A Verdadeira História dos Treinadores de Pallet
3 Blue: O Pikachu brilhante
Notas iniciais
FLORESTA DE VIRIDIAN
Enquanto Red e Green batalhavam na cidade, Blue entrava na floresta.
O lugar era repleto de árvores, moitas, pedras e arbustos, a grama em certos lugares era tão alta que chegava até a cintura dela. A luz do Sol fraco de fim de tarde passava entre as folhas das árvores, mas mesmo assim não era um lugar muito iluminado. Blue estava com medo.
–Bulbasaur! – Disse Bulbasaur saindo de sua PokéBola.
–Bulba? Eu não me lembro de ter te chamado, eu não sabia que Pokémon podiam sair da PokéBola assim.
A PokéAgenda começou a falar: “Alguns Pokémon conseguem sair de suas PokéBolas quando bem entendem”.
–Saurr. – Bulbasaur acenou com a cabeça, concordando.
–Então ta né. Vamos Bulba, me ajude a explorar o lugar.
–Saur! – Ele afirmou com a cabeça, animado.
Bulbasaur era pequeno demais para andar por aquela grama alta, eles poderiam acabar se separando um do outro, então Blue resolveu carregá-lo no colo.
Enquanto seguiam andando, encontraram vários Pokémon chamados Caterpie, do tipo inseto, Bulbasaur derrotou todos eles. Algumas garotas tinham nojo desse tipo de Pokémon, mas Blue era indiferente.
Os dois começaram a ouvir barulhos estranhos, como se alguma coisa estivesse os seguindo.
–Bulba? Você está ouvindo isso?
–Saur!
Os dois olharam para trás, mas não viram nada.
–Bem, vamos continu... – Blue escorregou em um objeto redondo. – Ai! Mas o que é isso? – Disse pegando o objeto. – Uma PokéBola! – Guardou-a em sua mochila. Aquela Pokébola a fez lembrar de que Professor Carvalho tinha pedido para capturar o máximo de Pokémon possíveis. Ela já tinha encontrado Pidgeys, Rattatas, Mankeys, Spearows e Nidorans mas não capturara nenhum.
–Xi... Bulba, esquecemos de capturar Pokémon...
–Saur... – A ideia não parecia agradar muito o Bulbasaur.
–Vamos tentar!
Os dois procuraram pela floresta, até acharem outro Caterpie. Batalharam e quando acharam que ele já estava fraco o suficiente, Blue lançou sua PokéBola.
–Vai... Por favor!
A PokéBola balançou para a direita e para a esquerda até que se abriu e o Caterpie saiu de lá.
–Ele quebrou nossa PokéBola!
Blue lançou mais duas, mas foi em vão, ela ainda lançaria mais se o Caterpie não tivesse fugido.
–Eu acho que esse negócio de capturar todos os Pokémon, sinceramente, não é para mim.
–Saur...
Ela caminhou até escurecer. Talvez não tenha sido uma boa ideia ter vindo aqui tão cedo, eu devia ter esperado até amanhã, pensava. Suas pernas estavam cansadas, por ter andado durante horas, seus braços também por ter carregado Bulbasaur. O Pokémon também estava exausto, pois derrotou vários Caterpie.
Ao achar um lugar onde a grama era baixa, perto de uma árvore, Blue resolveu que era hora de dormir.
–Bulba, vamos dormir. – Disse ela estendendo a PokéBola.
–Saur! – Ele não parecia nada contente.
–Está frio aqui fora! – Ela encostou a PokéBola em seu nariz e ele entrou. Mal se passaram cinco segundos e ele saiu novamente. – Um Pokémon deve obedecer ao seu treinador!
Bulbasaur apenas mostrou a língua e Blue suspirou, desistindo. Ela pegou seu saco de dormir na bolsa e entrou nele. Bulbasaur se deitou ao seu lado e os dois ficaram observando as estrelas.
–Sabe Bulbasaur? As coisas, na maioria das vezes, são muito mais do que parecem ser.
–Bulba. – Ele concordou.
–Você gostaria de um nome?
–Saur!
–Bem, seu nome vai ser... Hmm... O que você acha de Vênus?
–Bulbasaur!
–Se você gosta, então está bem. De agora em diante, você se chamará Vênus!
Depois disso Bulbasaur dormiu, Blue ficou olhando o céu estrelado, já que não conseguia dormir. Talvez eu esteja ansiosa demais, pensou. Em sua mente ela começou a relembrar os motivos de estar partindo.
