A Vida Alheia

15 XV - Terça


Daniel fechou a porta do apartamento deixando suas coisas ali mesmo, alimentou o gato e preparou seu jantar. Aquilo era algo que o fazia sentir-se bem, era como uma boa distração. Cortar, cozinhar, salgar, misturar... Fazia bem para sua mente e para seu corpo, não era nada organizado ou seguindo padrões com números ou caminhos certos.

Com o prato em mãos foi em direção ao sofá, sentando-se e pegando o controle da tv.

[...]

_Que merda você acha que está fazendo?!_ Cassio gritou do outro lado da linha assim que foi atendido.

_Tentando dormir. _ Daniel reclamou passando a mão pelo rosto.

Não tinha porquê perguntar quem era, já esperava uma ligação. só não imaginava que seria tão rapidamente.

_Como você acha que pode falar daquele jeito com a Clarisse? Pensou que ela não me diria?_ Disse ainda transtornado.

_Não, eu sabia que ela iria correndo contar para você.

O desdém foi palpável em sua voz, o que fez o descontrole de Cassio ficar de lado, em seu lugar veio a curiosidade. Sabia que seu haker de confiança tinha sempre um plano, mas ainda não havia entendido onde ele queria chegar ofendendo alguém que podia a qualquer momento joga-lo para fora do prédio.

_Então porque fez isso?

_No momento certo você saberá, mas não se preocupe, tudo dará certo. Você terá o que quer e eu terei meu dinheiro.

_Assim espero, se esses seus planos loucos atrapalharem meus negócios...

_Não vão atrapalhar. Alguma vez eu interferi nos teus negócios?_ Indagou já sem paciência.

_Não.

_Ótimo. Então, me deixa dormir, pois tenho que acordar cedo e encarar uma chefe furiosa._ Falou desligando o celular e voltando a se acomodar na cama. Tentava parecer despreocupado, mas ainda haviam alguns pontos que o incomodavam muito; como o excesso de cuidado de Cassio. Ele nunca se importou tanto com o processo do trabalho, só se importava com o resultado.

"Ele está escondendo muita coisa", Daniel pensou e não pode conter o reflexo de olhar para a janela, como se pudesse encontrar alguma resposta.

.............................

Clarisse acordou mais cedo que o normal, rolou pela cama tentando voltar a dormir, mas acabou dando-se por vencida, levantou-se e num súbito surto de hiperatividade procurou algo para se ocupar. Não encontrando nada interessante em seu quarto. Saiu caminhando pela casa, a qual já não parecia a mesma.

No pouco tempo em que Isis estava morando em sua casa, tudo estava um caos, tudo parecia fora de seu lugar. Ela tentava não se incomodar com a prima, mas tudo parecia incomodo... Não só a casa bagunçada, mas as coisas estavam ficando fora do controle.

_Isis..._ Clarisse sussurrou de frente para o corpo embrulhado num cobertor em seu sofá. Voltou a sussurrar, como não houve resultados, ela sacodiu até que Isis acordasse. Mesmo com o quarto de hospedes ela parecia ter um imã que a ligava ao sofá.

_Que horas são?_ Perguntou ainda de olhos fechados.

_Ainda é bem cedo, mas preciso falar com você.

Isis se forçou a abrir os olhos pelo tom serio na voz de Clarisse.

_ Aconteceu alguma coisa?

_Você já procurou um emprego?

"Posso ser mais direta do que isso?" ,perguntou-se vendo a expressão surpresa de Isis.

_Eu... Ainda não. É que estou tentando me acostumar com o ambiente, você entende né? Toda essa coisa de nova cidade... Tudo está acontecendo tão rápido!_ Explicou-se sentando no sofá, tentando parecer o mais sincera possível.

_Espero que esse seu processo não demore muito. _ Clarisse comentou caminhando até a cozinha._ Vamos dividir as despesas._ Declarou enquanto começava a preparar seu café da manhã.

Isis permaneceu sentada, quase congelada no mesmo lugar.

"Isso não fazia parte dos meus planos... Não fazia mesmo.", pensou ouvindo o som dos talheres.

Clarisse preparou seu café calmamente com um pequeno sorriso nos lábios, aquele não parecia um dia tão ruim quanto havia pensado. Talvez fosse seu dia, sua terça não tão tediosa.

