço de Dani e ela franze a expressão quando o faço.
– O que foi? – ela pergunta, com certo tom de preocupação na voz.
– Eu tenho que ir – é o que digo. As lágrimas inundam meus olhos enquanto reflito por um segundo. Se eu ficasse ali com aquela Dani, a Dani que diz que me ama, eu poderia ser feliz. Poderia recomeçar naquele mundo de cores vivas.
– Me desculpe, Dani – minha voz é quase inaudível. – Mas não posso ficar com você. Eu tenho coisas a fazer... E você não me ama da mesma forma que eu te amo... Me desculpe.
Sua expressão murcha e se torna uma careta de dor. Ela olha para o chão e fixa seu olhar nele por um longo tempo. Murmura milhões de “nãos” para sim mesma, enquanto balança a cabeça em negativa. Até que para de repente, e diz, com os olhos ainda fixos abaixo:
– Ele está acordando.
Mas sua voz não soa como sua. Confuso, balanço a cabeça, e minha visão começa a se encher de pontos pretos que vêm e vão, piscando. Uma dor excruciante explode em minha cabeça, e eu não a suporto.
Desabo no chão, deixando a Dani que me ama para sempre.
– Ele está acordando! – Matheus grita e sua voz ecoa pelo ambiente em que estamos. Ecoa pelos meus ouvidos, fazendo com que a dor da minha cabeça piore.
Meus olhos demoram a abrir, mas os forço até que consigo enxergar onde estou. Estou deitado em um sofá que cheira a mofo no que parece ser a recepção de algum estabelecimento. Não há janelas e há pouca incidência de luz, e eu demoro acostumar minha visão ao escuro. Não deve haver mais eletricidade nesta parte da cidade em ruínas. Se é que estamos nela, ainda.
Fixo meu olhar nos quatro corpos que caminham apressadamente em minha direção. Não os distingo a princípio, mas, quando atingem certa distância, consigo reconhecer Matheus, vindo à frente, Clara, às suas costas, e Dani e João, logo atrás.
Enrubesço. Dani está com a expressão ansiosa e preocupada. Ela está preocupada comigo.
Tento me levantar e, assim que me ergo e me sento, sinto-me tonto. Clara aperta o passo, agora correndo.
– Não, não, não! – ela me repreende. Aproxima-se de mim e pousa as mãos em meu peito, me forçando a deitar novamente. – Você precisa descansar mais, Cézar, não está completamente bom para se levantar.
Eu gemo em resposta, mas não protesto. Estar deitado é realmente melhor do que estar sentado. Quem dirá em pé.
Dani e João me observam de longe, de braços dados, e trocam olhares, às vezes até palavras, sussurros. Fazem isso por um bom tempo, até que se torna incômodo. Eu os encaro e bufo, franzindo o cenho, e parece que eles entendem o recado. Dani se vira e caminha para longe, mas João permanece.
– Ele precisa de mais quanto tempo? – João pergunta a Clara.
– Bem – ela começa a dizer, enquanto me analisa com os olhos. – Agora que ele acordou, acho que só mais um dia e ele já está pronto para ir.
– Mais um dia? – ele parece irritado. Mas o que ele quer dizer com mais um dia? Por quanto tempo será que eu dormi?
– Você disso isso dois dias atrás, Clara! – ele continua. – Já perdemos tempo demais!
– Então você quer que eu o deixe aqui e morra pra que vocês simplesmente ganhem mais tempo? – ela responde.
– Não estou dizendo isso... – ele hesita. Por fim, diz: – Eu só quero que faça mais rápido sua mágica, assim podemos chegar mais rápido a nosso Alvo e voltarmos a Morada antes que algo pior aconteça com mais alguém.
Clara solta uma risada forçada, debochada.
– Não é mágica – ela diz. – E eu vou demorar a agir o tempo que eu precisar. As coisas não funcionam assim.
João balança a cabeça e murmura algo que meus ouvidos não alcançam. Vira as costas batendo os pés com força no chão e saindo do meu campo de visão
Quando ele está longe, Matheus começa a rir. Clara passa as mãos nos cabelos e bufa.
– Que garoto idiota – diz ela. Matheus concorda e continua a rir. Esboço um sorriso, mas, quando o faço, sinto uma pontada de dor no queixo e tremo.
– Ai – gemo, e isso chama a atenção de Clara.
