A Verdade Sobre Nós
7 Perdão
Meses se passaram e Sherlock obedeceu ao meu pedido. Não entrou em contato comigo de nenhuma forma, e eu também não o procurei. Era melhor assim, dizia para mim mesma, tentando me convencer. Eu não menti, eu não queria ver ele se destruindo fisicamente, e ao mesmo tempo, se transformando em uma pessoa cínica e egoísta. Pode parecer besteira dizer isso, já que muitas pessoas o consideravam egoísta e cínico, mas ele não era. Era a autodefesa dele, e eu sabia disso. John também desaparecera, não o vi mais e pensei, que talvez, isso tivesse sido pedido do próprio Sherlock. Quem eu passei a encontrar com bastante frequência, apesar de nunca termos sido realmente próximas, foi Mary.
Eu a encontrei pela primeira vez no parque. Estava sozinha e parecia pensativa. Convidei-a para almoçar comigo e conversamos muito. Eu já imaginava que ela fosse uma boa pessoa, mas nunca imaginei que nos daríamos tão bem. Acabei contando pra ela meu problema com Sherlock, e ela me contou que ela e John estavam brigados também. Ao meu a forma como me compadeci de sua situação, Mary me contou de seu passado, me contou de Magnussen, e de como ele a chantageava, de como ela tentou mata-lo, que tinha sido ela que havia dado o tiro em Sherlock, e que foi para ajuda-la a resolver o assunto com John, que ele havia fugido do hospital. Ouvi tudo surpresa e por um breve momento, me senti culpada por tê-lo abandonado no hospital. Falou que Sherlock havia convidado ela e John para passar o natal com a família dele, e eu disse que talvez lá, em um ambiente familiar, ela e John fizessem as pazes. Ela sorriu e me confessou que achava ser esse o plano de Sherlock.
A partir daquele dia, Mary e eu nos encontrávamos com frequência. Pedi para que ela me contasse apenas de John, pois toda vez que o nome de Sherlock era mencionado, eu sentia vontade de reaparecer na vida dele, e eu simplesmente não podia. Não era orgulho, talvez até fosse um pouco, mas a verdade é que Sherlock também não havia me impedido, não havia vindo atrás de mim. Então, confessei a ela que talvez fosse melhor assim. Lembro que ela disse com compreensão.
– Para uma garota inteligente, se apaixonar por Sherlock Holmes foi uma atitude bem estúpida!
Eu concordei, e nós duas rimos. Um mês depois, Mary viajou com John e Sherlock para a casa dos Holmes, e me mandou um torpedo dizendo que ela e John haviam feito às pazes. Fiquei sinceramente feliz por ela. Naquela mesma noite, Mary me mandou outro torpedo, agora de conteúdo muito mais preocupante. Sherlock Holmes, pela primeira vez, havia matado alguém. Naquele momento, minha promessa de não querer ouvir a respeito de Sherlock foi quebrada, pois perguntei para Mary o que havia se passado.
Ela me contou de Magnussen, que Sherlock o matara, pois não havia conseguido provas contra ele. Contou que ele havia feito isso para proteger Mary e John, e que Mycroft o estava mandando para uma missão suicida na Europa.
“Sei que não quer mais saber dele, mas Molly, por você, fale com ele antes dele ir, caso contrário, pode não ter outra oportunidade! MW”.
Eu peguei meu celular e o contemplei por um momento. Não! Eu não iria atrás dele de novo! Coloquei o celular de lado e me ocupei com meus afazeres.
Essa minha decisão só durou até a manhã seguinte, quando fui pegar o jornal na porta de casa. Embaixo do jornal, havia uma pequena caixa de papelão, endereçada a mim. Eu a peguei e olhei, não havia remetente. Levei-a para dentro e a depositei em cima da mesa da sala e a abri. Havia uma pequena caixa preta e um envelope. Procurei por algo que identificasse quem a enviou, mas nada. Abri a caixinha e havia um anel, que me pareceu ser um anel de noivado, e preso a ele um papel.
“ Me desculpe, Janine. Você é ótima, mas só existe uma pessoa no mundo com quem eu me casaria!”
Peguei o anel e vi uma inscrição dentro do aro. Para minha surpresa, o que estava grafado, em letras douradas, era “Molly”. Peguei o envelope e abri.
“Molly, espero que um dia possa me perdoar!
Sei que me tornei um tipo de pessoa que, nem eu mesmo tenho orgulho de ser. Sim, as drogas, enganar Janine, foi tudo para um caso, mas esse caso era realmente importante. Magnussen, que imagino que você já tenha ouvido falar, é um homem inescrupuloso que não deveria existir entre os vivos. Fiz o que fiz para proteger as pessoas que amo, e sinto muito que para isso, tenha perdido aquela que amo mais.
