As tardes eram mais anestésicas

Manhãs floresciam mais dóceis

Noites, suavemente recaíam

Enterrando os ossos no quintal: fósseis


Cortinas cerradas, apenas sono

Sem sonho, pelo menos não os ruins

Um céu livre de obstáculos

Tinha todo o espaço para voar, mas ao pousar

Haviam sim, nuvens


Manipulado pela imaginação da mente ingênua

Solícito à conduta que pensava ser minha segurança

Tempo tinha tendo tempo

Ausente de mim mesmo na infância


A famosa "lâmpada da criatividade"

Quando foi que a deixei apagar?

Penso: será que soube demais fora do tempo?

Responsabilidades; males que fizeram eu me afogar


Desde o primeiro passeio no parque

Até aquela última festa de aniversário

Subversão da própria existência

O último "I" perdido: Inocência


A rotina não mudou muito, apenas evoluiu

Quando cresci, só arranjei mais problemas

Um diário cheio de páginas vazias, frias

Vazio por dentro estava eu; doce dilema


Chisme de lá, de cá... nem ligava

Só obtendo minha nota tava bom

Sem nota no bolso, sem ser notado

Quem não age pela razão, que sustente-se no seu próprio lado


Vivendo o mesmo ciclo dia após dia

Turno vicioso contra aquele que não queria se viciar

A bendita quebra do sistema

Mágoas passadas aprendi a desembrenhar


De que vale um terreno sem ter quem o capine?

De que vale um um arco sem sua flecha?

Incalculável método que zombaram dele

Quina, do seu jeitinho, a real alegria da festa


Quando ainda jazia niño

Saía a brincar alegre na rua

Depois do almoço gritavam-me na resenha

"Joca, vamos chutar pelota!"

Deixavam minha mãe maluca


Esfregando os olhos, reergo o rosto amassado

Voltei a triste realidade atual

Hoje é quarta, quinta?... Ah, tanto faz

Para dar início a um novo parágrafo, antes há de se botar o ponto final


Não tenho controle sobre as coisas que queria e hoje possuo

Mesmo assim, dominei a maneira com que lido com as tais

Afiando melhor as armas para o combate

Respirando fundo antes do longo mergulho

Abandono o fatalismo, desembarcando no cais


Tempo eu tenho, agora repenso

Fui de bom modo, orgulho de madre

Havia plantado; hoje colho desta árvore

E assim seguirá sendo


E apesar de tudo me sinto incompleto

Um bolo sem recheio, desgosto

Porém uma vez isso mudou

Cheirinho do café da manhã, saboroso

Me senti vivo novamente


Pra Minas eu fui

Não queria mais sair de lá

Ô terrinha boa pra se morar

Que saudade do pão de queijo, do cuscuz

Quebrando o cronograma; viajar


Por alguns dias, renovei meu espírito

Limpei as impurezas em Garcias, Pacau, Tabuleiro

Mais sublime que nuvens, eram suas águas

Calmaria da rua, os cochilos na rede

Coloriu-se minha vida num instante


Avivou o amor antes adormecido dentro de mim

Epifania

Tons na paleta, se transformaram audíveis

Melodia


Infelizmente em meu retorno, findou-se

Esse "despertar" que ocorreu

Porque por mais que o dia foi longo

A noite precisava aparecer; então sucedeu


No meio de tantos, fui um dos que percebi

Mas muitas vezes existem os que não percebem

Do comodismo entretanto, fugi

Pois não adianta tudo ter e não sentir-se bem


Refleti, refiz os passos, contei as semanas

Tudo voltou ao "normal"

Recuperando e digerindo tal compilado de informações

Isolado na bolha, percebi dos fatores externos: o mau


A vida é um quadro branco, sem cor nem sabor

O vazio estampado esperando ser preenchido

Não existe um jeito certo ou errado de pintar

Apenas a criatividade de poder se expressar

Felizmente... de volta ao lar.


As vezes as coisas simples, os momentos e experiências com pessoas que amamos, nos fazem lembrar quem nós realmente somos e, acho que isso é o mais importante.

Notas finais
Essa poesia foi dedicada ao meu amigo e colega Joaquim Gabriel.