Apenas uma jornada

Movida de uma esperança ingênua

Ocupações fúteis no plano terrestre

Roteiro incompreensível de um autor que desconheço


Pessoas devassas de ignorância

Seguem seus rumos novamente

Terão a chance de entregar-se ao obscuro

Para que os sentimentos mais profundos da alma voltem a florescer?


O Archon ergue os muros

O Demiurgo pinta o céu

Quem seria invasor da mente humana,

A não ser os pensamentos intrusivos rompendo o véu?


Busca reconectar o homem e sua origem

Teia do conhecimento

Garantia superficial no convívio

No final, somente dor e sofrimento


Entrelaçaram-se nossos corpos

Numa fração de segundo; intenso

Igual a última dança da festa

O ventilador abafava os ruídos


O lençol bagunçado não lavara até hoje

Sua avó ri e te chama de porca

Você só desejava eternizar aquele dia

Sinto como se essa felicidade tivesse sido ontem


Com um abraço conquistou-me

Com um abraço deixou-me

Mal pisquei os olhos e já tive que soltar tua mão

Poderia eu ter segurado mais firme?


Pássaros não nasceram para ficar a vida inteira em gaiolas

Vc foi liberta e eu fiquei vazio

Deslocado, paralisado, absolutamente frio

Tu me preenchia


No camarim, todos felizes

Vesti o figurino, confiante

Foi quando recebi tua mensagem

Meu cérebro interrompeu as lágrimas

Realizei a performance


Louco, desesperado por dentro

Depois da última palma, fugi

Passos descompassados me guiavam quase automaticamente

Os BPMs só cresciam exponencialmente


Cruzei a cidade, aflito pelo fim

Sol quente, fluxo de pessoas e peso

O que me incomodava não era o fardo físico sobre minhas costas

E sim, o tormento psicológico que corroía minha integridade


Feliz por conceder-me a chance de ver seu rosto pela última vez

Nosso "último" encontro, ensolarado

Bruna saiu de cena e eu também tive que sair

O foco sempre foi você


Esperando-me na nova residência

Os coturnos atrasavam a subida daquela ladeira

A qual apelidei de: A pirâmide

Não hesitei; triste, apenas andei


Flashbacks iam e vinham conforme aproximava-me

Finalmente o mais perto suficiente para ter uma conversa decente


A estrelinha sem pecado em teus braços

Não parava de me olhar

Embrulhou-se minhas entranhas

Tua fala era doce mas aquele olhar me penetrava


Atordoado

Escuto o julgamento, sem intervir

Bebo dessa poção amarga cujo efeito me perseguirá até minha morte

Não pude ao menos beijar-te?


Lembro quando pedia que te acompanhasse

Não importa para qual lugar

Só almejava minha presença

E agora me diz o contrário?


Ao sentir o aroma daquele salgadinho

Ou ao ver tua cor preferida

Ressoa a nostalgia

Meu lábio levanta lateralmente


Se reconciliações doem tanto assim, por que não cortaste contato quando tinhas a oportunidade?

Talvez seja porque dói assumir que sou o remédio

Não necessitas de mim para viver, apenas me usou na sua tristeza


Jogou-me fora no meu primeiro deslize


Branca, sou um monstro

Não há perdão para mim, nem em outro mundo

Esqueça-me de uma vez ou volte

Pois não aguento mais essa superficialidade


Ouvidos fadigados de falácias

Minha vontade era de sair rolando ladeira abaixo

Ou simplesmente escorregar

Mas o chão não era liso


Por onde subi, desci

A casa quase construída, desmoronou

Tão envergonhado que até o ácido gástrico recusou-se a sair

Ou mesmo acabado, queria me mostrar forte na sua frente


Não terminarei de assistir tua série

E tu também não terminarás a minha

Guardará algo bom de mim?

Ou ao menos apagará teu ódio?


Me doeu a cabeça em formular hipóteses

O que um homem se torna ao perder sua amada?

Recolhi novamente o ar para armazenar aquela atmosfera

Emoldurei a rua na memória pois nunca mais passaria por ali


Abstrato

Um triângulo

Do vale ao pico

Forma que enfrentei

Do alto ao solo

O fenômeno

Alterado


Foi então que descobri que

Meu maior inimigo sou eu mesmo.