A Ver Navios
1 Capítulo Único
Notas iniciais
O desespero corre por suas veias, junto da dor e da confusão. Sua respiração, irregular e acelerada, assim como seu coração, seca sua garganta, que logo começará a doer. Ele sua frio enquanto sua mão agarra o próprio rosto, como se pudesse unir a carne repartida, como se pudesse apagar o gigantesco corte. No entanto, conforme a clareza chega à sua mente, Speedwagon vai compreendendo sua situação. Ele está em sua cama, em seu pijama listrado, e todo aquele pânico veio do sonho, ou melhor, pesadelo, do qual acabou de despertar. Não há nenhuma dor além da leve ardência na garganta. Sua cara não está partida ao meio como esteve naquela noite, tantos anos atrás. Aquela mesma noite que seus sonhos insistem em revisitar, hoje não sendo uma exceção. Não, no lugar do profundo corte causado por um atiçador de lareira, o que cruza seu rosto é a cicatriz.
Ele coloca os pés para fora da cama, adentrando os dedos nos longos cabelos loiros enquanto tenta se convencer de que tudo está bem. Uma mentira, obviamente. Nunca tudo estará bem. O corte pode já ter cicatrizado há muito tempo em sua pele, mas em sua mente ele ainda está aberto, no vivo. Ele não pode reclamar, entretanto, afinal aquele corte é mais do que merecido. Ele o mereceu naquela noite. Ele o merece agora, visto que não aprendeu a lição que seu pai quis lhe ensinar. Com dezesseis anos, fez algo absurdo. Algo repugnante, totalmente asqueroso. Ele deveria ser grato por seu pai não ter decidido matá-lo naquela noite. Ou não, uma vez que jamais seria capaz de cometer o mesmo erro novamente se já estivesse morto. É, definitivamente deveria ter morrido.
O som de sua própria tosse corta sua linha de raciocínio. Ele passa a mão pelo pescoço, sentindo a saliva arranhando ao passar pela garganta. Com um pesado suspiro, ele se levanta, decidido a tomar um café quente, tanto para despertar melhor naquela manhã ensolarada, quanto para tentar melhorar a dor de garganta antes que piorasse ainda mais. Ele se veste com a elegância de um verdadeiro cavaleiro, talvez isso melhorasse seu humor. Uma camisa branca, uma gravata vermelha, um colete roxo, seu belo sobretudo, preto tal qual os sapatos e a calça social.
Speedwagon congela defronte à mesinha próxima à porta do pequeno, porém luxuoso, apartamento. Ali está um relógio de bolso dourado. Belo, chique, caro. Um presente. Ele usa este relógio todos os dias desde que o ganhou, o movimento de pegá-lo antes de sair já se tornou automático, assim como o de pegar a cartola xadrez. Se fosse qualquer outro dia, nem teria notado aquele momento, mas após aquele sonho tão vívido perturbar sua mente, o simples ato de lembrar da existência de Jonathan é doloroso. Se não fosse por JoJo, ele não teria aquele relógio. Não teria aquela cartola, muito menos teria vivido a intensa história por trás dela. Não teria aquele apartamento. Não se vestiria tão bem. Ele estaria ainda rondando as favelas de London, roubando e até mesmo matando as pobres almas que cometessem a burrice de passar pela Rua dos Ogros.
Tudo que conhecia até então era dor, miséria, desespero, necessidade, crueldade. Não havia espaço para cavalheirismo, justiça, gentileza, altruísmo. O simples fato de ter conhecido Jonathan Joestar revolucionou sua vida, ele finalmente pode ter uma confirmação de que era possível ser alguém melhor. No entanto, conhecer ele também despertou algo que queria ver morto dentro de si. Speedwagon deseja Jonathan como um cavaleiro deve desejar sua dama, e isso é inaceitável, é repugnante. É errado. Aos dezesseis, não apenas desejou Lin daquela maneira, ele tentou cortejar o pobre rapaz. Como qualquer pessoa sensata, ao entender as intenções asquerosas de Speedwagon, Lin o expôs para seu pai, que tomou a decisão certa de puni-lo.
Speedwagon respira fundo, já é um homem adulto, não pode se deixar levar por dores assim. Ele enxuga as poucas lágrimas que se acumularam ao redor dos olhos, guardando o belo relógio no bolso e vestindo a cartola. Saindo do prédio, tudo que ele pensa é na viagem que Jonathan faria para os Estados Unidos no dia seguinte. Será uma lua de mel, junto de Erina, uma bela dama digna do nobre cavaleiro que Jonathan é. O casamento deles foi o dia que Robert mais chorou em sua vida, mas não foi de tristeza. Era realmente emocionante ver a felicidade de JoJo, ele não merecia nada menos do que aquilo. Uma felicidade que Speedwagon nunca terá.
Chega à cafeteria sem notar o caminho, preso em pensamentos. Mal se lembra de ter comprado o jornal que segura nas mãos, tamanha distração. Pede um café com leite, surpreso com a falta de movimento em uma manhã tão bonita. Senta-se em uma mesinha e começa a ler as notícias, logo chegando em uma matéria sobre a tal viagem. Ele se empolga, orgulhoso com a conquista do melhor amigo sendo celebrada no jornal local, lendo a notícia em voz alta. Não se importa de passar vergonha na frente dos dois atendentes, até porque eles já estão acostumados com o espírito extrovertido do homem. Conforme vai lendo, questiona-se se guardar seu segredo é realmente a melhor ideia. Sinceridade é a base de uma verdadeira amizade entre cavaleiros, como se sentiria se continuasse com aquela mentira? Com aquela omissão? Ambas opções parecem erradas, mas acabará enlouquecendo se continuar mantendo aquela loucura presa em seu peito. Se há alguém nesse mundo capaz de entender sua dor, esse alguém é Jonathan Joestar. Robert E. O. Speedwagon toma uma decisão drástica, claramente apenas arranjando desculpas para justificar o que suas emoções imploram: na hora de se despedir, no dia seguinte, ele confessará seus sentimentos.
Uma informação o pega de surpresa: a partida será ainda hoje, após o meio dia. Um calafrio percorre sua espinha e ele sente um forte frio no estômago. Achou que teria mais tempo para planejar o que dizer, como dizer, mas confundiu a data, provavelmente por ter acordado tão desnorteado, e agora terá apenas algumas horas antes de poder falar com Jonathan. Bem, pelo menos tem tempo de terminar seu café, talvez até almoçar, se for rápido. Ele estica a mão para alcançar a xícara quando a segunda surpresa surge: ele está atrasado, o navio parte em alguns minutos, já é quase meio-dia!
Robert sai correndo da cafeteria sem sequer pagar a conta, isso poderia esperar. Tudo poderia esperar. Como cometeu aquele erro? Tem certeza de que acordou junto com o sol, como fazia todos os dias. Se tivesse ao menos olhado o horário antes… Ele chega no porto e o navio ainda está lá. Ele solta um suspiro de alívio, porém Jonathan e Erina não estão em lugar algum. Eles já embarcaram, é tarde demais para se despedir ou para falar de sentimentos. A decepção e arrependimento começam a surgir, mas ele os afasta. Ele perdeu uma oportunidade, mas terá outras. Quando JoJo voltar, Speedwagon confessará seu amor.
Ele sorri ao ver o navio sumindo no horizonte, sem saber que ele jamais chegará aos Estados Unidos, naufragando no meio do Atlântico.
Notas finais
Eu sempre fico triste quando lembro que o Speedwagon não pôde se despedir do Jonathan, imagina como ele se sentiu quando soube da notícia?
Comentem o que acharam! ♥
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