Preparou-se para o trabalho rapidamente, passou os olhos pela sala, mas não encontrou nem sinal de sua prima, então saiu sem se despedir.

Entrou no elevador, e logo ouviu alguém gritando para que ela esperasse. Clarisse esperou que a outra pessoa entrasse para apertar o botão, mas ao ver que era o garoto do skate seu grande (e raro) sorriso matinal diminuiu de tamanho.

_Bom dia, obrigada por esperar. Já estou atrasado._ Ele comentou um pouco ofegante.

_Bom dia.

Ele continuou olhando-a como se esperasse que ela dissesse mais, entretanto nada foi dito.

_É Clarisse né?_ Perguntou um pouco sem jeito.

_Sim, e você é o Caíque, neto da Dona Carmem._ Afirmou achando o menino um pouco engraçado, a forma como ele afirmou sorridente.

_Você está muito bonita._Comentou olhando-a.

O comentário abrupto a fez achar ainda mais graça em Caíque.

_Como vai dona Carmem?_ Perguntou, tentando parecer simpática, afinal de contas o garoto estava tentando entrar em algum assunto e não estava sendo indiscreto como as outras pessoas que já dividiram o elevador com ela foram. Não custava nada conversar com ele.

_Ela está bem, apesar de um resfriado que pegou

_Seus pais te deixaram aqui com ela a quanto tempo?_ Clarisse perguntou rapidamente percebendo que logo o elevador iria abrir as portas para que saíssem.

_Acho que fará três semanas. Eles testão comemorando os vinte anos que estão juntos, esse não é o tipo de viagem na qual se leva o filho e eu também preferi não ir._ Explicou dando de ombros.

_Entendo.

E de fato entendia o que ele queria dizer, entendia o constrangimento juvenil ao presenciar certas cenas. Mas não conteve o pequeno riso. Seu dia estava sendo realmente surpreendente.

................

Daniel acordou incrivelmente animado. Seu animo não era por ter mais um dia de trabalho, onde poderia resolver todas as pendencias; mas sim por ser o dia em que estava preparado para descobrir o que estava acontecendo. Afinal de contas, era ele quem mais estava se arriscando nisso tudo, Cassio sairia praticamente ileso.

Daniel chegou ao prédio cedo, não haviam tantas pessoas pelos corredores. Era um momento perfeito para procurar algumas respostas. Em sua bela sala , de frente para o monitor, teclando rapidamente e indo cada vez mais fundo nos arquivos; ele se mantia concentrado.

Momentos como aquele o fazia adorar seu trabalho, e quanto mais difícil fosse derrubar os programas de segurança, melhor era, a satisfação seria muito maior. Mas para sua surpresa, foi fácil demais, era quase como se ninguém tivesse se preocupado em manter a segurança dos arquivos...

Desconfiado, Daniel verificou se estava sendo rastreado, seus olhos atentos passaram pela telha de seu notebook. Entretanto, não havia sinal de que estivessem rastreando-o, isso o fez ficar ainda mais curioso.

"Que tipo de empresa que se preze que não tem um sistema de segurança computadorizado?", perguntou-se com o cenho franzido.

Ele encontrou alguns documentos antigos, projetos que pareciam interessantes, mas nada além disso.

"O que estou procurando deve estar muito bem protegido, e não encontrarei tentando invadir os arquivos da empresa... Eles só podem estar com o responsável por isso tudo, ou melhor... A responsável, e ela ou é muito paranoica a ponto de não confiar nem num sistema de segurança ou prefere manter tudo sob controle, manter o trabalho sempre ao seu alcance..." Refletiu com olhos perdidos na tela.

..**..

_Bom dia Ana! Pode ler meus compromissos._ Clarisse falou passando pela mesa da secretária, e entrando em sua sala.

_Bom dia! Hoje precisa ser confirmado o jantar com os investidores...

_ O jantar de quinta?

_Não, quinta é o almoço com os sócios.

_E o Felipe já deu noticias que não fossem sobre o casamento?_ Clarisse indagou lembrando-se dos compromissos que teria que ir no lugar de Felipe.

Ana apenas negou com a cabeça e continuou fitando a agenda em suas mãos, por fim colocou a ficha do contratado.