O Professor Carvalho novamente estava lendo e relendo aqueles papéis que estavam amassados de tanto serem lidos repetidamente. Blue sabia que não devia estar ali, mas ela ouvira um assistente falar que o Professor havia conhecido seu pai.
Era final de tarde, as outras crianças estavam brincando na rua, mas Blue estava no subsolo do laboratório espiando seu professor. As crianças de Pallet tinham aula no laboratório, mas nenhuma delas nunca tinha entrado no subsolo, elas nem sabiam que havia um.
Sua mãe nunca havia lhe contado sobre sua juventude, sobre seu tempo de treinadora Pokémon, nem sobre seu pai. Mas ainda havia a esperança de Blue descobrir sobre aquele mistério. Ela se escondia por trás de enormes prateleiras empoeiradas, era a primeira vez que conseguira entrar naquele recinto, mas não pôde aproveitar mais, pois acabou espirrando.
–Atchiiiiiiiim! – O espirro de Blue era o mais alto de Pallet, talvez até mesmo de Kanto.
O Professor deixou os papéis caírem no chão com o susto e acabou vendo Blue.
–Ora você! – Disse tirando-a do chão e deixando-a em cima da mesa.
–Droga!
Nessa época Blue estava com oito anos. Ela apenas sentou balançando as pernas enquanto o Professor a encarava.
–Sua mãe não lhe contou que espionar as pessoas é feio?
–Tem muitas coisas que minha mãe não me contou. Mas você vai me contar! Eu ouvi dizer que você conheceu meu pai!
A dúvida era facilmente percebida na expressão do Professor.
–Sabe Blue, gosto muito da sua mãe, mas confesso que não consigo concordar com algumas de suas atitudes. Embora eu ache que te contar sobre isso é o certo, esse dever não é meu e sim da sua mãe. Ela que deve lhe dizer.
Blue apenas desviou o rosto para o lado fazendo uma cara emburrada. Ao olhar para aquela parede que não podia ser vista por detrás das prateleiras, ela viu alguns retratos.
–Minha mãe! – Disse pulando da mesa e indo em direção às fotos penduradas. O Professor Carvalho passou a mão na testa enxugando suor. – Olhe! Olhe! Como mamãe está bonita! Eu nunca tinha visto ela com o cabelo tão curto.
Na foto, haviam três pessoas. Elas pareciam ter onze anos, à esquerda estava Délia segurando um Charmander no colo, à direita estava Rose, a falecida mãe de Gary que morrera faziam seis meses, segurando um Squirtle, Blue não reconhecia quem estava no meio.
O Professor Carvalho pegou a foto e guardou-a numa gaveta.
–Esse lugar não é para você mocinha.
–Quem é esse no meio?
–Ninguém. – A voz do Professor transmitia tanto nervosismo que não tinha mais como esconder.
Ela sorriu, não com seu sorriso habitual, mas sim com um sorriso vitorioso, como esses que vilões de anime costumam fazer, um sorriso igual ao que seu pai fazia.
–Ele é meu pai! Haha! – Ela apontou para ele, se gabando. – Eu tenho que contar para Red!
Ela estava saindo correndo para fora quando o Professor gritou:
–Blue! Pare!
Ela se virou para trás.
–Qual é o problema? Por que vocês escondem tanto de nós?
–Venha aqui, vou te contar toda a verdade, mas só se você prometer nunca contar nada do que estou falando a ninguém!
–Eu prometo! – Ela sorriu.
Blue dormiu antes que pudesse relembrar o que aconteceu depois. Assim que o Sol nasceu, ela acordou. Nunca conseguiu dormir em locais iluminados.
–Vamos indo Vênus... – Disse levantando-se, mas percebeu que o Bulbasaur havia sumido. – Vênus? Cadê você? – O pânico começou a possuí-la. – VÊNUS!
Nenhum sinal dele, mas um tiro de bala pôde ser ouvido, Spearows voavam fugindo daquela direção.
–O que diabos é isso? – Ela olhou para os lados, não havia nenhum sinal de vida, mas em cima de um galho da árvore atrás dela um Weedle chamou.
–Weedle! – Era um Pokémon tipo lagarta amarelo, poderia até ser fofo se não fosse seu chifre. – Weedle, Weedle... – Os grunhidos dele pareciam como um choro, ele estava pedindo ajuda.