Ela se aproxima e se senta no chão embaixo de mim, pousando sua cabeça no sofá, ao meu lado. Então, as palavras de João voltam em minha cabeça como um turbilhão e me incomodam. O jeito como ele disse tudo deu a entender que sou uma pedra no caminho deles no momento. E não discordo dele. Estou atrasando a expedição.
E o jeito como ele me olhou também era estranho. O que me faz pensar uma coisa: será que Dani contou a ele sobre nossa conversa na cozinha da casa abandonada?
Decido parar de pensar em Dani e em tudo, porque minha cabeça começa a doer. Parece que Clara percebe minha careta de dor.
– O queixo está doendo muito? – ela pergunta, mas não sei por que ela faz referência ao meu queixo, sendo que é minha cabeça que dói. Entretanto, me lembro de que quando caí, meu queixo acertou em cheio o asfalto. Então a dor deve vir dele, mas dá a impressão de que a cabeça é o que dói. Levanto a mão para leva-la ao queixo a fim de sentir como o local está, mas Clara me detém, dando um tapinha nela.
– Está ficando maluco? – ela me repreende. – Quer estragar minha obra de arte?
– Obra de... – digo, não abrindo muito a boca. – Arte?
– Sim, ora – ela responde, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. – Demorei horas para dar esses pontos e, mesmo assim, só parou de sangrar ontem. Se estragar minha obra, eu mato você!
Pontos. Eu precisei de pontos.
Tremo.
– Você está com frio? – Matheus pergunta, e eu me surpreendo. Ele ainda está ali.
– Não... – digo. – Estou bem. Quero dizer... Eu estou mesmo bem?
– Acho que é você que devia me dizer isso, meu caro – Matheus responde irônico e Clara ri.
– Não, eu quis dizer... Eu estou inteiro? – pergunto. – Além do queixo, machuquei outra coisa?
– Não, Cézar, pode ficar tranquilo – Clara responde. – Você caiu no chão quando o zumbi te atingiu e logo ficou inconsciente. Depois que o Matheus atirou no zumbi, eu virei seu corpo e vi seu rosto cheio de sangue e me apavorei. Pensei que o pior tinha acontecido...
Ela treme e põe a língua para fora, fazendo uma careta.
– O quê? – pergunto.
– Que você tivesse sido mordido – é Matheus que me responde. Não consigo pensar sobre o assunto. Cérebros não devem ser nada bons, definitivamente.
– Mas então a gente te trouxe pra cá e estamos seguros, e você... Bem, você está vivo. Então acho que, sim, você está bem.
– Por quanto tempo eu dormi? – quero saber. As palavras de João ainda ecoam em minha cabeça.
– Hoje seria seu quarto dia dormindo – ela diz com cuidado. – Mas fico muito feliz que tenha acordado. A Anna estava ficando impaciente.
Quatro dias. Eu dormi por quatro dias. Um atraso de quatro dias.
João estava certo em estar irritado.
Clara percebe que estou sem jeito.
– Cézar, não fique assim... – fala ela, numa tentativa falha de me acalmar. – Não teria como sairmos de qualquer forma. Entramos aqui porque não conseguimos acabar com todos os zumbis que vieram depois do que te atacou. Eles ficaram uns dois dias tentando entrar, mas parece que na noite passada desistiram. Não se culpe então, ok?
Assinto de leve com a cabeça, mas ainda não estou convencido.
Mais tarde, já consigo me levantar. Os analgésicos que Clara me dera mais cedo já começam a fazer efeito e quase não sinto mais a dor. Decido, então, caminhar pelo galpão que é, na verdade, a recepção de uma academia de musculação, um pouco parecida com o Centro de Treinamento Intensivo de Morada, mas menor e sem as armas penduradas pelas paredes. Menos hostil e mais sofisticado.
Acabo me cansando de dar voltas em círculos e me sento perto dos outros buscadores, que estão dispostos pelo chão em um círculo, comendo barras de cereal e bebendo latinhas de algo que não veio conosco.
Assim que me sento ao lado de Matheus, ele me oferece uma lata da bebida que eles estão saboreando com diferentes reações.
– Bebe isso – ele diz animado. – É a melhor bebida do mundo!
Demoro um pouco a abrir a lata, mas, quando consigo, levo-a até meus lábios e deixo o líquido escorrer para dentro da minha boca. Uma sensação de efervescência borbulha em minha língua, e chega a arder quando desce pela minha garganta. No começo, o gosto é doce, mas no fim amarga, como se no meio de sua composição tivesse limão.