Confesso que não cumpri o que você me pediu. Eu te cerquei de todas as formas possíveis, — embora em nenhuma deles você tenha me visto- queria falar com você, pedir desculpas e retomar nosso relacionamento. Você não imagina a falta que me faz! Mas todas as vezes que pensava em me reaproximar, te via sorrindo, tão em paz, e achei melhor não te perturbar de novo!
Eu deveria tê-la impedido no hospital, e te contado a verdade. Usei o anel para um caso, sim, mas eu o havia mandado fazer para você! Eu só não deveria ter demorado tanto para entrega-lo! Eu havia mudado de ideia a respeito de nós dois já há algum tempo, e quando vi que seu noivado havia terminado, fui fazer o anel, confiante de que agora, tinha uma nova chance! Admito que minha mente maliciosa, nessa hora, elaborou um jeito, para que eu entrasse no escritório de Magnussen. Era um plano genial e sem falhas, então eu escrevi o bilhete, explicando tudo pra Janine, e o coloquei na parte debaixo do anel. Assim ela leria, e entenderia que ela, infelizmente, não havia passado de um peão no meu jogo. Nós nos acertamos depois, ela entendeu, e tão pouco ela, estava apaixonada por mim!
Revivo aquela noite no hospital, na minha cabeça, várias vezes. Sei que te forcei até o limite, e sei que deveria ter compreendido e respeitado os sentimentos que você tem por mim. Sei que fui teimoso e indeciso, e sei que você não tinha a mínima obrigação de me esperar. Mas Molly, acima de tudo, quero que saiba: aquela noite “que não pode ser mencionada” é a lembrança mais constante na minha mente. Nunca havia desejado tanto uma coisa antes. Ver os Watson juntos, e até meu relacionamento falso com Janine, me fizeram ver que um relacionamento amoroso não é ruim, não te deixa mais fraco e nem mais vulnerável como eu pensava. Achava que para ser forte, deveria estar sozinho, mas estar sem você do meu lado, é o que me deixa fraco.
Eu queria que você soubesse o que sinto, o que nunca deixei de sentir. Queria te entregar o anel, que sempre foi seu, e de mais ninguém. Mycroft pretende me mandar em uma missão, e não tenho certeza de quando irei voltar, por isso, queria que você soubesse. Não importa o que aconteça comigo daqui pra frente, Molly, eu sempre vou amar você! Você é meu pequeno refúgio, de uma realidade que nunca foi minha. Você me deu uma perspectiva de vida que eu não tinha: formar uma família. Se tivesse alguém com quem eu faria isso, seria com você, e unicamente você!
Espero que me perdoe.
Sempre seu.
S.Holmes.”.
Fiquei abobada após a leitura, e reli novamente. Como havia sido estúpida! Eu deveria ter-lhe dado chance de se explicar. E quando Mary me contou de Magnussen, eu deveria ter ido atrás de Sherlock. Eu deveria ter imaginado que haveria um motivo, realmente justo, para que ele tivesse tomado às atitudes que tomou.
Foi nesse momento que um milagre, e ao mesmo tempo, uma maldição aconteceu. A TV, que até então estava ligada nos noticiários, perdeu o sinal, dando lugar a uma imagem familiar.
Levantei imediatamente e, com um plano em mente, liguei para Mycroft.
– Tarde demais, srta. Hooper, ele já embarcou e está no ar! – ele disse em tom cínico.
– Ligue a TV, Mycroft! Agora!
Ouvi ele ordenando ao motorista que ligasse a televisão. Por alguns segundos, ele não disse nada.
– Obrigado, srta. Hooper! Devo ligar pro meu irmãozinho agora!
Ele desligou, e eu também. Sherlock estava voltando, e eu sabia que tinha algo em que eu poderia ajudar. Na verdade, só eu poderia ajudar, porque só eu tinha quebrado as regras. Peguei meu casaco e corri para o hospital.
Calculei o tempo que levaria para Sherlock voltar a Baker Street, e sabia que tinha um pouco mais de uma hora para separar tudo e enviar. Seria minha oferta de paz, e estava rezando para que ele a aceitasse. Fui até o vestiário e tirei um forro que havia colocado no fundo. Lá haviam alguns documentos a respeito da morte e do corpo de Moriarty, que eu mesma fizera. Fui eu que arrumei os dois corpos, o do sósia de Sherlock e o de Moriarty. Peguei os documentos e os coloquei em um caixa. Lacrei-a e coloquei um bilhete na parte de cima.
“Você vai precisar disso! MH”.
Olhei o relógio, tinha quarenta minutos. Precisava deixar isso na Baker Street, antes que Sherlock voltasse. Desci correndo e acenei pro táxi, graças a deus, cheguei em quinze minutos no apartamento. Pedi para o taxista me esperar e subi direto. Agradeci mais uma vez, por não ter encontrado Martha no caminho. Deixei a caixa do lado da poltrona dele e sai. Bem a tempo. Assim que retornei ao táxi, vi o carro de Mycroft chegando, com o de John logo atrás. Voltei para o hospital. Agora era esperar.
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