–Você vem comigo! – Ela pegou o Weedle sem pensar duas vezes e saiu correndo em direção aquele som.
Ela aprendera na aula de PokéHistória que há muito tempo atrás, humanos e Pokémon eram inimigos. Enormes atrocidades foram cometidas pelos dois lados e a caça era uma delas. Antes de humanos se aliarem a Pokémon, eles lutavam usando armas de fogo, mas depois que começou a convivência em paz entre as duas raças, todas as armas foram banidas.
“Algumas pessoas guardam armas até hoje, como recordação, mas isso é ilegal”, a voz do Professor Carvalho ecoava em sua mente, como se aquilo tivesse acontecido no dia anterior.
–BULBASAUR! – O Pokémon estava protegendo um Pikachu de cor laranja.
–Vênus! O que está acontecendo?
Ao chegar mais perto, Blue pôde ver o Pikachu assustado, o Bulbasaur em sua frente, três meninos, um homem e apontada para a cabeça de Vênus, uma espingarda.
–Ei, mocinha! Eu vi esses Pokémon primeiro! – Disse o homem que segurava a espingarda, ele parecia ter cinquenta anos.
–Do que você está falando? Esse Pokémon é meu! – Disse mostrando a sua licença Pokémon.
–Ah papai! Eu queria tanto ter um Bulbasaur e um Pikachu brilhante! – Disse um dos meninos. Ele usava um chapéu, uma regata vermelha e bermudas. A única diferença nas roupas entre os irmãos eram as cores das regatas: Branca, preta e vermelha. O cabelo deles era encaracolado, de um castanho muito escuro e eles pareciam não passar dos oito anos, além disso seguravam redes. Esse menino em especial tinha arranhões nos braços e no rosto, o que sugeria que ele não se dava muito bem com seu Caterpie.
–Você não acha que é muito jovem para treinar um Pikachu? – Perguntou Blue.
Os três se olharam e riram de escárnio.
–Não é para treinar, menina da cidade, é para enfeitar nossa casa. – Respondeu aquele que usava branco.
Blue ficou chocada. O pequeno Weedle se escondeu atrás de suas pernas, chorando. Os três Pokémon estavam com medo, Blue não podia fraquejar, pois ela sabia que é um dever de um treinador dar força aos seus Pokémon quando eles precisam.
–Tentando pegar o meu Pokémon, apontando armas por aí e empalhando Pokémon! Quem vocês pensam que são?
A expressão dos quatro mudou.
–Escute aqui mocinha, esse seu documento não vale de nada para nós. Vá embora e deixe pelo menos esse Pikachu brilhante com a gente. – Disse o pai.
–Esse Pikachu também é meu... – Ela não tinha nenhum interesse em capturá-lo, pois sempre considerou Pikachu um Pokémon fraco, mas ela também não queria que ele enpalhado.
–Ela está mentindo papai! Esses Pokémon não são dela! – Falou o menino da regata vermelha.
–Mas como não? Para provar, que tal batalharmos? Se esses Pokémon não forem meus, com certeza não irei conseguir vencê-los.
–Vamos papai! Vamos! – Diziam os três.
–Hmm... Não sei não... – O homem coçava a cabeça.
–Se vocês vencerem, os Pokémon serão seus, junto com todo o meu dinheiro.
–E se você vencer?
–Essa espingarda será minha. – Ela sorria desafiante.
Os quatro conversaram por dois minutos, depois viraram se para Blue e disseram que aceitavam o desafio.
O primeiro desafiante foi o menino de regata vermelha que parecia ter seis anos.
–Vá Caterpie! – Disse lançando sua PokéBola.
–Caterpie! – Um Caterpie rabugento apareceu.
–Pikachu! Eu escolho você! – Falou Blue.
–Pika? – O Pikachu se surpreendeu, ele nunca estivera numa batalha antes.
Blue lera em livros sobre essa espécie de Pokémon, ela sabia que mesmo um Pikachu muito jovem que nunca fora treinado saberia usar o golpe “choque do trovão”.
–Use o choque do trovão!
–Pika!
Raios saíram das bochechas do Pikachu em direção ao Caterpie mal-humorado, ele foi eletrificado, mas não foi o suficiente para derrotá-lo.
–Caterpie use o ataque de teia! – O menino ordenou seu primeiro ataque.
O Caterpie o fez e Pikachu ficou imobilizado pelas teias que o prendiam.
–Pika! Pika! – O Pikachu já estava com os olhos lacrimejando, ele estava muito nervoso.