– Onde vocês encontraram isso? – pergunto a ele.
– Dani e João encontraram uma máquina cheia disso logo ali – ele aponta para um dos cantos do prédio e, atrás de uma bancada, está uma máquina retangular encostada na parede, com a vitrine de vidro quebrada.
– E não foi só isso que eles acharam nela – diz Matheus, tirando um embrulho retangular do bolso. Ele o abre, e dentro dele há tabletes de uma coisa marrom e cheirosa.
– O nome disso é chocolate – ele diz, e seus olhos brilham. Quebra um pedaço do tablete e me entrega. – Prove.
O tablete derrete em minha boca assim que o coloco para dentro. O gosto doce do chocolate, como Matheus disse, me dá uma sensação maravilhosa e meu estômago pede mais, instantaneamente. Percebo que não comi nada desde a comida passada da validade, então peço mais do chocolate a Matheus. Quando o dele acaba, vamos até a máquina e buscamos mais. Comemos até que nos sentimos completamente satisfeitos. Depois nos sentamos novamente à roda dos buscadores, onde todos conversam sobre amenidades. Coisas comuns.
Isolados do grupo, Anna e Marcos discutem algo. Algumas vezes Anna ri e soca o ombro de Marcos, e eu me surpreendo. Nunca a vi rir. Nunca a vi alegre, na verdade, mas parece que Marcos consegue fazê-la sorrir.
Mais perto de mim e Matheus, Clara está conversando com Dani. As duas riem como amigas de infância, e isso me incomoda um pouco. Percebo que o braço de João está enroscado na lateral do corpo de Dani, os dois tão próximos que quase respiram o mesmo ar. Desvio o olhar.
– Desde quando as duas são amigas de jardim? – pergunto a Matheus, quase sussurrando. Ele abre um sorriso.
– Você dormiu por um tempo, meu caro, lembre-se disso. – Ele para e, como eu não digo nada, ele continua: – Não tínhamos muito que fazer enquanto esperávamos você acordar, então nós ficamos simplesmente conversando. Comendo chocolate. Rindo. Conhecendo-nos uns aos outros. Quero dizer, quem se abriu mais foi Dani. João só a acompanha onde quer que ela vá, mas nunca diz nada. E Anna e Marcos não conversam comigo ou Clara, só ficam juntos e, quando interagem, o fazem apenas com Dani ou João. Então, quando eu digo “conhecendo-os”, quer dizer “conhecendo a Dani” – ele solta um riso. – Ela até que é legal. Mas ainda quero saber por que você a chama tanto nos seus sonhos... Essa noite você me acordou chamando o nome dela, por isso eu chamei os outros. Só que dessa vez você se despediu dela...
Acho que ele percebe que estou desconfortável, porque para e pergunta se eu quero continuar a falar sobre o assunto. Eu balanço a cabeça em negativa.
– Depois... – é o que eu digo. Ele assente e se junta à conversa de Clara, Dani e João, me abandonando.
Não fico muito tempo lá. Depois de uns minutos, me levanto e retorno à sala de recepção. No caminho até ela, me deparo com um enorme espelho rachado e, ao lado dele, o cartaz de um homem tremendamente musculoso e quase nu se exibindo. Desvio o olhar do cartaz, corado, e o fixo em meu reflexo. Estou um trapo. Preciso de um banho imediatamente, e de roupas novas. Está encardida a camisa que uso e os joelhos da calça rasgados. Meus cotovelos estão ralados e os meus cabelos pretos e oleosos estão colados na minha testa. Ao redor dos meus olhos castanhos e redondos há olheiras profundas – ou será sujeira? Reparo também na linha que a sutura de Clara desenha na parte inferior do meu queixo, perfeitamente costurado. Uma obra de arte verdadeira. A linha de sutura deve ter uns quatro ou cinco centímetros. Como uma pancada no asfalto pode causar um corte desses?
Estremeço, porque para um corte desses ser causado, o impacto deve ser enorme, e só de me lembrar do corpo do zumbi se chocando contra o meu corpo calafrios percorrem minha espinha. Meu queixo volta a latejar, então decido não olhar mais para o espelho.
Quando volto à sala de recepção, a passos arrastados, tomo mais analgésicos e deito-me novamente no sofá. Assim que eles começam a fazer efeito, meus olhos pesam e sou levado daqui.
