A Vida De Yura
34 Espiral de Lembranças
Notas iniciais
Meu pai conduziu-me até a sala de jantar, onde, segundo ele, estariam todos os convidados da festa. Ele pediu que eu sentasse em seu lugar somente naquele dia, pois, como era o dia em que eu estava completando 18 anos de vida. Foi neste momento que me veio à mente uma vaga lembrança:
" — Quando eu crescer eu poderei morar num castelo cheio de flores? | — Sim, você poderá | — Quando eu fizer 18 anos, poderei sentar-me na cadeira mestra da copa? | — Minha querida, quando você crescer, poderá ter tudo que deseja e mais. Apenas desejo-lhe que não se perca em meio à tanta beleza material e esqueça dos princípios que lhe dei. | — Não se preocupe. | [...] — Agora, é hora de dormir porque amanhã será um longo dia."
Eu não sabia exatamente a que momento de minha vida aquela lembrança pertencia, mas sabia que era algo com relação ao jantar de hoje. Passadas várias horas, já eram precisamente meia-noite quando levei minha mão ao encontro com meu rosto, e desse encontro, lançou-se um bocejo. Cheguei perto de Branca (até que pensei em falar com meu pai, mas do jeito que ele é, iria pedir que eu aproveitasse um pouco mais a festa, e eu sem jeito, continuaria aqui.) e avisei-lhe que iria me retirar, pois o sono estava tomando posse de meu corpo. Ela entendeu minhas palavras e concordou com meu pensamento.
Logo que cheguei em meu quarto, tomei um banho e vesti meu camisola branco com uma caveirinha de olhos no formato de coração preta. Arrumei minha cama para dormir, mas invés de deitar-me nela, fui para a escrivaninha escrever em meu diário. O tempo estava decorrendo à medida que eu escrevia nas folhas daquele diário, quando lembrei-me de outra coisa que supostamente teria presenciado em meu passado.
" — Eu, eu não quero ir embora — alguém estava chorando | — Não é questão de querer, mas sim de necessidade (era uma voz feminina) | — Eu também sentirei muito a sua falta, mas entenda: se você permanecer neste mundo, do jeito que ele está atualmente, será perigoso. Provavelmente você encontrará humanos legais no lugar pra onde vocês irão. | — Mas eu não quero. Eu quero ficar aqui, junto da mamãe e do papai — a criança não parava de chorar | A mãe pegou a criança e entrou num ônibus. A menininha pôs a cabeça para o lado de fora da janela, despedindo de seu pai. Ela estava chorando muito. | — Gomen, mas se nós queremos a sua segurança, essa foi a única saída que encontramos. Gomen, Yura-chan..."
Nesta hora, eu parei de escrever, minha mão não parava de tremer, eu estava nervosa, não sabia o que fazer. Naquele mesmo instante, notei que os momentos de que me lembrara naquela noite, eram do meu aniversário de três anos e o segundo momento foi da minha partida, no dia seguinte ao meu aniversário.
Estava desolada, como fui capaz de esquecer daquilo? Foi aí que me lembrei: em parte do caminho, eu adormeci no colo de minha mãe, e quando acordei, já estava em frente ao portal da primeira casa que moramos quando chegamos àquele mundo. À partir daquela época, eu me esqueci completamente do meu passado, do meu modo de vida...
Fechei o diário, já aos prantos, e minha esclerótica (a parte branca dos olhos) estavam avermelhadas. Fui pra minha cama, agarrei-me ao meu travesseiro, e ali adormeci.
Por que só agora eu fui me lembrar do meu passado? E por que justamente essa época me veio à mente?
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