–Não se preocupe, podemos nos livrar disso. Use o choque do trovão de novo!
Os raios libertaram Pikachu das teias e atingiram novamente o Caterpie, ele desmaiou.
–Droga Anthony! Deixe comigo papai! – O menino de regata branca pegou sua PokéBola do bolso e a tacou no chão. – Vê se mostra utilidade pelo menos uma vez na vida, vai Caterpie!
Um Caterpie bem menor que o primeiro saiu daquela PokéBola.
Agora que Blue podia ver o treinador de perto, percebeu que havia um pouco de urina em seu ombro.
–Caterpie... – O Pokémon parecia ter medo do próprio treinador.
–Agora é a sua vez! Weedle!
Pela primeira vez Weedle desfez aquela cara de choro e pareceu feliz.
–Weedle!
–Caterpie, use investida!
–Weedle, evasiva!
O Weedle desviou perfeitamente do ataque de Caterpie.
–Agora use espinho venenoso!
Weedle lançou um espinho contra Caterpie e manchas roxas começaram a aparecer em sua pele.
–Menina! Você envenenou meu Caterpie! – Disse ele desistindo da batalha e chamando o Pokémon de volta.
–Eu sinto muito, não era a minha intensão, mas era o único golpe que...
–Meu irmão vai acabar com você! É a sua vez Sammy!
O Pokémon do irmão mais velho era o único que Blue ainda não tinha visto pessoalmente.
–Destrua o Pokémon dela Metapod!
Um Metapod com alguns hematomas apareceu e a PokéAgenda o apresentou:
“Número 11, Metapod: Evolução do Pokémon Caterpie.”
–Vá Vênus!
–Um Pokémon tipo grama contra um tipo inseto? Essa não é uma escolha muito inteligente. – Ele sorria como uma criança travessa.
–Boa tentativa de me pressionar, mas eu sei que seu Metapod ainda não tem nenhum ataque do tipo inseto. – Olhando para Bulbasaur, ela disse: – Use investida.
Bulbasaur assim o fez várias vezes, mas o Metapod de Anthony ficava cada vez mais resistente, a luta foi seguindo assim até que Blue disse para Vênus usar o ataque chicote de videiras e o Metapod não pôde resistir mais.
Vênus começou a brilhar, todos observavam enquanto luzes brancas o rodeavam, mas elas se apagaram e todo mundo pôde perceber que o Bulbasaur ainda era o mesmo.
–Ué? Não era para ele ter evoluído? – Perguntou o menino que Blue acreditava se chamar Anthony.
–A mesma luz iluminou meu Caterpie quando ele evoluiu. – Disse Sammy. – Isso é muito estranho.
–Eu não acredito! Por Arceus! Anthony, Charlie, Sammy! Vocês são meu mais profundo desgosto! Saíam da minha frente! – O homem ignorou completamente a situação.
Os três filhos saíram correndo e Blue e os três Pokémon ficaram a sós com o homem.
–Essa espingarda está na minha família a décadas... Apesar de eu não querer te dar, um homem deve cumprir com sua palavra. Aqui está. – Disse estendendo a arma para Blue. – Use-a de maneira sábia.
–A coisa mais sábia que posso fazer com essa arma é nunca usá-la.
Ela pegou a arma e o homem foi embora. Quando ele saiu do campo de visão de Blue ela começou a cavar um buraco no chão com a ajuda dos Pokémon. Demorou a tarde inteira, mas um buraco de cinco metros foi cavado. Depois de enterrarem a arma, era a hora de decidir o que iria acontecer com aquele Weedle e com o Pikachu brilhante.
–Weedle, você vem comigo? Eu sei que era você que estava nos seguindo ontem.
–Weedle! Weedle!
Ela encostou uma de suas PokéBolas no nariz de Weedle.
–Você Pikachu... Eu sei que você é muito novo e não gosta de batalhar, mas você tem que vir comigo. Se continuar nessa floresta logo esses caçadores te acharão de novo.
–Pika...
Blue lançou a sua penúltima PokéBola sobre o Pikachu e ele foi capturado.
–É a sua vez, Vênus. Seja lá qual for o motivo de você não ter evoluído, descobriremos depois. Agora entre na PokéBola.
–Bulba! – Ele discordou.
–Ok, ok. Hoje você fica fora, mas só hoje!
É o que vamos ver, pensou o Bulbasaur.
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