– Cézar? – Matheus me chama, enquanto chacoalha meu ombro. Meus olhos se abrem devagar, enquanto retorno a mim.
– Quem morreu? – pergunto, com a voz rouca e embargada, ainda acordando.
– Ninguém, por enquanto – ele diz. – Você está bem? Acha que consegue partir?
Não sei se dizer que estou bem seria o mais sensato a se fazer, porque eu não estou completamente sarado. Ainda sou movido a analgésicos. E Clara disse que não posso correr ainda, senão os pontos estouram e o sangramento retorna.
– Não sei – é o que digo, sentando-me no sofá. Ele se senta ao meu lado, inquieto.
– Por que está me perguntando isso? – quero saber.
– Anna quer ir embora – responde ele, roendo as unhas. – Disse que se não formos todos agora, você sarado ou não, vai levar Marcos, Dani e João junto dela, e deixar Clara e eu “cuidando” de você. – Ele faz as aspas com os dedos. – Por isso vim saber se você está bem...
Dou um suspiro de perplexidade, mas não culpo Anna. Sou eu quem está atrasando a expedição.
Levanto-me do sofá, coloco os analgésicos no bolso dianteiro da calça e agarro minha mochila, que está jogada no canto da parede. Coloco-a nas costas e suspiro. Eu estou bem. Eu posso fazer isso. Não vai ser uma dor de cabeça idiota que vai me fazer desistir ou perder a chance de salvar a população de Morada da infecção bacteriana. Eu vou conseguir.
– Estou pronto – digo a Matheus e ele abre um sorriso.
– Vou avisar os outros – Matheus diz. Ele se vira, e corre em direção aos outros buscadores e eu o sigo. Logo que todos sabem que já estou bem e pronto, Clara faz um check-up em mim e então nos preparamos para sair.
Depois que todos já estão com as armas carregadas e em punhos, e as mochilas nas costas, nos aproximamos da porta de saída, que está vedada por um dos equipamentos de ginástica da academia. João, Matheus e Marcos arrastam o equipamento juntos, desobstruindo a passagem. Anna e Dani dão chutes contínuos e a porta de ferro se abre, revelando a rua, escura por causa da noite, e molhada, por causa da chuva que cai intensamente.
– Não devíamos esperar a chuva passar? – Matheus pergunta para todos.
– Largue de ser marica, garoto! – Anna cospe. – Não podemos perder tempo.
Matheus balbucia mais alguma coisa, mas não ouço. Estou atento a meus passos cuidadosos enquanto saímos do prédio.
Assim que pisamos no asfalto, a chuva ensopando-me da cabeça aos pés, sinto o cheiro de carne em decomposição dos mortos-vivos, pútrido e nauseante, invadindo as minhas narinas e as queimando. Mesmo na chuva, o seu cheiro é forte.
Olho em volta, mas não os encontro em lugar nenhum.
Então, ouço Clara berrar. Não consigo ouvi-la. Mas parece que os outros entendem o que ela diz, porque todos começam a correr depois do seu grito. Olho novamente para trás, e detenho meu olhar no fim da rua, quase a quarenta metros de distância. Correndo aos cambaleios, uma horda de quase trinta zumbis se aproxima. E estes vêm mais rápido do que nunca.
Arquejo e corro, tentando alcançar os outros que estão longe de mim. Minha cabeça explode em dor e meu queixo lateja. Corro o que parece ser uma eternidade. Minhas pernas começam a doer e meus pulmões ardem. Mas eles ainda estão atrás de nós. Estão se aproximando cada vez mais...
– Virem na próxima rua, à direita! – Anna grita ofegante e quase não a ouço. Relâmpagos estouram, lançando sua luz e tornando a rua cada vez mais sinistra, e a chuva chicoteia meu rosto com uma força anormal. Minha mochila e minhas roupas estão pesadas e é cada vez mais difícil correr. Estou atrás de todos e, consequentemente, mais perto dos zumbis. Mas não posso desistir. Não posso, não posso, não posso.
Anna e Marcos dobram a direita e somem da minha visão. Em seguida, Dani e João fazem o mesmo. Segundos depois de Matheus e Clara virarem a esquina, eu também o faço.
Mas damos de cara com algo que não pensávamos que estaria ali.
Sete metros à nossa frente há um muro de tijolos vermelhos, que transforma a rua em uma rua sem-saída. Anna arqueja e solta um palavrão, e Clara grita que eles estão chegando.
Estou atônito. Nunca conseguiríamos matar quase trinta zumbis com as armas que temos. Nem que fôssemos os mais habilidosos do mundo, não temos munição suficiente. Vamos morrer todos de uma vez.
– Gente! – Dani grita, chamando nossa atenção. – O muro não é tão pequeno, dá pra escalar se tentarmos. Vamos!
Ela tem razão. O muro deve ter uns seis ou sete metros de altura, e tem falhas por todos os seus tijolos. Dá para subir. Todos nós assentimos e corremos em direção ao muro, e Anna é a primeira a tentar escalar. Sobe até a metade dele, então escorrega, mas não cai. Está nervosa. Ou talvez a chuva não esteja ajudando.
O cheiro pútrido dos zumbis se aproxima, queimando minhas narinas. Já posso ouvir o arrastar de seus pés.
Anna consegue escalar o muro por completo. Assim que chega ao topo, pula para o outro lado. Jogamos as mochilas e as armas para o lado de lá do muro, por cima. Dani e Marcos, então, escalam o muro ao mesmo tempo.
O cheiro se aproxima mais. E agora posso ouvir seus gemidos e gritos desesperados por nossa carne.
Antes mesmo de Dani e Marcos pularem para o outro lado do muro, Matheus e Clara já o escalam. Eles sobem desengonçadamente, aos arquejos, um tendo que ajudar o outro durante a subida. E antes de os dois desaparecerem por completo, eu mesmo já estou agarrado ao muro de tijolos vermelhos, usando suas falhas como apoio para meus pés e mãos, me erguendo aos poucos. João está um pouco acima de mim, quase no topo.
Piso em falso e quase despenco muro abaixo. Olho por cima dos ombros, e meus músculos paralisam. A horda de zumbis dobra a esquina e corre estateladamente na direção do muro.
Na nossa direção.
Tento escalar o muro mais rápido, mas isso só faz com que eu escorregue mais vezes, indo cada vez mais abaixo.
E eles estão se aproximando... Cada vez mais próximos...
Arquejo quando sinto algo agarrar meu pé, me fazendo quase perder o equilíbrio. Olho para baixo e vejo o monstro dilacerado com meu pé preso em suas mãos, me puxando para baixo.
Grito, pedindo ajuda para João, enquanto tento escalar o muro desesperadamente. Minhas mãos estão raladas e minhas unhas sangram, mas não paro.
Ele olha para baixo, e sinto uma pontada de esperança. Mas ele apenas sorri maliciosamente e diz:
– Você é um peso morto.
Então continua a escalar. Gemo quando sinto mais mãos puxarem meu pé. Eles estão conseguindo, estou caindo...
Não deixo João subir nem mais um centímetro. Agarro seu pé com todas as minhas forças, assim como os zumbis fazem comigo. Puxo-o, usando-o de apoio, e ele resiste, o que me dá estabilidade.
Dou um puxão mais forte e consigo me libertar do domo mortal que as mãos dos mortos-vivos impunham a meu pé, e escalo rapidamente, impedindo-os de me pegarem novamente. João perde o equilíbrio e escorrega, por causa de meu puxão. Tento agarrá-lo pela gola da camisa, mas é tarde demais.
Os zumbis agarram suas duas pernas e cravam os dentes nelas, rasgando o tecido de sua calça e puxando sua pele junto dela.
João grita de dor e suas unhas cravam em meus braços. Seus olhos verdes imploram para que eu suporte seu peso, para que eu o agarre. Tento puxá-lo, mas não sou forte o bastante.
Deixo-o cair. Deixo-o cair e um mar de mortos-vivos o afoga. Deixo-o cair e sua vida se esvai, seus gritos se abafam. Deixo-o cair e seus olhos verdes são a última coisa que vejo, no meio dos sibilos guturais que os mortos-vivos emitem.
E eu o deixo cair.
Não suporto assisti-lo sendo esquartejado e devorado pelos zumbis. Não suporto. Uso, então, o que resta de mim para escalar o muro de tijolos vermelhos, aos trancos, e, quando chego ao topo, o que eu mais quero é esquecer tudo aquilo.
Mas ele está morto. João está morto. Eu o matei.
Pulo do muro em direção aos outros buscadores de braços abertos.
Fale com o autor